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sábado, 19 de janeiro de 2019
UMA HOMENAGEM PÓSTUMA AO POETA, CRONISTA E TROVADOR WALDIR RODRIGUES
A ILUSÃO
DO ETERNO
Giselda Medeiros
Qualquer pessoa, por menor que
seja sua sensibilidade, não deixará de emocionar-se com a leitura de “A Ilusão
do Eterno”, livro de crônicas do, também poeta, Waldir Rodrigues. Isso porque o
autor deixa sua pena explorar o mundo fantástico de sua interioridade e,
através de suas esplêndidas jazidas, permite-nos descobrir caminhos, pelos
quais vamos, passo a passo, embrenhando-nos pelos labirintos de sua escritura
elegante, leve, equilibrada em frases curtas, onde as ideias se fundem
respaldadas em argumentos lúcidos. Por conseguinte, tudo no livro se multiplica
em grãos de sensibilidade artística, em contínua amostragem analítica do
conteúdo existencial do ser.
Fernando Pessoa nos assevera: “A
espantosa realidade das coisas é a sua descoberta de todos os dias”. E Waldir
Rodrigues sabe que o ser humano é cúmplice dessa espantosa realidade. Por isso,
procura (re)descobrir o cotidiano da vida, com sua palavra tecida na mais fina
gaze poética que, como ele mesmo afirma, “é grande como o homem e eterna
como Deus”.
Suas
crônicas revelam a perplexidade do homem ante a contradição de sua essência
corpo/espírito, efemeridade/eternidade, niilismo/sublimidade. E é integrado a
esses binômios que Waldir Rodrigues, em uma das mais emotivas crônicas do
livro, “Rondó para o Meu Pai Morto”, assim divaga: “Na tua insólita viagem,
deixaste um raio de luz no espaço azul da minha perplexidade. /.../
Evidentemente, tenho a impressão de que morreste antes de tua própria morte,
porque ela tem, para mim, um conteúdo vazio e abstrato. Não sou poeta, mas um
homem cheio de poemas a fazer”.
São os temas universais, como o
amor, a morte, a vida, a saudade, a solidão interior, a solidariedade, as
angústias, a brevidade da vida que preenchem o espaço ilusório de sua
eternidade. Há em suas crônicas uma fusão entre “a realidade espantosa das
coisas” e o vigor saboroso de sua ficção, o que leva o leitor a manter um
constante interesse pelo desenrolar da narrativa e, sobretudo, pelo seu
desfecho, trazendo uma mensagem ora filosófica, ora levemente irônica e
humorística.
Podemos dizer que as crônicas de
“A Ilusão do Eterno” trazem um aprendizado da vida, uma vez que o Autor se
deixa materializar nelas, quer pela evocação de fatos relativos à sua infância,
quer pelas reminiscências de pessoas que lhe povoaram a seara da existência,
enclausurada em conflitos ontológicos. E é, exatamente, isso que nos comove,
nos chama à sua escritura e nos deixa à vontade para, juntamente com ele,
penetrar nos subterrâneos do tempo passado e, daí, compreender melhor o
presente e poder contemplar um mundo futuro mais humano, mais solidário, onde “o
sol viesse antes da aurora”, para assim nos bastarmos “apenas com a
presença do amor, mesmo impossível...”, amor esse que nos conduziria a “mão,
livre e solta, sem rédeas nem limites”, para escrevermos, enfim, a crônica
de nossa vida, numa (re)invenção d’A Ilusão do Eterno.
“Ah! o senso metafísico de
tudo aquilo que poderia ter sido e que não foi... E o papagaio colorido das
minhas ilusões, preso ao frágil cordel da esperança...”
Que belo,
Waldir! Parabéns!
(in: Crítica Reunida)
sexta-feira, 14 de setembro de 2018
APRECIAÇÃO sobre o romance Hálito, de Gilda Freitas
Romance Hálito
O
romance Hálito, de Gilda Freitas, acontece no cenário real
da cidade de Carpina em Pernambuco, com narrativa na primeira pessoa.
O
título, que aponta para um romance do gênero biográfico (monólogo), é chamativo
e gera a expectativa de uma abordagem original e criativa do tema, capaz de
fortalecer e engrandecer a personagem central da narrativa, lançando luz sobre
essa história.
Trata-se
de um monólogo em que o foco da protagonista Flora é a sua dor. Ela participa
ativamente da sua história, reconta sob seu ponto de vista um drama refletindo
sobre si própria com cenas fortes, tristes; de paixão e decepções, delírio e
dores insalubres de enfraquecimento perante os arraigados preconceitos que dominaram
seu destino.
Veja-se,
por exemplo, esta passagem à p. 38: “Eu fui punida por ter nascido mulher, o
que afetou profundamente os meus sentimentos e, por conta disso, eu me tornei
uma pessoa sofrida, amada, odiada que chega hoje à sua idade outonal revoltada
por não ter vivido o que gostaria de viver impedida pela família, pela igreja e
por uma sociedade disfarçada...”.
Hálito, uma história bem urdida, pois Gilda domina
a escritura com precisão e dá destaque às belas metáforas carregadas de sinestesias,
dando sentido e sabor ao nosso paladar de leitor.
Louve-se
a sua iniciativa e, sobretudo, a coragem de abordar temática tão complexa no
formato de um gênero difícil como o romance e de se expor ao público, em meio
ao qual pode encontrar entusiastas, mas também, seguramente, leitores críticos.
Em
resumo, a autora alçou voo, e teve combustível – leia-se talento, inventiva,
criatividade – para levar a termo com garbo a empreitada e deu um grande rumo a
essa obra.
A
piauiense Gilda Freitas, com suas perspectivas, vem contribuindo e
engrandecendo a literatura cearense.
Merece
destaque a apresentação gráfica bem cuidada e primorosa do livro, desde a capa
até o formato de bolso.
Certamente,
oxalá, um dia, possa ser reconhecido noutras esferas. Parabéns! Que Deus seja
sempre a luz da sua inspiração!
sábado, 11 de abril de 2015
12 de abril de 2015 - o Domingo da Misericórdia - por Vianney Mesquita
Informação Religiosa Católica – Antigo Domingo Quasímodo (1)
DOMINGO
DA DIVINA MISERICÓRDIA, OITAVA OU PASCOELA (2)
Vianney Mesquita (3)
Vianney Mesquita (3)
Perante
a prova suprema – a da Morte – a fé dos apóstolos havia perigosamente oscilado.
Para o homem, a Morte é o desabamento, é o vácuo, e no vácuo nada se
reconstitui. Para Jesus Cristo, no entanto, Morte foi um princípio – morrera: era,
pois, homem. Ressurgiu: é, por conseguinte, DEUS. (IGINO GIORDANI. * Tivoli, 25.09.1894; +Rocca
di Papa, 18.04.1980).
Hoje,
12 de abril de 2015, flui o Domingo da Misericórdia, coincidente com o
derradeiro dia (o de número oito) da Oitava do Tempo Pascal, que perdura por
sete semanas, desde o Domingo de Páscoa (ou da Ressurreição) – neste ano, 7 do
quarto mês - ao Dia de Pentecoste, palavra significativa de cinquenta, pois
perfará a cinquentena, em 14 de junho/15, contando-se desde a descida do
Espírito Paráclito sobre os Apóstolos.
Sob o ponto de vista histórico, é adequado,
também, externar o fato de se haver definido outro ritual para a Missa, em 1969,
ora vigente, a instâncias do Concílio Vaticano II, que pedira sua revisão, em
ato promulgado pelo Sumo Pontífice Giovanni Battista Montini, restando
conhecido como Missa de Paulo VI.
Convém acrescentar, em complemento, a
informação de que, com origem na edição da Bula Quo Primo Tempore – “Desde os Primeiros Momentos” - de Pio V (Antonio
Michele Ghislieri), consoante às orientações do Concílio de Trento, tinha curso a Missa no Rito Romano ou
Missa Tridentina, celebrada em Latim, com o sacerdote de costas para os fiéis,
tendo, pois, perdurado de 1570
a 1962, procedente do Breve de São Pio, há pouco
mencionado, isto é, até a segunda edição da grande Assembleia Vaticana (o
Concílio Ecumêmico Vaticano I se deu de 8 de dezembro de 1869 a 18 do mesmo mês
de 1870).
Em
adição, também, cumpre exprimir o fato de que, ainda hoje, em várias paróquias
anglicanas da Grã-Bretanha – onde a Igreja foi separada (não fundada, como se
diz, erroneamente) por Henrique VIII - o Sacrifício da Missa é oficiado em
código linguístico do Lácio, de acordo com os lineamentos do Concílio de Trento
(Tirol italiano), realizado de 1545 a 1563, sem obediência ao rito missiológico editado por Paulo VI.
Ao
vigorante Domingo da Oitava, também, se chama, nomeadamente noutros países e em
línguas correspondentes, Domingo da Pascoela, ou Pequena Páscoa (do Aramaico pashã = passagem), como prolongamento da
Ressurreição, até derivar no dia de Pentecostes.
Interessante
(e curiosa, também) é a antiga denominação de Domingo Quasímodo, expressão de emprego anterior ao Decreto Pontifical de
1969, radicada – coerentemente, é bom
exprimir - no introito da Celebração Eucarística da Misericórdia, configurada
na antífona do Salmo 117, ao evocar a Ressurreição de Jesus, conforme
comentarei mais à frente.
A dicção
“Domingo da Divina Misericórdia” alude
à compaixão de Cristo a São Tomé, o Dídimo (do Grego = gêmeo), o qual, mesmo sem crer ao não ver, foi por Jesus perdoado. O
vocábulo “misericórdia” procede do Latim miser
+ cordis, isto é, mísero (em
estado lastimoso, indigente, digno de penúria) + coração. (CUNHA, A. Geraldo da. Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa. 2. ed. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1997) .
Como se sabe, esse Apóstolo não acreditou, ab initio, na Ressurreição, dEla só
ficando convencido quando o Mestre apareceu outra vez e lhe mostrou nas mãos os
sinais abertos, segurou-lhe as mãos e introduziu os dedos de São Tomé na injúria
dos pregos. O Dídimo seguiu, arrependido e contrito, a pregar o Evangelho aos
Partos, povo de procedência indo-europeia, e na Índia. Ele foi martirizado em
Calamina (hoje Mylapore), perto de Madras (atual Chennai, capital do Estado indiano
de Tamil Nadu, quarta cidade do País, com cerca de 6 milhões de habitantes).
No decurso da história, São Tomé Gêmeo é o
protótipo dos que somente creem em algo após terem isto examinado de alguma
maneira, como ele pegou, a instâncias de Jesus, as feridas do Cristo. Teve, entretanto,
vida de santo por demais intensa e miraculosa, havendo sido, talvez, o único
dos doze discípulos de Jesus a assistir à Assunção de Maria Santíssima.
O dia de São Tomé, ou São Tomás (nome
procedente dos arameus), é festejado em 21 de dezembro, venerado que é o
(ainda) inexplicado Gêmeo nos países católicos do Ocidente, bem assim no
Oriente, máxime na Índia e na Síria, também lugares onde operou prodígios
Retorno
ao introito do Salmo 117 – que concedeu nome ao Domingo Quasímodo - proferido na Missa da Oitava, principiado com a frase: QUASI MODO geniti infantis, racionabile,
sine dolo lac concupiscites ut in eo crescatis in salutem. Em tradução
livre, significa: Tal como (ou “ao modo de”)crianças
recém-nascidas, desejai o leite espiritual puro, para que, por ele, possais
crescer para a salvação. (I Pe - 2,2).
(1) Penso que, entre outros pretextos de natureza
circunstancial, tenha representado peso na mudança o fato de o adjetivo
QUASÍMODO haver restado mais conhecido e popularizado na acepção de monstrengo, de pessoa quasimodal, consoante a personagem
Quasímodo, do celebrado romance do escritor Vitor Hugo, Nossa Senhora de Paris, editado em 1881. Esse protagonista, feio e
corcunda, sineiro da Catedral de Nossa Senhora, na Capital francesa, fora abandonado,
consoante o enredo do Escritor, ainda criança, em um domingo de Páscoa, e
adotado pelo arquidiácono, da inventiva de Vitor Maria Hugo, na Sé de Paris,
chamado Claudio Follo.
(2) Os dados conferidos para este texto
procedem de informações de domínio público.
(3) Vianney Mesquita é professor da U.F.C.,
escritor e jornalista. Da Academia Cearense da Língua Portuguesa e Academia
Cearense de Literatura e Jornalismo.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015
A Poesia de Evan Bessa - por Giselda Medeiros
O Tempo e a Vida na Poesia de Evan
Bessa
A poesia, na concepção de Octavio
Paz, é o pão dos eleitos. Convite à
viagem; (...). Súplica ao vazio, diálogo com a ausência; é alimentada pelo
tédio, pela angústia e pelo desespero. Oração, litania, epifania, presença.
Partindo destas considerações, que
se coadunam com o que encontramos na poesia de Evan Bessa, temos a imensa
satisfação de apresentar-vos A Vida nas
Asas do Tempo, trazendo-nos a palavra percuciente das escritoras Zinah
Aexandrino (nas orelhas), Leda Costa Lima (no prefácio) e Francinete Azevedo
(na 4ª. capa).
A escritora Evan Bessa, já
amplamente consagrada no mundo da literatura infantil, com 8 livros publicados,
chega-nos com mais uma obra, agora, debutando nas passarelas da poesia. E
chega-nos com classe, pisando bem, como quem já conhece os atalhos e desvãos
desta tão instigante passarela.
O tempo, em sua inexorabilidade, a
vida e o homem, com seus dramas existenciais, são a matéria-prima, com a qual
Evan Bessa constrói seu edifício poético. Quatro pilares o sustentam: “Os
Mistérios do Homem, das Águas e do Mar”; “A Vida nas Asas do Tempo”; “Caminhos
e Descaminhos do Amor” e “O Mundo, seus Encantos e Desencantos”, todos esses pilares
argamassados com a cal das emoções, as areias da saudade e as águas da
esperança.
Logo no primeiro poema, intitulado
“Mistério”, já se visualizam, no eu-lírico, os conflitos, a grande agonia do
homem por desconhecer-se, sendo levado, por isso, a questionamentos ontológicos
diante dos mistérios que nos circundam. Vejamos:
“O homem, esse
ser finito,
de infinitas
incoerências,
se perde a todo
momento
na busca de
sonhos ilusórios.
Na ânsia de
superação,
vive em eterno
conflito.
Não se acha, não
se conhece
e não entende o
mistério.
E sabe a Autora que a existência é
uma brutal condenação do homem a um permanente confronto com as cousas
inevitáveis, sendo necessário, portanto, um permanente estado de vigilância. Sabe,
também, que, para se poder desfrutar a existência em toda a sua plenitude, faz-se
mister a busca de novos mundos, ou seja, procurar alcançar a transcendência, o
que vai fazer do homem um projeto infinito, dentro de sua finitude. Então, a
poetisa desabafa, no poema “Espera” (p. 25):
“Amargam em mim a
dor e o cansaço
vencidos pela
espera
de quem não sabe
desvendar mistérios
do mar nem do
barco que espera.”
Mais adiante, no poema “Preciso de Você”
(p.26), através de uma metáfora e de uma símile bem construídas, ela afirma:
“(...) a vida é um redemoinho / e a felicidade é como uma névoa que passa”. Atentemos
para os morfemas “redemoinho” e “névoa” que carregam toda uma carga semântica,
imagística e significativamente, simbólica. “Redemoinho” converge à dor,
insegurança, aflição, sofrimento e morte, tudo o que é, pois, inerente à vida.
E “névoa” nos remete a uma visão serena, embora impalpável, fugidia, ambígua. E,
consolidada na expressão “que passa”, usada pela poetisa, cristaliza a
efemeridade dos momentos felizes e da própria vida.
O título do livro, A Vida nas Asas do Tempo, já pretende
justificar, metaforicamente, a brevidade da vida ante a velocidade do tempo com
suas lépidas asas. No poema “O Barco” (p.37), Evan Bessa fortalece ainda mais essa
relação tempo/vida/homem, contida nos versos “O barco parte do cais, / levando
meus desenganos, /... /”, quando transpõe a fragilidade da vida e do homem
exposto à voragem vertiginosa do tempo para o morfema “barco”. Desse modo, a
vida é o barco que soçobra sobre ondas, açoitado por ventos, muitas vezes, danosos.
É esta metáfora do barco em sua navegação que explica, poética e
filosoficamente, o fenômeno da existência: todos vamos neste barco, que é a
vida, navegando ao rigor do tempo, rumo ao porto final que nos espera a todos,
indistinta e inapelavelmente. Evan dá testemunho disso, quando diz nestes
versos:
“Em que águas
mais transparentes
desembarcou essa
barca
que até a deusa
dos mares
fez festa no
desembarque?”
Depois, lá na página 47, ela
conclui, no poema “Indagação”:
“Tudo se acaba
simplesmente.
A vida, o homem,
a matéria.
E somente o
espírito paira sobre o Universo.”
Contudo, mais adiante, ela ressalva,
no poema “Borboleta” (p.48): “Eterno é o fato de poder amar”, passando-nos a
lição de que é, verdadeiramente, o amor, em sua plenitude, a célula propulsora
da eternidade.
O poema “Sombra” (p.64), embora pequeno
na forma, agiganta-se pela densidade lírica que carrega. Vejamo-lo:
“No beco da
saudade,
encontrei tua
sombra
refletida no
espelho
da ilusão.
Parei...
Voltei no tempo
e chorei.”
Também, o social, com seu apelo
dramático, faz parte da lira de Evan Bessa. Com a mesma segurança com que
trabalha a saudade, o amor, a solidão, o metafisicismo, os temas religiosos e
familiares, a poetisa denuncia as grandes injustiças sociais, a violência, a
discriminação. Constatemo-lo com estes versos do poema “Sonho” (p.94):
“Hoje, li nos
jornais notícias devastadoras,
de violência,
sequestro, fome e morte.
O homem refém de
sua própria sorte
sem rumo, sem
prumo, sem norte.”
Em síntese, Evan Bessa, a exemplo de
todo criador, procura trabalhar sua palavra como forma de libertação, como
alimento necessário, como maneira de superar as dores e angústias existenciais,
como uma procura incessante de paz e harmonia. E nós, os outros, com nossas
diferenças, por certo, haveremos de chegar ao consenso de que a palavra é, na
realidade, a nossa principal ferramenta para a compreensão do mundo e dos
seres. E é com ela, a palavra, como assevera Nietzsche, que o homem dança sobre
todas as coisas.
Portanto, Evan, só temos aplausos para
você e para sua poesia, que nos chega como “oração, litania, epifania,
presença”. E, diante deste evento inaugural, “não há melhor resposta que o
espetáculo da vida: / vê-la desfiar seu fio, / que também se chama vida, / ver
a fábrica que ela mesma, / teimosamente, se fabrica, / vê-la brotar como há
pouco / em nossa vida explodida”.
12/8/2008
Giselda Medeiros. Nasceu em Prata
(Acaraú-CE). Graduada em
Letras. Professora de Língua Portuguesa e Literatura
Brasileira. Membro de várias entidades literárias, dentre as quais, Academia
Cearense de Letras, Academia Cearense da Língua Portuguesa, Academia de Letras
e Artes do Nordeste Brasileiro, Sociedade Amigas do Livro, Associação de
Jornalistas e Escritoras do Brasil, da qual foi Presidente Nacional
(2002/2006). Ostenta o título de Princesa dos Poetas do Ceará. Obras
publicadas: POESIA: Alma Liberta (1986), Transparências (1989), Cantos
Circunstanciais (1996), Tempo
das Esperas (2000) e Ânfora de Sol. PROSA: Sob
Eros e Thanatos (2002) e Crítica Reunida (2007). Detém vários
prêmios, dentre eles, “Prêmio Osmundo Pontes de Literatura – Poesia” (1999),
“II Prêmio Ceará de Literatura” (1995), “Prêmio Henriqueta Lisboa” (MG, 2003) e
Prêmio Lúcia Fernandes Martins de Poesia (2008).
domingo, 25 de maio de 2014
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
OS SALMOS: A ANATOMIA DA ALMA HUMANA
03/02/2014
Os salmos constituem uma das formas mais altas de
oração que a humanidade produziu. Milhões e milhões de pessoas, judeus,
cristãos e religiosos de todas as tradições, dia a dia, recitam e cantam
salmos, especialmente os religiosos e religiosas e os padres no assim chamado
“ofício das horas” diário.
Não sabemos exatamente quem seus autores, pois eles recolhem
as orações que circulavam no meio do povo. Seguramente muitos são de Davi
(século X a.C.). É considerado, por
excelência, o protótipo do salmista. Foi pastor, guerreiro, profeta, poeta,
músico, rei e profundamente religioso. Conquistou o Monte Sion dentro de
Jerusalém e lá, ao redor da Arca da Aliança, organizou o culto e introduziu os
salmos.
Quando se diz “salmo de Davi” na maioria das vezes
significa: “salmo feito no estilo de Davi”. Os salmos surgiram no arco de quase
mil anos, nos lugares de culto e recitados pelo povo até serem recopilados na
época dos Macabeus no século II.a.C. O saltério é um microcosmo histórico,
semelhante a uma catedral da Idade Média, construída durante séculos, por
gerações e gerações, por milhares de mãos e incorporando as mudanças de estilo
arquitetônico das várias épocas. Assim há salmos que revelam diferentes
concepções de Deus, próprias de certa época, como aqueles, estranhas para nós,
que expressam o desejo de vingança e o juízo implacável de Deus.
Os salmos testemunham a profunda convicção de que Deus, não
obstante habitar numa luz inacessível, está em nosso meio, morando como que numa tenda
(shekinah). Podemos chegar a Ele, em súplicas, lamentações, louvores e ações de
graças. Ele está sempre pronto para escutar.
O lugar denso de sua presença é o Templo onde se cantam os
salmos. Mas como Criador do céu e da terra, está igualmente em todos os
lugares, embora nenhum possa contê-lo.
Com razão, se orgulhavam os hebreus dizendo: “ninguém tem um
Deus tão próximo como nós”! Próximo de cada um e no meio de seu povo. Os salmos
revelam a consciência da proximidade divina e do amparo consolador. Por isso há
neles intimidade pessoal sem cair no intimismo individualista. Há oração
coletiva sem destituir a experiência pessoal. Uma dimensão reforça a outra,
pois cada uma é verdadeira: não há pessoas sem o povo no qual estão inseridas e
não há povo sem pessoas livres que o formam.
Ao rezar os salmos, encontramos neles a nossa radiografia
espiritual, pessoal e coletiva. Neles identificamos nossos estados de
ânimo: desespero e alegria, medo e confiança, luto e dança, vontade de
vingança e desejo de perdão, interioridade e fascinação pela grandeza do
céu estrelado. Bem o expressou o reformador João Calvino (1509-1564) no prefácio
de seu grandioso comentário aos salmos:
“Costumo definir este livro como uma anatomia de todas as
partes da alma, porque não há sentimento no ser humano que não esteja aí
representado como num espelho. Diria que o Espírito Santo colocou ali, ao vivo,
todas as dores, todas as tristezas, todos os temores, todas as dúvidas, todas
as esperanças, todas as preocupações, todas as perplexidades até as emoções
mais confusas que agitam habitualmente o espírito humano”.
Pelo fato de revelarem nossa autobiografia espiritual, os
salmos representam a palavra do ser humano a Deus e, ao mesmo tempo, a
palavra de Deus ao ser humano. O saltério serviu sempre como livro de
consolação e fonte secreta de sentido, especialmente quando irrompe na
humanidade o desamparo, a perseguição, a injustiça e a ameaça de morte. O
filósofo francês Henri Bergson (1859-1941) deu este insuspeitado testemunho: “Das
centenas de livros que li nenhum me trouxe tanta luz e conforto quanto estes
poucos versos do salmo 23: O Senhor é meu pastor e nada me falta; ainda que
ande por um vale tenebroso, não temo mal nenhum, porque Tu estás comigo”.
Um judeu, por exemplo, cercado de filhos, era empurrado,
para as câmaras de gás em Auschwitz. Ele sabia que caminhava para o extermínio.
Mesmo assim, ia recitando alto o salmo 23: “O Senhor é meu pastor… Ainda que eu
ande pela sombra do vale da morte, nenhum mal temerei, porque Tu estás
comigo”. A morte não rompe a comunhão com Deus. É passagem, mesmo dolorosa,
para o grande abraço infinito da paz eterna.
Por fim, os salmos são poesias religiosas e místicas da mais
alta expressão. Como toda poesia, recriam a realidade com metáforas e imagens
tiradas do imaginário. Este obedece a uma lógica própria, diferente daquela da
racionalidade. Pelo imaginário, transfiguramos situações e fatos detectando
neles sentidos ocultos e mensagens divinas. Por isso dizemos que não só
habitamos prosaicamente o mundo, colhendo o sentido manifesto do desenrolar
rotineiro dos acontecimentos. Habitamos também poeticamente o mundo, vendo o
outro lado das coisas e um outro mundo dentro do mundo de beleza e de
encantamento.
Os salmos nos ensinam a habitar poeticamente a realidade.
Então ela se transmuta num grande sacramento de Deus, cheia de sabedoria, de
admoestações e de lições que tornam mais seguro nosso peregrinar rumo à Fonte.
Como bem diz o salmista: “quando caminho entre perigos, tu me conservas a vida…
e estás até o fim a meu favor” (Salmo 138, 7-8).
Leonardo Boff é autor
de O Senhor é meu Pastor: consolo divino para o desamparo humano,
Vozes 2013.
(in: leonardoboff.com)
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
AJEBIANA ROSA FIRMO FAZ APRECIAÇÃO SOBRE LIVRO DE NIRVANDA MEDEIROS
Minha cara Nirvanda,
Quando adquiro um livro meu desejo é ler de imediato, leio o prefácio, a
apresentação e me empolgo para desbravar o texto.
Como
presente de Natal recebi alguns livros, inclusive o seu, “Vivenciando Passos –
Um caminho construído com amor”. A
temática logo me chamou a atenção e o contexto em que se passava a história,
pois, o mar e sertão se fundem em mim.
Para deleite enquanto degusto a leitura de um livro, costumeiramente
faço minhas anotações. Com seu livro não foi diferente, após a conclusão da
leitura e minha apreciação produzi este texto.
Sempre
observei como são nítidas as diferenças entre o litoral e o sertão, no entanto,
em termos econômicos e sociais não fogem às semelhança em relação ao processo
do desenvolvimento, tudo foi acontecendo lentamente em ambos, enquanto isso
homens de coragem e fé como os personagens “Joaquim e Felismina" como você
destaca; estes foram os desbravadores, os construtores do progresso em décadas
passadas no litoral de Camocim. Assim também aconteceu em outras regiões do
Ceará, muitos personagens transformaram paisagens áridas, fizeram histórias
análogas a sua.
Os
personagens moradores do “Lugarejo,” esse paraíso que você descreve, mesmo
pobre economicamente, mas de uma nobreza singular, literalmente rica de
qualidades e valores morais e espirituais mostra quanto o homem de fé é
criativo e capaz de transformar e dar rumos à história.
A
natureza exuberante do “Lugarejo”, cenário em que você coloca os personagens
representados por pessoas simples, desprovidas de bens materiais, porém sábias
para lidar com as riquezas do mar, do mangue, enfim, tudo que o litoral oferece
para sobrevivência, faz-nos reportar à Pasárgada de Manoel Bandeira. E isso
impulsiona o leitor questionar que existia um paraíso perdido, e este lugarejo
constitui-se, porém não somente de belezas naturais, bem como de personagens
vivos espiritualizados, corajosos que sobreviveram com as dificuldades com
determinação.
Ao
longo da narrativa você tece numa linguagem singela, o perfil de uma família
equilibrada, personagens que são modelo de inúmeras famílias nordestinas, sejam
elas sertanejas ou litorâneas, que percorreram caminhos espinhosos, enfrentaram
perdas e ganhos, porem com fé e coragem conquistarem seus ideais; especialmente
granjearam uma melhor condição para seus filhos. Assim se constitui a nossa
história, que por vezes somos personagens e autores ao mesmo tempo.
Providencialmente, vale ressaltar que suas memórias revelam a sua
essência, são retalhos do passado que saltam de suas entranhas como
reminiscências de um passado cheio de sentimentos bons, de felicidade.
As
mensagens entremeadas ao longo do texto romanceado mesmo fugindo o roteiro, representa
seu perfil de educadora, que deseja repassar para o leitor reflexões e lições
de vida.
Parabéns, Nirvanda, por mais um legado para as
novas gerações.
Rosa Firmo
domingo, 15 de setembro de 2013
UM OLHAR SOBRE "MOSAICOS", DE THEREZA LEITE - GISELDA MEDEIROS
Hölderlin nos assevera que é somente na profundeza do
sofrimento que ressoa em nós o canto vital do mundo.
Constatamos a veracidade de tal
assertiva, após a leitura de Mosaicos (Fortaleza, Expressão Gráfica e Editora, 2003), livro
de estréia de Maria Thereza Leite, no qual podemos visualizar, através da
intimidade da autora com a ficção, o drama visceral de suas personagens na
espantosa relação com o seu meio e com o social. Seu poder criacional emerge de
cada página, de cada conto lido, em que a grande solidão humana é o fio que
tece a túnica de suas personagens, da mesma maneira que é ela, a solidão, que,
ao se desprender do papel, em sua abissal existência, vem buscar o aconchego do
leitor, tal é a interação autora/leitor, para juntos entoarem seu canto vital.
Neste livro, vislumbramos uma
narradora fluente, conhecedora dos meandros da estrutura ficcional, aquela que,
penetrando numa atmosfera, por vezes irreal, é capaz de convencer seu leitor de
que as situações (por mais insólitas que sejam) vividas pelas personagens são
de incontestável plausibilidade.
A precisão com que
define as personagens, o detalhe, a narração vigorosa apresentam-se-nos sob
aquele tom tchekoveano que, indubitavelmente, é a arma principal para a
detonação do conflito.
O conto “Mosaicos”, que intitula o
livro, é, em nosso ver, o que mais condensa aquela atmosfera de ansiedade, face
à luta que Ana trava com a morte: Ana sabia desde pequena, do que
entreouvira entre sussurros e passamentos da mãe – a sua morte era esperada
muito cedo. /.../ Mas intuía que, se aquela doença nervosa mostrava-se
em ataques súbitos e rápidos, ela teria todo o resto do tempo – os momentos
intercalados – para viver.
Thereza Leite também trabalha,
nessa sua obra, o drama social deste terceiro milênio, em que, frente aos
avanços da tecnologia, o homem se debate angustiado ante violência, às drogas, à marginalização que o
levam para outros caminhos: a homossexualidade, a loucura, o adultério e o
suicídio.
Vejamos o destino de Jairo,
personagem do conto “O ‘olho da libélula’”: Atrevera-se a olhar o cenário,
percebendo as marcas das balas no muro. /.../ Poucos muros brancos. Muros
desenhados a limo./.../ Muros de lixo. /.../ Muros gravados à bala./.../
Respiro fundo, e o vejo sobre a mesa fria, pela última vez. Inerte. O olhar no
vazio. E brado meu mais alto gemido, como se fosse para um filho meu, nesta
sala de silêncio: - Logo você, Jairo! Logo você! Ou o drama interior de Jorge, em “A ave de
palha”: Faz tempo que elas vivem nessa simbiose. /.../ Elas pensam que eu
não percebo! Quanto a mim não sei explicar. Fui deixando como estava. /.../
Temos um outro triângulo, bem mais difícil de ser aceito: duas mulheres amigas,
um homem, e a promessa de um recém nascido. E ainda o conflituoso mundo
d’“O colecionador de vitrines”, a debater-se entre a sua realidade e o
preconceito social, até a sua opção de lançar-se “ao espaço, com a dignidade e a beleza de um
trapezista”: /.../ quando, à noite, uma insônia sem cura vinha perturbar o
seu sono, era o nome de Pedro que repetia bem baixo. Não havia como fugir à
sentença: os sons, os cheiros e os toques, ao povoarem a sua meninice, haviam
deixado um chão marcado de fortes lembranças, para sempre. E também o
delírio de Vicência, no conto “Um varal novo para ‘o inverno’”, em seu afã de
fazer bonecas, muitas bonecas “escuras e claras – iguais às moças dos retratos
encontrados no armário do quarto de despejo”, entre os pertences do marido
ausente: Compridos alfinetes, com a cabeça de bolinha colorida, espetavam o
peito dos bonecos de calça azul, prendendo as camisas de xadrez em inúmeros
pontos, como se fossem botões. Mas havia alfinetes desnecessários... Alguns,
espetados nas costas.
São assim, engenhosos, os
contos de Thereza Leite, em que a descrição, dentro de uma linguagem elegante,
serve não só de pano de fundo à ação de suas personagens que, de tão
impregnadas à paisagem descrita, chegam a confundir-se de tal modo que ela, a
paisagem, toma a ação das personagens, fundindo-se ambas num cenário ativo e
perquiridor. Vejamos este trecho de “A Angústia das Árvores do Parque”: Como
para me consolar, os oitis, pesados de frondoso verde, entrelaçados, me olharam
com olhos acolhedores. Os algarobos, com suas folhas encharcadas, traziam
pingos de lágrimas, nas pontas das suas folhas.
Poderíamos continuar, sem
nenhum sinal de canseira, a desbravar os caminhos da escritura de Thereza
Leite, se não fora a delimitação do espaço que nos cerceia uma visão mais
alongada desse universo rico e permeado de inusitados pousos, onde poderíamos
ancorar nosso olhar e descobrir paisagens magníficas, em que a dor e a solidão
humanas, longe de despertarem medos, nos entoariam seu canto harmonioso e
vital, pois é, nesses instantes, que nos descobrimos gente.
Que venham, pois, mais e mais Mosaicos,
trabalhados pela exímia mão dessa artesã da palavra que é Thereza Leite, para
enfeitarem nosso chão de pequenos peixes coloridos, estrelas do mar num
amarelo radiante, sóis alaranjados, verdes pujantes, tiras de céu infinito.
GISELDA MEDEIROS
domingo, 7 de julho de 2013
100 DICAS DE LEITURA - REVISTA BRAVO
Quais são os 100 livros fundamentais, essenciais,
imperdíveis da literatura brasileira? Que romance, poesia, crônica ou conto
você não pode deixar de ler na vida? Dom Casmurro, Brás Cubas, Macunaíma,
Sargento de Milícias, Grande Sertão: Veredas e outras grandes obras do Brasil.
A revista Bravo selecionou os 100 melhores livros dos melhores autores do país.
Aqueles clássicos que caem no vestibular com 100% de certeza. Um ranking dos
livros mais importantes do Brasil. Veja a lista no final do texto ou siga as
dicas de 17 educadoras que selecionaram os livros essenciais para ler dos 2 aos
18 anos e chegar à vida adulta com boas referências, no hotsite Biblioteca Básica.
Especial: Dicas de Livros
Centenas de dicas de todos os gêneros literários, para você
e sua família!
Escritores costumam
ser, até por ofício, bons frasistas. É com essa habilidade em manejar palavras, afinal, que constroem
suas obras, e é em parte por causa dela que caem no esquecimento ou passam para
a história. Uma dessas frases, famosa, é de um dos autores que figuram nesta
edição, Monteiro Lobato: "Um país se faz com homens e livros". Quase
um século depois, a sentença é incômoda: o que fazer para fazer deste um Brasil
melhor? No que lhe cabe, a literatura ainda não deu totalmente as suas respostas.
Outro grande criador de frases, mais cínico na sua
genialidade, é o dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues, outro autor
representado nesta edição. Dizer que "toda unanimidade é burra" é muito mais que um dito
espirituoso: significa mesmo uma postura em relação às coisas do mundo e do
homem tão crucial quanto aquela do criador do Sítio do Picapau Amarelo.
É evidente que o ranking das 100 obras obrigatórias da
literatura brasileira feito nesta edição não encontrará unanimidade entre os
leitores. Alguns discordarão da ordem, outros eliminariam títulos ou
acrescentariam outros. E é bom que seja assim, é bom que haja o dissenso:
ficamos longe da burrice dos cânones dos velhos compêndios e da tradição
mumificada.
Embora tenha sua inevitável dose de subjetividade, a seleção
feita nesta edição, contudo, está longe de ser arbitrária. Os livros que, em
seus gêneros (romance, poesia, crônica, dramaturgia), ajudaram a construir a
identidade da literatura nacional não foram desprezados (na relação geral e na
ordem). Nem foram deixados de lado aqueles destacados pelas várias correntes da
crítica, muito menos os que a própria revista BRAVO!, na sua missão de divulgar
o que de melhor tem sido produzido na cultura brasileira, julgou merecer.
O resultado é um guia amplo, ao mesmo tempo informativo e
útil. Para o leitor dos livros de ontem e hoje, do consagrado e do que pode
apontar para o inovador. Não só para a literatura, mas também, como queria
Lobato, para os homens e para o país que ainda temos de construir. A seguir, os
100 livros essenciais da literatura brasileira, listados em ordem alfabética de
autor. Leia e divirta-se!
Adélia Prado: Bagagem
Aluísio Azevedo: O Cortiço
Álvares de Azevedo: Lira dos Vinte Anos
Noite na
Taverna
Antonio Callado: Quarup
Antônio de Alcântara Machado: Brás, Bexiga e Barra Funda
Ariano Suassuna: Romance d'A Pedra do Reino
Augusto de Campos: Viva Vaia
Augusto dos Anjos: Eu
Autran Dourado: Ópera dos Mortos
Basílio da Gama: O Uraguai
Bernando Élis: O Tronco
Bernando Guimarães: A Escrava Isaura
Caio Fernando Abreu: Morangos Mofados
Carlos Drummond de Andrade: A Rosa do Povo
Claro Enigma
Castro Alves: Os Escravos
Espumas Flutuantes
Cecília Meireles: Romanceiro da Inconfidência
Mar Absoluto
Clarice Lispector: A Paixão Segundo G.H.
Laços de
Família
Cruz e Souza: Broquéis
Dalton Trevisan: O Vampiro de Curitiba
Dias Gomes: O Pagador de Promessas
Dyonélio Machado: Os Ratos
Erico Verissimo: O Tempo e o Vento
Euclides da Cunha: Os Sertões
Fernando Gabeira: O que é Isso, Companheiro?
Fernando Sabino: O Encontro Marcado
Ferreira Gullar: Poema Sujo
Gonçalves Dias: I-Juca Pirama
Graça Aranha: Canaã
Graciliano Ramos: Vidas Secas
São Bernardo
Gregório de Matos: Obra Poética
Guimarães Rosa: O Grande Sertão: Veredas
Sagarana
Haroldo de Campos: Galáxias
Hilda Hilst: A Obscena Senhora D
Ignácio de Loyola Brandão: Zero
João Antônio: Malagueta, Perus e Bacanaço
João Cabral de Melo Neto: Morte e Vida Severina
João do Rio: A Alma Encantadora das Ruas
João Gilberto Noll: Harmada
João Simões Lopes Neto: Contos Gauchescos
João Ubaldo Ribeiro: Viva o Povo Brasileiro
Joaquim Manuel de Macedo: A Moreninha
Jorge Amado: Gabriela, Cravo e Canela
Terras do Sem Fim
Jorge de Lima: Invenção de Orfeu
José Cândido de Carvalho: O Coronel e o Lobisomen
José de Alencar: O Guarani
Lucíola
José J. Veiga: Os Cavalinhos de Platiplanto
José Lins do Rego: Fogo Morto
Lima Barreto: Triste Fim de Policarpo Quaresma
Lúcio Cardoso: Crônica da Casa Assassinada
Luis Fernando Verissimo: O Analista de Bagé
Luiz Vilela: Tremor de Terra
Lygia Fagundes Telles: As Meninas
Seminário dos Ratos
Machado de Assis: Memórias Póstumas de Brás Cubas
Dom
Casmurro
Manuel Antônio de Almeida: Memórias de um Sargento de
Milícias
Manuel Bandeira: Libertinagem
Estrela da
Manhã
Márcio Souza: Galvez, Imperador do Acre
Mário de Andrade: Macunaíma;
Paulicéia
Desvairada
Mário Faustino: o Homem e Sua Hora
Mário Quintana: Nova Antologia Poética
Marques Rebelo: A Estrela Sobe
Menotti Del Picchia: Juca Mulato
Monteiro Lobato: O Sítio do Pica-pau Amarelo
Murilo Mendes: As Metamorfoses
Murilo Rubião: O Ex-Mágico
Nelson Rodrigues:
Vestido de Noiva
A Vida Como
Ela É
Olavo Bilac: Poesias
Osman Lins: Avalovara
Oswald de Andrade: Serafim Ponte Grande
Memórias
Sentimentais de João Miramar
Otto Lara Resende: O Braço Direito
Padre Antônio Vieira: Sermões
Paulo Leminski: Catatau
Pedro Nava: Baú de Ossos
Plínio Marcos: Navalha de Carne
Rachel de Queiroz: O Quinze
Raduan Nassar: Lavoura Arcaica
Um Copo de
Cólera
Raul Pompéia: O Ateneu
Rubem Braga: 200 Crônicas Escolhidas
Rubem Fonseca: A Coleira do Cão
Sérgio Sant'Anna: A Senhorita Simpson
Stanislaw Ponte Preta: Febeapá
Tomás Antônio Gonzaga: Marília de Dirceu
Cartas Chilenas
Vinícius de Moraes: Nova Antologia Poética
Visconde de Taunay: Inocência
Texto Helio Ponciano
e Marcelo Pen
sábado, 16 de fevereiro de 2013
Parte da entrevista da revista PODER ao neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho
PODER: O que fazer para melhorar o cérebro ?
Resposta: Vc. tem de tratar do espírito. Precisa estar feliz, de bem com a vida, fazer exercício. Se está deprimido, reclamando de tudo, com a auto estima baixa, a primeira coisa que acontece é a memória ir embora; 90% das queixas de falta de memória são por depressão, desencanto, desestímulo. Para o cérebro funcionar melhor, você tem de ter alegria. Acordar de manhã e ter desejo de fazer alguma coisa, ter prazer no que está fazendo e ter a auto estima no ponto.
PODER: Cabeça tem a ver com alma?
PN: Eu acredito que a alma está na cabeça. Quando um doente está com morte cerebral, você tem a impressão de que ele já está sem alma... Isso não dá para explicar, o coração está batendo, mas ele não está mais vivo. Isto comprova que os sentimentos se originam no cérebro e não no coração.
PODER: Você acha que a vida moderna atrapalha?
PN: Não, eu acho a vida moderna uma maravilha. A vida na Idade Média era um horror. As pessoas morriam de doenças que hoje são banais de ser tratadas. O sofrimento era muito maior. As pessoas morriam em casa com dor. Hoje existem remédios fortíssimos, ninguém mais tem dor.
PODER: Existe algum inimigo do bom funcionamento do cérebro?
PN: Todo exagero.
Na bebida, nas drogas, na comida, no mau humor, nas reclamações da vida, nos sonhos, na arrogância,etc.
O cérebro tem de ser bem tratado como o corpo. Uma coisa depende da outra.
É muito difícil um cérebro muito bom num corpo muito maltratado, e vice-versa.
PODER: Qual a evolução que você imagina para a neurocirurgia?
PN: Até agora a gente trata das deformidades que a doença causa, mas acho que vamos entrar numa fase de reparação do funcionamento cerebral, cirurgia genética, que serão cirurgias com introdução de cateter, colocação de partículas de nanotecnologia, em que você vai entrar na célula, com partículas que carregam dentro delas um remédio que vai matar aquela célula doente que te faz infeliz. Daqui a 50 anos ninguém mais vai precisar abrir a cabeça.
PODER: Você acha que nós somos a última geração que vai envelhecer?
PN: Acho que vamos morrer igual, mas vamos envelhecer menos. As pessoas irão bem até morrer. É isso que a gente espera. Ninguém quer a decadência da velhice. Se você puder ir bem mentalmente ,com saúde e bom aspecto, até o dia da morte, será uma maravilha.
PODER: Hoje a gente lida com o tempo de uma forma completamente diferente. Você acha que isso muda o funcionamento cerebral das pessoas?
PN: O cérebro vai se adaptando aos estímulos que recebe, e às necessidades. Você vê pais reclamando que os filhos não saem da internet, mas eles têm de fazer isso porque o cérebro hoje vai funcionar nessa rapidez. Ele tem de entrar nesse clique, porque senão vai ficar para trás. Isso faz parte do mundo em que a gente vive e o cérebro vai correndo atrás, se adaptando.
Você acredita em Deus?
PN: Geralmente depois de dez horas de cirurgia, aquele estresse, aquela adrenalina toda, quando acabamos de operar, vamos até a família e dizemos:
"Ele está salvo".
Aí, a família olha pra você e diz:
"Graças a Deus!".
Então, a gente acredita que não fomos apenas nós, que existe algo mais, independente de religião.
Dr. Paulo Niemeyer Filho - Neurocirurgião .
Recentemente, devolveu ao Maestro João Carlos Martins os
movimentos no braço e mão esquerda através de cirurgia no
cérebro, uma experiência inédita e magnifica!.
Recentemente, devolveu ao Maestro João Carlos Martins os
movimentos no braço e mão esquerda através de cirurgia no
cérebro, uma experiência inédita e magnifica!.
domingo, 3 de fevereiro de 2013
COLABORAÇÃO DE HERMÍNIA LIMA
Que beleza de texto! REFLEXÃO ESTÉTICA SÉRIA E BEM HUMORADA. A leitura só reafirma o meu status de FÃ DO AUTOR:
AH, AS BERMUDAS!
Affonso Romano de Sant’Anna
Há muito venho observando as burmudas. Vivemos não apenas num triângulo mas num círculo vicioso de bermudas. Tenho várias bermudas. Isto me compromete. Estou envolvido no crime. No Natal (ou aniversário) as filhas insistem em me presentear com burmudas. Na última vez que isto aconteceu, troquei-as ( as burmudas, não as filhas) por camisas, aproventando o pretexto de que eram pequenas (as bermudas, claro).
Contra as bermudas, em geral, não tenho nada. Mas me pergunto: será que todo mundo deve usar bermudas? Pesquisei a respeito. Sei que se difundiram nos anos 90, que os surfistas é que as popularizaram. Dizem que essa roupa vem das ilhas Bermudas, onde era uma forma mais informal, arejada de se vestir e enfrentar o calor.
Até aí nada demais.
Mas como dizia meu pai-“tudo que é demais, é sobra”. E as bermudas invadiram nossa praia, nossas ruas, shoppings, cinemas e aeroportos. Estou nesta fila de banco: e horrorizado com o festival de bermudas à minha frente. Brancos, pretos, pardos, aposentados, porteiros, donas de casa num festival espantoso de mau gosto. E começo a ver aí uma questão sociológica, econômica e, irremissivelmente estética. Possivelmente a questão estética é que me levou às outras.
Por onde começar?
Sendo eu também (parcialmente) réu ou refém desta moda, tenho um certo conhecimento de causa ( ou calça?). Me parece que conseguiram nos iludir: vendem-nos bermudas que teem um ou dois terços de panos de uma calça, pelo preço da própria calça. Nisto a moda nos impingiu um paradoxo: compramos roupas remendadas e furadas por preços altíssimos, porque o lixo virou luxo.
Mas o ilusionismo que o modismo provoca é ainda mais sedutor: a gente vê aquele garotão de praia usando aquelas espantosas bermudas. Eles são sarados, teem o dorso olímpico, tatuagens rocambolescas nos músculos. São corpos padronizados, Neles pele, roupa e corpo se completam. Os anúncios, você sabe, botam os manequins em situação paradisíaca, ideal. Como na arte conceitual a gente compra o conceito.
Como diria a Bíblia, a bermuda foi feita para o homem, mas nem todo homem foi feito para a bermuda. Reparem na rua, na praia, nos aeroportos, cinemas, mercados, etc. Sobretudo no “etc”. Tem gente que não nasceu para usar bermuda. Por exemplo: os que teem aquela barriginha de bebedor de cerveja. E se o dono daquela barriga é pequeno, a situação se agrava, porque a lei áurea das proporções praticada por Leonardo da Vinci não funciona. Aquela barriguinha (ou barrigona avantajada) briga com o resto da estrutura. E surge essa questão física e metafísica: o que fazer das canelas finas? As burmudas colocaram à vista o ridículo das canelas finas que durante séculos escondemos. E a questão das canelas piora com o tipo de tenis que usamos. Os tenis merecem também uma tese universitária. Aí se estudaria a importação desse hábito dos EUA e teríamos que retomar aquela frase de ex-ministro Juracy Magalhães: “ o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. Será? E depois essa coisa assombrosa: cobram pelos tenis o mesmo preço dos sapatos. Quer dizer: a sociedade consumista faz da gente gato e sapato, quer dizer, gato e tênis e estamos levando gato por lebre.
Mas há ainda dois elementos que me chamam a atenção: a semelhança entre certas bermudas e a roupa dos palhaços. ( Espero não estar ofendendo ninguém, isto é apenas uma constatação semiótica, também uso bermudas). Na “teoria da carnavalização” estuda-se a introdução da idéia de transgressão na vestimenta ordinária. A roupa do palhaço é assim. As roupas carnavalescas são assim: uma inversão do cotidiano. E a moda, nos liberando de amarras, fez isto com a gente: saimos fantasiados, a fantasia virou rotina. As bernudas levaram isto ao máximo: listradas, cada perna de uma cor, enfim, um carnaval do baixo ventre para as canelas finas.
Houve um tempo (deprezível) em que cada classe social usava um tipo de roupa. Aí veio a democracia. Ótimo. Tudo ao alcance de todos. E aí instaurou-se a confusão. Eles continuam escolhendo por nós e nós achamos que estamos escolhendo
Estado de Minas/Correio Braziliense 3.02.2013
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