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sábado, 24 de agosto de 2019
PALESTRA DE NADYA GURGEL: AS PERSPECTIVAS DA MULHER E DO AMOR NA OBRA "DESAFIO - UMA POÉTICA DO AMOR", DE PEDRO LYRA.
Na reunião da AJEB/CE, ocorrida no dia 20 de agosto de 2019, A Professora e Escritora Nadya Gurgel proferiu movimentada palestra, sob o título "AS PERSPECTIVAS DA MULHER E DO AMOR NA OBRA DESAFIO - UMA POÉTICA DO AMOR", DE PEDRO LYRA.
Pedro Lyra era Pós-Doutor em Traduções Poéticas pela Universidade de Sorbonne, na França; crítico literário, ensaísta e Professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), Universidade de Fortaleza (UNIFOR), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF).
Seu óbito deu-se em 23 de outubro de 2017, aos 72 anos, quando Pedro Wladimir do Vale Lira (Pedro Lyra) ainda se encontrava em pleno vigor de sua vida literária.
A AJEB/CE, presidida por Elinalva Alves, agradece à palestrante Nadya Gurgel a magnífica aula, muito aplaudida por todos os presentes.
MEMÓRIA ICONOGÁFICA
sábado, 29 de junho de 2019
AJEB/CE RECEBE ESCRITORA BEATRIZ ALCÂNTARA
Sessão ordinária, dia 18 de junho de 2019, no Palácio da Luz.
Beatriz Alcântara profere palestra sobre Florbela Espanca na Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil - AJEB/CE.
Vládia Mourão e Beatriz Alcântara
Beatriz Alcântara, Elinalva Alves e Nirvanda Medeiros
Zenaide Marçal e Beatriz Alcântara
Beatriz Alcântara e Rosa Virgínia
Rita Guedes, Rejane Costa Barros,
Fátima Lemos e Vládia Mourão.
Grupo de Ajebianas com a palestrante,
Beatriz Alcântara
terça-feira, 18 de julho de 2017
CENTENÁRIO da obra de crítica e hodierna, de Lima Barreto, “OS BRUZUNDANGAS" - POR NÁDYA GURGEL
A ACADEMIA CEARENSE DE LETRAS (ACL), a ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS E
ESCRITORAS DO BRASIL (AJEB-CE) têm a HONRA de apresentar a PALESTRA: CENTENÁRIO da obra de crítica e hodierna,
de Lima Barreto, “OS BRUZUNDANGAS” pela AJEBIANA e PROFESSORA DO IFCE-Campus
Ubajara, Nádya Gurgel.
I- Breve curriculum da AJEBIANA PALESTRANTE
nesta aprazível manhã de 20 de junho de 2017:
Nádya Brito Gurgel
Correia Dutra nasceu em Fortaleza, há quarenta anos, precisamente no dia 16 de
março de 1977. Seus pais, Raimundo Luciano do Amaral Gurgel (in memoriam) e Mária Brito Gurgel, foram
os maiores responsáveis pela sua incursão nas Artes. De seu genitor, herdara o
apreço por Música Clássica, História e Política, e de sua genitora, a extrema
afeição por CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS. Seus primeiros textos vieram sob forma de
HQ´s (Histórias em Quadrinhos), e consecutivamente a esta tipologia textual...
vieram os romances! E todos estes prenúncios de obras são hoje relíquias
guardadas a sete chaves pela autora. Com hercúlea dificuldade, em 1998 Nádya
Gurgel publicara seu primeiro romance (dos tantos em prelo), intitulado UM
NOVO AMANHÃ, prefaciado pelo excelso Acadêmico (ACL) Batista de Lima, e
que recebera crítica literária (via Correios) do grandioso Acadêmico (ACL) e jurista
Dimas Macedo; reiterado incentivo da saudosa e célebre autora Rachel de Queiroz
(ABL e ACL), do Acadêmico (ACL) Cid Sabóia de Carvalho, da nossa Acadêmica
(ACL) Giselda Medeiros (Presidente de Honra da AJEB) e do eterno Patrono desta diletíssima
mais antiga Academia de Letras do País (Fundada no dia 15 de Agosto de 1894), Artur Eduardo Benevides (in memoriam), e hoje presidida pelo
célebre Presidente José Augusto Bezerra! A supracitada autora é AJEBIANA desde
1999; professora Especialista em Ensino de Literatura Brasileira do Instituto
Federal do Ceará (IFCE), nos Campi de
Ubajara (Cursos de Licenciatura em QUÍMICA; AGROINDÚSTRIA; TÉCNICO EM ALIMENTOS
e GASTRONOMIA) e Baturité (Curso de LETRAS). Fora professora de importantes
Colégios e Cursinhos preparatórios para os mais difíceis vestibulares do país
(por quase dezessete anos), como: Colégio Sete de Setembro, M@ster, Ari de Sá
Cavalcante, Antares, Tiradentes e Irmã Maria Montenegro. É mãe do casal Nícolas
(10) e Isadora (06), esposa do Subtenente do 23º Batalhão de Caçadores
Cristiano Dutra. É partícipe de relevantes Antologias, em contribuição nas
categorias CONTO, ENSAIO e POEMAS, como na majestosa POLICROMIAS, da nossa
Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil, e de outras, como os títulos
esgotados CEIA MAIOR; ESPUTO e AMOR, MÚSICA E POESIA. Foi organizadora, revisora e prefaciadora da
obra poética e memorialística do ex-fazendário João Batista Terceiro (in memoriam) PASSADOS INESQUECÍVEIS. É desenhista por diletantismo, e professora
atuante de videoaulas de grande capilaridade entre os pré-universitários de
todo o Brasil.
II- Agora... o que não se pode deixar de saber
acerca da BIOGRAFIA de AFONSO HENRIQUES DE LIMA BARRETO (que tantos
influxos exercera em sua BIBLIOGRAFIA):
Um dos ícones do Pré-Modernismo (1902-1922),
Lima Barreto nascera na cidade do Rio de Janeiro, no dia 13 de maio de 1881, e falecera na mesma Terra
Natalícia, no dia primeiro de novembro de 1922, à Rua Major
Mascarenhas, no. 26, às 17 horas (Gripe torácica e colapso cardíaco). Anos
extremamente relevantes (1881 e 1922), também, para a historiografia literária
brasileira, a citar o surgimento do Realismo e do Modernismo, respectivamente.
Filho de Joaquim Henriques de Lima Barreto e Amália Augusta, ambos mestiços e
pobres, nosso Lima Barreto sofrera preconceito racial durante a vida inteira.
Seu pai era tipógrafo e sua mãe, professora primária, e falecera quando Barreto
tinha sete anos. Ano este em que pensara, pela primeira vez, em suicídio.
Sempre
auxiliado pelo padrinho abastado, Visconde de Ouro Preto, Barreto estudara no
Liceu Popular Niteroiense e concluíra o curso secundário no Colégio Pedro II, local
onde estudava a elite literária da época. E, devido à inegável dedicação aos
estudos, conseguira ingressar na Escola Politécnica do Rio de Janeiro (exame
vestibular), no tão almejado curso de Engenharia, em 28 de janeiro de 1897. Em
1904, foi obrigado a abandonar o curso, pois seu pai havia enlouquecido e o
sustento dos três irmãos agora era responsabilidade dele... Além de imensas
frustrações e dissabores enfrentados por ser o único mulato da sala e, assim,
não ter sido beneficiado (como os demais: brancos e abastados!) quando, por
exemplo, tinha dúvidas em Cálculo...
Provavelmente a sua
primeira grande frustração fora não ter se tornado Doutor- e isto passaria a
ser amplamente denunciado em suas obras: o culto exacerbado que no Brasil nutria
pelo título de Doutor, ou ao DOUTORISMO! Comumente Barreto externava que, no
Brasil de seu tempo, três pedras de anéis de formaturas eram as mais exaltadas:
safira (Engenharia), rubi (Direito) e esmeralda (Medicina). Esta convicção
barretiana é obsoleta ou ainda hodierna?
Outras experimentações
vitais infelizes nortearão sua escritura ácida e intrépida, como o fato de não
ter conseguido pertencer ao quadro excelso da Academia Brasileira de Letras,
fundada por Machado de Assis, Olavo Bilac, Alberto de Oliveira e outros ícones da
Bélle Epoque (nos idos de novembro de
1996... e com sessão inaugural em 20 de julho de 1897). Foram duas negativas ao
seu nome para imortal da ABL. Na terceira, ele mesmo retirara sua candidatura,
temendo nova decepção.
Fora colaborador de jornais de estudantes,
como A Lanterna, e depois faria uma
série de reportagens para o respeitado Correio
da Manhã, sem assinatura, sob o título “Os Subterrâneos do Morro do
Castelo”. Fora colaborador no jornal humorístico Tagarela, sob o pseudônimo de Rui de Pina. Trabalhara na célebre
revista Fon-Fon e publicara em
folhetins, no jornal A Noite, sua
obra Numa e Ninfa (que surgiria sob
forma de livro também 1917) e fora colaborador de muitos outros jornais e
revistas cariocas, como a A.B.C., da
qual se afastara após ter sido publicado nesta revista, por outro escritor, um
artigo contra a raça negra.
Em 09 de julho de 1903 fora classificado em
segundo lugar no concurso para a Secretaria da Guerra. Em 28 de outubro, tomara
posse do cargo. Isto significaria, de uma vez por todas, findar seu sonho de
estudar na Politécnica e passaria a experimentar reiteradas frustrações com o
trabalho repetitório e burocrático (que lhe daria muita inspiração para as
críticas externadas em romances como “TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA”, “CLARA
D0S ANJOS”, “OS BRUZUNGAS”, “VIDA E
MORTE DE M. J. GONZAGA DE SÁ”). Seria amanuense até 26 de dezembro de 1918.
Resultado: seu tempo líquido de serviço fora de 14 anos, 3 meses e 12 dias,
quando se aposentara, após algumas licenças para tratamento de saúde e seu
PRIMEIRO TERRÍVEL CONFINAMENTO EM HOSPÍCIO, de 18 de agosto de 1914 a 13 de
outubro.
O segundo confinamento
em hospício fora em 25 de dezembro de 1919 a 02 de fevereiro de 1920.
O
porquê dos internamentos? Alcoolismo; o fato de ter sido o único filho a cuidar
dos problemas mentais do pai e, assim, muito os absorvera...
A tão celebrizada e inolvidável obra
barretiana “TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA”, romance quixotesco brasileiro, surgira
em 26 de fevereiro de 1916, entre estes dois “tratamentos psiquiátricos”. E o
maior legado destes seus tempos tão sofridos no “Hospital Nacional de Alienados
no Rio de Janeiro” fora a obra intrigante e impactante “CEMITÉRO DOS VIVOS”.
Um alento Barreto recebera da Academia
Brasileira de Letras antes de partir: a menção honrosa (em janeiro de 1921) ao
romance “VIDA E MORTE DE M. J. GONZAGA DE SÁ”.
Lima fora, enfim, um
homem que nascera e crescera para ser um gênio, um crítico ferrenho da
sociedade burguesa finissecular oitocentista e daquele introito novecentista em
nosso País. Fora o “Boca do Inferno do Pré-Modernismo”!!??
Creio que sim, e
verticalizando ainda mais as temáticas críticas e contundentes abordadas pelo
bardo baiano Gregório de Mattos Guerra ao Brasil e seus Governantes no Séc.
XVII, ao tempo do Barroco.
Barreto, em todas as
obras produzidas, preferira a denúncia do arrivismo dos Políticos, eivados de
propinas e ausência de vistas sociais; quisera minorizar a dor dos mulatos e
lutar por um país com menos iniquidade e injustiça social. Nada mais premente,
imprescindível e hodierno. Muito obrigada, excelso escritor, que preferira a
criticidade (e por ela fora severamente castigado!) e não o lisonjeio gratuito.
III- E QUANTO À OBRA CENTENÁRIA “OS
BRUZUNDANGAS”?
Em junho de 1917, quando
Lima Barreto estivera enfermiço e recolhido no Hospital Central do Exército, ele
entregara ao seu editor Jacinto Ribeiro dos Santos os originais de OS
BRUZUNDANGAS, que apareciam em volume somente em dezembro de 1922, um
mês após seu falecimento.
Segundo um dos maiores
críticos literários que há acerca de Lima Barreto, H. Pereira da Silva, em sua
obra “LIMA BARRETO- ESCRITOR MALDITO”, “Na república da Bruzundanga, neste
livro que ferve, cozinha questões nacionais, se nada mais houvesse para
ressaltar, bastariam a sinceridade, a firmeza de caráter em dizer o que nos
diz, porque mexer no angu é menos prudente que derramar o caldo. Lima Barreto,
porém, prefere engrossar o caldo. Mete a colher no angu, encaroça-o, salga-o,
apimenta-o, mas dá-lhe certo sabor, certos requintes de humor desconhecido dos
historiadores afeitos a insossos pratos servidos na Bruzundanga das letras.”
(2ª. Edição, Editora Civilização Brasileira, pág. 114)
Desde o título, desde o
léxico escolhido, BRUZUNDANGA, em alegoria ao Brasil, podemos perceber seu
intento de nos levar a refletir acerca de uma possível desordem, algavaria,
mixórdia, BAGUNÇA... que nos possa rodear (e como, claro, poderíamos solucionar
tal precariedade estrutural social)!
Na República da
Bruzundanga, reiteradas são as críticas aos cargos públicos ocupados por
bajuladores e néscios; aos poetas “Samoiedas” (em nítida crítica negativa à
impassibilidade da poética parnasiana, que assim ele a julgava!); aos Doutores
tão exaltados e, segundo ele, hipócritas; aos escritores ou aos oradores usuários
de um discurso exacerbadamente esmerado e hermético, em desarmonia com a
realidade da maioria dos brasileiros. Sem faltar críticas ao teatro, à
religião, à música, às eleições, ao RACISMO...
Alguns excertos para análise verticalizada de
“OS BRUZUNDANGAS”:
I-SOBRE OS LITERATOS
“- Quantas cartas tens aí!-
disse-lhe eu ao vê-lo abrir a carteira, para tirar uma nota com que pagasse a despesa.
- São “pistolões”.
- Pra tanta gente?
- Sim; para os
críticos dos jornais e das revistas. Não sabes que vou publicar um livro?”
(BARRETO,
Lima. Os Bruzundangas, pág.140)
II- NO GABINETE DO MINISTRO
“- O senhor quer ser diretor do Serviço Geológico da Bruzundanga?-
Perguntou o ministro.
- Quero,
excelência.
- Onde estudou
geologia?
- Nunca estudei,
mas sei o que é vulcão.
- Que é?
- Chama-se vulcão
a montanha que, de uma abertura, em geral no cimo, jorra turbilhões de fogo e
substâncias em fusão.
- Bem. O senhor
será nomeado.
***
Pâncome, quando se deu uma vaga de amanuense na sua Secretaria de
Estado, de acordo com o seu critério não abriu concurso, como era de lei, e
esperou o acaso para preenchê-la convenientemente.
Houve um rapaz
que, julgando que o poderoso Visconde queria um amanuense chic e lindo, supondo-se ser tudo isso, requereu o lugar, juntando
os seus retratos, tanto de perfil como de frente. Pancôme fê-lo vir à sua
presença. Olhou o rapaz e disse:
- Sabe sorrir?
- Sei,
Excelentíssimo Senhor Ministro.
- Então mostre.
Pancôme ficou contente e indagou ainda:
- Sabe
cumprimentar?
- Sei, Senhor
Visconde.
- Então,
cumprimente ali o Major Marmeleiro.
Este major era o
seu secretário e estava sentado, em outra mesa, ao lado da do ministro, todo
ele embrulhado em uma vasta sobrecasaca.
O rapaz não se
fez de rogado e cumprimentou o major com todos os “ff” e “rr” diplomáticos.
O visconde ficou
contente e perguntou ainda:
- Sabe dançar?
- Sei,
Excelentíssimo Senhor Visconde.
- Dance.
- Sem música?
O visconde não se
atrapalhou. Determinou ao secretário:
- Marmeleiro,
ensaia aí uma valsa.
- Só sei Morrer sonhando (exemplo).
- Serve.
O candidato
dançou às mil maravilhas e o visconde não escondia o grande contentamento de
que sua alma exuberava.
Indagou afinal:
- Sabe escrever com desembaraço?
- Ainda não,
doutor.
- Não faz mal. O
essencial o senhor sabe. O resto o senhor aprenderá com os outros.
E foi nomeado,
para bem documentar, aos olhos dos estranhos, a beleza dos homens da
Bruzundanga.” (Idem, págs. 144 e 145)
III- A NOBREZA NA BRUZUNDANGA
“(...)
As moças ricas não
podem compreender o casamento senão com o doutor; e as pobres, quando alcançam
um matrimônio dessa natureza, enchem de orgulho a família toda, os colaterais,
e os afins. Não é raro ouvir alguém dizer com todo o orgulho:
- Minha prima está
casada com o doutor Bacabau.
Ele se julga também
um pouco doutor. (...)
A formatura é
dispendiosa e demorada, de modo que os pobres, inteiramente pobres, isto é, sem
fortuna e relações, poucas vezes podem alcançá-la.
Coisa curiosa! O que
mete medo aos candidatos à nobreza doutoral não são os exames da escola
superior; são os exames preliminares, aqueles das matrículas que constituem o
nosso curso secundário...
Em geral, apesar de
serem lentos e demorados, os cursos são medíocres e não constituem para os
aspirantes senão uma vigília de armas para serem armados cavaleiros.
O título – doutor -
anteposto ao nome, tem na Bruzundanga o efeito do – dom – em terras de Espanha.
Mesmo no Exército, ele soa em todo o seu prestígio nobiliárquico. (...)
(...)
O nobre doutor tem
prisão especial, mesmo se tratando dos mais repugnantes crimes. Ele não pode
ser preso como qualquer do povo. Os regulamentos rezam isto, apesar da
Constituição, etc., etc.
Tendo crescido
imensamente o número de doutores, eles, os seus pais, sogros, etc., trataram de
reservar o maior número de lugares do Estado para eles. Capciosamente, os
regulamentos da Bruzundanga vão conseguindo esse desideratum.
(...)” (Ibidem, pág. 33 e 34)
IV- AS ELEIÇÕES
“(...)
Julgavam os chefes e
capatazes políticos que apurar os votos dos seus concidadãos era anarquizar a
instituição e provocar um trabalho infernal na apuração, porquanto cada qual
votaria em um nome, visto que, em geral, os eleitores têm a tendência de votar
em conhecidos ou amigos. Cada cabeça, cada sentença; e, para obviar os
inconvenientes de semelhante fato, os mesários da Bruzundanga lavraram as atas
conforme entendiam e davam votações aos candidatos, conforme queriam.
(...)” (Pág. 92)
FOTOS
quarta-feira, 21 de dezembro de 2016
SAMUEL RAWET SOB A ÓTICA DE VLÁDIA MOURÃO
Palestra proferida pela professora Vládia Mourão na Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil - AJEB-CE
O TEMPO NA LITERATURA DE SAMUEL
RAWET
Considerado como um renovador na nossa
literatura, “uma espécie de pioneiro, de visionário das novas conquistas e
pesquisas do conto brasileiro de hoje”, Samuel Rawet, chegou “a desorientar a
crítica em relação aos seus valores estéticos”. O fato é que os estudiosos, os
críticos mais tradicionais, “alicerçados em valores tidos por consagrados, não
encontravam em sua obra as costumeiras indicações da elaboração do gênero entre
nós”.(1)
Samuel Rawet apresenta, em sua escritura,
características bem marcantes, como a discussão dos problemas literários pela
própria literatura, numa espécie de metatexto, revelando pelo menos duas
funções de extrema e aguda consciência de seu papel de escritor: a arte
literária por excelência e o exercício da crítica literária.
Movido por esse intuito, sua linguagem deixa
de ser apenas um veículo para a formalização de enredos e condução de ideias e
passa a ser parte integrante do processo de criação, ou seja, os “seus recursos
linguísticos não estavam somente a serviço de um estilo, de um certo modo de
escrever bem, e sim, em função do mundo a ser criado como expressão”.(2)
Samuel Rawet possui aquilo que Ernesto Sábato
vai qualificar de “a condição mais preciosa do criador, o fanatismo”. E ressalta
que é preciso ter uma obsessão fanática pela criação e que nada deve antepor-se
a ela. O escritor deve sacrificar qualquer coisa em função da criação, pois sem
esse fanatismo nada de relevante poderá ser realizado.
Aliás, há duas atitudes que dão origem aos
tipos fundamentais de elaboração ficcional: ou o escritor escreve de forma
lúdica, para entretenimento seu e dos leitores, para distração, para buscar
momentos agradáveis; ou ele escreve para investigar e tentar compreender a
condição humana. O texto lúdico é prazeroso. O texto problemático é
inquietante, produz um desassossego. Por isso, concordamos com o pensamento de
Maurice Nadeau, ao afirmar que inútil é o livro que deixa o leitor e o escritor
da mesma forma que eles eram antes. E cita como exemplo O processo, de Kafka, texto que causa impacto no leitor seja qual
for seu tempo e sua circunstância.
Assim, dentre as múltiplas feições que
assume, além de possibilitar a articulação das palavras, a linguagem é fonte de
tensão, prazer e medo; a linguagem é potencializadora dos sentimentos humanos.
A linguagem articulada pelo homem, através da palavra proferida, é monopólio do
próprio homem, e Samuel Rawet trabalha a palavra com maestria e destreza
inigualável.
Mesmo sendo um artífice da palavra, dentro de
uma perspectiva histórica, os estudos da literatura registram que na época de
sua estreia, Samuel Rawet não conseguiu chamar a atenção do grande público para
seu livro Contos do imigrante,
coletânea que deixava o restrito círculo de leitores perplexos, totalmente
desprovidos de apoio para realizar sua apreciação, juízo ou julgamento, pois o
escritor reunia ali contos herméticos, subjetivos, muitas vezes mergulhados em
densa atmosfera de angústia.
Além do que, seus textos estavam, muitas
vezes, a questionar os problemas ficcionais, num entrecruzar de quase ficção e
quase realidade. Como analisa um de seus personagens, observando, com certa
vigilância, que “seus primeiros contos tinham um ranço didático, narravam com
precisão uma história e um ambiente, até que um dia descobriu que esse ranço
era a própria negação do ato de criar” e que, por isso mesmo, “a precisão era
uma pretensa hipertrofia de um olho pouco exigente”.(39)
Em inúmeros contos de Samuel Rawet
encontramos a predominância da discussão em torno de diversas propostas
literárias. Realmente, ele tematiza, via de regra, sobre fatos de extrema
singularidade e pouca significação como enredo. Muitas vezes, seus textos
constituem-se de narrativas que não são contáveis como história, pois para o escritor
não importa o que se conta, mas como se conta.
Nesse sentido, podemos afirmar que a sequência lógica da narrativa é
totalmente desconsiderada em prol do modo de narrar. Assim, texto enquanto
texto. Literatura, necessariamente, abordando aspectos doutrinários, mas sem
aspas e citações didáticas. Um conto que teoriza o conto. O texto justificando
e interpretando o próprio texto.
Essa tendência foi evidenciada pelo crítico
Wilson Martins, duas décadas depois, numa série de artigos publicados pelo Jornal do Brasil, conforme se comprova:
Forma narrativa como valor autônomo na equação
romanesca: a maneira de narrar ganhou importância maior que a história narrada
e o caráter dos personagens; autor e leitor têm a consciência permanente desse
elemento retórico, quero dizer, a natureza deliberadamente artificial da coisa
literária. O autor chama a atenção para sua maneira de escrever e de contar, da
mesma forma porque o leitor não recebe autorização para esquecer o que está
lendo.(40)
Sobre a questão do tempo, propriamente dito,
em Samuel Rawet, com relação à sua produção literária, notadamente o conto, que
é o gênero que está em nosso foco de análise, encontramos o autor
entrecruzando, a um só tempo, no aparato linguístico, diversas dimensões
temporais.
O tempo objetivo registrado por meios
convencionais, que marcam o transcorrer inexorável do tempo – está presente na
obra de Samuel Rawet em inúmeros contos, na maioria das vezes, entrelaçado com
outras referências temporais. Porém, precisamente, em seu livro O terreno de uma polegada quadrada, considerado
por Hélio Pólvora como o mais “espontâneo dos seus livros”, Samuel Rawet
constrói, na maior parte dos contos, textos lógicos e bem delimitados no que
concerne à marcação do tempo.
Já o tempo subjetivo alcançando, na curta
narrativa, a intensidade e amplitude de uma onda diretamente proporcional à
experiência vital acumulada, se insere, de modo efetivo, em vários contos de
Samuel Rawet.
Na perspectiva temporal subjetiva, em que
atuam “fatores como idade, cultura, intensidade de fatos vividos”, como adverte
Raul H. Castagnino, “as crianças têm pouco diversificadas as perspectivas de
tempo; os adolescentes vivem a dimensão futura; o homem maduro sente o domínio
do presente; a velhice agiganta o passado”.(44)
Se no plano humanístico cabem tais
circunstâncias temporais, conforme leciona o teórico, o que se pensar das
variações temporais no plano literário, quando o ficcionista, a partir de
infinitas possibilidades, se encontra às voltas com personagens, fatos e experiências
vivenciadas no passado ou projetadas para um futuro incerto.
Diante destas considerações, ressaltamos que
no conto “O Jogo de Damas” (Diálogos, 1963)
há, em toda a sua extensão, a predominância do tempo subjetivo. A história é
protagonizada por dois personagens, enquanto jogam uma partida de damas. E toda
a narrativa se resume ao tempo dessa partida, que não se sabe ao certo quanto
tempo durou, no plano objetivo, mas que durante esse tempo indefinido, os
personagens vagaram, através do pensamento, pelo passado, através de flash
back.
Em se tratando de tempo psicológico, podemos
afirmar que ele se relaciona, predominantemente, com os valores afetivos,
quando o personagem nos envolve com seus problemas emocionais, nos levando para
dentro da narrativa, nos convidando a penetrar numa zona de conflitos e
situações de seu universo ficcional.
O tempo psicológico é, na realidade, um tempo
que se processa sem padrão de medida, representando um eterno presente, intuído
pelo “eu” de cada um, independentemente de convenções.
Não há um antes nem um depois, assim declara o Narrador
de A hora da estrela, livro de
Clarice Lispector: "Como começar
pelo início, se as coisas acontecem
antes de acontecer?” Quando o Narrador afirma que "vivemos exclusivamente no presente" pressupõe a repetição
indefinida do que ocorre no relato. Uma referência ao que vem depois – "esta história será o resultado de uma visão
gradual" - afasta no mito o que poderia suceder num futuro real.
Nesta linha de raciocínio seguida por Clarice
Lispector, não conseguimos cronometrar o tempo que sugere o conto “A Porta” (Diálogo, 1963).
O texto inicia quando um anônimo personagem,
diante de uma placa de madeira, mergulha numa série de conjecturas e
hesitações, passando a fazer um levantamento de sua existência, sem nenhum
critério objetivo, realizando uma espécie de inventário de seus problemas
existenciais, através de monólogo interior, próprio de uma consciência em
disparos:
A mesma frase, as mesmas palavras, mas com outra
inflexão, bastaria para arrancá-lo do torpor que o dominara... E nunca se
destrói o ódio? Nunca se esterca o sarcasmo na frase feita com intenções mal
acobertadas? Sempre a carga demolidora no gesto visual, o desprezo no ato
comum?
Quanto ao tempo misto, possivelmente o de
maior realce na obra de Samuel Rawet, se caracteriza pela simultaneidade de
presente e passado, pelo entrecruzar de acontecimentos atuais com os já
ocorridos ou imaginados, numa fixação psicológica, através de flash back aplicado a narrativas que,
apresentam pouca significação e coerência como histórias contadas ou
vivenciadas.
Como imigrante,
embora tenha chegado ao Brasil ainda criança, Samuel Rawet carrega uma profunda
memória histórica, como componente de um povo que se reconhece como povo. E
nessa memória busca estabelecer o significado das suas origens e sua
identidade, justamente com o intuito de resgatar o passado no presente. Essa
sensação de estranhamento é justificável pela própria origem e raça do
escritor.
Ao avançarmos na análise dos textos, podemos
observar, por exemplo, que no conto “Uma Tarde de Abril”, pouca coisa acontece
digna de nota; os fatos, na verdade, parecem insignificantes. Uma reunião, uma
festinha de classe média, um homem entre os convidados, a entrecruzar seu
destino. Abstraído totalmente daquela estranha geografia de copos, garrafas,
pratos de salgados, cinzeiros, “envolvendo excessos de pontas sobre o tempo”,
fixa-lhe uma passagem, “um esforço para se desvincular do presente”. Em dado
momento pergunta a si mesmo: “até que ponto um homem é capaz de construir o seu
passado, construí-lo em detalhes”.
Este posicionamento do personagem, sem
qualquer apresentação, surgido de súbito, sem qualquer indicação, alude, de
imediato, para a característica básica da estrutura do conto, ou seja, a
contenção dos meios narrativos e, em consequência, a economia de espaço e de
tempo, ou até sua ausência completa, como se observa no seguinte trecho:
Um homem sem passado, sem nome, a cruzar por todos os
destinos igualmente anônimos, porém seguro nos seus passos e, sobretudo dotado
de forças suficientes para chegar ao extremo do itinerário percorrido.
Quanto à postura de Samuel Rawet como
escritor, vamos encontrá-lo em diversos momentos em pleno exercício de
humildade, tanto em relação ao seu fazer literário, que deu concretude a
monumental obra de engenharia literária, como em relação às atitudes puramente
humanas, quando, em depoimento carregado de emoção, narra o encontro que teve,
pela primeira vem, na época da construção de Brasília, com Oscar Niemeyer,
elogiando sua grandeza e erudição. Certo dia, contou Samuel Rawet que teve um
“troço” por dentro, quando encontrou Oscar Niemeyer, Joaquim Cardozo e Lúcio
Costa, seus mestres de engenharia.
Em relação à narrativa, em termos de
história, encontramos ao longo de sua obra uma variedade de temas e de
situações vivenciadas por personagens vários. Às vezes são pessoas
discriminadas pela sociedade como o imigrante e o vagabundo, encarnações
modernas que relembram o drama do judeu errante à procura de sua identidade;
outras vezes, são pessoas cheias de conflitos, dramas próprios de seres normais
e problemáticos que povoam nosso cotidiano.
Ao penetrarmos no universo literário de
Samuel Rawet, fica muito fácil nos identificarmos com seus personagens. Comum é
percebermos que habitamos ali naquele mundo recriado pela imaginação do
escritor. Corriqueiro é nos determos diante de um dos seus personagens e termos
a nítida impressão de que estamos diante nós, como num espelho a refletir a
nossa imagem, sem a menor possibilidade de distinguirmos o que é espaço e tempo
dentro de nossa consciência.
Mas quem é Samuel Rawet? Na realidade, ele
encarna bem a expressão “um conhecido desconhecido”. Quem o conhece por seus
textos, só tem duas reações: ou ama ou rejeita. Não há meio termo. A reação é
extremada.
Samuel Rawet, que nasceu precisamente em 23
de julho de 1929, na pequena aldeia de Klimotow, cidade composta na sua maioria
por judeus poloneses. Seus pais eram pequenos comerciantes, de origem muito
humilde. Samuel Rawet começou a estudar muito cedo numa escola que funcionava
ao lado da sinagoga, em sua terra de origem. É o próprio Rawet quem nos dá
conta de alguns referenciais cronológicos de sua infância:
O primeiro alfabeto que aprendi foi o ídiche – não
aprendi o hebraico propriamente. Aprendi as rezas, alguém me traduzia a frase
toda, a prece, o versículo. Tenho lembranças da vida na aldeia, lembranças do
inverno, da vida religiosa, da convivência com parentes, lembranças inclusive
de um mundo que não existe mais...
O modo de vida na Europa Oriental no início
do século XX era muito em torno da sinagoga e da casa de estudos (escola),
sempre situada em zonas rurais e organizada em comunidades. Esse fato
posteriormente veio influenciar o trabalho de Samuel Rawet, principalmente no
seu conto “O Profeta”, que nos dá a dimensão da intensidade das lembranças da
infância, marcada pelos hábitos antigos de seus antepassados.
Samuel Rawet chegou ao Brasil com sete anos
de idade, mesmo assim conseguiu guardar lembranças da primeira infância vivida
em sua terra, a tal ponto que essas reminiscências perduraram em sua obra e em
seu percurso existencial. O sentimento de errância, de solidão vai permanecer
na vida de Samuel Rawet até o fim, por via de consequência, seus dramas e
frustrações serão incutidos ao longo de sua literatura.
Em nossas pesquisas, descobrimos que Samuel
Rawet se mantém religioso até os quinze anos de idade. Mas na fase final da
segunda guerra, com o extermínio nos campos de concentração, muitos judeus se
perguntavam e até hoje se perguntam, “onde Deus estava enquanto os alemães
matavam seis milhões de pessoas”. É quando o surge o questionamento presente na
obra de Samuel Rawet e no meio da comunidade judaica: “Depois de Auschwitz é
possível continuar religioso?”. Esse tema vai ser discutido pelo escritor em
sua obra, através de alguns personagens como o “O Profeta”, que terá sua mudez
provocada por ser um sobrevivente, carregando para o resto da vida a
impossibilidade de comunicar a experiência traumática nos campos de morte.
Os conflitos do escritor não cessam nunca,
desta feita são de ordem literária. Sua postura humilde acarretou-lhe graves
problemas de autoestima. Quem nos conta é o próprio Samuel Rawet, ao confessar
que um
...tipo de leitura que me apaixonou e me empolgou – e
que depois me criou problemas tremendos – foi que se denominava de literatura
brasileira de época, o que eu chamo de “gigantes nordestinos”, Raquel de
Queiroz, Zé Lins, Jorge Amado. Este grupo me arrasou, andei deixando de
escrever por causa deles. Achava que não tinha nada a dizer diante deles.
Aliás, só mais tarde é que fui descobrir os autores que, estes sim, me estimularam
e me ajudaram, autores como Lima Barreto, Cornélio Penna e outros.
Já sua incursão pelo teatro foi frustrante.
Depois de algumas experiências mal sucedidas, Samuel Rawet destrói quase tudo
que escreve. Somente numa fase mais madura, quando já trabalhava como
engenheiro na construção de Brasília, é que começou a se interessar por um tipo
de teatro mais poético, escrevendo as seguintes peças: O papa do gueto; A noite que
volta e O lance de dados.
Numa fase anterior de sua vida Samuel Rawet
fez crítica de teatro, ainda no tempo em que fazia escola de engenharia. Depois
abandonou a atividade, conforme confessa:
“me desinteressei”, não obstante seu convívio com o ambiente teatral e
sua admiração pelo teatro expressionista de Ziembinski, que muito influenciou
em suas narrativas.
A partir dos anos 50, Samuel Rawet concentra
toda sua atividade intelectual no conto, gênero que vai se adequar aos seus
objetivos e para o qual dará valiosa contribuição. Com a publicação de Contos do imigrante, Samuel Rawet
conta-nos que teve uma grande surpresa:
Em 1951, 52, 53, eu ia publicando meus contos em
suplementos. Naqueles tempos todo jornal tinha um suplemento. A grande emoção
era sábado à noite ficar tomando chope com os amigos até de madrugada, pra
esperar o jornal de domingo às quatro da manhã a fim de ver se o conto havia
saído ou não. Era uma farra. Publiquei meus contos no suplemento do “Diário
Carioca”. Mandei o primeiro, eles aceitaram. Quando fui levar o segundo,
Prudente de Moraes Neto, diretor do suplemento, me perguntou se eu não tinha
mais coisas, disse que sim. Ele então me pediu que juntasse os contos e levasse
pra ele...; quando fui procurá-lo mais uma vez, ele me levou até a Ed. José
Olympio, me apresentou lá e dois anos depois o livro era publicado.
A repercussão que teve o livro não foi ampla,
sequer conseguiu chamar a atenção dos leitores, mas para o autor este fato não
teve importância. Afinal, ele não esperava nem mesmo sua publicação. Além do
que, em toda sua carreira este foi um momento extraordinário, único, que não
mais se repetirá.
Seu segundo livro Diálogo é publicado em 1963. Observamos que houve um intervalo
relativamente longo entre um livro e outro. Possivelmente uma indisposição de
Samuel Rawet para escrever, uma fase em que ele priorizou outras atividades,
como a engenharia e o trabalho de engenheiro calculista durante a construção de
Brasília.
Entre os anos de 1968 e 1969, Samuel Rawet
larga o emprego, vende seu apartamento e volta para o Rio de Janeiro, para, com
o dinheiro, financiar a edição de seus novos livros: O terreno de uma polegada quadrada, que ficou encalhado num
depósito, devido a um desentendimento com o editor e cinco volumes de ensaios. Em 1967 consegue uma co-edição com o
INL para publicar Os sete sonhos,
livro que recebeu o Prêmio Guimarães Rosa.
Samuel Rawet ainda publica com recursos
próprios, em 1970, A viagem de Ahasverus
à terra alheia em busca de um passado que não existe porque é futuro e de um
futuro que já passou porque sonhado, uma novela curta, mas com o mesmo
estilo e tema adotado em seus contos. Seu único livro esgotado até hoje foi Contos do imigrante, os outros continuam
esquecidos nas prateleiras ou depósitos de livrarias e distribuidoras.
Quando um escritor toma a atitude extremada
de financiar a publicação de seus livros é porque as dificuldades de participar
do mercado editorial já naquele tempo, ou sempre foi e será sempre difícil.
Conseguir sobreviver de literatura neste país, ser um escritor profissional é
privilégio para poucos.
Como escreve Ernesto Sábato em seu livro O escritor e seus fantasmas, “para o bem
ou para o mal, o verdadeiro escritor escreve sobre a realidade que sofreu e de
que se alimentou, isto é, sobre a pátria, embora, às vezes, pareça fazê-lo
sobre histórias distantes no tempo e no espaço”. E acrescenta que parece
difícil escrever algo profundo que não seja ligado de forma aberta ou
emaranhada à infância.
Justamente é o que ocorre com Samuel Rawet em
seu livro publicado em 1978, intitulado Angústia
e conhecimento – ética e valor, onde descreve seus conflitos com a família,
desde a fase da adolescência até a adulta, quando menciona que “a convivência
familiar estava abaixo de qualquer padrão mínimo de equilíbrio e decência”, ao
mesmo tempo em que relata os detalhes do rompimento com os irmãos por questões
de herança.
Na verdade, Samuel Rawet foi, em toda sua
vida, um solitário. Um homem imerso na sua angústia, na condição dramática de
exilado, na marginalização, que o fazia se identificar com o escritor Cruz e
Sousa quando afirma que
Judeu é isso, é aquilo, qualquer coisa parecida com o
que enfrentara pessoalmente em sua condição de mulato, e mulato é negro...
Nenhuma violência, nenhum obstáculo, concreto, um estado de espírito, apenas,
criar barreiras, um incômodo feito de miudezas que moem, trituram, dilaceram e
exacerbam pequenos impulsos, sonhos.
A herança que Samuel Rawet nos deixa é
valiosíssima, sua contribuição no âmbito da ficção, do ensaio, do teatro e da
filosofia nos traz, ao mesmo tempo, uma espécie de despertar da consciência
para a condição do homem no mundo, misturada ao encantamento provocado por suas
reflexões filosóficas e existenciais.
Conto e ensaio foram os dois gêneros que mais
frequentaram o universo literário do escritor e de forma simultânea, num
entrecruzar de indagações éticas e estéticas, conforme afirma:
Hoje a palavra mudou para mim. É pura ambiguidade em
relação ao real, e os dois extremos experimentados me convencem ainda mais:
delírio e ironia.
E
como o tempo passa depressa e para não cansar essa distinta plateia, encerro
minha fala citando Antônio Carlos Villaça, quando diz que no “princípio era o
nada; depois, apareceu Machado de Assis; depois, foi o nada, outra vez”. E
depois veio Samuel Rawet.
sexta-feira, 23 de outubro de 2015
CINEMA E LITERATURA : ARTES QUE SEDUZEM - por Evan Bessa
Hoje, vamos tentar falar sobre Cinema e Literatura, partindo
do princípio de que não iremos aprofundar e nem esgotar o tema, visto a
dimensão que representam, mas apenas pontuar alguns aspectos importantes das
duas artes que tanto seduzem seus admiradores.
Segundo o dicionário Aurélio, a arte de um modo geral é a
capacidade que tem o homem de pôr em prática uma ideia, valendo-se da faculdade
de dominar a matéria. Atividade de espírito quase sempre, de caráter estético,
mas carregada de vivências íntimas e profundas, podendo suscitar em outrem o
desejo de renovar uma obra de arte. A capacidade criadora do artista de
expressar ou transmitir sensações e sentimentos. Com essa introdução, diríamos
que a literatura e cinema são artes universais. A primeira, expressão artística
que remonta há muitos séculos, enquanto o cinema surge no final do século XIX e
esteve sempre ligado à Literatura através de adaptações de obras, demonstrando
assim, que se complementam.
Podemos considerar a Literatura como um conjunto de saberes
envolvido na produção escrita de uma época ou de um país. A escrita apareceu
bem antes. O texto artístico está quase sempre carregado de metáforas para
provocar reações emocionais nos receptores. Os primeiros textos se expandiram
na forma oral, por muitos séculos, antes de serem escritos em papiros. A forma
literária mais antiga é a poesia – Como a Ilíada de Homero. O cinema por sua vez tem origem como os irmãos
Lumière em Paris no ano de 1895. O Cinema, então, evolui mais rapidamente por
conta das estruturas narrativas existentes, sendo relevantes para a elaboração
da linguagem cinematográfica. De início, contada através de imagens,
posteriormente em imagens em movimento.
Estudo comparado entre essas duas expressões artísticas
comprovam a grande contribuição que uma arte traz a outra. Para o crítico
literário João Batista Brito, do ponto de vista da interdisciplinaridade é
interessante observar a verbalidade da literatura pelo viés do cinema e a
iconicidade do cinema pelo viés da literatura. A literatura trabalha com a
palavra escrita, com a narrativa, como recurso de elaboração. O cinema parte da
imagem em movimento para introduzir palavras, diálogos de personagens ou, às
vezes, a narrativa nele presente, incluindo demais artifícios, seja som, música
ambiente, dentre outros. Podíamos afirmar que tanto uma, como a outra são
imprescindíveis na propagação da cultura e para a criatividade humana.
Tanto o cinema como a literatura se alimentam, mutuamente, em
termos de influência nas adaptações. O cinema aproveita da literatura a tarefa
de contar histórias com algumas diferenças, no tocante a sentimentos e os
transforma em imagens na mente do homem. O cineasta nem sempre pode ser fiel à
obra original porque não pode representar visualmente significados verbais e,
em função, da imagem conceitual que a leitura faz nascer no espírito, é
diferente da imagem fílmica. O romance narra o mundo, o filme nos coloca diante
do mundo de acordo com uma continuidade e contiguidade. A linguagem do cinema
representa de forma direta e física os objetos da realidade a que se liga ao
padrão oral de significação. Tal qual a Língua o cinema é abstração, um objeto
de estudo que se concretiza a partir de um código, de uma gramática e de um
pacto social, o cinema não existiria sem o filme. Sua linguagem é vista e
ouvida no momento que acontece. Não pode usufruir da metáfora como a
Literatura. Os cineastas se utilizam das figuras, tais como: anáfora e da repetição.
Daí poder se dizer que as duas artes são convergentes, mas em circunstâncias
distintas. Bergman e Fellini cineastas famosos defendiam que o cinema não tinha
nada a ver com a literatura. Por outro
lado, Andrés Bello, filólogo e ensaísta venezuelano, afirma que 2/3 dos longas
de Hollywood são adaptações produzidas a partir da narrativa – ambos são da
mesma matéria. Todo texto se constitui um diálogo intertextual, podendo assim,
uma obra originar outras obras por meio de um olhar diferente.
Podemos apontar alguns exemplos de adaptações literárias para
o cinema: Laranja Mecânica; 2001- Uma Odisseia no Espaço; Ben-Hur; D.
Casmurro; O Guarani, Vidas Secas, dentre outros. Muitos dizem que
filmes baseados em livros são piores que a história original, mas deve-se
observar que são formatos e linguagens diferentes. Quando se abandona o meio
linguístico e passa para o visual podem ocorrer mais elipses com relação à
narrativa e mudança serão inevitáveis. No entanto, enquanto linguagem, suas
informações estéticas estarão ligadas por pontos comuns, entre as obras. Embora
o cinema seja uma obra autônoma, não perde a essência daquela que foi traduzida
(reproduzida). O conteúdo de um filme é constituído de um conjunto de temas que
se integram na mensagem global do filme. Para Claude Bremond, semiólogo,
francês, o filme só desperta interesse quando suscita reflexão, quando
colocarem em ebulição, na representação do grupo, um foco de excitação
intelectual, emotiva e imaginária ligada aos desejos não satisfeitos, aos
conflitos não resolvidos pelos indivíduos. Por isso não há temática inocente.
Além disso, os cineastas e diretores colocam no seu trabalho,
objetivos, crenças, sua estilística e utilizam uma metodologia que mais lhes
satisfazem em termos visuais e intimistas.
Diretores internacionais como: Bergman, Hitchcock, Woody Allen,
Antonioni, são exemplos claros do que dissemos. Podemos citar o filme adaptado
do livro de Edgar Allan Poe, O Corvo, que em face da visão do
cineasta, sua criatividade e perfeccionismo foi um fracasso de bilheteria. Por
outro lado, Truman Capote teve obra adaptada para o cinema: Bonequinha
de Luxo, com Audrey Hepburn, que concorreu a Oscar, no entanto, sua
obra-prima foi A Sangue
Frio, tendo obtido êxito em ambos. Vejamos outras obras mais conhecidas
que se transformaram em filmes: O Mistério da Estrada de Cintra: Eça de
Queiros e Ramalho Ortigão; Expresso do Oriente: Agatha Christe;
Ensaio
sobre a Cegueira de José Saramago; São Bernardo: Graciliano Ramos; Memórias
Póstumas de Brás Cubas: Machado de Assis; Macunaíma: Mário de Andrade.
Muitos outros poderíamos incluir nessa relação.
Nessa perspectiva, vemos que as artes Literatura e Cinema
atravessaram os séculos, demonstrando possibilidades diferentes de lazer e de
informar o grande público, ao mesmo tempo em que, contextualiza época e fatos
ocorridos com linguagens específicas. Porque os diretores buscam a
fundamentação das histórias na Literatura para transformá-la em linguagem
cinematográfica, roteiros, argumentos que serão introduzidos no seu fazer
artístico, o que resultou numa imensa indústria cinematográfica, com retorno de
milhões e bilhões de dólares. A literatura não deixa de ser à base de toda essa
manifestação que se imbrica ao cinema formando o texto e os contextos que
evoluem para os autores e espectadores que se sentem seduzidos por artes tão
importantes para a humanidade.
BELLO, Andrés – Crítica Literária; BRITO, João Batista De –
Literatura e Cinema; BREMOND, Claude – A Lógica das possíveis narrativas.
(Palestra proferida na reunião da AJEB do dia 20 de outubro de 2015, no Náutico Atlético Cearense)
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