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sábado, 19 de janeiro de 2019

UMA HOMENAGEM PÓSTUMA AO POETA, CRONISTA E TROVADOR WALDIR RODRIGUES



A ILUSÃO DO ETERNO

Giselda Medeiros

               Qualquer pessoa, por menor que seja sua sensibilidade, não deixará de emocionar-se com a leitura de “A Ilusão do Eterno”, livro de crônicas do, também poeta, Waldir Rodrigues. Isso porque o autor deixa sua pena explorar o mundo fantástico de sua interioridade e, através de suas esplêndidas jazidas, permite-nos descobrir caminhos, pelos quais vamos, passo a passo, embrenhando-nos pelos labirintos de sua escritura elegante, leve, equilibrada em frases curtas, onde as ideias se fundem respaldadas em argumentos lúcidos. Por conseguinte, tudo no livro se multiplica em grãos de sensibilidade artística, em contínua amostragem analítica do conteúdo existencial do ser.
               Fernando Pessoa nos assevera: “A espantosa realidade das coisas é a sua descoberta de todos os dias”. E Waldir Rodrigues sabe que o ser humano é cúmplice dessa espantosa realidade. Por isso, procura (re)descobrir o cotidiano da vida, com sua palavra tecida na mais fina gaze poética que, como ele mesmo afirma, “é grande como o homem e eterna como Deus”.
               Suas crônicas revelam a perplexidade do homem ante a contradição de sua essência corpo/espírito, efemeridade/eternidade, niilismo/sublimidade. E é integrado a esses binômios que Waldir Rodrigues, em uma das mais emotivas crônicas do livro, “Rondó para o Meu Pai Morto”, assim divaga: “Na tua insólita viagem, deixaste um raio de luz no espaço azul da minha perplexidade. /.../ Evidentemente, tenho a impressão de que morreste antes de tua própria morte, porque ela tem, para mim, um conteúdo vazio e abstrato. Não sou poeta, mas um homem cheio de poemas a fazer”.
               São os temas universais, como o amor, a morte, a vida, a saudade, a solidão interior, a solidariedade, as angústias, a brevidade da vida que preenchem o espaço ilusório de sua eternidade. Há em suas crônicas uma fusão entre “a realidade espantosa das coisas” e o vigor saboroso de sua ficção, o que leva o leitor a manter um constante interesse pelo desenrolar da narrativa e, sobretudo, pelo seu desfecho, trazendo uma mensagem ora filosófica, ora levemente irônica e humorística.
               Podemos dizer que as crônicas de “A Ilusão do Eterno” trazem um aprendizado da vida, uma vez que o Autor se deixa materializar nelas, quer pela evocação de fatos relativos à sua infância, quer pelas reminiscências de pessoas que lhe povoaram a seara da existência, enclausurada em conflitos ontológicos. E é, exatamente, isso que nos comove, nos chama à sua escritura e nos deixa à vontade para, juntamente com ele, penetrar nos subterrâneos do tempo passado e, daí, compreender melhor o presente e poder contemplar um mundo futuro mais humano, mais solidário, onde “o sol viesse antes da aurora”, para assim nos bastarmos “apenas com a presença do amor, mesmo impossível...”, amor esse que nos conduziria a “mão, livre e solta, sem rédeas nem limites”, para escrevermos, enfim, a crônica de nossa vida, numa (re)invenção d’A Ilusão do Eterno.
               Ah! o senso metafísico de tudo aquilo que poderia ter sido e que não foi... E o papagaio colorido das minhas ilusões, preso ao frágil cordel da esperança...”
               Que belo, Waldir! Parabéns! 

(in: Crítica Reunida)

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

APRECIAÇÃO sobre o romance Hálito, de Gilda Freitas





 Romance Hálito 
 Rosa Firmo

O romance Hálito, de Gilda Freitas, acontece no cenário real da cidade de Carpina em Pernambuco, com narrativa na primeira pessoa.



O título, que aponta para um romance do gênero biográfico (monólogo), é chamativo e gera a expectativa de uma abordagem original e criativa do tema, capaz de fortalecer e engrandecer a personagem central da narrativa, lançando luz sobre essa história.

Trata-se de um monólogo em que o foco da protagonista Flora é a sua dor. Ela participa ativamente da sua história, reconta sob seu ponto de vista um drama refletindo sobre si própria com cenas fortes, tristes; de paixão e decepções, delírio e dores insalubres de enfraquecimento perante os arraigados preconceitos que dominaram seu destino.

Veja-se, por exemplo, esta passagem à p. 38: “Eu fui punida por ter nascido mulher, o que afetou profundamente os meus sentimentos e, por conta disso, eu me tornei uma pessoa sofrida, amada, odiada que chega hoje à sua idade outonal revoltada por não ter vivido o que gostaria de viver impedida pela família, pela igreja e por uma sociedade disfarçada...”.

Hálito, uma história bem urdida, pois Gilda domina a escritura com precisão e dá destaque às belas metáforas carregadas de sinestesias, dando sentido e sabor ao nosso paladar de leitor.

Louve-se a sua iniciativa e, sobretudo, a coragem de abordar temática tão complexa no formato de um gênero difícil como o romance e de se expor ao público, em meio ao qual pode encontrar entusiastas, mas também, seguramente, leitores críticos.

Em resumo, a autora alçou voo, e teve combustível – leia-se talento, inventiva, criatividade – para levar a termo com garbo a empreitada e deu um grande rumo a essa obra.

A piauiense Gilda Freitas, com suas perspectivas, vem contribuindo e engrandecendo a literatura cearense.

Merece destaque a apresentação gráfica bem cuidada e primorosa do livro, desde a capa até o formato de bolso.

Certamente, oxalá, um dia, possa ser reconhecido noutras esferas. Parabéns! Que Deus seja sempre a luz da sua inspiração!

 Praia de Iracema - 2018 

sábado, 11 de abril de 2015

12 de abril de 2015 - o Domingo da Misericórdia - por Vianney Mesquita



Informação Religiosa Católica – Antigo Domingo Quasímodo (1)

DOMINGO DA DIVINA MISERICÓRDIA, OITAVA OU PASCOELA (2)

Vianney Mesquita (3)

Perante a prova suprema – a da Morte – a fé dos apóstolos havia perigosamente oscilado. Para o homem, a Morte é o desabamento, é o vácuo, e no vácuo nada se reconstitui. Para Jesus Cristo, no entanto, Morte foi um princípio – morrera: era, pois, homem. Ressurgiu: é, por conseguinte, DEUS. (IGINO GIORDANI. * Tivoli, 25.09.1894; +Rocca di Papa, 18.04.1980).

 Hoje, 12 de abril de 2015, flui o Domingo da Misericórdia, coincidente com o derradeiro dia (o de número oito) da Oitava do Tempo Pascal, que perdura por sete semanas, desde o Domingo de Páscoa (ou da Ressurreição) – neste ano, 7 do quarto mês - ao Dia de Pentecoste, palavra significativa de cinquenta, pois perfará a cinquentena, em 14 de junho/15, contando-se desde a descida do Espírito Paráclito sobre os Apóstolos.
 Sob o ponto de vista histórico, é adequado, também, externar o fato de se haver definido outro ritual para a Missa, em 1969, ora vigente, a instâncias do Concílio Vaticano II, que pedira sua revisão, em ato promulgado pelo Sumo Pontífice Giovanni Battista Montini, restando conhecido como Missa de Paulo VI.
 Convém acrescentar, em complemento, a informação de que, com origem na edição da Bula Quo Primo Tempore – “Desde os Primeiros Momentos” - de Pio V (Antonio Michele Ghislieri), consoante às orientações do Concílio de Trento, tinha curso a Missa no Rito Romano ou Missa Tridentina, celebrada em Latim, com o sacerdote de costas para os fiéis, tendo, pois, perdurado de 1570 a 1962, procedente do Breve de São Pio, há pouco mencionado, isto é, até a segunda edição da grande Assembleia Vaticana (o Concílio Ecumêmico Vaticano I se deu de 8 de dezembro de 1869 a 18 do mesmo mês de 1870).
Em adição, também, cumpre exprimir o fato de que, ainda hoje, em várias paróquias anglicanas da Grã-Bretanha – onde a Igreja foi separada (não fundada, como se diz, erroneamente) por Henrique VIII - o Sacrifício da Missa é oficiado em código linguístico do Lácio, de acordo com os lineamentos do Concílio de Trento (Tirol italiano), realizado de 1545 a 1563, sem obediência ao rito missiológico editado por Paulo VI.
Ao vigorante Domingo da Oitava, também, se chama, nomeadamente noutros países e em línguas correspondentes, Domingo da Pascoela, ou Pequena Páscoa (do Aramaico pashã = passagem), como prolongamento da Ressurreição, até derivar no dia de Pentecostes.
Interessante (e curiosa, também) é a antiga denominação de Domingo Quasímodo, expressão de emprego anterior ao Decreto Pontifical de 1969, radicada – coerentemente, é bom exprimir - no introito da Celebração Eucarística da Misericórdia, configurada na antífona do Salmo 117, ao evocar a Ressurreição de Jesus, conforme comentarei mais à frente.
A dicção “Domingo da Divina Misericórdia” alude à compaixão de Cristo a São Tomé, o Dídimo (do Grego = gêmeo), o qual, mesmo sem crer ao não ver, foi por Jesus perdoado. O vocábulo “misericórdia” procede do Latim miser + cordis, isto é, mísero (em estado lastimoso, indigente, digno de penúria) + coração. (CUNHA, A. Geraldo da. Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997) .
  Como se sabe, esse Apóstolo não acreditou, ab initio, na Ressurreição, dEla só ficando convencido quando o Mestre apareceu outra vez e lhe mostrou nas mãos os sinais abertos, segurou-lhe as mãos e introduziu os dedos de São Tomé na injúria dos pregos. O Dídimo seguiu, arrependido e contrito, a pregar o Evangelho aos Partos, povo de procedência indo-europeia, e na Índia. Ele foi martirizado em Calamina (hoje Mylapore), perto de Madras (atual Chennai, capital do Estado indiano de Tamil Nadu, quarta cidade do País, com cerca de 6 milhões de habitantes).
 No decurso da história, São Tomé Gêmeo é o protótipo dos que somente creem em algo após terem isto examinado de alguma maneira, como ele pegou, a instâncias de Jesus, as feridas do Cristo. Teve, entretanto, vida de santo por demais intensa e miraculosa, havendo sido, talvez, o único dos doze discípulos de Jesus a assistir à Assunção de Maria Santíssima.
 O dia de São Tomé, ou São Tomás (nome procedente dos arameus), é festejado em 21 de dezembro, venerado que é o (ainda) inexplicado Gêmeo nos países católicos do Ocidente, bem assim no Oriente, máxime na Índia e na Síria, também lugares onde operou prodígios
Retorno ao introito do Salmo 117 – que concedeu nome ao Domingo Quasímodo - proferido na Missa da Oitava, principiado com a frase: QUASI MODO geniti infantis, racionabile, sine dolo lac concupiscites ut in eo crescatis in salutem. Em tradução livre, significa: Tal como (ou “ao modo de”)crianças recém-nascidas, desejai o leite espiritual puro, para que, por ele, possais crescer para a salvação. (I Pe - 2,2).

(1) Penso que, entre outros pretextos de natureza circunstancial, tenha representado peso na mudança o fato de o adjetivo QUASÍMODO haver restado mais conhecido e popularizado na acepção de monstrengo, de pessoa quasimodal, consoante a personagem Quasímodo, do celebrado romance do escritor Vitor Hugo, Nossa Senhora de Paris, editado em 1881. Esse protagonista, feio e corcunda, sineiro da Catedral de Nossa Senhora, na Capital francesa, fora abandonado, consoante o enredo do Escritor, ainda criança, em um domingo de Páscoa, e adotado pelo arquidiácono, da inventiva de Vitor Maria Hugo, na Sé de Paris, chamado Claudio Follo.
(2) Os dados conferidos para este texto procedem de informações de domínio público.

 (3) Vianney Mesquita é professor da U.F.C., escritor e jornalista. Da Academia Cearense da Língua Portuguesa e Academia Cearense de Literatura e Jornalismo. 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

A Poesia de Evan Bessa - por Giselda Medeiros


O Tempo e a Vida na Poesia de Evan Bessa

            A poesia, na concepção de Octavio Paz, é o pão dos eleitos. Convite à viagem; (...). Súplica ao vazio, diálogo com a ausência; é alimentada pelo tédio, pela angústia e pelo desespero. Oração, litania, epifania, presença.
            Partindo destas considerações, que se coadunam com o que encontramos na poesia de Evan Bessa, temos a imensa satisfação de apresentar-vos A Vida nas Asas do Tempo, trazendo-nos a palavra percuciente das escritoras Zinah Aexandrino (nas orelhas), Leda Costa Lima (no prefácio) e Francinete Azevedo (na 4ª. capa).
            A escritora Evan Bessa, já amplamente consagrada no mundo da literatura infantil, com 8 livros publicados, chega-nos com mais uma obra, agora, debutando nas passarelas da poesia. E chega-nos com classe, pisando bem, como quem já conhece os atalhos e desvãos desta tão instigante passarela.
            O tempo, em sua inexorabilidade, a vida e o homem, com seus dramas existenciais, são a matéria-prima, com a qual Evan Bessa constrói seu edifício poético. Quatro pilares o sustentam: “Os Mistérios do Homem, das Águas e do Mar”; “A Vida nas Asas do Tempo”; “Caminhos e Descaminhos do Amor” e “O Mundo, seus Encantos e Desencantos”, todos esses pilares argamassados com a cal das emoções, as areias da saudade e as águas da esperança.
            Logo no primeiro poema, intitulado “Mistério”, já se visualizam, no eu-lírico, os conflitos, a grande agonia do homem por desconhecer-se, sendo levado, por isso, a questionamentos ontológicos diante dos mistérios que nos circundam. Vejamos:
                              
           “O homem, esse ser finito,
            de infinitas incoerências,
            se perde a todo momento
            na busca de sonhos ilusórios.

            Na ânsia de superação,
            vive em eterno conflito.
            Não se acha, não se conhece
            e não entende o mistério.
           
            E sabe a Autora que a existência é uma brutal condenação do homem a um permanente confronto com as cousas inevitáveis, sendo necessário, portanto, um permanente estado de vigilância. Sabe, também, que, para se poder desfrutar a existência em toda a sua plenitude, faz-se mister a busca de novos mundos, ou seja, procurar alcançar a transcendência, o que vai fazer do homem um projeto infinito, dentro de sua finitude. Então, a poetisa desabafa, no poema “Espera” (p. 25):
                              
         “Amargam em mim a dor e o cansaço
          vencidos pela espera
          de quem não sabe desvendar mistérios
          do mar nem do barco que espera.”

            Mais adiante, no poema “Preciso de Você” (p.26), através de uma metáfora e de uma símile bem construídas, ela afirma: “(...) a vida é um redemoinho / e a felicidade é como uma névoa que passa”. Atentemos para os morfemas “redemoinho” e “névoa” que carregam toda uma carga semântica, imagística e significativamente, simbólica. “Redemoinho” converge à dor, insegurança, aflição, sofrimento e morte, tudo o que é, pois, inerente à vida. E “névoa” nos remete a uma visão serena, embora impalpável, fugidia, ambígua. E, consolidada na expressão “que passa”, usada pela poetisa, cristaliza a efemeridade dos momentos felizes e da própria vida.
            O título do livro, A Vida nas Asas do Tempo, já pretende justificar, metaforicamente, a brevidade da vida ante a velocidade do tempo com suas lépidas asas. No poema “O Barco” (p.37), Evan Bessa fortalece ainda mais essa relação tempo/vida/homem, contida nos versos “O barco parte do cais, / levando meus desenganos, /... /”, quando transpõe a fragilidade da vida e do homem exposto à voragem vertiginosa do tempo para o morfema “barco”. Desse modo, a vida é o barco que soçobra sobre ondas, açoitado por ventos, muitas vezes, danosos. É esta metáfora do barco em sua navegação que explica, poética e filosoficamente, o fenômeno da existência: todos vamos neste barco, que é a vida, navegando ao rigor do tempo, rumo ao porto final que nos espera a todos, indistinta e inapelavelmente. Evan dá testemunho disso, quando diz nestes versos:
                              
         “Em que águas mais transparentes
          desembarcou essa barca
          que até a deusa dos mares
          fez festa no desembarque?”

            Depois, lá na página 47, ela conclui, no poema “Indagação”:

          “Tudo se acaba simplesmente.
           A vida, o homem, a matéria.
           E somente o espírito paira sobre o Universo.”

            Contudo, mais adiante, ela ressalva, no poema “Borboleta” (p.48): “Eterno é o fato de poder amar”, passando-nos a lição de que é, verdadeiramente, o amor, em sua plenitude, a célula propulsora da eternidade.
            O poema “Sombra” (p.64), embora pequeno na forma, agiganta-se pela densidade lírica que carrega. Vejamo-lo:

              “No beco da saudade,
               encontrei tua sombra
               refletida no espelho
               da ilusão.

               Parei...
               Voltei no tempo
               e chorei.”

            Também, o social, com seu apelo dramático, faz parte da lira de Evan Bessa. Com a mesma segurança com que trabalha a saudade, o amor, a solidão, o metafisicismo, os temas religiosos e familiares, a poetisa denuncia as grandes injustiças sociais, a violência, a discriminação. Constatemo-lo com estes versos do poema “Sonho” (p.94):           
                               
             “Hoje, li nos jornais notícias devastadoras,
              de violência, sequestro, fome e morte.
              O homem refém de sua própria sorte
              sem rumo, sem prumo, sem norte.”
                
            Em síntese, Evan Bessa, a exemplo de todo criador, procura trabalhar sua palavra como forma de libertação, como alimento necessário, como maneira de superar as dores e angústias existenciais, como uma procura incessante de paz e harmonia. E nós, os outros, com nossas diferenças, por certo, haveremos de chegar ao consenso de que a palavra é, na realidade, a nossa principal ferramenta para a compreensão do mundo e dos seres. E é com ela, a palavra, como assevera Nietzsche, que o homem dança sobre todas as coisas.
            Portanto, Evan, só temos aplausos para você e para sua poesia, que nos chega como “oração, litania, epifania, presença”. E, diante deste evento inaugural, “não há melhor resposta que o espetáculo da vida: / vê-la desfiar seu fio, / que também se chama vida, / ver a fábrica que ela mesma, / teimosamente, se fabrica, / vê-la brotar como há pouco / em nossa vida explodida”.
12/8/2008 
                                     
                  
Giselda Medeiros. Nasceu em Prata (Acaraú-CE). Graduada em Letras. Professora de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. Membro de várias entidades literárias, dentre as quais, Academia Cearense de Letras, Academia Cearense da Língua Portuguesa, Academia de Letras e Artes do Nordeste Brasileiro, Sociedade Amigas do Livro, Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil, da qual foi Presidente Nacional (2002/2006). Ostenta o título de Princesa dos Poetas do Ceará. Obras publicadas: POESIA: Alma Liberta (1986), Transparências (1989), Cantos Circunstanciais (1996),  Tempo das Esperas (2000) e Ânfora de Sol. PROSA: Sob Eros e Thanatos (2002) e Crítica Reunida (2007). Detém vários prêmios, dentre eles, “Prêmio Osmundo Pontes de Literatura – Poesia” (1999), “II Prêmio Ceará de Literatura” (1995), “Prêmio Henriqueta Lisboa” (MG, 2003) e Prêmio Lúcia Fernandes Martins de Poesia (2008).        

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

OS SALMOS: A ANATOMIA DA ALMA HUMANA

03/02/2014

Os salmos constituem uma  das formas mais altas de oração que a humanidade produziu. Milhões e milhões de pessoas, judeus, cristãos e religiosos de todas as tradições, dia a dia, recitam e cantam salmos, especialmente os religiosos e religiosas e os padres no assim chamado “ofício das horas” diário.
Não sabemos exatamente quem seus autores, pois eles recolhem as orações que circulavam no  meio do povo. Seguramente muitos são de Davi (século X  a.C.). É considerado, por excelência, o protótipo do salmista. Foi pastor, guerreiro, profeta, poeta, músico, rei e profundamente religioso. Conquistou o Monte Sion dentro de Jerusalém e lá, ao redor da Arca da Aliança, organizou o culto e introduziu os salmos.
Quando se diz “salmo de Davi” na maioria das vezes significa: “salmo feito no estilo de Davi”. Os salmos surgiram no arco de quase mil anos, nos lugares de culto e recitados pelo povo até serem recopilados na época dos Macabeus no século II.a.C. O saltério é um microcosmo histórico, semelhante a uma catedral da Idade Média, construída durante séculos, por gerações e gerações, por milhares de mãos e incorporando as mudanças de estilo arquitetônico das várias épocas. Assim há salmos que revelam diferentes concepções de Deus, próprias de certa época, como aqueles, estranhas para nós, que expressam o desejo de vingança e o juízo implacável de Deus.
Os salmos testemunham a profunda convicção de que Deus, não obstante habitar numa luz inacessível, está  em nosso meio, morando como que numa tenda (shekinah). Podemos chegar a Ele, em súplicas, lamentações, louvores e ações de graças. Ele está sempre pronto para escutar.
O lugar denso de sua presença é o Templo onde se cantam os salmos. Mas como Criador do céu e da terra, está igualmente em todos os lugares, embora nenhum possa contê-lo.
Com razão, se orgulhavam os hebreus dizendo: “ninguém tem um Deus tão próximo como nós”! Próximo de cada um e no meio de seu povo. Os salmos revelam a consciência da proximidade divina e do amparo consolador. Por isso há neles intimidade pessoal sem cair no intimismo individualista. Há oração coletiva sem destituir a experiência pessoal. Uma dimensão reforça a outra, pois cada uma é verdadeira: não há pessoas sem o povo no qual estão inseridas e não há povo sem pessoas livres que o formam.
Ao rezar os salmos, encontramos neles a nossa radiografia espiritual, pessoal e coletiva. Neles identificamos nossos estados de ânimo:  desespero e alegria, medo e confiança, luto e dança, vontade de vingança e  desejo de perdão, interioridade e fascinação pela grandeza do céu estrelado. Bem o expressou o reformador João Calvino (1509-1564) no prefácio de seu grandioso comentário aos salmos:
“Costumo definir este livro como uma anatomia de todas as partes da alma, porque não há sentimento no ser humano que não esteja aí representado como num espelho. Diria que o Espírito Santo colocou ali, ao vivo, todas as dores, todas as tristezas, todos os temores, todas as dúvidas, todas as esperanças, todas as preocupações, todas as perplexidades até as emoções mais confusas que agitam habitualmente o espírito humano”.
Pelo fato de revelarem nossa autobiografia espiritual, os salmos representam a palavra do ser humano a  Deus e, ao mesmo tempo, a palavra de Deus ao ser humano. O saltério serviu sempre como  livro de consolação e fonte secreta de sentido, especialmente quando irrompe na humanidade o desamparo, a perseguição, a injustiça e a ameaça de morte. O filósofo francês Henri Bergson (1859-1941) deu este insuspeitado testemunho: “Das centenas de livros que li nenhum me trouxe tanta luz e conforto quanto estes poucos versos do salmo 23: O Senhor é meu pastor e nada me falta; ainda que ande por um vale tenebroso, não temo mal nenhum, porque Tu estás comigo”.
Um judeu, por exemplo, cercado de filhos, era empurrado, para as câmaras de gás em Auschwitz. Ele sabia que caminhava para o extermínio. Mesmo assim, ia recitando alto o salmo 23: “O Senhor é meu pastor… Ainda que eu ande pela sombra do  vale da morte, nenhum mal temerei, porque Tu estás comigo”. A morte não rompe a comunhão com Deus. É passagem, mesmo dolorosa, para o grande abraço infinito da paz eterna.
Por fim, os salmos são poesias religiosas e místicas da mais alta expressão. Como toda poesia, recriam a realidade com metáforas e imagens tiradas do imaginário. Este obedece a uma lógica própria, diferente daquela da racionalidade. Pelo imaginário, transfiguramos situações e fatos detectando neles sentidos ocultos e mensagens divinas. Por isso dizemos que não só habitamos prosaicamente o mundo, colhendo o sentido manifesto do desenrolar rotineiro dos acontecimentos. Habitamos também poeticamente o mundo, vendo o outro lado das coisas e um outro mundo dentro do mundo de beleza e de  encantamento.
Os salmos nos ensinam a habitar poeticamente a realidade. Então ela se transmuta num grande sacramento de Deus, cheia de sabedoria, de admoestações e de lições que tornam mais seguro nosso peregrinar rumo à Fonte. Como bem diz o salmista: “quando caminho entre perigos, tu me conservas a vida… e estás  até o fim a meu favor” (Salmo 138, 7-8).


Leonardo Boff é autor de  O Senhor é meu Pastor: consolo divino para o desamparo humano, Vozes 2013.

(in: leonardoboff.com)

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

AJEBIANA ROSA FIRMO FAZ APRECIAÇÃO SOBRE LIVRO DE NIRVANDA MEDEIROS

Minha cara Nirvanda,

     Quando adquiro um livro meu desejo é ler de imediato, leio o prefácio, a apresentação e me empolgo para desbravar o texto.
  Como presente de Natal recebi alguns livros, inclusive o seu, “Vivenciando Passos – Um caminho construído com amor”.  A temática logo me chamou a atenção e o contexto em que se passava a história, pois, o mar e sertão se fundem em mim.
        Para deleite enquanto degusto a leitura de um livro, costumeiramente faço minhas anotações. Com seu livro não foi diferente, após a conclusão da leitura e minha apreciação produzi este texto.
   Sempre observei como são nítidas as diferenças entre o litoral e o sertão, no entanto, em termos econômicos e sociais não fogem às semelhança em relação ao processo do desenvolvimento, tudo foi acontecendo lentamente em ambos, enquanto isso homens de coragem e fé como os personagens “Joaquim e Felismina" como você destaca; estes foram os desbravadores, os construtores do progresso em décadas passadas no litoral de Camocim. Assim também aconteceu em outras regiões do Ceará, muitos personagens transformaram paisagens áridas, fizeram histórias análogas a sua.
  Os personagens moradores do “Lugarejo,” esse paraíso que você descreve, mesmo pobre economicamente, mas de uma nobreza singular, literalmente rica de qualidades e valores morais e espirituais mostra quanto o homem de fé é criativo e capaz de transformar e dar rumos à história.
  A natureza exuberante do “Lugarejo”, cenário em que você coloca os personagens representados por pessoas simples, desprovidas de bens materiais, porém sábias para lidar com as riquezas do mar, do mangue, enfim, tudo que o litoral oferece para sobrevivência, faz-nos reportar à Pasárgada de Manoel Bandeira. E isso impulsiona o leitor questionar que existia um paraíso perdido, e este lugarejo constitui-se, porém não somente de belezas naturais, bem como de personagens vivos espiritualizados, corajosos que sobreviveram com as dificuldades com determinação.
    Ao longo da narrativa você tece numa linguagem singela, o perfil de uma família equilibrada, personagens que são modelo de inúmeras famílias nordestinas, sejam elas sertanejas ou litorâneas, que percorreram caminhos espinhosos, enfrentaram perdas e ganhos, porem com fé e coragem conquistarem seus ideais; especialmente granjearam uma melhor condição para seus filhos. Assim se constitui a nossa história, que por vezes somos personagens e autores ao mesmo tempo.
       Providencialmente, vale ressaltar que suas memórias revelam a sua essência, são retalhos do passado que saltam de suas entranhas como reminiscências de um passado cheio de sentimentos bons, de felicidade.
  As mensagens entremeadas ao longo do texto romanceado mesmo fugindo o roteiro, representa seu perfil de educadora, que deseja repassar para o leitor reflexões e lições de vida.
Parabéns, Nirvanda, por mais um legado para as novas gerações.

Rosa Firmo


domingo, 15 de setembro de 2013

UM OLHAR SOBRE "MOSAICOS", DE THEREZA LEITE - GISELDA MEDEIROS



              Hölderlin nos assevera que é somente na profundeza do sofrimento que ressoa em nós o canto vital do mundo.
              Constatamos a veracidade de tal assertiva, após a leitura de Mosaicos (Fortaleza,    Expressão Gráfica e Editora, 2003), livro de estréia de Maria Thereza Leite, no qual podemos visualizar, através da intimidade da autora com a ficção, o drama visceral de suas personagens na espantosa relação com o seu meio e com o social. Seu poder criacional emerge de cada página, de cada conto lido, em que a grande solidão humana é o fio que tece a túnica de suas personagens, da mesma maneira que é ela, a solidão, que, ao se desprender do papel, em sua abissal existência, vem buscar o aconchego do leitor, tal é a interação autora/leitor, para juntos entoarem seu canto vital.
              Neste livro, vislumbramos uma narradora fluente, conhecedora dos meandros da estrutura ficcional, aquela que, penetrando numa atmosfera, por vezes irreal, é capaz de convencer seu leitor de que as situações (por mais insólitas que sejam) vividas pelas personagens são de incontestável plausibilidade.
              A precisão com que define as personagens, o detalhe, a narração vigorosa apresentam-se-nos sob aquele tom tchekoveano que, indubitavelmente, é a arma principal para a detonação do conflito.
              O conto “Mosaicos”, que intitula o livro, é, em nosso ver, o que mais condensa aquela atmosfera de ansiedade, face à luta que Ana trava com a morte: Ana sabia desde pequena, do que entreouvira entre sussurros e passamentos da mãe – a sua morte era esperada muito cedo. /.../ Mas intuía que, se aquela doença nervosa mostrava-se em ataques súbitos e rápidos, ela teria todo o resto do tempo – os momentos intercalados – para viver.
              Thereza Leite também trabalha, nessa sua obra, o drama social deste terceiro milênio, em que, frente aos avanços da tecnologia, o homem se debate angustiado ante  violência, às drogas, à marginalização que o levam para outros caminhos: a homossexualidade, a loucura, o adultério e o suicídio.
              Vejamos o destino de Jairo, personagem do conto “O ‘olho da libélula’”: Atrevera-se a olhar o cenário, percebendo as marcas das balas no muro. /.../ Poucos muros brancos. Muros desenhados a limo./.../ Muros de lixo. /.../ Muros gravados à bala./.../ Respiro fundo, e o vejo sobre a mesa fria, pela última vez. Inerte. O olhar no vazio. E brado meu mais alto gemido, como se fosse para um filho meu, nesta sala de silêncio: - Logo você, Jairo! Logo você!  Ou o drama interior de Jorge, em “A ave de palha”: Faz tempo que elas vivem nessa simbiose. /.../ Elas pensam que eu não percebo! Quanto a mim não sei explicar. Fui deixando como estava. /.../ Temos um outro triângulo, bem mais difícil de ser aceito: duas mulheres amigas, um homem, e a promessa de um recém nascido. E ainda o conflituoso mundo d’“O colecionador de vitrines”, a debater-se entre a sua realidade e o preconceito social, até a sua opção de lançar-se  “ao espaço, com a dignidade e a beleza de um trapezista”: /.../ quando, à noite, uma insônia sem cura vinha perturbar o seu sono, era o nome de Pedro que repetia bem baixo. Não havia como fugir à sentença: os sons, os cheiros e os toques, ao povoarem a sua meninice, haviam deixado um chão marcado de fortes lembranças, para sempre. E também o delírio de Vicência, no conto “Um varal novo para ‘o inverno’”, em seu afã de fazer bonecas, muitas bonecas “escuras e claras – iguais às moças dos retratos encontrados no armário do quarto de despejo”, entre os pertences do marido ausente: Compridos alfinetes, com a cabeça de bolinha colorida, espetavam o peito dos bonecos de calça azul, prendendo as camisas de xadrez em inúmeros pontos, como se fossem botões. Mas havia alfinetes desnecessários... Alguns, espetados nas costas.
              São assim, engenhosos, os contos de Thereza Leite, em que a descrição, dentro de uma linguagem elegante, serve não só de pano de fundo à ação de suas personagens que, de tão impregnadas à paisagem descrita, chegam a confundir-se de tal modo que ela, a paisagem, toma a ação das personagens, fundindo-se ambas num cenário ativo e perquiridor. Vejamos este trecho de “A Angústia das Árvores do Parque”: Como para me consolar, os oitis, pesados de frondoso verde, entrelaçados, me olharam com olhos acolhedores. Os algarobos, com suas folhas encharcadas, traziam pingos de lágrimas, nas pontas das suas folhas.
              Poderíamos continuar, sem nenhum sinal de canseira, a desbravar os caminhos da escritura de Thereza Leite, se não fora a delimitação do espaço que nos cerceia uma visão mais alongada desse universo rico e permeado de inusitados pousos, onde poderíamos ancorar nosso olhar e descobrir paisagens magníficas, em que a dor e a solidão humanas, longe de despertarem medos, nos entoariam seu canto harmonioso e vital, pois é, nesses instantes, que nos descobrimos gente.  

              Que venham, pois, mais e mais Mosaicos, trabalhados pela exímia mão dessa artesã da palavra que é Thereza Leite, para enfeitarem nosso chão de pequenos peixes coloridos, estrelas do mar num amarelo radiante, sóis alaranjados, verdes pujantes, tiras de céu infinito. 
GISELDA MEDEIROS

domingo, 7 de julho de 2013

100 DICAS DE LEITURA - REVISTA BRAVO


Quais são os 100 livros fundamentais, essenciais, imperdíveis da literatura brasileira? Que romance, poesia, crônica ou conto você não pode deixar de ler na vida? Dom Casmurro, Brás Cubas, Macunaíma, Sargento de Milícias, Grande Sertão: Veredas e outras grandes obras do Brasil. A revista Bravo selecionou os 100 melhores livros dos melhores autores do país. Aqueles clássicos que caem no vestibular com 100% de certeza. Um ranking dos livros mais importantes do Brasil. Veja a lista no final do texto ou siga as dicas de 17 educadoras que selecionaram os livros essenciais para ler dos 2 aos 18 anos e chegar à vida adulta com boas referências, no hotsite Biblioteca Básica.

Especial:  Dicas de Livros

Centenas de dicas de todos os gêneros literários, para você e sua família!
 Escritores costumam ser, até por ofício, bons frasistas. É com essa habilidade  em manejar palavras, afinal, que constroem suas obras, e é em parte por causa dela que caem no esquecimento ou passam para a história. Uma dessas frases, famosa, é de um dos autores que figuram nesta edição, Monteiro Lobato: "Um país se faz com homens e livros". Quase um século depois, a sentença é incômoda: o que fazer para fazer deste um Brasil melhor? No que lhe cabe, a literatura ainda não deu totalmente as suas respostas.
Outro grande criador de frases, mais cínico na sua genialidade, é o dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues, outro autor representado nesta edição. Dizer que "toda unanimidade  é burra" é muito mais que um dito espirituoso: significa mesmo uma postura em relação às coisas do mundo e do homem tão crucial quanto aquela do criador do Sítio do Picapau Amarelo.
É evidente que o ranking das 100 obras obrigatórias da literatura brasileira feito nesta edição não encontrará unanimidade entre os leitores. Alguns discordarão da ordem, outros eliminariam títulos ou acrescentariam outros. E é bom que seja assim, é bom que haja o dissenso: ficamos longe da burrice dos cânones dos velhos compêndios e da tradição mumificada.
Embora tenha sua inevitável dose de subjetividade, a seleção feita nesta edição, contudo, está longe de ser arbitrária. Os livros que, em seus gêneros (romance, poesia, crônica, dramaturgia), ajudaram a construir a identidade da literatura nacional não foram desprezados (na relação geral e na ordem). Nem foram deixados de lado aqueles destacados pelas várias correntes da crítica, muito menos os que a própria revista BRAVO!, na sua missão de divulgar o que de melhor tem sido produzido na cultura brasileira, julgou merecer.
O resultado é um guia amplo, ao mesmo tempo informativo e útil. Para o leitor dos livros de ontem e hoje, do consagrado e do que pode apontar para o inovador. Não só para a literatura, mas também, como queria Lobato, para os homens e para o país que ainda temos de construir. A seguir, os 100 livros essenciais da literatura brasileira, listados em ordem alfabética de autor. Leia e divirta-se!

 Adélia Prado: Bagagem
Aluísio Azevedo: O Cortiço
Álvares de Azevedo: Lira dos Vinte Anos
                                 Noite na Taverna
Antonio Callado: Quarup
Antônio de Alcântara Machado: Brás, Bexiga e Barra Funda
Ariano Suassuna: Romance d'A Pedra do Reino
Augusto de Campos: Viva Vaia
Augusto dos Anjos: Eu
Autran Dourado: Ópera dos Mortos
Basílio da Gama: O Uraguai
Bernando Élis: O Tronco
Bernando Guimarães: A Escrava Isaura
Caio Fernando Abreu: Morangos Mofados
Carlos Drummond de Andrade: A Rosa do Povo
                                                 Claro Enigma
Castro Alves: Os Escravos
                      Espumas Flutuantes
Cecília Meireles: Romanceiro da Inconfidência
                          Mar Absoluto
Clarice Lispector: A Paixão Segundo G.H.
                            Laços de Família
Cruz e Souza: Broquéis
Dalton Trevisan: O Vampiro de Curitiba
Dias Gomes: O Pagador de Promessas
Dyonélio Machado: Os Ratos
Erico Verissimo: O Tempo e o Vento
Euclides da Cunha: Os Sertões
Fernando Gabeira: O que é Isso, Companheiro?
Fernando Sabino: O Encontro Marcado
Ferreira Gullar: Poema Sujo
Gonçalves Dias: I-Juca Pirama
Graça Aranha: Canaã
Graciliano Ramos: Vidas Secas
                             São Bernardo
Gregório de Matos: Obra Poética
Guimarães Rosa: O Grande Sertão: Veredas
                           Sagarana
Haroldo de Campos: Galáxias
Hilda Hilst: A Obscena Senhora D
Ignácio de Loyola Brandão: Zero
João Antônio: Malagueta, Perus e Bacanaço
João Cabral de Melo Neto: Morte e Vida Severina
João do Rio: A Alma Encantadora das Ruas
João Gilberto Noll: Harmada
João Simões Lopes Neto: Contos Gauchescos
João Ubaldo Ribeiro: Viva o Povo Brasileiro
Joaquim Manuel de Macedo: A Moreninha
Jorge Amado: Gabriela, Cravo e Canela
                      Terras do Sem Fim
Jorge de Lima: Invenção de Orfeu
José Cândido de Carvalho: O Coronel e o Lobisomen
José de Alencar: O Guarani
                          Lucíola
José J. Veiga: Os Cavalinhos de Platiplanto
José Lins do Rego: Fogo Morto
Lima Barreto: Triste Fim de Policarpo Quaresma
Lúcio Cardoso: Crônica da Casa Assassinada
Luis Fernando Verissimo: O Analista de Bagé
Luiz Vilela: Tremor de Terra
Lygia Fagundes Telles: As Meninas
                                   Seminário dos Ratos
Machado de Assis: Memórias Póstumas de Brás Cubas
                              Dom Casmurro
Manuel Antônio de Almeida: Memórias de um Sargento de Milícias
Manuel Bandeira: Libertinagem
                           Estrela da Manhã
Márcio Souza: Galvez, Imperador do Acre
Mário de Andrade: Macunaíma;
                             Paulicéia Desvairada
Mário Faustino: o Homem e Sua Hora
Mário Quintana: Nova Antologia Poética
Marques Rebelo: A Estrela Sobe
Menotti Del Picchia: Juca Mulato
Monteiro Lobato: O Sítio do Pica-pau Amarelo
Murilo Mendes: As Metamorfoses
Murilo Rubião: O Ex-Mágico
Nelson Rodrigues:  Vestido de Noiva
                              A Vida Como Ela É
Olavo Bilac: Poesias
Osman Lins: Avalovara
Oswald de Andrade: Serafim Ponte Grande
                                       Memórias Sentimentais de João Miramar
Otto Lara Resende: O Braço Direito
Padre Antônio Vieira: Sermões
Paulo Leminski: Catatau
Pedro Nava: Baú de Ossos
Plínio Marcos: Navalha de Carne
Rachel de Queiroz: O Quinze
Raduan Nassar: Lavoura Arcaica
                         Um Copo de Cólera
Raul Pompéia: O Ateneu
Rubem Braga: 200 Crônicas Escolhidas
Rubem Fonseca: A Coleira do Cão
Sérgio Sant'Anna: A Senhorita Simpson
Stanislaw Ponte Preta: Febeapá
Tomás Antônio Gonzaga: Marília de Dirceu
                                      Cartas Chilenas
Vinícius de Moraes: Nova Antologia Poética
Visconde de Taunay: Inocência


Texto Helio Ponciano e Marcelo Pen

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Parte da entrevista da revista PODER ao neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho



PODER: O que fazer para melhorar o cérebro ?
Resposta: Vc. tem de tratar do espírito. Precisa estar feliz, de bem com a vida, fazer exercício. Se está deprimido, reclamando de tudo, com a auto estima baixa, a primeira coisa que acontece é a memória ir embora; 90% das queixas de falta de memória são por depressão, desencanto, desestímulo. Para o cérebro funcionar melhor, você tem de ter alegria. Acordar de manhã e ter desejo de fazer alguma coisa, ter prazer no que está fazendo e ter a auto estima no ponto.

PODER: Cabeça tem a ver com alma?

PN: Eu acredito que a alma está na cabeça. Quando um doente está com morte cerebral, você tem a impressão de que ele já está sem alma... Isso não dá para explicar, o coração está batendo, mas ele não está mais vivo. Isto comprova que os sentimentos se originam no cérebro e não no coração.


PODER: Você acha que a vida moderna atrapalha?

PN: Não, eu acho a vida moderna uma maravilha. A vida na Idade Média era um horror. As pessoas morriam de doenças que hoje são banais de ser tratadas. O sofrimento era muito maior. As pessoas morriam em casa com dor. Hoje existem remédios fortíssimos, ninguém mais tem dor.

PODER: Existe algum inimigo do bom funcionamento do cérebro? 

PN: Todo exagero.
Na bebida, nas drogas, na comida, no mau humor, nas reclamações da vida, nos sonhos, na arrogância,etc.
O cérebro tem de ser bem tratado como o corpo. Uma coisa depende da outra.
É muito difícil um cérebro muito bom num corpo muito maltratado, e vice-versa.

PODER: Qual a evolução que você imagina para a neurocirurgia?

PN: Até agora a gente trata das deformidades que a doença causa, mas acho que vamos entrar numa fase de reparação do funcionamento cerebral, cirurgia genética, que serão cirurgias com introdução de cateter, colocação de partículas de nanotecnologia, em que você vai entrar na célula, com partículas que carregam dentro delas um remédio que vai matar aquela célula doente que te faz infeliz. Daqui a 50 anos ninguém mais vai precisar abrir a cabeça.

PODER: Você acha que nós somos a última geração que vai envelhecer?

PN: Acho que vamos morrer igual, mas vamos envelhecer menos. As pessoas irão bem até morrer. É isso que a gente espera. Ninguém quer a decadência da velhice. Se você puder ir bem mentalmente ,com saúde e bom aspecto, até o dia da morte, será uma maravilha.

PODER: Hoje a gente lida com o tempo de uma forma completamente diferente. Você acha que isso muda o funcionamento cerebral das pessoas?

PN: O cérebro vai se adaptando aos estímulos que recebe, e às necessidades. Você vê pais reclamando que os filhos não saem da internet, mas eles têm de fazer isso porque o cérebro hoje vai funcionar nessa rapidez. Ele tem de entrar nesse clique, porque senão vai ficar para trás. Isso faz parte do mundo em que a gente vive e o cérebro vai correndo atrás, se adaptando.

Você acredita em Deus?

PN: Geralmente depois de dez horas de cirurgia, aquele estresse, aquela adrenalina toda, quando acabamos de operar, vamos até a família e dizemos:

"Ele está salvo".

Aí, a família olha pra você e diz: 

"Graças a Deus!".

Então, a gente acredita que não fomos apenas nós, que existe algo mais, independente de religião.

Dr. Paulo Niemeyer Filho - Neurocirurgião .
Recentemente, devolveu ao Maestro João Carlos Martins os
movimentos no braço e mão esquerda através de cirurgia no
cérebro, uma experiência inédita e magnifica!.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

COLABORAÇÃO DE HERMÍNIA LIMA


Que beleza de texto! REFLEXÃO ESTÉTICA SÉRIA E BEM HUMORADA. A leitura só reafirma o meu status de FÃ DO AUTOR:

AH, AS BERMUDAS!

Affonso Romano de Sant’Anna

Há muito venho observando as burmudas. Vivemos não apenas num triângulo mas num círculo vicioso de bermudas. Tenho várias bermudas. Isto me compromete. Estou envolvido no crime. No Natal (ou aniversário) as filhas insistem em me presentear com burmudas. Na última vez que isto aconteceu, troquei-as ( as burmudas, não as filhas) por camisas, aproventando o pretexto de que eram pequenas (as bermudas, claro).
Contra as bermudas, em geral, não tenho nada. Mas me pergunto: será que todo mundo deve usar bermudas? Pesquisei a respeito. Sei que se difundiram nos anos 90, que os surfistas é que as popularizaram. Dizem que essa roupa vem das ilhas Bermudas, onde era uma forma mais informal, arejada de se vestir e enfrentar o calor.
Até aí nada demais.
Mas como dizia meu pai-“tudo que é demais, é sobra”. E as bermudas invadiram nossa praia, nossas ruas, shoppings, cinemas e aeroportos. Estou nesta fila de banco: e horrorizado com o festival de bermudas à minha frente. Brancos, pretos, pardos, aposentados, porteiros, donas de casa num festival espantoso de mau gosto. E começo a ver aí uma questão sociológica, econômica e, irremissivelmente estética. Possivelmente a questão estética é que me levou às outras.
Por onde começar?
Sendo eu também (parcialmente) réu ou refém desta moda, tenho um certo conhecimento de causa ( ou calça?). Me parece que conseguiram nos iludir: vendem-nos bermudas que teem um ou dois terços de panos de uma calça, pelo preço da própria calça. Nisto a moda nos impingiu um paradoxo: compramos roupas remendadas e furadas por preços altíssimos, porque o lixo virou luxo.
Mas o ilusionismo que o modismo provoca é ainda mais sedutor: a gente vê aquele garotão de praia usando aquelas espantosas bermudas. Eles são sarados, teem o dorso olímpico, tatuagens rocambolescas nos músculos. São corpos padronizados, Neles pele, roupa e corpo se completam. Os anúncios, você sabe, botam os manequins em situação paradisíaca, ideal. Como na arte conceitual a gente compra o conceito.
Como diria a Bíblia, a bermuda foi feita para o homem, mas nem todo homem foi feito para a bermuda. Reparem na rua, na praia, nos aeroportos, cinemas, mercados, etc. Sobretudo no “etc”. Tem gente que não nasceu para usar bermuda. Por exemplo: os que teem aquela barriginha de bebedor de cerveja. E se o dono daquela barriga é pequeno, a situação se agrava, porque a lei áurea das proporções praticada por Leonardo da Vinci não funciona. Aquela barriguinha (ou barrigona avantajada) briga com o resto da estrutura. E surge essa questão física e metafísica: o que fazer das canelas finas? As burmudas colocaram à vista o ridículo das canelas finas que durante séculos escondemos. E a questão das canelas piora com o tipo de tenis que usamos. Os tenis merecem também uma tese universitária. Aí se estudaria a importação desse hábito dos EUA e teríamos que retomar aquela frase de ex-ministro Juracy Magalhães: “ o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. Será? E depois essa coisa assombrosa: cobram pelos tenis o mesmo preço dos sapatos. Quer dizer: a sociedade consumista faz da gente gato e sapato, quer dizer, gato e tênis e estamos levando gato por lebre.
Mas há ainda dois elementos que me chamam a atenção: a semelhança entre certas bermudas e a roupa dos palhaços. ( Espero não estar ofendendo ninguém, isto é apenas uma constatação semiótica, também uso bermudas). Na “teoria da carnavalização” estuda-se a introdução da idéia de transgressão na vestimenta ordinária. A roupa do palhaço é assim. As roupas carnavalescas são assim: uma inversão do cotidiano. E a moda, nos liberando de amarras, fez isto com a gente: saimos fantasiados, a fantasia virou rotina. As bernudas levaram isto ao máximo: listradas, cada perna de uma cor, enfim, um carnaval do baixo ventre para as canelas finas.
Houve um tempo (deprezível) em que cada classe social usava um tipo de roupa. Aí veio a democracia. Ótimo. Tudo ao alcance de todos. E aí instaurou-se a confusão. Eles continuam escolhendo por nós e nós achamos que estamos escolhendo

Estado de Minas/Correio Braziliense 3.02.2013