ATUAL DIRETORIA AJEB-CE - 2018/2020

PRESIDENTE DE HONRA: Giselda de Medeiros Albuquerque

PRESIDENTE: Elinalva Alves de Oliveira

1ª VICE-PRESIDENTE: Gizela Nunes da Costa

2ª VICE-PRESIDENTE: Maria Argentina Austregésilo de Andrade

1ª SECRETÁRIA: Rejane Costa Barros

2ª SECRETÁRIA: Nirvanda Medeiros

1ª DIRETORA DE FINANÇAS: Gilda Maria Oliveira Freitas

2ª DIRETORA DE FINANÇAS: Rita Guedes

DIRETORA DE EVENTOS: Maria Stella Frota Salles

DIRETORA DE PUBLICAÇÃO: Giselda de Medeiros Albuquerque

CERIMONIALISTA: Francinete de Azevedo Ferreira

CONSELHO

Evan Gomes Bessa

Maria Helena do Amaral Macedo

Zenaide Marçal

DIRETORIA AJEB-CE - 2018-2020

DIRETORIA AJEB-CE - 2018-2020
DIRETORIA ELEITA POR UNANIMIDADE
Mostrando postagens com marcador Artigo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Artigo. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

UM ARTIGO QUE VOCÊ PRECISA LER!



“SONET’ÂNCIA”
                              Vianney Mesquita

           No começo dos ’80, ministrava na U.F.C. a disciplina Prática de Redação para estudantes do Curso de Comunicação Social, matéria obrigatória com seis módulos de quatro créditos, do primeiro semestre ao sexto.

          Dos diversos escorregos linguísticos perpetrados contra nosso código, um dos que mais apareciam era a prática – inocente – da redundância, com significação assente na ideia de superfluidade, na superabundância vocabular desnecessária, com pleonasmos e abusos na ornamentação do discurso oral e escrito. Este só perdia para as escorregadelas ortográficas e impropriedades de concordância e regência de substantivos, adjetivos e verbos.

          Além de haver a oportunidade de juntos corrigir esses excessos, afiguravam-se realmente engraçados os fatos sobejados dos escritos de alguns estudantes, os quais, pela míngua de maiores exigências e cuidados durante o primeiro e segundo graus – como se chamavam, então - esses descuidos (“lapso de engano de erro equivocado”, dizíamos, brincando) continuavam a baldear o repertório grafado de quem iria comunicar teores pelo caminho dos media massivos, evento realmente desabonador, se viesse a suceder.

          De tal modo, era obrigatório que se cuidasse de removê-los o mais depressa possível, para que o futuro comunicador não ludibriasse o imenso universo de receptores, na contextura dos quais há milhões e milhões que acreditam cegamente em tudo o que é veiculado pelos meios de propagação maciça, de sorte que poderiam alargar consideravelmente, em progressão geométrica, o espectro de recepção equívoca dessas mensagens.

          Numa das turmas, havia alguns ensaístas versificadores de boa qualidade, hoje poetas reconhecidos, e outros, como eu, curiosos e interessados, por diletantismo, no âmbito da cultura manifesta por via do metro. Divisei, então, a oportunidade de proceder a um exercício por meio dos sonetos, que, após alguns anos no limbo, em especial depois da Semana da Arte Moderna (fevereiro de 1922), eram praticados, sem muita obediência aos cânones dessa grade métrica, por muitas pessoas ligadas às letras e outras meramente amadoras e diletantes.

          Compus, então, o undecassílabo - catorze versos com onze acentos, dois quartetos e dois tercetos - intitulado Sonet’ância, eo ipso, soneto + redundância, para exame em sala de aula, com vistas a afastar das redações dos mass media esse viés do cadáver do defunto morto que morreu de morte morrida, do pássaro de asas, dos há dez anos atrás etc.

          Espero, contudo – e isto é por demais relevante – que a audiência dos meios onde essas linhas chegam, configurada na outra ponta da mensagem, não me assaque a tacha de redundante e “analfa”, porquanto os motivos para este exercício foram há pouco meridianamente explicados, de modo que a configuração da peça, lotada de vocábulos e expressões palavrosas e pleonásticas, foi feita para emprego somente em laboratório, vedado, por conseguinte, o seu curso pelo desmedido agrupamento de pessoas – a recepção mássica do recado comunicativo.

           Vamos ao soneto.

SONET’ÂNCIA

Ensaio cavalgar meu jegue asinino,
Na fazendola rural, a fazendinha,
Terra particular, propriedade minha,
Onde, aliás, monto meu Pégaso equino.

Subo, para cima, em hirta e reta linha,
À procura, em caça a um porco suíno.
Pois houvera, antes, atacado a rinha
De galos, que brigavam luta de inopino.

Vi, então, com um sorriso nos lábios,
O meu porco bácoro preso e cativo.
E logo, breve, anotei nos alfarrábios

Carpatácios: “o porqueiro cerdo é vivo:
Então, pois, farei como os sapientes sábios:

Deixá-lo-ei renascente e redivivo”.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

"JE SUIS FRANÇAIS" MATÉRIA PUBLICADA NO DIÁRIO EM 22/07‏



“Je suis français”
 
O mundo está perplexo. Mais uma vez os desajustes individuais, de grupos, de nações estão conduzindo países ricos, emergentes e pobres para uma crise que abrange aspectos éticos, morais, socioeconômicos, políticos, de desesperança, de irresponsabilidade, de injustiça e de violência. Para aonde vamos? O que queremos? No último dia 14, a França comemorava mais um ano da “Queda da Bastilha”, movimento apoiado em três palavras que representam a essência da democracia: liberdade, igualdade e fraternidade. É a maior festa nacional daquele País amigo. De repente, na bela cidade de Nice surge no meio da multidão um caminhão dirigido por um monstro, covarde e criminoso atropelando centenas de pessoas, deixando mais de cem mortos e duzentos feridos. Verdadeira barbárie. Por quê? Qual a razão? Não existe razão para tamanha perversidade e ignorância. Não basta dizer que é um “lobo solitário” ou é a orientação de algum grupo terrorista, mas o apocalipse moral e ético da sociedade mundial. Saliento, todavia, que tal quadro dantesco não é culpa da democracia, como chegam a dizer alguns idiotas, mas a falta de democracia. Nos últimos dois anos, a França foi agredida de forma terrível por três atentados: Charlie Hebdo,  Bataclan e agora Nice. Outros países também estão sendo vítimas de ações terroristas, matando inocentes. Falta generosidade e entendimento entre as pessoas. “ Quando em desespero, eu me lembro que durante toda a história o caminho da verdade e do amor sempre ganharam”(Mahatma Gandhi). “Nous sommes françaises”.

Gonzaga Mota
Professor aposentado da UFC

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Umberto Eco, autor do conhecido livro "O nome da rosa", faleceu aos 84 anos


Morre o escritor
italiano Umberto Eco

Morreu na noite desta sexta-feira (19/02) o escritor, semiólogo e filólogo italiano Umberto Eco, de 84 anos. Segundo sua família, citada pelo jornal "la Repubblica", o falecimento ocorreu às 22h30 (horário local), em Milão, na própria residência do intelectual.

Eco nasceu em Alessandria, no Piemonte, em 5 de janeiro de 1932, e entre os seus maiores sucessos literários estão "O nome da rosa", de 1980, e "O pêndulo de Foucault", de 1988. Sua última obra, "Número zero", foi publicada no ano passado e fala sobre a redação imaginária de um jornal, com fortes referências à história política, jornalística e judiciária da Itália.

Além de romances de destaque internacional, o escritor também é autor de numerosos ensaios de semiótica, estética medieval, linguística e filosofia. Em 1988, fundou o Departamento de Comunicação da Universidade de San Marino. Desde 2008, era professor emérito e presidente da Escola Superior de Estudos Humanísticos da Universidade de Bolonha.

Recentemente, ao receber o título de doutor honoris causa em comunicação e cultura na Universidade de Turim, Eco havia feito duras críticas às redes sociais, dizendo que elas deram o direito à palavra a uma "legião de imbecis". "Normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel", dissera o intelectual.

Segundo o italiano, a TV já havia colocado o "idiota da aldeia" em um patamar no qual ele se sentia superior. "O drama da Internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade", acrescentara. Uma de suas frases mais famosas é: "Quem não lê, aos 70 anos terá vivido só uma vida. Quem lê, terá vivido 5 mil anos. A leitura é uma imortalidade de trás para frente"

Itália vive luto pela morte de Umberto Eco
Personalidades da cultura, da política, da música e da literatura da Itália amanheceram de luto neste sábado (20/02) após a morte de Eco.

"Umberto Eco nos deixou. Um gigante que levou a cultura italiana para todo o mundo. Jovem e vulcânico até o último dia", escreveu o ministro da Cultura italiano, Dario Franceschini, no Twitter.

O prefeito de Milão, Giuliano Pisapia, utilizou o Facebook, para prestar sua homenagem ao autor de "O nome da rosa".

"Adeus mestre e amigo, gênio do saber, apaixonado de Milão, homem de vasta cultura e de grande paixão política. Milão sem você é triste e pobre. Mas está orgulhosa de ser tua amada cidade. Ter tido você perto nestes anos foi um grande privilégio", publicou Pisapia.
De Bolonha, cidade onde Eco foi professor emérito e presidente da Escola Superior de Estudos Humanísticos da Universidade de Bolonha, o prefeito Virginio Merola expressou seu sentimento.

"Sinto sua falta, Bolonha sente sua falta, sua inteligência e seu espírito livre farão falta. Adeus Umberto", postou Merola no Twitter.

A política e economista italiana Giovanna Melandri lamentou a notícia e destacou que Eco foi "um grandiosíssimo intelectual e escritor, uma pessoa única e especial".

No mundo acadêmico, Roberto Grandi, professor na Universidade de Bolonha e amigo do pensador, lembrou o passado para exaltar os momentos vividos.

"Era 1972. Parece que foi ontem. Você veio a Bolonha. À universidade. E ficou. Obrigado pelos belos momentos que compartilhamos. #UmbertoEco", comentou no Twitter.
A editora italiana Bompiani, que publicou seu último livro, "Número Zero" (2015), escreveu: 

"Luto na cultura. Umberto Eco nos deixou: estamos abalados".

As reações também vieram do mundo da música, entre outros, da cantora italiana Noemi.

"#UmbertoEco é parte da nossa cultura e literatura. Seremos capazes de contar tão bem as coisas aos italianos do amanhã?", se questionou.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

PROFESSOR VIANNEY MESQUITA - ARTIGO


MANUEL BANDEIRA
Batista do Modernismo Nacional

Vianney Mesquita



O poeta é como o Sol; o fogo que ele encerra é quem espalha a luz nessa amplidão sonora [...]. Queimemo-nos a nós, iluminando a Terra! Somos lava, e a lava é quem produz a aurora! (ABÍLIO GUERRA JUNQUEIRO).

Perfaz-se no 2016 entrante (13 de outubro) o aniversário de 48 anos de passamento do festejado poeta recifense MANUEL Carneiro de Sousa BANDEIRA Filho, ocorrido no Rio de Janeiro, nato que foi na, Mauriceia, em 19 de abril de 1886.
MÁRIO Raul de Morais ANDRADE – nome completo para não se estabelecer embaraço com o agrônomo e escritor (*Fortaleza, 05.10.1910 – 05.02.44) Mário Kepler Sobreira de Andrade, o Mário de Andrade do Norte – chamou a Manuel Bandeira, e com muita propriedade, de São João Batista do Modernismo brasileiro, conquanto o extraordinário rapsodo de Libertinagem não haja participado da Semana da Arte Moderna, em fevereiro de 1922.
Ao polígrafo, musicólogo e crítico paulistano assistiam sobradas razões para anotar a denominação, porquanto Bandeira foi dos primeiros a escrever produções poemáticas em antecipação ao novo moto e renovado espírito da poética nacional, ao empregar o verso branco com excepcionais desenvoltura e beleza. Bem atestam esta asserção seus produtos anteriores a 22, especialmente Carnaval (1919 - quem não conhece “Os Sapos”?), uma das primeiras peças do movimento modernista.
Avesso ao “lirismo funcionário público” – decerto em alusão aos exageros oficiais da forma romântico-parnasiana – “  com livro de ponto e manifestações de apreço ao Sr. Diretor” – como ele próprio disse – preferiu aquele “difícil e pungente dos bêbados – o lirismo dos clowns de Shakespeare”.
 Conforme exprime, entretanto, Otto Maria Carpeaux – em Origens e Fins, de 1943 – esse lirismo será revelado, além dos versos românticos, como em A Cinza das Horas. A força interventiva da inteligência crítica, batendo de frente com a sensibilidade analítica profundamente romântica de Bandeira, haverá de produzir o humor, o qual demarcará suas estrofes com a autoironia, consoante ocorreu em Pneumotórax, contrapondo-se à selfpity do romantismo. Foi isso mesmo o que aconteceu.
Ressalte-se (quando do ensejo da comemoração dos seus 130 anos de nascimento, a ocorrer em 19 de abril do ano vindouro) o fato de que, sob ângulo novo, intocado pelas centenas de fontes que o já estudaram, no Brasil quanto no Exterior, é custoso discorrer a respeito do produto literário e acerca do invejável caráter do Vate pernambucano, este poeta da simplicidade, na vida e na poesia.
O que se pode e deve, ainda, dizer de Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho, sem se incomodar com a repetição dos torneios, noutras estruturas, mas com semelhante mensagem, é que seu ecletismo na senda literária – poesia, música, crônica, crítica, tradução, ensaio et reliqua – legou-nos a abundante e qualificada obra, tangida “[...] pelas velhas liras e harpas elegíacas do tempo em que as cruzes, os ciprestes, os rochedos e a lua pertenciam aos românticos”. (GRIECO, in MENEZES, Raimundo de. Dicionário Literário Brasileiro. São Paulo: Saraiva, 1960, p. 162).
Pela relevância do Escritor pernambucano na literatura – vem de novo Carpeaux – e ele feito poeta, porém, não seria justo levá-lo a um plano menor, em razão da prosa cristalina dos seus ensaios, peças de crônicas e de memórias. Impõe-se destacar, também, completa o Crítico e jornalista austríaco, naturalizado brasileiro, sua produção como escritor didático em várias seletas e, acima de tudo, sua importância como tradutor de poesia, responsável pelas melhores versões de Johann Christian Friedrich Hoderlin,  Friedrich Schiller, William Shakespeare [...] de Sóror Joana Inês de la Cruz e de Omar Khayann.(OP. CIT).
A extensão e a axiologia humanista-humanitária da produção de Manuel Bandeira configuram glória da espécie humana, das melhores obras de Deus, fortalecido (quem sabe) o seu espírito pela tísica que lhe assomou profunda aos tenros 17 anos, pela verdadeira peregrinação por Campanha, Petrópolis, Teresópolis, Fortaleza, Maranguape (Maracanaú), Uruquê e Quixeramobim; pelo retiro forçado a Clavadel, tudo aliado aos sucessivos passamentos de entes queridos de primeiro parentesco, ocorridos ao seu retorno ao País em 1914.
Em Clavadel – Suiça, o também letrista musical Bandeira – escreveu poemas para Francisco Mignone, Villa-Lobos, Ari Barroso, Camargo Guarnieri e outros – encontrou o escritor francês Paul Éluard, a quem nosso Poeta confessou dever “a revelação do amor à poesia e suas possibilidades”. (APUD MENEZES, ÍDEM).
Em tal acidentada e mórbida existência, que lhe educou o corpo ao clarificar o espírito, o bom aluno de João Ribeiro encontrou no Morro do Curvelo – Santa Tereza – Rio de Janeiro - o poeta Ribeiro Couto, com quem travou grande amizade.
Dele expressa Monteiro: porque era bom, “notável pela exemplaridade e singeleza [...] desinteressado dos bens materiais e voltado exclusivamente para os fins da criação literária”, o Autor de Vou-me embora pra Pasárgada em tudo bebia o bem e espalhava sua aura de bondade, sua habilidade, sua destreza em tanger a literatura com temas universais. É

O poeta que brinca, o poeta que lança no ar, de vez em quando, um ou outro poema que é puro divertimento, é ao mesmo tempo aquele que tem dado à poesia brasileira algumas das notas de mais profunda ressonância, de mais amarga tristeza, e de mais séria contemplação da vida. (MONTEIRO, Adolfo Casais. Manuel Bandeira. Lisboa, s.ind. pg., 1943).

Viveu doente do corpo e saudável do espírito, com grande intensidade. Sua poesia é inspiração dos céus, é obra a perpassar o tempo tocando corações de todas as gerações. Sua extensa e eclética produção, versátil de sentimentos, temas e processos poéticos, é exemplo de tenacidade, inteligência e talento, de humanidade método, força de vontade e bonomia, qualidades em declínio nestes tempos difíceis, que nos tangem para distante da poesia, da lua, ciprestes e rochedos, a que aludiu Grieco em passagem anterior.
Não há quem logre, entretanto, nos tanger para longe de Libertinagem, para distante da Última Canção do Beco ... (MESQUITA, Vianney. In Impressões – Estudos de Literatura e Comunicação. Fortaleza: Agora, 1989. 175 pp).
Obrigado, poeta, sábio, semideus. Vamos de novo reler Profundamente, beber profundez nos seus ensaios, aprofundarmos nos seus conselhos, embelezarmos em suas estrofes. E aprendermos com sua vida.

Gratidão a você – Manuel Bandeira, do Brasil!

terça-feira, 25 de agosto de 2015

O SILÊNCIO, DE ZINAH - POR BATISTA DE LIMA


Zinah Alexandrino lançou em 2014, pela Editora Premius, o livro "A intenção do silêncio". A ficha catalográfica vem acusando ser um livro de contos. Realmente há alguns contos, mas entre os 23 textos há um número maior de crônicas. Esse fato já nos leva a uma discussão sobre a real diferença entre crônica e conto, o que não cabe aqui resolver, tendo em vista que estudiosos, muitas vezes, os definem de forma diferente, e se contradizem, até. A crônica, mesmo sendo narrativa, possui um compromisso com o cotidiano e até com o trivial.
O conto é um desfecho. É uma precipitação. Pode ser uma cena só, compacta. Se passar disso pode virar romance. Não é necessário que tudo seja dito. É muito importante que algo fique em suspenso para que o leitor complemente, ou seja, o não dito tem seu lugar e sua significação no conto. É um silêncio sugestivo. É por isso que Arminda Serpa conclui, no seu comentário no livro, que "todo dizer estabelece uma relação fundamental com o não dizer". Mais à frente, a mesma analista chega a afirmar que "para dizer é preciso não dizer".
No prefácio, Evan Bessa acentua o humor, a ironia e o sarcasmo como as características das narrativas de Zinah. Também poderia ter acrescentado que a emoção é privilégio dos personagens femininos, ficando os homens marcados pela racionalidade. Há uma sensibilidade feminina respaldada pelo cultivo dos rituais, quando os homens agem exatamente ao contrário.
Até nos temas abordados, essa tendência transparece. São conflitos humanos que geralmente se iniciam pelas falhas masculinas. Talvez quando essa marcação cerrada sobre questões de gênero é posta de lado, é quando melhor se sai a narradora. Prova disso é que, no momento em que o fantástico margeia sua história, é quando melhor se apresenta seu conto.
A primeira narrativa que chama a atenção é "A cartomante". Esse tema, recorrente na literatura, já deixa o leitor curioso pelo desfecho do texto. Nesse caso, é a cartomante que sai perdendo, ao ver o marido indo embora com a cliente. Vicente e Vandira se afinam tanto que até os nomes se parecem. Quanto a Madame Ruth, que traz amores de volta para quem a contrata, vai ter que trabalhar muito para resolver seu próprio problema.
Pelo que vai sugerindo o texto de Zinah, dá para se concluir que é caso perdido. Afinal, todo o assédio inicial, através de telefonemas, partiu de Vicente. O que Vandira queria de início era apenas o retorno do pai de sua filha. O destino, entretanto, trouxe-lhe outra ventura.
Outro conto, que concentra uma certa tensão, traz o título "Intenção do silêncio", que coincidentemente é o título do livro. Nesse conto, o não dito é posto em destaque, pois o leitor chega a complementar aquilo que foi apenas sugerido, mas que não está explícito.
Esse leve suspense mexe com o leitor, que muitas vezes precisa ser instigado para que pense alguma coisa que está além do significante textual. Isso, no entanto, não se repete nos outros textos, que primam por uma solução fácil dos enigmas textuais. Os textos de Zinah geralmente são curtos, chegando a uma média de duas páginas cada. Há, no entanto, uma exceção, o conto "O homem que fugia das mulheres", que ocupa quatorze páginas do livro.
É aquela narrativa tirada do baú, escrita quando a escritora, ainda adolescente, queria escrever um romance. Por isso, nele há alguns momentos de singeleza, outros de puro diletantismo da idade, como a cena do casal "deitado na relva", quando se sabe que ambos estão numa caverna por conta da chuva, e que é difícil encontrar relva em tal situação.
Há, no entanto, uma característica marcante nas narrativas do livro. É o tratamento da linguagem. A autora se esmera na correção gramatical, em frases bem lapidadas. Afinal, pedagoga, pós-graduada no ensino da Literatura, era de se esperar esse seu zelo no lado significante textual.
Esse seu segundo livro é um amadurecimento diante de "Sutilezas", poemas de 2006, da mesma Editora Premius. Também há o fato da mudança de gênero, da poesia para o conto, o que faz com que a narrativa saia ganhando, pois a influência poética do primeiro livro termina por transparecer no segundo. Assim, pode-se dizer que merecidamente a autora fez jus às academias a que pertence.
"A intenção do silêncio" é um livro de fácil leitura. Tem seu formato propício à utilização como paradidático, para turmas terminais do ensino fundamental. Pena é que autor cearense não consegue ter essa honraria de ser estudado por aluno cearense. Nossas escolas só têm olhos para autores que venham das grande editoras do Sudeste.
Esse livro de Zinah daria boas discussões entre estudantes do ensino básico. Uma das temáticas seria o tratamento de gênero interposto entre seus personagens. As mulheres são sempre caracterizadas como marcadas pela emoção. São sensíveis e românticas. Os homens primam pela racionalidade, pela força e pela coragem, mas tropeçam quase sempre nas suas fraquezas. Só essa diferenciação daria espaço para grandes debates. Acontece que a feliz geografia que nos colocou nesta maravilhosa terra nunca teve o tratamento nem as benesses dos que foram ungidos do Sul maravilha.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

APRECIAÇÃO DE CARLOS BORTOLOTI sobre "A Intenção do Silêncio", de ZINAH ALEXANDRINO

                           
Os Grandes Que Estão Entre Nós! -
Á Zinah Alexandrino

 
“...Ninguém escapa desse inimigo
antagônico do ciclo da vida que permeia
nossas horas (o tempo)....!”.


Zinah Alexandrino


                          Tenho anjos que me iluminam de forma diferençada. Explico: Eles insistem em me presentear, no mínimo uma vez por semana, com o melhor dos presentes para mim: Um Livro!
                          Receber um livro é abrir as portas do coração para seres especialíssimos que colocam em palavras o que lhes vai à alma.

                          Temos falado das perdas, principalmente no ano que passou de grandes mestres brasileses da literatura, chamada de regional, mesmo que sejam conhecidos no mundo todo:
Meu amadíssimo Rubem Alves, mineiro da Boa Esperança, João Ubaldo Ribeiro da amada Bahia, Itaparica, e Ariano Suassuna, da não menos amada e linda Paraíba, para não fazer disto uma “nota de falecimento”.
Ficamos mais pobres? Sim ficamos.

                         Mas vamos falar dos que estão vivos, produzindo obras belíssimas e utilizando as palavras para amaciar e tornar melhor nossas vidas: Adélia Prado, Mineira de Divinópolis, e minha admiradíssima autora do rico regionalismo a cearense Zinah Alexandrino.
                         Como sou suspeito por ser um apaixonadíssimo pelo rico e fantástico regionalismo brasilês, aumento meus itens em tão singela relação.
                        Mas falar de Zinah é simplesmente ir a fundo ao riquíssimo e vasto cenário cultural regional do Brasil.

                        Grandes nomes que fazem sucesso no Mundo inteiro? Ora isso seria redundância e quase uma pobreza, pois foi construído pelo marketing... Sim!  - O famoso meio de aumentar algo a ser visualizado e vendido pelos americanos – tanto que não temos tradução ou versão para nossa amada língua portuguesa brasilesa até hoje – passa simplesmente a ser estudo de mercado. E como mercado é gente, pessoas, logo...

                          Ao receber pela primeira vez, por sugestão de amigos uma obra de Zinah Alexandrino que não conhecia ao menos para mim era o primeiro chamava-se: Sutilezas.
                          Ah, as amadíssimas sutilezas que os brasileses às vezes têm dificuldade de saber o que significa, mas utilizam, sobremaneira.

                         Literalmente proprietária de um romantismo especial e único, coloca todas as outras “sutilezas”, estas que encontramos no dia a dia e vai mais fundo buscar a afetividade... Muitas vezes até o místico através de sua poetização.

                          Foi desta forma que esta iluminada escritora do amado nordeste chegou aos leitores...

                          Agora para nos deliciar e mostrar seu encantamento, sua superioridade iluminada de ser elevado nos traz simplesmente um livro de contos: A intenção do Silêncio, pela Editora Premius, nos últimos dias de 2014.

                            Obra maravilhosa, ainda fresquinha, recém-saída da editoração me é presenteada pela própria escritora e com dedicação o que me deixa mais efusivamente mais envaidecido ainda.

                           Esta obra fantástica, digna de autores de primeiro mundo ou de todos os mundos, afirmaria, tem uma dedicação especial e nas palavras dela... “Ao filho amado de minha segunda primogenitura Fausto á quem é dedicado esta obra divina”.
Primeiro:

Fausto: Sim o que nos leva a Fausto é um poema trágico do escritor alemão Johann Wolfgang Von Goethe.

                       Logo após este acarinhamento efetuado à sua obra genética e muito humana Zinah deixa para o leitor um aviso de Rodand Barthes:
“... A ciência é grosseira, a vida é sutil e é pra corrigir
essa distancia que a literatura nos importa...!”
                       Ah, os grandes quando são humildes e julgam que estão indo buscar outros maiores... No fundo seus iguais...

                      A obra divina e simplesmente apaixonante traz vinte e quatro contos.
Eis a riqueza que tanto admiro e comento do regionalismo brasilês.

                      Esta divina autora, graças a Ele, ainda entre nós, faz das palavras e do ambiente em que está um mundo de histórias dignas de serem apenas chamadas de encantadamente maravilhosas...

                    Esta mulher, esposa, mãe, escritora de forma tão convincentemente fantástica e iluminada e, sobretudo, uma educadora que me lembra, de imediato, Rubem Alves.

                    Todos seus contos e historias são lúdicos. Todas elas nos ensinam. Todas nos mostram caminhos e nos mostrando nos fazem ver nosso melhor.
Você está em dúvida?
Sim, afirmo estou falando de uma grande escritora da língua portuguesa brasilesa e do meu amadíssimo nordeste.

Ah, Nordeste... Como tu produziu filhos pródigos, cultos e que nos mostram caminhos que devemos seguir e em os seguindo sê-los como eles, melhores...
Ah, Nordeste tão “usado” pelos politiqueiros, tão maltratado pelo restante do Brasil durante tanto tempo, que esquecemos as verdadeiras riquezas que lá estão para melhorar cada um de nós em tudo...

                      Zinah Alexandrino é um destes seres amados, divinamente nordestina a quem tenho uma admiração e quase idolatria pelos seus escritos.

                      A singeleza, a simplicidade e por sua vez a complexidade que coloca suas palavras chegam a todos os seres... Até os que aprenderam a ler ontem... Mas tem recados subliminares fantásticos como na página 39: São apenas 10 linhas em três parágrafos e lá diz tudo:
Chama-se “Confissão”:
Emocionou-me pela forma colocada de chegar à alma.
Diz Zinah:

“... Preciso confessar-te... Estou apaixonada!
É um amor contido, calmo, esperançoso, desses que acalantam os sonhos mais indeléveis...
Lembras, quando viajaste, no mês passado, para Nova Friburgo? Fiquei tão sozinha! Não havia com que compartilhar este sentimento novo, que brotara em mim... Eu só pensava em te dizer...
Espera não me faças essa cara de bobo abismado, porque não é por ti; tu és apenas meu melhor amigo; é pelo teu melhor amigo...!”.

                       Como buscar livros e todo tipo de escrito de autores de outros países tendo esta riqueza nacional?

Como não ler... Não se apaixonar por palavras construídas na alma, filtradas pelo coração e lançadas por uma mente tão genial, genuína, humana e superior como Zinah e preferir autores que nem sabemos o que são e o que querem além de nosso dinheiro?

                      Se te parecer pretensioso, por favor, perdoa-me: Mas permita-me fazer-te um pedido: Como gaúcho utilizo-me da mesma maneira que esta amada e brilhante ESCRITORA nordestina a segunda pessoa, tão natural para nós do Rio Grande do Sul:

                       Por favor, tchê, acorda... Acultura-te vivente... Lê mais... Busca esta riqueza divina e maravilhosa que temos aqui... Poderás tu, me julgar ufanista... Não ligo, Porém te digo: Temos gente, buenacha, gigantescamente maravilhosa neste Brasilzão de meu Deus, taura para ler ao trabalho que te dás buscando nomes complicados até de falar e dizem palavras que não são nossas... Acorda tchê!

Aligeiras-te que o mundo não para... E ama... E lê o que temos de melhor...
Nos, aqui do Rio Grande, ainda estamos tristes pela perda de nosso poetinha Mário Quintana... E vocês do nordeste tem tantos gênios que chego a ficar com certa inveja... Como esta grande prenda Zinah Alexandrino...

Comovo-me só de falar... Quando leio suas histórias me escondo da prenda, pois lágrimas me vêm aos olhos de tanta emoção que esta guria lá do nordeste distante me causa...

Só posso-te dizer vivente:
Aproveitas o que temos de tão fantástico... Por favor?
Leia as obras de Zinah Alexandrino... E depois nós conversamos.
Ah, como é bom termos Zinah´s entre nós...

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

UM TEXTO DE JANUÁRIO BEZERRA




o dia do músico e a escola

Januário Bezerra

Festejar a arte e aplaudir o artista é algo proposto pelo calendário, em todos os tempos e lugares. Vinte e dois de novembro, por exemplo, é data consagrada ao músico. O legado Greco-romano facilita a compreensão da simbologia envolvendo a arte musical e seu praticante. A música, que tem em Beethoven e Bach dois expoentes, para citar apenas esses, se constitui, talvez, na mais evoluída manifestação artística. Acima de questões como língua, crença, escolaridade etc, possibilita, por si mesma, mais harmonia e melhor compreensão entre os homens, tal o seu poder de comunicação e a universalidade do seu culto. Na mitologia grega, Orfeu e Eurides protagonizam linda fábula e assim simbolizam essa forma de arte. Embora mais modestamente, a cultura romana, de igual modo, contribui para o mesmo objetivo, possibilitando a Santa Cecília tornar-se padroeira dos músicos.  Em abordagem circunscrita ao território brasileiro, a data comemorada sugere refletir em torno de como o ofício adotado por Frédéric François Chopin poderia ajudar a Nação no encaminhamento da infância e da juventude, livrando-as da marginalidade que aí está e tanto avilta nossos indicadores sociais. Algo é sempre tentado nesse tocante, mas, sabidamente, muito pouco tem sido feito. Quem não se lembra, por exemplo, do Projeto Aquarius?  Criado em 1972, por iniciativa, dentre outros brasileiros, do maestro Isaac Karabtchevsky, com o objetivo de levar a música clássica à população carioca. Teve sua primeira edição no Parque do Flamengo, com “Alvorada” da ópera “O escravo”, de Carlos Gomes e, mercê da execução do projeto, muitos conterrâneos hoje têm na música uma profissão de inegável sucesso, com vários deles integrando regularmente grandes orquestras mundo afora. E Isaac Karabtchevsky – nascido em 27 de dezembro de 1934 – apesar dos oitenta anos, bem tocados e bem vividos, aí está, cheio de entusiasmo e vontade de continuar colaborando. Se por um lado é lamentável a desativação do “Aquarius”, por outro, há de se reconhecer o efeito multiplicador, já espalhado por alguns pontos do território nacional. Aqui acolá se vê e ouve um grupo musical, sob patrocínio do erário ou de particulares, estimulando vocações, que desde sempre justificaram os aplausos sempre devotados pelo mundo inteiro à música e ao músico do Brasil. Heitor Villa-Lobos foi outro a muito fazer pelo ensino musical entre nós. E dele não há quem possa roubar o mérito de trazer para a orquestra o violão, aqui no Brasil. Até então, o instrumento era visto com imensa reserva, apesar de sua boa origem ibérica e de toda a aceitação sempre encontrada em grandes orquestras europeias. Outro nome a lembrar é o do maestro João Carlos Martins, considerado pela crítica internacional um dos maiores intérpretes de Bach do século XX, de quem registrou a obra completa para teclado. Há sete anos, fundou a Bachiana Filarmônica e desenvolveu um trabalho com adolescentes, através de sua Bachiana Jovem. Criou a Fundação Bachiana, cujo tema é a arte e sustentabilidade. As orquestras foram unificadas e formam a Filarmônica Bachiana SESI-SP. O estado brasileiro bem que poderia aproveitar ideias como as chamadas PPP – Parcerias Público-Privadas e, estendendo esse conceito da moderna administração pública, viabilizar uma escola capaz de atender as necessidades atuais e futuras da sociedade. Possibilitando, e-fe-ti-va-men-te, ao estudante brasileiro e ao profissional em que ele se transformará brevemente, um conteúdo intelectual à altura do pleno exercício da cidadania, nos moldes exigidos pelo terceiro milênio. Afinal, o próprio significado literal da palavra educação sugere algo absolutamente diverso do que aí está. Vejamos o que diz a respeito o dicionário: “educação e.du.ca.ção sf (lat educatione) 1 Ato ou efeito de educar. 2 Aperfeiçoamento das faculdades físicas intelectuais e morais do ser humano; disciplinamento, instrução, ensino. 3 Processo pelo qual uma função se desenvolve e se aperfeiçoa pelo próprio exercício: Educação musical, profissional etc. 4 Formação consciente das novas gerações segundo os ideais de cultura de cada povo. 5 Civilidade. 6 Delicadeza. 7 Cortesia. 8 Arte de ensinar (...)”. Estaríamos diante de uma excelente oportunidade para reformulação da escola brasileira, posto que já se vislumbra alguma possibilidade de mudança, a partir da redemocratização iniciada com a Constituição de 88, agora aguçada por via das chamadas redes sociais. Há muito é necessária uma nova escola, capaz de qualificar melhor a sociedade, seja do ponto de vista estritamente intelectual ou da aptidão profissional, seja no tocante ao lastro humanístico demandado pela boa convivência entre iguais. De qualquer sorte, é profundamente constrangedor o episódio verificado, com frequência até, em que brasileiro chega a ser tratado aí pelos caminhos do mundo como lídimo representante de uma sub-raça, quando consegue – sabe Deus por obra e graça de que ou quem – usar, com certa vaidade até, o tão sonhado passaporte. Apesar da descrença ainda generalizada, o país parece querer iniciar processo de mudança, pelo que se observa nos últimos tempos. Convém, no entanto, agilizar as coisas, sob pena de esbarrarmos diante de uma dura verdade, que diariamente eu via escrita na parede da escola: “Quem o tempo perde, eterna perda chora”.