Mostrando postagens com marcador Artigo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Artigo. Mostrar todas as postagens
segunda-feira, 4 de setembro de 2017
UM ARTIGO QUE VOCÊ PRECISA LER!
“SONET’ÂNCIA”
Vianney
Mesquita
No começo dos ’80, ministrava na U.F.C. a disciplina Prática de Redação para estudantes do
Curso de Comunicação Social, matéria obrigatória com seis módulos de quatro
créditos, do primeiro semestre ao sexto.
Dos diversos escorregos linguísticos perpetrados contra
nosso código, um dos que mais apareciam era a prática – inocente – da redundância, com significação assente
na ideia de superfluidade, na superabundância vocabular desnecessária, com
pleonasmos e abusos na ornamentação do discurso oral e escrito. Este só perdia
para as escorregadelas ortográficas e impropriedades de concordância e regência
de substantivos, adjetivos e verbos.
Além de haver a oportunidade de juntos corrigir esses excessos,
afiguravam-se realmente engraçados os fatos sobejados dos escritos de alguns
estudantes, os quais, pela míngua de maiores exigências e cuidados durante o
primeiro e segundo graus – como se chamavam, então - esses descuidos (“lapso de
engano de erro equivocado”, dizíamos, brincando) continuavam a baldear o repertório
grafado de quem iria comunicar teores pelo caminho dos media massivos, evento realmente desabonador, se viesse a suceder.
De tal modo, era obrigatório que se cuidasse de removê-los o
mais depressa possível, para que o futuro comunicador não ludibriasse o imenso
universo de receptores, na contextura dos quais há milhões e milhões que
acreditam cegamente em tudo o que é veiculado pelos meios de propagação maciça, de sorte que poderiam alargar
consideravelmente, em progressão geométrica, o espectro de recepção equívoca dessas
mensagens.
Numa das turmas, havia alguns ensaístas versificadores de
boa qualidade, hoje poetas reconhecidos, e outros, como eu, curiosos e
interessados, por diletantismo, no âmbito da cultura manifesta por via do
metro. Divisei, então, a oportunidade de proceder a um exercício por meio dos
sonetos, que, após alguns anos no limbo, em especial depois da Semana da Arte
Moderna (fevereiro de 1922), eram praticados, sem muita obediência aos cânones
dessa grade métrica, por muitas pessoas ligadas às letras e outras meramente
amadoras e diletantes.
Compus, então, o undecassílabo - catorze versos com onze
acentos, dois quartetos e dois tercetos - intitulado Sonet’ância, eo ipso, soneto + redundância, para
exame em sala de aula, com vistas a afastar das redações dos mass media esse viés do cadáver do defunto morto que morreu de morte
morrida, do pássaro de asas, dos há dez anos atrás etc.
Espero, contudo – e isto
é por demais relevante – que a audiência dos meios onde essas linhas chegam,
configurada na outra ponta da mensagem, não me assaque a tacha de redundante e “analfa”,
porquanto os motivos para este exercício foram há pouco meridianamente
explicados, de modo que a configuração da peça, lotada de vocábulos e
expressões palavrosas e pleonásticas, foi feita para emprego somente em
laboratório, vedado, por conseguinte, o seu curso pelo desmedido agrupamento de
pessoas – a recepção mássica do recado comunicativo.
Vamos
ao soneto.
SONET’ÂNCIA
Ensaio cavalgar meu
jegue asinino,
Na fazendola rural, a
fazendinha,
Terra particular,
propriedade minha,
Onde, aliás, monto meu
Pégaso equino.
Subo, para cima, em
hirta e reta linha,
À procura, em caça a um
porco suíno.
Pois houvera, antes,
atacado a rinha
De galos, que brigavam
luta de inopino.
Vi, então, com um
sorriso nos lábios,
O meu porco bácoro preso
e cativo.
E logo, breve, anotei
nos alfarrábios
Carpatácios: “o
porqueiro cerdo é vivo:
Então, pois, farei como
os sapientes sábios:
Deixá-lo-ei renascente e
redivivo”.
sexta-feira, 22 de julho de 2016
"JE SUIS FRANÇAIS" MATÉRIA PUBLICADA NO DIÁRIO EM 22/07
“Je suis français”
O mundo está perplexo. Mais uma vez os desajustes individuais, de grupos, de nações estão conduzindo países ricos, emergentes e pobres para uma crise que abrange aspectos éticos, morais, socioeconômicos, políticos, de desesperança, de irresponsabilidade, de injustiça e de violência. Para aonde vamos? O que queremos? No último dia 14, a França comemorava mais um ano da “Queda da Bastilha”, movimento apoiado em três palavras que representam a essência da democracia: liberdade, igualdade e fraternidade. É a maior festa nacional daquele País amigo. De repente, na bela cidade de Nice surge no meio da multidão um caminhão dirigido por um monstro, covarde e criminoso atropelando centenas de pessoas, deixando mais de cem mortos e duzentos feridos. Verdadeira barbárie. Por quê? Qual a razão? Não existe razão para tamanha perversidade e ignorância. Não basta dizer que é um “lobo solitário” ou é a orientação de algum grupo terrorista, mas o apocalipse moral e ético da sociedade mundial. Saliento, todavia, que tal quadro dantesco não é culpa da democracia, como chegam a dizer alguns idiotas, mas a falta de democracia. Nos últimos dois anos, a França foi agredida de forma terrível por três atentados: Charlie Hebdo, Bataclan e agora Nice. Outros países também estão sendo vítimas de ações terroristas, matando inocentes. Falta generosidade e entendimento entre as pessoas. “ Quando em desespero, eu me lembro que durante toda a história o caminho da verdade e do amor sempre ganharam”(Mahatma Gandhi). “Nous sommes françaises”.
Gonzaga Mota
Professor aposentado da UFC
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
Umberto Eco, autor do conhecido livro "O nome da rosa", faleceu aos 84 anos
Morre o escritor
italiano Umberto Eco
Morreu na noite desta sexta-feira (19/02) o escritor,
semiólogo e filólogo italiano Umberto Eco, de 84 anos. Segundo sua família,
citada pelo jornal "la Repubblica", o falecimento ocorreu às 22h30
(horário local), em Milão, na própria residência do intelectual.
Eco nasceu em Alessandria, no Piemonte, em 5 de janeiro
de 1932, e entre os seus maiores sucessos literários estão "O nome da
rosa", de 1980, e "O pêndulo de Foucault", de 1988. Sua última
obra, "Número zero", foi publicada no ano passado e fala sobre a
redação imaginária de um jornal, com fortes referências à história política,
jornalística e judiciária da Itália.
Além de romances de destaque internacional, o escritor
também é autor de numerosos ensaios de semiótica, estética medieval,
linguística e filosofia. Em 1988, fundou o Departamento de Comunicação da
Universidade de San Marino. Desde 2008, era professor emérito e presidente da
Escola Superior de Estudos Humanísticos da Universidade de Bolonha.
Recentemente, ao receber o título de doutor honoris causa em comunicação e cultura
na Universidade de Turim, Eco havia feito duras críticas às redes sociais,
dizendo que elas deram o direito à palavra a uma "legião de imbecis".
"Normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas agora eles
têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel", dissera o intelectual.
Segundo o italiano, a TV já havia colocado o "idiota
da aldeia" em um patamar no qual ele se sentia superior. "O drama da
Internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade",
acrescentara. Uma de suas frases mais famosas é: "Quem não lê, aos 70 anos
terá vivido só uma vida. Quem lê, terá vivido 5 mil anos. A leitura é uma
imortalidade de trás para frente"
Itália vive luto pela morte de Umberto Eco
Personalidades da cultura, da política, da música e da
literatura da Itália amanheceram de luto neste sábado (20/02) após a morte de
Eco.
"Umberto Eco nos deixou. Um gigante que levou a
cultura italiana para todo o mundo. Jovem e vulcânico até o último dia",
escreveu o ministro da Cultura italiano, Dario Franceschini, no Twitter.
O prefeito de Milão, Giuliano Pisapia, utilizou o
Facebook, para prestar sua homenagem ao autor de "O nome da rosa".
"Adeus mestre e amigo, gênio do saber, apaixonado de
Milão, homem de vasta cultura e de grande paixão política. Milão sem você é
triste e pobre. Mas está orgulhosa de ser tua amada cidade. Ter tido você perto
nestes anos foi um grande privilégio", publicou Pisapia.
De Bolonha, cidade onde Eco foi professor emérito e
presidente da Escola Superior de Estudos Humanísticos da Universidade de
Bolonha, o prefeito Virginio Merola expressou seu sentimento.
"Sinto sua falta, Bolonha sente sua falta, sua
inteligência e seu espírito livre farão falta. Adeus Umberto", postou
Merola no Twitter.
A política e economista italiana Giovanna Melandri
lamentou a notícia e destacou que Eco foi "um grandiosíssimo intelectual e
escritor, uma pessoa única e especial".
No mundo acadêmico, Roberto Grandi, professor na
Universidade de Bolonha e amigo do pensador, lembrou o passado para exaltar os
momentos vividos.
"Era 1972. Parece que foi ontem. Você veio a
Bolonha. À universidade. E ficou. Obrigado pelos belos momentos que
compartilhamos. #UmbertoEco", comentou no Twitter.
A editora italiana Bompiani, que publicou seu último
livro, "Número Zero" (2015), escreveu:
"Luto na cultura. Umberto
Eco nos deixou: estamos abalados".
As reações também vieram do mundo da música, entre
outros, da cantora italiana Noemi.
"#UmbertoEco é parte da nossa cultura e literatura.
Seremos capazes de contar tão bem as coisas aos italianos do amanhã?", se
questionou.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
PROFESSOR VIANNEY MESQUITA - ARTIGO
MANUEL BANDEIRA
Batista do Modernismo Nacional
Vianney Mesquita
Vianney Mesquita
O poeta é como o
Sol; o fogo que ele encerra é quem espalha a luz nessa amplidão sonora [...]. Queimemo-nos
a nós, iluminando a Terra! Somos lava, e a lava é quem produz a aurora! (ABÍLIO GUERRA JUNQUEIRO).
Perfaz-se no 2016 entrante (13 de outubro) o aniversário de 48 anos de
passamento do festejado poeta recifense MANUEL Carneiro de Sousa BANDEIRA
Filho, ocorrido no Rio de Janeiro, nato que foi na, Mauriceia, em 19 de abril
de 1886.
MÁRIO Raul de Morais ANDRADE – nome completo para não se estabelecer
embaraço com o agrônomo e escritor (*Fortaleza, 05.10.1910 – 05.02.44) Mário
Kepler Sobreira de Andrade, o Mário de Andrade do Norte – chamou a Manuel
Bandeira, e com muita propriedade, de São
João Batista do Modernismo brasileiro, conquanto o extraordinário rapsodo
de Libertinagem não haja participado
da Semana da Arte Moderna, em fevereiro de 1922.
Ao polígrafo, musicólogo e crítico paulistano assistiam sobradas razões
para anotar a denominação, porquanto Bandeira foi dos primeiros a escrever
produções poemáticas em antecipação ao novo moto e renovado espírito da poética
nacional, ao empregar o verso branco com excepcionais desenvoltura e beleza.
Bem atestam esta asserção seus produtos anteriores a 22, especialmente Carnaval (1919 - quem não conhece “Os
Sapos”?), uma das primeiras peças do movimento modernista.
Avesso ao “lirismo funcionário público” – decerto em alusão aos exageros
oficiais da forma romântico-parnasiana – “ com livro de ponto e manifestações de apreço
ao Sr. Diretor” – como ele próprio disse – preferiu aquele “difícil e pungente
dos bêbados – o lirismo dos clowns de
Shakespeare”.
Conforme exprime, entretanto,
Otto Maria Carpeaux – em Origens e Fins,
de 1943 – esse lirismo será revelado, além dos versos românticos, como em A Cinza das Horas. A força interventiva da inteligência crítica, batendo de
frente com a sensibilidade analítica profundamente romântica de Bandeira,
haverá de produzir o humor, o qual demarcará suas estrofes com a autoironia, consoante
ocorreu em Pneumotórax, contrapondo-se
à selfpity do romantismo. Foi isso
mesmo o que aconteceu.
Ressalte-se (quando do ensejo da comemoração dos seus 130 anos de
nascimento, a ocorrer em 19 de abril do ano vindouro) o fato de que, sob ângulo
novo, intocado pelas centenas de fontes que o já estudaram, no Brasil quanto no
Exterior, é custoso discorrer a respeito do produto literário e acerca do
invejável caráter do Vate pernambucano, este poeta da simplicidade, na vida e
na poesia.
O que se pode e deve, ainda, dizer de Manuel Carneiro de Sousa Bandeira
Filho, sem se incomodar com a repetição dos torneios, noutras estruturas, mas
com semelhante mensagem, é que seu ecletismo na senda literária – poesia,
música, crônica, crítica, tradução, ensaio et
reliqua – legou-nos a abundante e
qualificada obra, tangida “[...] pelas velhas liras e harpas elegíacas do tempo
em que as cruzes, os ciprestes, os rochedos e a lua pertenciam aos românticos”.
(GRIECO, in MENEZES, Raimundo de. Dicionário Literário Brasileiro. São
Paulo: Saraiva, 1960, p. 162).
Pela relevância do Escritor pernambucano na literatura – vem de novo
Carpeaux – e ele feito poeta, porém, não seria justo levá-lo a um plano menor, em
razão da prosa cristalina dos seus ensaios, peças de crônicas e de memórias.
Impõe-se destacar, também, completa o Crítico e jornalista austríaco,
naturalizado brasileiro, sua produção como escritor didático em várias seletas
e, acima de tudo, sua importância como tradutor de poesia, responsável pelas
melhores versões de Johann Christian Friedrich Hoderlin, Friedrich Schiller, William Shakespeare [...]
de Sóror Joana Inês de la Cruz e de Omar Khayann.(OP. CIT).
A extensão e a axiologia humanista-humanitária da produção de Manuel
Bandeira configuram glória da espécie humana, das melhores obras de Deus,
fortalecido (quem sabe) o seu espírito pela tísica que lhe assomou profunda aos
tenros 17 anos, pela verdadeira peregrinação por Campanha, Petrópolis,
Teresópolis, Fortaleza, Maranguape (Maracanaú), Uruquê e Quixeramobim; pelo
retiro forçado a Clavadel, tudo aliado aos sucessivos passamentos de entes
queridos de primeiro parentesco, ocorridos ao seu retorno ao País em 1914.
Em Clavadel – Suiça, o também letrista musical Bandeira – escreveu
poemas para Francisco Mignone, Villa-Lobos, Ari Barroso, Camargo Guarnieri e
outros – encontrou o escritor francês Paul Éluard, a quem nosso Poeta confessou
dever “a revelação do amor à poesia e suas possibilidades”. (APUD MENEZES, ÍDEM).
Em tal acidentada e mórbida existência, que lhe educou o corpo ao
clarificar o espírito, o bom aluno de João Ribeiro encontrou no Morro do
Curvelo – Santa Tereza – Rio de Janeiro - o poeta Ribeiro Couto, com quem
travou grande amizade.
Dele expressa Monteiro: porque era bom, “notável pela exemplaridade e
singeleza [...] desinteressado dos bens materiais e voltado exclusivamente para
os fins da criação literária”, o Autor de Vou-me
embora pra Pasárgada em tudo bebia o bem e espalhava sua aura de bondade,
sua habilidade, sua destreza em tanger a literatura com temas universais. É
O poeta que brinca, o poeta que lança no ar, de vez em quando, um ou
outro poema que é puro divertimento, é ao mesmo tempo aquele que tem dado à
poesia brasileira algumas das notas de mais profunda ressonância, de mais
amarga tristeza, e de mais séria contemplação da vida. (MONTEIRO, Adolfo
Casais. Manuel Bandeira. Lisboa, s.ind. pg., 1943).
Viveu doente do corpo e saudável do espírito, com grande intensidade.
Sua poesia é inspiração dos céus, é obra a perpassar o tempo tocando corações
de todas as gerações. Sua extensa e eclética produção, versátil de sentimentos,
temas e processos poéticos, é exemplo de tenacidade, inteligência e talento, de
humanidade método, força de vontade e bonomia, qualidades em declínio nestes
tempos difíceis, que nos tangem para distante da poesia, da lua, ciprestes e
rochedos, a que aludiu Grieco em passagem anterior.
Não há quem logre, entretanto, nos tanger para longe de Libertinagem, para distante da Última Canção do Beco ... (MESQUITA,
Vianney. In Impressões – Estudos de
Literatura e Comunicação. Fortaleza: Agora, 1989. 175 pp).
Obrigado, poeta, sábio, semideus. Vamos de novo reler Profundamente, beber profundez nos seus
ensaios, aprofundarmos nos seus conselhos, embelezarmos em suas estrofes. E
aprendermos com sua vida.
Gratidão a você – Manuel Bandeira, do Brasil!
terça-feira, 25 de agosto de 2015
O SILÊNCIO, DE ZINAH - POR BATISTA DE LIMA
Zinah Alexandrino
lançou em 2014, pela Editora Premius, o livro "A intenção do
silêncio". A ficha catalográfica vem acusando ser um livro de contos.
Realmente há alguns contos, mas entre os 23 textos há um número maior de
crônicas. Esse fato já nos leva a uma discussão sobre a real diferença entre
crônica e conto, o que não cabe aqui resolver, tendo em vista que estudiosos,
muitas vezes, os definem de forma diferente, e se contradizem, até. A crônica,
mesmo sendo narrativa, possui um compromisso com o cotidiano e até com o
trivial.
O conto é um
desfecho. É uma precipitação. Pode ser uma cena só, compacta. Se passar disso
pode virar romance. Não é necessário que tudo seja dito. É muito importante que
algo fique em suspenso para que o leitor complemente, ou seja, o não dito tem
seu lugar e sua significação no conto. É um silêncio sugestivo. É por isso que
Arminda Serpa conclui, no seu comentário no livro, que "todo dizer
estabelece uma relação fundamental com o não dizer". Mais à frente, a
mesma analista chega a afirmar que "para dizer é preciso não dizer".
No prefácio, Evan
Bessa acentua o humor, a ironia e o sarcasmo como as características das
narrativas de Zinah. Também poderia ter acrescentado que a emoção é privilégio
dos personagens femininos, ficando os homens marcados pela racionalidade. Há
uma sensibilidade feminina respaldada pelo cultivo dos rituais, quando os
homens agem exatamente ao contrário.
Até nos temas
abordados, essa tendência transparece. São conflitos humanos que geralmente se
iniciam pelas falhas masculinas. Talvez quando essa marcação cerrada sobre
questões de gênero é posta de lado, é quando melhor se sai a narradora. Prova
disso é que, no momento em que o fantástico margeia sua história, é quando
melhor se apresenta seu conto.
A primeira
narrativa que chama a atenção é "A cartomante". Esse tema, recorrente
na literatura, já deixa o leitor curioso pelo desfecho do texto. Nesse caso, é
a cartomante que sai perdendo, ao ver o marido indo embora com a cliente.
Vicente e Vandira se afinam tanto que até os nomes se parecem. Quanto a Madame
Ruth, que traz amores de volta para quem a contrata, vai ter que trabalhar
muito para resolver seu próprio problema.
Pelo que vai
sugerindo o texto de Zinah, dá para se concluir que é caso perdido. Afinal,
todo o assédio inicial, através de telefonemas, partiu de Vicente. O que
Vandira queria de início era apenas o retorno do pai de sua filha. O destino,
entretanto, trouxe-lhe outra ventura.
Outro conto, que
concentra uma certa tensão, traz o título "Intenção do silêncio", que
coincidentemente é o título do livro. Nesse conto, o não dito é posto em
destaque, pois o leitor chega a complementar aquilo que foi apenas sugerido,
mas que não está explícito.
Esse leve suspense
mexe com o leitor, que muitas vezes precisa ser instigado para que pense alguma
coisa que está além do significante textual. Isso, no entanto, não se repete
nos outros textos, que primam por uma solução fácil dos enigmas textuais. Os
textos de Zinah geralmente são curtos, chegando a uma média de duas páginas
cada. Há, no entanto, uma exceção, o conto "O homem que fugia das
mulheres", que ocupa quatorze páginas do livro.
É aquela narrativa
tirada do baú, escrita quando a escritora, ainda adolescente, queria escrever
um romance. Por isso, nele há alguns momentos de singeleza, outros de puro
diletantismo da idade, como a cena do casal "deitado na relva",
quando se sabe que ambos estão numa caverna por conta da chuva, e que é difícil
encontrar relva em tal situação.
Há, no entanto, uma
característica marcante nas narrativas do livro. É o tratamento da linguagem. A
autora se esmera na correção gramatical, em frases bem lapidadas. Afinal,
pedagoga, pós-graduada no ensino da Literatura, era de se esperar esse seu zelo
no lado significante textual.
Esse seu segundo
livro é um amadurecimento diante de "Sutilezas", poemas de 2006, da
mesma Editora Premius. Também há o fato da mudança de gênero, da poesia para o
conto, o que faz com que a narrativa saia ganhando, pois a influência poética
do primeiro livro termina por transparecer no segundo. Assim, pode-se dizer que
merecidamente a autora fez jus às academias a que pertence.
"A intenção do
silêncio" é um livro de fácil leitura. Tem seu formato propício à
utilização como paradidático, para turmas terminais do ensino fundamental. Pena
é que autor cearense não consegue ter essa honraria de ser estudado por aluno
cearense. Nossas escolas só têm olhos para autores que venham das grande
editoras do Sudeste.
Esse livro de Zinah
daria boas discussões entre estudantes do ensino básico. Uma das temáticas
seria o tratamento de gênero interposto entre seus personagens. As mulheres são
sempre caracterizadas como marcadas pela emoção. São sensíveis e românticas. Os
homens primam pela racionalidade, pela força e pela coragem, mas tropeçam quase
sempre nas suas fraquezas. Só essa diferenciação daria espaço para grandes
debates. Acontece que a feliz geografia que nos colocou nesta maravilhosa terra
nunca teve o tratamento nem as benesses dos que foram ungidos do Sul maravilha.
quinta-feira, 30 de abril de 2015
APRECIAÇÃO DE CARLOS BORTOLOTI sobre "A Intenção do Silêncio", de ZINAH ALEXANDRINO
Os Grandes Que Estão
Entre Nós! -
Á Zinah Alexandrino
“...Ninguém escapa desse inimigo
antagônico do ciclo da vida que permeia
nossas horas (o tempo)....!”.
Zinah
Alexandrino
Tenho
anjos que me iluminam de forma diferençada. Explico: Eles insistem em me
presentear, no mínimo uma vez por semana, com o melhor dos presentes para mim: Um
Livro!
Receber um livro é
abrir as portas do coração para seres especialíssimos que colocam em palavras o
que lhes vai à alma.
Temos falado das perdas, principalmente no
ano que passou de grandes mestres brasileses da literatura, chamada de
regional, mesmo que sejam conhecidos no mundo todo:
Meu
amadíssimo Rubem Alves, mineiro da Boa Esperança, João Ubaldo Ribeiro
da amada Bahia, Itaparica, e Ariano Suassuna, da não menos amada e linda
Paraíba, para não fazer disto uma “nota de falecimento”.
Ficamos mais
pobres? Sim ficamos.
Mas vamos falar dos que estão vivos,
produzindo obras belíssimas e utilizando as palavras para amaciar e tornar
melhor nossas vidas: Adélia Prado, Mineira de Divinópolis, e minha
admiradíssima autora do rico regionalismo a cearense Zinah Alexandrino.
Como sou suspeito por
ser um apaixonadíssimo pelo rico e fantástico regionalismo brasilês, aumento
meus itens em tão singela relação.
Mas falar de Zinah é
simplesmente ir a fundo ao riquíssimo e vasto cenário cultural regional do
Brasil.
Grandes nomes que fazem sucesso no Mundo
inteiro? Ora isso seria redundância e quase uma pobreza, pois foi construído
pelo marketing... Sim! - O famoso
meio de aumentar algo a ser visualizado e vendido pelos americanos – tanto
que não temos tradução ou versão para nossa amada língua portuguesa brasilesa
até hoje – passa simplesmente a ser estudo de mercado. E como mercado é gente,
pessoas, logo...
Ao receber pela primeira vez, por sugestão de
amigos uma obra de Zinah Alexandrino que não conhecia ao menos para mim
era o primeiro chamava-se: Sutilezas.
Ah, as amadíssimas
sutilezas que os brasileses às vezes têm dificuldade de saber o que significa,
mas utilizam, sobremaneira.
Literalmente proprietária de um romantismo
especial e único, coloca todas as outras “sutilezas”, estas que
encontramos no dia a dia e vai mais fundo buscar a afetividade... Muitas vezes
até o místico através de sua poetização.
Foi
desta forma que esta iluminada escritora do amado nordeste chegou aos
leitores...
Agora
para nos deliciar e mostrar seu encantamento, sua superioridade iluminada de
ser elevado nos traz simplesmente um livro de contos: A intenção do
Silêncio, pela Editora Premius, nos últimos dias de 2014.
Obra
maravilhosa, ainda fresquinha, recém-saída da editoração me é presenteada pela
própria escritora e com dedicação o que me deixa mais efusivamente mais envaidecido
ainda.
Esta obra fantástica, digna de autores de
primeiro mundo ou de todos os mundos, afirmaria, tem uma dedicação especial e
nas palavras dela... “Ao filho amado de minha
segunda primogenitura Fausto á quem é dedicado esta obra divina”.
Primeiro:
Fausto: Sim o que nos leva a Fausto é um poema trágico
do escritor alemão Johann
Wolfgang Von Goethe.
Logo após este acarinhamento efetuado à sua obra genética e
muito humana Zinah deixa para o leitor um aviso de Rodand Barthes:
“...
A ciência é grosseira, a vida é sutil e é pra corrigir
essa
distancia que a literatura nos importa...!”
Ah, os grandes quando
são humildes e julgam que estão indo buscar outros maiores... No fundo seus
iguais...
A obra divina e simplesmente apaixonante traz vinte
e quatro contos.
Eis a riqueza que tanto admiro e
comento do regionalismo brasilês.
Esta divina autora, graças a Ele, ainda entre
nós, faz das palavras e do ambiente em que está um mundo de histórias dignas de
serem apenas chamadas de encantadamente maravilhosas...
Esta mulher, esposa, mãe, escritora de
forma tão convincentemente fantástica e iluminada e, sobretudo, uma educadora
que me lembra, de imediato, Rubem Alves.
Todos seus contos e historias são lúdicos.
Todas elas nos ensinam. Todas nos mostram caminhos e nos mostrando nos fazem
ver nosso melhor.
Você está em dúvida?
Sim, afirmo estou falando de uma grande
escritora da língua portuguesa brasilesa e do meu amadíssimo nordeste.
Ah, Nordeste... Como tu produziu filhos
pródigos, cultos e que nos mostram caminhos que devemos seguir e em os seguindo
sê-los como eles, melhores...
Ah, Nordeste tão “usado” pelos
politiqueiros, tão maltratado pelo restante do Brasil durante tanto tempo, que
esquecemos as verdadeiras riquezas que lá estão para melhorar cada um de nós em
tudo...
Zinah Alexandrino é um destes seres amados, divinamente nordestina a
quem tenho uma admiração e quase idolatria pelos seus escritos.
A singeleza, a simplicidade e por sua vez a complexidade
que coloca suas palavras chegam a todos os seres... Até os que aprenderam a ler
ontem... Mas tem recados subliminares fantásticos como na página 39: São apenas
10 linhas em três parágrafos e lá diz tudo:
Chama-se “Confissão”:
Emocionou-me pela forma colocada de
chegar à alma.
Diz Zinah:
“...
Preciso confessar-te... Estou apaixonada!
É
um amor contido, calmo, esperançoso, desses que acalantam os sonhos mais
indeléveis...
Lembras,
quando viajaste, no mês passado, para Nova Friburgo? Fiquei tão sozinha! Não
havia com que compartilhar este sentimento novo, que brotara em mim... Eu só
pensava em te dizer...
Espera
não me faças essa cara de bobo abismado, porque não é por ti; tu és apenas meu
melhor amigo; é pelo teu melhor amigo...!”.
Como buscar livros e todo tipo de escrito de autores de
outros países tendo esta riqueza nacional?
Como não ler... Não se apaixonar por
palavras construídas na alma, filtradas pelo coração e lançadas por uma mente
tão genial, genuína, humana e superior como Zinah e preferir autores que
nem sabemos o que são e o que querem além de nosso dinheiro?
Se te parecer pretensioso, por favor, perdoa-me:
Mas permita-me fazer-te um pedido: Como gaúcho utilizo-me da mesma maneira que
esta amada e brilhante ESCRITORA nordestina a segunda pessoa, tão natural para
nós do Rio Grande do Sul:
Por favor, tchê, acorda... Acultura-te vivente...
Lê mais... Busca esta riqueza divina e maravilhosa que temos aqui... Poderás
tu, me julgar ufanista... Não ligo, Porém te digo: Temos gente, buenacha,
gigantescamente maravilhosa neste Brasilzão de meu Deus, taura para ler ao
trabalho que te dás buscando nomes complicados até de falar e dizem palavras
que não são nossas... Acorda tchê!
Aligeiras-te que o
mundo não para... E ama... E lê o que temos de melhor...
Nos, aqui do Rio
Grande, ainda estamos tristes pela perda de nosso poetinha Mário Quintana... E
vocês do nordeste tem tantos gênios que chego a ficar com certa inveja... Como
esta grande prenda Zinah Alexandrino...
Comovo-me só de falar... Quando leio suas histórias
me escondo da prenda, pois lágrimas me vêm aos olhos de tanta emoção que esta
guria lá do nordeste distante me causa...
Só posso-te dizer vivente:
Aproveitas o que
temos de tão fantástico... Por favor?
Leia as obras de
Zinah Alexandrino... E depois nós conversamos.
Ah, como é bom termos
Zinah´s entre nós...
sexta-feira, 28 de novembro de 2014
UM TEXTO DE JANUÁRIO BEZERRA
o dia do músico e a escola
Januário Bezerra
Festejar a
arte e aplaudir o artista é algo proposto pelo calendário, em todos os tempos e
lugares. Vinte e dois de novembro, por exemplo, é data consagrada ao músico. O
legado Greco-romano facilita a compreensão da simbologia envolvendo a arte
musical e seu praticante. A música, que tem em Beethoven e Bach dois expoentes,
para citar apenas esses, se constitui, talvez, na mais evoluída manifestação
artística. Acima de questões como língua, crença, escolaridade etc,
possibilita, por si mesma, mais harmonia e melhor compreensão entre os homens,
tal o seu poder de comunicação e a universalidade do seu culto. Na mitologia
grega, Orfeu e Eurides protagonizam linda fábula e assim simbolizam essa forma
de arte. Embora mais modestamente, a cultura romana, de igual modo, contribui
para o mesmo objetivo, possibilitando a Santa Cecília tornar-se padroeira dos
músicos. Em abordagem circunscrita ao
território brasileiro, a data comemorada sugere refletir em torno de como o
ofício adotado por Frédéric François Chopin poderia
ajudar a Nação no encaminhamento da infância e da juventude, livrando-as da
marginalidade que aí está e tanto avilta nossos indicadores sociais. Algo é
sempre tentado nesse tocante, mas, sabidamente, muito pouco tem sido feito.
Quem não se lembra, por exemplo, do Projeto Aquarius? Criado em 1972, por iniciativa, dentre outros
brasileiros, do maestro Isaac Karabtchevsky, com o objetivo de levar a música
clássica à população carioca. Teve sua primeira edição no Parque do Flamengo,
com “Alvorada” da ópera “O escravo”, de Carlos Gomes e, mercê da execução do
projeto, muitos conterrâneos hoje têm na música uma profissão de inegável
sucesso, com vários deles integrando regularmente grandes orquestras mundo
afora. E Isaac Karabtchevsky – nascido em 27 de dezembro de 1934 – apesar dos
oitenta anos, bem tocados e bem vividos, aí está, cheio de entusiasmo e vontade
de continuar colaborando. Se por um lado é lamentável a desativação do
“Aquarius”, por outro, há de se reconhecer o efeito multiplicador, já espalhado
por alguns pontos do território nacional. Aqui acolá se vê e ouve um grupo
musical, sob patrocínio do erário ou de particulares, estimulando vocações, que
desde sempre justificaram os aplausos sempre devotados pelo mundo inteiro à
música e ao músico do Brasil. Heitor Villa-Lobos
foi outro a muito fazer pelo ensino musical entre nós. E dele não há quem possa
roubar o mérito de trazer para a orquestra o violão, aqui no Brasil. Até então,
o instrumento era visto com imensa reserva, apesar de sua boa origem ibérica e
de toda a aceitação sempre encontrada em grandes orquestras europeias. Outro
nome a lembrar é o do maestro João Carlos Martins, considerado pela crítica
internacional um dos maiores intérpretes de Bach do século XX, de quem
registrou a obra completa para teclado. Há sete anos, fundou a Bachiana
Filarmônica e desenvolveu um trabalho com adolescentes, através de sua Bachiana
Jovem. Criou a Fundação Bachiana, cujo tema é a arte e sustentabilidade. As
orquestras foram unificadas e formam a Filarmônica Bachiana SESI-SP. O estado
brasileiro bem que poderia aproveitar ideias como as chamadas PPP – Parcerias
Público-Privadas e, estendendo esse conceito da moderna administração pública,
viabilizar uma escola capaz de atender as necessidades atuais e futuras da
sociedade. Possibilitando, e-fe-ti-va-men-te, ao estudante brasileiro e ao
profissional em que ele se transformará brevemente, um conteúdo intelectual à
altura do pleno exercício da cidadania, nos moldes exigidos pelo terceiro
milênio. Afinal, o próprio significado literal da palavra educação sugere algo
absolutamente diverso do que aí está. Vejamos o que diz a respeito o
dicionário: “educação e.du.ca.ção sf (lat
educatione) 1 Ato ou efeito de
educar. 2 Aperfeiçoamento das
faculdades físicas intelectuais e morais do ser humano; disciplinamento,
instrução, ensino. 3 Processo pelo qual
uma função se desenvolve e se aperfeiçoa pelo próprio exercício: Educação
musical, profissional etc. 4 Formação consciente das novas gerações
segundo os ideais de cultura de cada povo. 5 Civilidade. 6 Delicadeza. 7 Cortesia. 8 Arte de ensinar
(...)”.
Estaríamos diante de uma excelente oportunidade para reformulação da escola
brasileira, posto que já se vislumbra alguma possibilidade de mudança, a partir
da redemocratização iniciada com a Constituição de 88, agora aguçada por via
das chamadas redes sociais. Há muito é necessária uma nova escola, capaz de
qualificar melhor a sociedade, seja do ponto de vista estritamente intelectual
ou da aptidão profissional, seja no tocante ao lastro humanístico demandado
pela boa convivência entre iguais. De qualquer sorte, é profundamente
constrangedor o episódio verificado, com frequência até, em que brasileiro
chega a ser tratado aí pelos caminhos do mundo como lídimo representante de uma
sub-raça, quando consegue – sabe Deus por obra e graça de que ou quem – usar,
com certa vaidade até, o tão sonhado passaporte. Apesar da descrença ainda
generalizada, o país parece querer iniciar processo de mudança, pelo que se
observa nos últimos tempos. Convém, no entanto, agilizar as coisas, sob pena de
esbarrarmos diante de uma dura verdade, que diariamente eu via escrita na
parede da escola: “Quem o tempo perde, eterna perda chora”.
Assinar:
Postagens (Atom)









