ATUAL DIRETORIA AJEB-CE - 2018/2020

PRESIDENTE DE HONRA: Giselda de Medeiros Albuquerque

PRESIDENTE: Elinalva Alves de Oliveira

1ª VICE-PRESIDENTE: Gizela Nunes da Costa

2ª VICE-PRESIDENTE: Maria Argentina Austregésilo de Andrade

1ª SECRETÁRIA: Rejane Costa Barros

2ª SECRETÁRIA: Nirvanda Medeiros

1ª DIRETORA DE FINANÇAS: Gilda Maria Oliveira Freitas

2ª DIRETORA DE FINANÇAS: Rita Guedes

DIRETORA DE EVENTOS: Maria Stella Frota Salles

DIRETORA DE PUBLICAÇÃO: Giselda de Medeiros Albuquerque

CERIMONIALISTA: Francinete de Azevedo Ferreira

CONSELHO

Evan Gomes Bessa

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Zenaide Marçal

DIRETORIA AJEB-CE - 2018-2020

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DIRETORIA ELEITA POR UNANIMIDADE
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sábado, 24 de agosto de 2019

PALESTRA DE NADYA GURGEL: AS PERSPECTIVAS DA MULHER E DO AMOR NA OBRA "DESAFIO - UMA POÉTICA DO AMOR", DE PEDRO LYRA.



Na reunião da AJEB/CE, ocorrida no dia 20 de agosto de 2019, A Professora e Escritora Nadya Gurgel proferiu movimentada palestra, sob o título "AS PERSPECTIVAS DA MULHER E DO AMOR NA OBRA DESAFIO - UMA POÉTICA DO AMOR", DE PEDRO LYRA.

Pedro Lyra era Pós-Doutor em Traduções Poéticas pela Universidade de Sorbonne, na França; crítico literário, ensaísta e Professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), Universidade de Fortaleza (UNIFOR), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF). 

Seu óbito deu-se em 23 de outubro de 2017, aos 72 anos,  quando Pedro Wladimir do Vale Lira (Pedro Lyra) ainda se encontrava em pleno vigor de sua vida literária.

A AJEB/CE, presidida por Elinalva Alves, agradece à palestrante Nadya Gurgel  a magnífica aula, muito aplaudida por todos os presentes.


 MEMÓRIA ICONOGÁFICA














sábado, 29 de junho de 2019

AJEB/CE RECEBE ESCRITORA BEATRIZ ALCÂNTARA


Sessão ordinária, dia 18 de junho de 2019, no Palácio da Luz.


Beatriz Alcântara profere palestra sobre Florbela Espanca na Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil - AJEB/CE.


Vládia Mourão e Beatriz Alcântara


Beatriz Alcântara, Elinalva Alves e Nirvanda Medeiros


Zenaide Marçal e Beatriz Alcântara


Beatriz Alcântara e Rosa Virgínia


Rita Guedes, Rejane Costa Barros, 
Fátima Lemos e Vládia Mourão.


Grupo de Ajebianas com a palestrante,
Beatriz Alcântara

terça-feira, 18 de julho de 2017

CENTENÁRIO da obra de crítica e hodierna, de Lima Barreto, “OS BRUZUNDANGAS" - POR NÁDYA GURGEL



A ACADEMIA CEARENSE DE LETRAS (ACL), a ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS E ESCRITORAS DO BRASIL (AJEB-CE) têm a HONRA de apresentar a PALESTRA: CENTENÁRIO da obra de crítica e hodierna, de Lima Barreto, “OS BRUZUNDANGAS pela AJEBIANA e PROFESSORA DO IFCE-Campus Ubajara, Nádya Gurgel.


I- Breve curriculum da AJEBIANA PALESTRANTE nesta aprazível manhã de 20 de junho de 2017:
            Nádya Brito Gurgel Correia Dutra nasceu em Fortaleza, há quarenta anos, precisamente no dia 16 de março de 1977. Seus pais, Raimundo Luciano do Amaral Gurgel (in memoriam) e Mária Brito Gurgel, foram os maiores responsáveis pela sua incursão nas Artes. De seu genitor, herdara o apreço por Música Clássica, História e Política, e de sua genitora, a extrema afeição por CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS. Seus primeiros textos vieram sob forma de HQ´s (Histórias em Quadrinhos), e consecutivamente a esta tipologia textual... vieram os romances! E todos estes prenúncios de obras são hoje relíquias guardadas a sete chaves pela autora. Com hercúlea dificuldade, em 1998 Nádya Gurgel publicara seu primeiro romance (dos tantos em prelo), intitulado UM NOVO AMANHÃ, prefaciado pelo excelso Acadêmico (ACL) Batista de Lima, e que recebera crítica literária (via Correios) do grandioso Acadêmico (ACL) e jurista Dimas Macedo; reiterado incentivo da saudosa e célebre autora Rachel de Queiroz (ABL e ACL), do Acadêmico (ACL) Cid Sabóia de Carvalho, da nossa Acadêmica (ACL) Giselda Medeiros (Presidente de Honra da AJEB) e do eterno Patrono desta diletíssima mais antiga Academia de Letras do País (Fundada no dia 15 de Agosto de 1894), Artur Eduardo Benevides (in memoriam), e hoje presidida pelo célebre Presidente José Augusto Bezerra! A supracitada autora é AJEBIANA desde 1999; professora Especialista em Ensino de Literatura Brasileira do Instituto Federal do Ceará (IFCE), nos Campi de Ubajara (Cursos de Licenciatura em QUÍMICA; AGROINDÚSTRIA; TÉCNICO EM ALIMENTOS e GASTRONOMIA) e Baturité (Curso de LETRAS). Fora professora de importantes Colégios e Cursinhos preparatórios para os mais difíceis vestibulares do país (por quase dezessete anos), como: Colégio Sete de Setembro, M@ster, Ari de Sá Cavalcante, Antares, Tiradentes e Irmã Maria Montenegro. É mãe do casal Nícolas (10) e Isadora (06), esposa do Subtenente do 23º Batalhão de Caçadores Cristiano Dutra. É partícipe de relevantes Antologias, em contribuição nas categorias CONTO, ENSAIO e POEMAS, como na majestosa POLICROMIAS, da nossa Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil, e de outras, como os títulos esgotados CEIA MAIOR; ESPUTO e AMOR, MÚSICA E POESIA. Foi organizadora, revisora e prefaciadora da obra poética e memorialística do ex-fazendário João Batista Terceiro (in memoriam) PASSADOS INESQUECÍVEIS. É desenhista por diletantismo, e professora atuante de videoaulas de grande capilaridade entre os pré-universitários de todo o Brasil.

II- Agora... o que não se pode deixar de saber acerca da BIOGRAFIA de AFONSO HENRIQUES DE LIMA BARRETO (que tantos influxos exercera em sua BIBLIOGRAFIA):
           
         Um dos ícones do Pré-Modernismo (1902-1922), Lima Barreto nascera na cidade do Rio de Janeiro, no dia 13 de maio de 1881, e falecera na mesma Terra Natalícia, no dia primeiro de novembro de 1922, à Rua Major Mascarenhas, no. 26, às 17 horas (Gripe torácica e colapso cardíaco). Anos extremamente relevantes (1881 e 1922), também, para a historiografia literária brasileira, a citar o surgimento do Realismo e do Modernismo, respectivamente. Filho de Joaquim Henriques de Lima Barreto e Amália Augusta, ambos mestiços e pobres, nosso Lima Barreto sofrera preconceito racial durante a vida inteira. Seu pai era tipógrafo e sua mãe, professora primária, e falecera quando Barreto tinha sete anos. Ano este em que pensara, pela primeira vez, em suicídio.
          Sempre auxiliado pelo padrinho abastado, Visconde de Ouro Preto, Barreto estudara no Liceu Popular Niteroiense e concluíra o curso secundário no Colégio Pedro II, local onde estudava a elite literária da época. E, devido à inegável dedicação aos estudos, conseguira ingressar na Escola Politécnica do Rio de Janeiro (exame vestibular), no tão almejado curso de Engenharia, em 28 de janeiro de 1897. Em 1904, foi obrigado a abandonar o curso, pois seu pai havia enlouquecido e o sustento dos três irmãos agora era responsabilidade dele... Além de imensas frustrações e dissabores enfrentados por ser o único mulato da sala e, assim, não ter sido beneficiado (como os demais: brancos e abastados!) quando, por exemplo, tinha dúvidas em Cálculo...
        Provavelmente a sua primeira grande frustração fora não ter se tornado Doutor- e isto passaria a ser amplamente denunciado em suas obras: o culto exacerbado que no Brasil nutria pelo título de Doutor, ou ao DOUTORISMO! Comumente Barreto externava que, no Brasil de seu tempo, três pedras de anéis de formaturas eram as mais exaltadas: safira (Engenharia), rubi (Direito) e esmeralda (Medicina). Esta convicção barretiana é obsoleta ou ainda hodierna?
        Outras experimentações vitais infelizes nortearão sua escritura ácida e intrépida, como o fato de não ter conseguido pertencer ao quadro excelso da Academia Brasileira de Letras, fundada por Machado de Assis, Olavo Bilac, Alberto de Oliveira e outros ícones da Bélle Epoque (nos idos de novembro de 1996... e com sessão inaugural em 20 de julho de 1897). Foram duas negativas ao seu nome para imortal da ABL. Na terceira, ele mesmo retirara sua candidatura, temendo nova decepção.
         Fora colaborador de jornais de estudantes, como A Lanterna, e depois faria uma série de reportagens para o respeitado Correio da Manhã, sem assinatura, sob o título “Os Subterrâneos do Morro do Castelo”. Fora colaborador no jornal humorístico Tagarela, sob o pseudônimo de Rui de Pina. Trabalhara na célebre revista Fon-Fon e publicara em folhetins, no jornal A Noite, sua obra Numa e Ninfa (que surgiria sob forma de livro também 1917) e fora colaborador de muitos outros jornais e revistas cariocas, como a A.B.C., da qual se afastara após ter sido publicado nesta revista, por outro escritor, um artigo contra a raça negra.
        Em 09 de julho de 1903 fora classificado em segundo lugar no concurso para a Secretaria da Guerra. Em 28 de outubro, tomara posse do cargo. Isto significaria, de uma vez por todas, findar seu sonho de estudar na Politécnica e passaria a experimentar reiteradas frustrações com o trabalho repetitório e burocrático (que lhe daria muita inspiração para as críticas externadas em romances como “TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA”, “CLARA D0S ANJOS”, “OS BRUZUNGAS”, “VIDA E MORTE DE M. J. GONZAGA DE SÁ”). Seria amanuense até 26 de dezembro de 1918. Resultado: seu tempo líquido de serviço fora de 14 anos, 3 meses e 12 dias, quando se aposentara, após algumas licenças para tratamento de saúde e seu PRIMEIRO TERRÍVEL CONFINAMENTO EM HOSPÍCIO, de 18 de agosto de 1914 a 13 de outubro.
        O segundo confinamento em hospício fora em 25 de dezembro de 1919 a 02 de fevereiro de 1920.
         O porquê dos internamentos? Alcoolismo; o fato de ter sido o único filho a cuidar dos problemas mentais do pai e, assim, muito os absorvera...
         A tão celebrizada e inolvidável obra barretiana “TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA”, romance quixotesco brasileiro, surgira em 26 de fevereiro de 1916, entre estes dois “tratamentos psiquiátricos”. E o maior legado destes seus tempos tão sofridos no “Hospital Nacional de Alienados no Rio de Janeiro” fora a obra intrigante e impactante “CEMITÉRO DOS VIVOS”.
        Um alento Barreto recebera da Academia Brasileira de Letras antes de partir: a menção honrosa (em janeiro de 1921) ao romance “VIDA E MORTE DE M. J. GONZAGA DE SÁ”.
         Lima fora, enfim, um homem que nascera e crescera para ser um gênio, um crítico ferrenho da sociedade burguesa finissecular oitocentista e daquele introito novecentista em nosso País. Fora o “Boca do Inferno do Pré-Modernismo”!!??  
        Creio que sim, e verticalizando ainda mais as temáticas críticas e contundentes abordadas pelo bardo baiano Gregório de Mattos Guerra ao Brasil e seus Governantes no Séc. XVII, ao tempo do Barroco.
        Barreto, em todas as obras produzidas, preferira a denúncia do arrivismo dos Políticos, eivados de propinas e ausência de vistas sociais; quisera minorizar a dor dos mulatos e lutar por um país com menos iniquidade e injustiça social. Nada mais premente, imprescindível e hodierno. Muito obrigada, excelso escritor, que preferira a criticidade (e por ela fora severamente castigado!) e não o lisonjeio gratuito.
        


III- E QUANTO À OBRA CENTENÁRIA “OS BRUZUNDANGAS”?

       Em junho de 1917, quando Lima Barreto estivera enfermiço e recolhido no Hospital Central do Exército, ele entregara ao seu editor Jacinto Ribeiro dos Santos os originais de OS BRUZUNDANGAS, que apareciam em volume somente em dezembro de 1922, um mês após seu falecimento.
        Segundo um dos maiores críticos literários que há acerca de Lima Barreto, H. Pereira da Silva, em sua obra “LIMA BARRETO- ESCRITOR MALDITO”, “Na república da Bruzundanga, neste livro que ferve, cozinha questões nacionais, se nada mais houvesse para ressaltar, bastariam a sinceridade, a firmeza de caráter em dizer o que nos diz, porque mexer no angu é menos prudente que derramar o caldo. Lima Barreto, porém, prefere engrossar o caldo. Mete a colher no angu, encaroça-o, salga-o, apimenta-o, mas dá-lhe certo sabor, certos requintes de humor desconhecido dos historiadores afeitos a insossos pratos servidos na Bruzundanga das letras.” (2ª. Edição, Editora Civilização Brasileira, pág. 114)
        Desde o título, desde o léxico escolhido, BRUZUNDANGA, em alegoria ao Brasil, podemos perceber seu intento de nos levar a refletir acerca de uma possível desordem, algavaria, mixórdia, BAGUNÇA... que nos possa rodear (e como, claro, poderíamos solucionar tal precariedade estrutural social)!
       Na República da Bruzundanga, reiteradas são as críticas aos cargos públicos ocupados por bajuladores e néscios; aos poetas “Samoiedas” (em nítida crítica negativa à impassibilidade da poética parnasiana, que assim ele a julgava!); aos Doutores tão exaltados e, segundo ele, hipócritas; aos escritores ou aos oradores usuários de um discurso exacerbadamente esmerado e hermético, em desarmonia com a realidade da maioria dos brasileiros. Sem faltar críticas ao teatro, à religião, à música, às eleições, ao RACISMO... 
   
Alguns excertos para análise verticalizada de “OS BRUZUNDANGAS”:

I-SOBRE OS LITERATOS
 “- Quantas cartas tens aí!- disse-lhe eu ao vê-lo abrir a carteira, para tirar uma nota com que pagasse a despesa.
             - São “pistolões”.
             - Pra tanta gente?
             - Sim; para os críticos dos jornais e das revistas. Não sabes que vou publicar um livro?”
(BARRETO, Lima. Os Bruzundangas, pág.140)       

II- NO GABINETE DO MINISTRO
“- O senhor quer ser diretor do Serviço Geológico da Bruzundanga?- Perguntou o ministro.
              - Quero, excelência.
              - Onde estudou geologia?
              - Nunca estudei, mas sei o que é vulcão.
              - Que é?
              - Chama-se vulcão a montanha que, de uma abertura, em geral no cimo, jorra turbilhões de fogo e substâncias em fusão.
              - Bem. O senhor será nomeado.
                                               ***
Pâncome, quando se deu uma vaga de amanuense na sua Secretaria de Estado, de acordo com o seu critério não abriu concurso, como era de lei, e esperou o acaso para preenchê-la convenientemente.
               Houve um rapaz que, julgando que o poderoso Visconde queria um amanuense chic e lindo, supondo-se ser tudo isso, requereu o lugar, juntando os seus retratos, tanto de perfil como de frente. Pancôme fê-lo vir à sua presença. Olhou o rapaz e disse:
                - Sabe sorrir?
                - Sei, Excelentíssimo Senhor Ministro.
                - Então mostre.
Pancôme ficou contente e indagou ainda:
               - Sabe cumprimentar?
               - Sei, Senhor Visconde.
             - Então, cumprimente ali o Major Marmeleiro.
                Este major era o seu secretário e estava sentado, em outra mesa, ao lado da do ministro, todo ele embrulhado em uma vasta sobrecasaca.
                O rapaz não se fez de rogado e cumprimentou o major com todos os “ff” e “rr” diplomáticos.
                O visconde ficou contente e perguntou ainda:
                - Sabe dançar?
                - Sei, Excelentíssimo Senhor Visconde.
                - Dance.
               - Sem música?
               O visconde não se atrapalhou. Determinou ao secretário:
               - Marmeleiro, ensaia aí uma valsa.
               - Só sei Morrer sonhando (exemplo).
               - Serve.
               O candidato dançou às mil maravilhas e o visconde não escondia o grande contentamento de que sua alma exuberava.
                Indagou afinal:
               - Sabe escrever com desembaraço?
              - Ainda não, doutor.
              - Não faz mal. O essencial o senhor sabe. O resto o senhor aprenderá com os outros.
              E foi nomeado, para bem documentar, aos olhos dos estranhos, a beleza dos homens da Bruzundanga.” (Idem, págs. 144 e 145)

III- A NOBREZA NA BRUZUNDANGA
 “(...)
           As moças ricas não podem compreender o casamento senão com o doutor; e as pobres, quando alcançam um matrimônio dessa natureza, enchem de orgulho a família toda, os colaterais, e os afins. Não é raro ouvir alguém dizer com todo o orgulho:
            - Minha prima está casada com o doutor Bacabau.
            Ele se julga também um pouco doutor. (...)
            A formatura é dispendiosa e demorada, de modo que os pobres, inteiramente pobres, isto é, sem fortuna e relações, poucas vezes podem alcançá-la.
            Coisa curiosa! O que mete medo aos candidatos à nobreza doutoral não são os exames da escola superior; são os exames preliminares, aqueles das matrículas que constituem o nosso curso secundário...
            Em geral, apesar de serem lentos e demorados, os cursos são medíocres e não constituem para os aspirantes senão uma vigília de armas para serem armados cavaleiros.
            O título – doutor - anteposto ao nome, tem na Bruzundanga o efeito do – dom – em terras de Espanha. Mesmo no Exército, ele soa em todo o seu prestígio nobiliárquico. (...)
            (...)
            O nobre doutor tem prisão especial, mesmo se tratando dos mais repugnantes crimes. Ele não pode ser preso como qualquer do povo. Os regulamentos rezam isto, apesar da Constituição, etc., etc.
            Tendo crescido imensamente o número de doutores, eles, os seus pais, sogros, etc., trataram de reservar o maior número de lugares do Estado para eles. Capciosamente, os regulamentos da Bruzundanga vão conseguindo esse desideratum.
             (...)”  (Ibidem, pág. 33 e 34)  

IV- AS ELEIÇÕES
     “(...)
     Julgavam os chefes e capatazes políticos que apurar os votos dos seus concidadãos era anarquizar a instituição e provocar um trabalho infernal na apuração, porquanto cada qual votaria em um nome, visto que, em geral, os eleitores têm a tendência de votar em conhecidos ou amigos. Cada cabeça, cada sentença; e, para obviar os inconvenientes de semelhante fato, os mesários da Bruzundanga lavraram as atas conforme entendiam e davam votações aos candidatos, conforme queriam.
     (...)” (Pág. 92)


FOTOS






quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

SAMUEL RAWET SOB A ÓTICA DE VLÁDIA MOURÃO



Palestra proferida pela professora Vládia Mourão na Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil - AJEB-CE

O TEMPO NA LITERATURA DE SAMUEL RAWET

Considerado como um renovador na nossa literatura, “uma espécie de pioneiro, de visionário das novas conquistas e pesquisas do conto brasileiro de hoje”, Samuel Rawet, chegou “a desorientar a crítica em relação aos seus valores estéticos”. O fato é que os estudiosos, os críticos mais tradicionais, “alicerçados em valores tidos por consagrados, não encontravam em sua obra as costumeiras indicações da elaboração do gênero entre nós”.(1)
Samuel Rawet apresenta, em sua escritura, características bem marcantes, como a discussão dos problemas literários pela própria literatura, numa espécie de metatexto, revelando pelo menos duas funções de extrema e aguda consciência de seu papel de escritor: a arte literária por excelência e o exercício da crítica literária.
Movido por esse intuito, sua linguagem deixa de ser apenas um veículo para a formalização de enredos e condução de ideias e passa a ser parte integrante do processo de criação, ou seja, os “seus recursos linguísticos não estavam somente a serviço de um estilo, de um certo modo de escrever bem, e sim, em função do mundo a ser criado como expressão”.(2)
Samuel Rawet possui aquilo que Ernesto Sábato vai qualificar de “a condição mais preciosa do criador, o fanatismo”. E ressalta que é preciso ter uma obsessão fanática pela criação e que nada deve antepor-se a ela. O escritor deve sacrificar qualquer coisa em função da criação, pois sem esse fanatismo nada de relevante poderá ser realizado.
Aliás, há duas atitudes que dão origem aos tipos fundamentais de elaboração ficcional: ou o escritor escreve de forma lúdica, para entretenimento seu e dos leitores, para distração, para buscar momentos agradáveis; ou ele escreve para investigar e tentar compreender a condição humana. O texto lúdico é prazeroso. O texto problemático é inquietante, produz um desassossego. Por isso, concordamos com o pensamento de Maurice Nadeau, ao afirmar que inútil é o livro que deixa o leitor e o escritor da mesma forma que eles eram antes. E cita como exemplo O processo, de Kafka, texto que causa impacto no leitor seja qual for seu tempo e sua circunstância.   
Assim, dentre as múltiplas feições que assume, além de possibilitar a articulação das palavras, a linguagem é fonte de tensão, prazer e medo; a linguagem é potencializadora dos sentimentos humanos. A linguagem articulada pelo homem, através da palavra proferida, é monopólio do próprio homem, e Samuel Rawet trabalha a palavra com maestria e destreza inigualável.
Mesmo sendo um artífice da palavra, dentro de uma perspectiva histórica, os estudos da literatura registram que na época de sua estreia, Samuel Rawet não conseguiu chamar a atenção do grande público para seu livro Contos do imigrante, coletânea que deixava o restrito círculo de leitores perplexos, totalmente desprovidos de apoio para realizar sua apreciação, juízo ou julgamento, pois o escritor reunia ali contos herméticos, subjetivos, muitas vezes mergulhados em densa atmosfera de angústia.
Além do que, seus textos estavam, muitas vezes, a questionar os problemas ficcionais, num entrecruzar de quase ficção e quase realidade. Como analisa um de seus personagens, observando, com certa vigilância, que “seus primeiros contos tinham um ranço didático, narravam com precisão uma história e um ambiente, até que um dia descobriu que esse ranço era a própria negação do ato de criar” e que, por isso mesmo, “a precisão era uma pretensa hipertrofia de um olho pouco exigente”.(39)
Em inúmeros contos de Samuel Rawet encontramos a predominância da discussão em torno de diversas propostas literárias. Realmente, ele tematiza, via de regra, sobre fatos de extrema singularidade e pouca significação como enredo. Muitas vezes, seus textos constituem-se de narrativas que não são contáveis como história, pois para o escritor não importa o que se conta, mas como se conta.  Nesse sentido, podemos afirmar que a sequência lógica da narrativa é totalmente desconsiderada em prol do modo de narrar. Assim, texto enquanto texto. Literatura, necessariamente, abordando aspectos doutrinários, mas sem aspas e citações didáticas. Um conto que teoriza o conto. O texto justificando e interpretando o próprio texto.
Essa tendência foi evidenciada pelo crítico Wilson Martins, duas décadas depois, numa série de artigos publicados pelo Jornal do Brasil, conforme se comprova:

Forma narrativa como valor autônomo na equação romanesca: a maneira de narrar ganhou importância maior que a história narrada e o caráter dos personagens; autor e leitor têm a consciência permanente desse elemento retórico, quero dizer, a natureza deliberadamente artificial da coisa literária. O autor chama a atenção para sua maneira de escrever e de contar, da mesma forma porque o leitor não recebe autorização para esquecer o que está lendo.(40)

Sobre a questão do tempo, propriamente dito, em Samuel Rawet, com relação à sua produção literária, notadamente o conto, que é o gênero que está em nosso foco de análise, encontramos o autor entrecruzando, a um só tempo, no aparato linguístico, diversas dimensões temporais.
O tempo objetivo registrado por meios convencionais, que marcam o transcorrer inexorável do tempo – está presente na obra de Samuel Rawet em inúmeros contos, na maioria das vezes, entrelaçado com outras referências temporais. Porém, precisamente, em seu livro O terreno de uma polegada quadrada, considerado por Hélio Pólvora como o mais “espontâneo dos seus livros”, Samuel Rawet constrói, na maior parte dos contos, textos lógicos e bem delimitados no que concerne à marcação do tempo.
Já o tempo subjetivo alcançando, na curta narrativa, a intensidade e amplitude de uma onda diretamente proporcional à experiência vital acumulada, se insere, de modo efetivo, em vários contos de Samuel Rawet.
Na perspectiva temporal subjetiva, em que atuam “fatores como idade, cultura, intensidade de fatos vividos”, como adverte Raul H. Castagnino, “as crianças têm pouco diversificadas as perspectivas de tempo; os adolescentes vivem a dimensão futura; o homem maduro sente o domínio do presente; a velhice agiganta o passado”.(44)
Se no plano humanístico cabem tais circunstâncias temporais, conforme leciona o teórico, o que se pensar das variações temporais no plano literário, quando o ficcionista, a partir de infinitas possibilidades, se encontra às voltas com personagens, fatos e experiências vivenciadas no passado ou projetadas para um futuro incerto.
Diante destas considerações, ressaltamos que no conto “O Jogo de Damas” (Diálogos, 1963) há, em toda a sua extensão, a predominância do tempo subjetivo. A história é protagonizada por dois personagens, enquanto jogam uma partida de damas. E toda a narrativa se resume ao tempo dessa partida, que não se sabe ao certo quanto tempo durou, no plano objetivo, mas que durante esse tempo indefinido, os personagens vagaram, através do pensamento, pelo passado, através de flash back.
Em se tratando de tempo psicológico, podemos afirmar que ele se relaciona, predominantemente, com os valores afetivos, quando o personagem nos envolve com seus problemas emocionais, nos levando para dentro da narrativa, nos convidando a penetrar numa zona de conflitos e situações de seu universo ficcional.
O tempo psicológico é, na realidade, um tempo que se processa sem padrão de medida, representando um eterno presente, intuído pelo “eu” de cada um, independentemente de convenções.
Não há um antes nem um depois, assim declara o Narrador de A hora da estrela, livro de Clarice Lispector: "Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer?” Quando o Narrador afirma que "vivemos exclusivamente no presente" pressupõe a repetição indefinida do que ocorre no relato. Uma referência ao que vem depois – "esta história será o resultado de uma visão gradual" - afasta no mito o que poderia suceder num futuro real.
Nesta linha de raciocínio seguida por Clarice Lispector, não conseguimos cronometrar o tempo que sugere o conto “A Porta” (Diálogo, 1963).
O texto inicia quando um anônimo personagem, diante de uma placa de madeira, mergulha numa série de conjecturas e hesitações, passando a fazer um levantamento de sua existência, sem nenhum critério objetivo, realizando uma espécie de inventário de seus problemas existenciais, através de monólogo interior, próprio de uma consciência em disparos:

A mesma frase, as mesmas palavras, mas com outra inflexão, bastaria para arrancá-lo do torpor que o dominara... E nunca se destrói o ódio? Nunca se esterca o sarcasmo na frase feita com intenções mal acobertadas? Sempre a carga demolidora no gesto visual, o desprezo no ato comum?

Quanto ao tempo misto, possivelmente o de maior realce na obra de Samuel Rawet, se caracteriza pela simultaneidade de presente e passado, pelo entrecruzar de acontecimentos atuais com os já ocorridos ou imaginados, numa fixação psicológica, através de flash back aplicado a narrativas que, apresentam pouca significação e coerência como histórias contadas ou vivenciadas.
Como imigrante, embora tenha chegado ao Brasil ainda criança, Samuel Rawet carrega uma profunda memória histórica, como componente de um povo que se reconhece como povo. E nessa memória busca estabelecer o significado das suas origens e sua identidade, justamente com o intuito de resgatar o passado no presente. Essa sensação de estranhamento é justificável pela própria origem e raça do escritor.
Ao avançarmos na análise dos textos, podemos observar, por exemplo, que no conto “Uma Tarde de Abril”, pouca coisa acontece digna de nota; os fatos, na verdade, parecem insignificantes. Uma reunião, uma festinha de classe média, um homem entre os convidados, a entrecruzar seu destino. Abstraído totalmente daquela estranha geografia de copos, garrafas, pratos de salgados, cinzeiros, “envolvendo excessos de pontas sobre o tempo”, fixa-lhe uma passagem, “um esforço para se desvincular do presente”. Em dado momento pergunta a si mesmo: “até que ponto um homem é capaz de construir o seu passado, construí-lo em detalhes”.
Este posicionamento do personagem, sem qualquer apresentação, surgido de súbito, sem qualquer indicação, alude, de imediato, para a característica básica da estrutura do conto, ou seja, a contenção dos meios narrativos e, em consequência, a economia de espaço e de tempo, ou até sua ausência completa, como se observa no seguinte trecho:

Um homem sem passado, sem nome, a cruzar por todos os destinos igualmente anônimos, porém seguro nos seus passos e, sobretudo dotado de forças suficientes para chegar ao extremo do itinerário percorrido.

Quanto à postura de Samuel Rawet como escritor, vamos encontrá-lo em diversos momentos em pleno exercício de humildade, tanto em relação ao seu fazer literário, que deu concretude a monumental obra de engenharia literária, como em relação às atitudes puramente humanas, quando, em depoimento carregado de emoção, narra o encontro que teve, pela primeira vem, na época da construção de Brasília, com Oscar Niemeyer, elogiando sua grandeza e erudição. Certo dia, contou Samuel Rawet que teve um “troço” por dentro, quando encontrou Oscar Niemeyer, Joaquim Cardozo e Lúcio Costa, seus mestres de engenharia.
Em relação à narrativa, em termos de história, encontramos ao longo de sua obra uma variedade de temas e de situações vivenciadas por personagens vários. Às vezes são pessoas discriminadas pela sociedade como o imigrante e o vagabundo, encarnações modernas que relembram o drama do judeu errante à procura de sua identidade; outras vezes, são pessoas cheias de conflitos, dramas próprios de seres normais e problemáticos que povoam nosso cotidiano.
Ao penetrarmos no universo literário de Samuel Rawet, fica muito fácil nos identificarmos com seus personagens. Comum é percebermos que habitamos ali naquele mundo recriado pela imaginação do escritor. Corriqueiro é nos determos diante de um dos seus personagens e termos a nítida impressão de que estamos diante nós, como num espelho a refletir a nossa imagem, sem a menor possibilidade de distinguirmos o que é espaço e tempo dentro de nossa consciência.
Mas quem é Samuel Rawet? Na realidade, ele encarna bem a expressão “um conhecido desconhecido”. Quem o conhece por seus textos, só tem duas reações: ou ama ou rejeita. Não há meio termo. A reação é extremada.
Samuel Rawet, que nasceu precisamente em 23 de julho de 1929, na pequena aldeia de Klimotow, cidade composta na sua maioria por judeus poloneses. Seus pais eram pequenos comerciantes, de origem muito humilde. Samuel Rawet começou a estudar muito cedo numa escola que funcionava ao lado da sinagoga, em sua terra de origem. É o próprio Rawet quem nos dá conta de alguns referenciais cronológicos de sua infância:

O primeiro alfabeto que aprendi foi o ídiche – não aprendi o hebraico propriamente. Aprendi as rezas, alguém me traduzia a frase toda, a prece, o versículo. Tenho lembranças da vida na aldeia, lembranças do inverno, da vida religiosa, da convivência com parentes, lembranças inclusive de um mundo que não existe mais...

O modo de vida na Europa Oriental no início do século XX era muito em torno da sinagoga e da casa de estudos (escola), sempre situada em zonas rurais e organizada em comunidades. Esse fato posteriormente veio influenciar o trabalho de Samuel Rawet, principalmente no seu conto “O Profeta”, que nos dá a dimensão da intensidade das lembranças da infância, marcada pelos hábitos antigos de seus antepassados.  
Samuel Rawet chegou ao Brasil com sete anos de idade, mesmo assim conseguiu guardar lembranças da primeira infância vivida em sua terra, a tal ponto que essas reminiscências perduraram em sua obra e em seu percurso existencial. O sentimento de errância, de solidão vai permanecer na vida de Samuel Rawet até o fim, por via de consequência, seus dramas e frustrações serão incutidos ao longo de sua literatura.
Em nossas pesquisas, descobrimos que Samuel Rawet se mantém religioso até os quinze anos de idade. Mas na fase final da segunda guerra, com o extermínio nos campos de concentração, muitos judeus se perguntavam e até hoje se perguntam, “onde Deus estava enquanto os alemães matavam seis milhões de pessoas”. É quando o surge o questionamento presente na obra de Samuel Rawet e no meio da comunidade judaica: “Depois de Auschwitz é possível continuar religioso?”. Esse tema vai ser discutido pelo escritor em sua obra, através de alguns personagens como o “O Profeta”, que terá sua mudez provocada por ser um sobrevivente, carregando para o resto da vida a impossibilidade de comunicar a experiência traumática nos campos de morte.
Os conflitos do escritor não cessam nunca, desta feita são de ordem literária. Sua postura humilde acarretou-lhe graves problemas de autoestima. Quem nos conta é o próprio Samuel Rawet, ao confessar que um

...tipo de leitura que me apaixonou e me empolgou – e que depois me criou problemas tremendos – foi que se denominava de literatura brasileira de época, o que eu chamo de “gigantes nordestinos”, Raquel de Queiroz, Zé Lins, Jorge Amado. Este grupo me arrasou, andei deixando de escrever por causa deles. Achava que não tinha nada a dizer diante deles. Aliás, só mais tarde é que fui descobrir os autores que, estes sim, me estimularam e me ajudaram, autores como Lima Barreto, Cornélio Penna e outros.

Já sua incursão pelo teatro foi frustrante. Depois de algumas experiências mal sucedidas, Samuel Rawet destrói quase tudo que escreve. Somente numa fase mais madura, quando já trabalhava como engenheiro na construção de Brasília, é que começou a se interessar por um tipo de teatro mais poético, escrevendo as seguintes peças: O papa do gueto; A noite que volta e O lance de dados.
Numa fase anterior de sua vida Samuel Rawet fez crítica de teatro, ainda no tempo em que fazia escola de engenharia. Depois abandonou a atividade, conforme confessa:  “me desinteressei”, não obstante seu convívio com o ambiente teatral e sua admiração pelo teatro expressionista de Ziembinski, que muito influenciou em suas narrativas.
A partir dos anos 50, Samuel Rawet concentra toda sua atividade intelectual no conto, gênero que vai se adequar aos seus objetivos e para o qual dará valiosa contribuição. Com a publicação de Contos do imigrante, Samuel Rawet conta-nos que teve uma grande surpresa:

Em 1951, 52, 53, eu ia publicando meus contos em suplementos. Naqueles tempos todo jornal tinha um suplemento. A grande emoção era sábado à noite ficar tomando chope com os amigos até de madrugada, pra esperar o jornal de domingo às quatro da manhã a fim de ver se o conto havia saído ou não. Era uma farra. Publiquei meus contos no suplemento do “Diário Carioca”. Mandei o primeiro, eles aceitaram. Quando fui levar o segundo, Prudente de Moraes Neto, diretor do suplemento, me perguntou se eu não tinha mais coisas, disse que sim. Ele então me pediu que juntasse os contos e levasse pra ele...; quando fui procurá-lo mais uma vez, ele me levou até a Ed. José Olympio, me apresentou lá e dois anos depois o livro era publicado.

A repercussão que teve o livro não foi ampla, sequer conseguiu chamar a atenção dos leitores, mas para o autor este fato não teve importância. Afinal, ele não esperava nem mesmo sua publicação. Além do que, em toda sua carreira este foi um momento extraordinário, único, que não mais se repetirá.
Seu segundo livro Diálogo é publicado em 1963. Observamos que houve um intervalo relativamente longo entre um livro e outro. Possivelmente uma indisposição de Samuel Rawet para escrever, uma fase em que ele priorizou outras atividades, como a engenharia e o trabalho de engenheiro calculista durante a construção de Brasília.

Entre os anos de 1968 e 1969, Samuel Rawet larga o emprego, vende seu apartamento e volta para o Rio de Janeiro, para, com o dinheiro, financiar a edição de seus novos livros: O terreno de uma polegada quadrada, que ficou encalhado num depósito, devido a um desentendimento com o editor e cinco volumes de ensaios. Em 1967 consegue uma co-edição com o INL para publicar Os sete sonhos, livro que recebeu o Prêmio Guimarães Rosa.
Samuel Rawet ainda publica com recursos próprios, em 1970, A viagem de Ahasverus à terra alheia em busca de um passado que não existe porque é futuro e de um futuro que já passou porque sonhado, uma novela curta, mas com o mesmo estilo e tema adotado em seus contos. Seu único livro esgotado até hoje foi Contos do imigrante, os outros continuam esquecidos nas prateleiras ou depósitos de livrarias e distribuidoras.
Quando um escritor toma a atitude extremada de financiar a publicação de seus livros é porque as dificuldades de participar do mercado editorial já naquele tempo, ou sempre foi e será sempre difícil. Conseguir sobreviver de literatura neste país, ser um escritor profissional é privilégio para poucos.
Como escreve Ernesto Sábato em seu livro O escritor e seus fantasmas, “para o bem ou para o mal, o verdadeiro escritor escreve sobre a realidade que sofreu e de que se alimentou, isto é, sobre a pátria, embora, às vezes, pareça fazê-lo sobre histórias distantes no tempo e no espaço”. E acrescenta que parece difícil escrever algo profundo que não seja ligado de forma aberta ou emaranhada à infância.
Justamente é o que ocorre com Samuel Rawet em seu livro publicado em 1978, intitulado Angústia e conhecimento – ética e valor, onde descreve seus conflitos com a família, desde a fase da adolescência até a adulta, quando menciona que “a convivência familiar estava abaixo de qualquer padrão mínimo de equilíbrio e decência”, ao mesmo tempo em que relata os detalhes do rompimento com os irmãos por questões de herança.
Na verdade, Samuel Rawet foi, em toda sua vida, um solitário. Um homem imerso na sua angústia, na condição dramática de exilado, na marginalização, que o fazia se identificar com o escritor Cruz e Sousa quando afirma que

Judeu é isso, é aquilo, qualquer coisa parecida com o que enfrentara pessoalmente em sua condição de mulato, e mulato é negro... Nenhuma violência, nenhum obstáculo, concreto, um estado de espírito, apenas, criar barreiras, um incômodo feito de miudezas que moem, trituram, dilaceram e exacerbam pequenos impulsos, sonhos.

A herança que Samuel Rawet nos deixa é valiosíssima, sua contribuição no âmbito da ficção, do ensaio, do teatro e da filosofia nos traz, ao mesmo tempo, uma espécie de despertar da consciência para a condição do homem no mundo, misturada ao encantamento provocado por suas reflexões filosóficas e existenciais.
Conto e ensaio foram os dois gêneros que mais frequentaram o universo literário do escritor e de forma simultânea, num entrecruzar de indagações éticas e estéticas, conforme afirma:


Hoje a palavra mudou para mim. É pura ambiguidade em relação ao real, e os dois extremos experimentados me convencem ainda mais: delírio e ironia. 

E como o tempo passa depressa e para não cansar essa distinta plateia, encerro minha fala citando Antônio Carlos Villaça, quando diz que no “princípio era o nada; depois, apareceu Machado de Assis; depois, foi o nada, outra vez”. E depois veio Samuel Rawet. 

Professora Vládia Mourão
22 de novembro de 2016










sexta-feira, 23 de outubro de 2015

CINEMA E LITERATURA : ARTES QUE SEDUZEM - por Evan Bessa

                             
       

Hoje, vamos tentar falar sobre Cinema e Literatura, partindo do princípio de que não iremos aprofundar e nem esgotar o tema, visto a dimensão que representam, mas apenas pontuar alguns aspectos importantes das duas artes que tanto seduzem seus admiradores.

Segundo o dicionário Aurélio, a arte de um modo geral é a capacidade que tem o homem de pôr em prática uma ideia, valendo-se da faculdade de dominar a matéria. Atividade de espírito quase sempre, de caráter estético, mas carregada de vivências íntimas e profundas, podendo suscitar em outrem o desejo de renovar uma obra de arte. A capacidade criadora do artista de expressar ou transmitir sensações e sentimentos. Com essa introdução, diríamos que a literatura e cinema são artes universais. A primeira, expressão artística que remonta há muitos séculos, enquanto o cinema surge no final do século XIX e esteve sempre ligado à Literatura através de adaptações de obras, demonstrando assim, que se complementam.

Podemos considerar a Literatura como um conjunto de saberes envolvido na produção escrita de uma época ou de um país. A escrita apareceu bem antes. O texto artístico está quase sempre carregado de metáforas para provocar reações emocionais nos receptores. Os primeiros textos se expandiram na forma oral, por muitos séculos, antes de serem escritos em papiros. A forma literária mais antiga é a poesia – Como a Ilíada de Homero.  O cinema por sua vez tem origem como os irmãos Lumière em Paris no ano de 1895. O Cinema, então, evolui mais rapidamente por conta das estruturas narrativas existentes, sendo relevantes para a elaboração da linguagem cinematográfica. De início, contada através de imagens, posteriormente em imagens em movimento.

Estudo comparado entre essas duas expressões artísticas comprovam a grande contribuição que uma arte traz a outra. Para o crítico literário João Batista Brito, do ponto de vista da interdisciplinaridade é interessante observar a verbalidade da literatura pelo viés do cinema e a iconicidade do cinema pelo viés da literatura. A literatura trabalha com a palavra escrita, com a narrativa, como recurso de elaboração. O cinema parte da imagem em movimento para introduzir palavras, diálogos de personagens ou, às vezes, a narrativa nele presente, incluindo demais artifícios, seja som, música ambiente, dentre outros. Podíamos afirmar que tanto uma, como a outra são imprescindíveis na propagação da cultura e para a criatividade humana.
Tanto o cinema como a literatura se alimentam, mutuamente, em termos de influência nas adaptações. O cinema aproveita da literatura a tarefa de contar histórias com algumas diferenças, no tocante a sentimentos e os transforma em imagens na mente do homem. O cineasta nem sempre pode ser fiel à obra original porque não pode representar visualmente significados verbais e, em função, da imagem conceitual que a leitura faz nascer no espírito, é diferente da imagem fílmica. O romance narra o mundo, o filme nos coloca diante do mundo de acordo com uma continuidade e contiguidade. A linguagem do cinema representa de forma direta e física os objetos da realidade a que se liga ao padrão oral de significação. Tal qual a Língua o cinema é abstração, um objeto de estudo que se concretiza a partir de um código, de uma gramática e de um pacto social, o cinema não existiria sem o filme. Sua linguagem é vista e ouvida no momento que acontece. Não pode usufruir da metáfora como a Literatura. Os cineastas se utilizam das figuras, tais como: anáfora e da repetição. Daí poder se dizer que as duas artes são convergentes, mas em circunstâncias distintas. Bergman e Fellini cineastas famosos defendiam que o cinema não tinha nada a ver com a literatura.  Por outro lado, Andrés Bello, filólogo e ensaísta venezuelano, afirma que 2/3 dos longas de Hollywood são adaptações produzidas a partir da narrativa – ambos são da mesma matéria. Todo texto se constitui um diálogo intertextual, podendo assim, uma obra originar outras obras por meio de um olhar diferente.

Podemos apontar alguns exemplos de adaptações literárias para o cinema: Laranja Mecânica; 2001- Uma Odisseia no Espaço; Ben-Hur; D. Casmurro; O Guarani, Vidas Secas, dentre outros. Muitos dizem que filmes baseados em livros são piores que a história original, mas deve-se observar que são formatos e linguagens diferentes. Quando se abandona o meio linguístico e passa para o visual podem ocorrer mais elipses com relação à narrativa e mudança serão inevitáveis. No entanto, enquanto linguagem, suas informações estéticas estarão ligadas por pontos comuns, entre as obras. Embora o cinema seja uma obra autônoma, não perde a essência daquela que foi traduzida (reproduzida). O conteúdo de um filme é constituído de um conjunto de temas que se integram na mensagem global do filme. Para Claude Bremond, semiólogo, francês, o filme só desperta interesse quando suscita reflexão, quando colocarem em ebulição, na representação do grupo, um foco de excitação intelectual, emotiva e imaginária ligada aos desejos não satisfeitos, aos conflitos não resolvidos pelos indivíduos. Por isso não há temática inocente.

Além disso, os cineastas e diretores colocam no seu trabalho, objetivos, crenças, sua estilística e utilizam uma metodologia que mais lhes satisfazem em termos visuais e intimistas.  Diretores internacionais como: Bergman, Hitchcock, Woody Allen, Antonioni, são exemplos claros do que dissemos. Podemos citar o filme adaptado do livro de Edgar Allan Poe, O Corvo, que em face da visão do cineasta, sua criatividade e perfeccionismo foi um fracasso de bilheteria. Por outro lado, Truman Capote teve obra adaptada para o cinema: Bonequinha de Luxo, com Audrey Hepburn, que concorreu a Oscar, no entanto, sua obra-prima foi A Sangue Frio, tendo obtido êxito em ambos. Vejamos outras obras mais conhecidas que se transformaram em filmes: O Mistério da Estrada de Cintra: Eça de Queiros e Ramalho Ortigão; Expresso do Oriente: Agatha Christe; Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago; São Bernardo: Graciliano Ramos; Memórias Póstumas de Brás Cubas: Machado de Assis; Macunaíma: Mário de Andrade. Muitos outros poderíamos incluir nessa relação.

Nessa perspectiva, vemos que as artes Literatura e Cinema atravessaram os séculos, demonstrando possibilidades diferentes de lazer e de informar o grande público, ao mesmo tempo em que, contextualiza época e fatos ocorridos com linguagens específicas. Porque os diretores buscam a fundamentação das histórias na Literatura para transformá-la em linguagem cinematográfica, roteiros, argumentos que serão introduzidos no seu fazer artístico, o que resultou numa imensa indústria cinematográfica, com retorno de milhões e bilhões de dólares. A literatura não deixa de ser à base de toda essa manifestação que se imbrica ao cinema formando o texto e os contextos que evoluem para os autores e espectadores que se sentem seduzidos por artes tão importantes para a humanidade.


BELLO, Andrés – Crítica Literária; BRITO, João Batista De – Literatura e Cinema; BREMOND, Claude – A Lógica das possíveis narrativas.

(Palestra proferida na reunião da AJEB do dia 20 de outubro de 2015, no Náutico Atlético Cearense)