ATUAL DIRETORIA AJEB-CE - 2018/2020

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quarta-feira, 29 de agosto de 2012

CLEUDENE ARAGÃO ENCANTA PLATEIA AJEBIANA

Com sua simpatia, sempre com um sorriso nos lábios, a Escritora Cleudene Aragão deixou sua marca registrada no universo da AJEB, momento no qual, em palestra agradabilíssima, enriqueceu-nos, cantando e decantando "as terras contadas e encantadas de Mia Couto". Foi um passeio pelo mundo subjetivo da obra desse genial homem de letras.
Além do mais, a exposição, uma verdadeira aula de literatura, despertou, na plateia, principalmente, naqueles que ainda não conheciam a obra de Mia Couto, a vontade de lê-lo e peregrinar através das suas bem construídas metáforas, desvendando-lhe os mistérios e sorvendo páginas inteiras de real beleza.
Agradecemos, jubilosamente, à Cleudene Aragão, por esse momento tão rico, proporcionado pela competência, pelos conhecimentos, enfim, pela inteligência da professora, mestre, doutora, ensaísta e escritora e, para nosso gáudio, amiga, Cleudene Aragão.
A seguir, exibiremos o registro desse momento.













quarta-feira, 20 de junho de 2012

PALESTRA NA AJEB-CE


O SONETO NA OBRA POĖTICA DE  COSTA MATOS

Zenaide Braga Marçal – AJEB – CE


    Para a nossa reunião ordinária deste mês, foi-me dada, dentro da programação estabelecida, a grande responsabilidade de trazer para nossas confreiras e confrades, um trabalho literário sob tema à minha escolha. Pensei em algo que pudesse ser do agrado dos presentes e resolvi comentar alguns pontos da Poesia do nosso tão estimado e saudoso José Costa Matos.
     Longe de mim está a pretensão de ser possuidora de fundos conhecimentos da obra poética desse valioso Poeta, sócio Honorário da AJEB, assíduo frequentador das nossas reuniões mensais, às quais trazia o prestígio de sua presença e de suas oportunas intervenções.
     O título que escolhi para este trabalho – O Soneto Na Obra Poética de Costa Matos – tem como razão de ser, o fato de que tendo sido o Soneto  deixado um tanto em segundo plano devido ao Movimento Modernista e à consequente valorização do verso livre, muitos poetas não cultivaram o soneto como forma de expressão de suas inspirações poéticas. No entanto, embora criador de inúmeros poemas em versos livres de extraordinária beleza, o nosso poeta jamais deixou de prestigiar o soneto, de valorizá-lo através de suas criações.
     Aqui farei apenas algumas referências de ordem biográfica, até porque não poderia,  neste curto espaço de tempo, dizer tudo o que ele foi e o que fez, numa vida que sabemos proficiente, cheia de lutas e de vitórias. José Costa Matos nasceu em Ipueiras, onde fez seus primeiros estudos. A seguir, estudou em Sobral, no Colégio Sobralense e depois em Fortaleza, na UFC, onde se formou em Letras Anglo-Germânicas. Fundou na sua cidade a Escola Normal Rural, da qual foi professor, profissão esta que exerceu ainda na Faculdade de Filosofia D. José, em Sobral, na Faculdade de Direito e no Curso de Comunicação Social, ambos da UFC. Fez parte, também, do Corpo Docente da Unifor. Foi Auditor Fiscal do Tesouro Nacional, em cujo cargo se aposentou. Era membro da Academia Cearense de Letras, ocupando a cadeira n° 29. Sócio Honorário da Academia Fortalezense de Letras e da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil – AJEB.
     Sua produção literária foi muito fértil, tanto em poesia como em prosa, e, pelo valor de sua escrita e de sua inspiração,  foi detentor de muitos prêmios. O seu livro “O Povoamento da Solidão” (poesia) mereceu o Grande Prêmio Minas de Cultura; Obteve o 1° lugar , na categoria Contos, no II Prêmio Ceará de Literatura; 1° lugar no Prêmio Osmundo Pontes de Literatura, em 1996, com seu romance “Rio Subterrâneo”; 1° lugar no III Prêmio Ideal Clube de Literatura em 2000, com seu livro de contos “Na Trilha dos Matuiús, para citar apenas as premiações mais importantes.   
     Sobre ele escreveu Pedro Nava: “Logo me inteirei de sua poesia direta e sem rebuços. Digo isto porque ela é certeira do poeta ao que o lê”.  (...)
     Impossível descrever na sua totalidade as qualidades que  eram parte integrante de seu caráter, de sua imagem pessoal. Seu pequeno porte físico abrigava um grande ser humano. Na simplicidade, manifestava-se o inspirado poeta, o filósofo, o literato, o amigo, que nos levava a sentir o valor daquela amizade, sempre enriquecedora nas  palavras repletas de coerência, de sabedoria, e da fé que lhe norteava a vida e se fazia presente  em boa parte de seus poemas, como neste verso livre: “Deus tem oficina de salvação depois da última curva da esperança”.
      Num pequeno trecho da sua Meditação de Natal, faz considerações sobre passagens do Evangelho, comparando-o aos dias atuais. Uma dessas considerações é que, referindo-se à transmutação da água em vinho nas bodas de Caná, ele diz que, neste século, Maria pede que a água seja transmudada em água, que se restabeleça a pureza dos rios e dos mares, prejudicados pelos interesses econômicos. Podemos ver que a sua obra continha passagens  de cunho social.
     Diz, ainda, que “habituado a mentiras e meias verdades, o Brasil sofre uma falta de certezas. E que movimentos altamente dinâmicos representam uma busca de Deus como última instância da esperança”.
     Além do encanto de seus escritos, faz belas citações poéticas, como ao dizer que André Gide esquece o seu ateísmo e liberta este deslumbramento da fé: “Foi para nós, Senhor, que fizeste a noite tão profunda e tão bela? Foi por mim? O ar está quieto. Pela minha janela aberta, a lua entra. E eu escuto o silêncio imenso dos céus”.
     Mas Costa Matos, com seus poemas “carregados de poesia”, e não vai aqui qualquer redundância, embora autor de versos livres belíssimos, era defensor incondicional do Soneto. Seu livro O povoamento da Solidão contém mini-poemas, poemas em verso livre e 20 Sonetos.  Publicou Estações de Sonetos, onde constam 132 sonetos, selecionados dos seus  livros de poemas: Pirilampos, As viagens, O Sono das Respostas, Na última Curva de Esperança, O povoamento da Solidão, todos com a marca registrada de sua Poesia. Diz o Poeta que alguns desses sonetos inovam a estrutura métrica e que um verso alexandrino pode estar simétrica e intencionalmente no corpo de algumas estrofes. Vale lembrar que os seus sonetos eram, na maior parte, decassílabos.  Na introdução deste livro afirma que Guittone d’Arezzo estabeleceu as regras do soneto no século XIII e diz:  “ Já lá se vão setecentos anos. Em vinte e oito gerações, no lado ocidental deste planeta, poetas e leitores sustentam a magia desta forma fixa do mistério poético. [...] “ Seriam todos idiotas, no cumprimento dessa aparente vocação para a eternidade”?
     Diz ainda que  “ao longo destes séculos, muitos tabeliães da crítica literária lavraram certidões de óbito do soneto. Eles é que desapareceram, deixando poucos ou nenhuns rastros de sua literatura”.
     O Poeta nos fala também da constatação de que os sonetos socorrem os jovens, na quase mudez das suas emoções.
     Transcrevo aqui um parágrafo inteiro dessa mesma introdução:
“Essa deficiência da expressão fez surgir os grafiteiros. São poetas raivosos. Apóstolos? Mas a escola dessa civilização os desterrou do primeiro capítulo do Evangelho de João: “No princípio era o Verbo”. E eles não receberam a palavra, que está no princípio de tudo. Borram signos, por vezes indecifráveis, nos monumentos e arranha-céus. Amansariam as almas na poesia, livres da sedução da fúria predadora, se escrevessem sonetos como outras gerações mais afortunadas do verbo”.
     Quando lemos os poemas de Costa Matos, sentimos o desejo de transmiti-los integralmente, tanto somos tocados pela leveza dos sentimentos ali expressos. Temos, porém, que nos contentar em citar alguns versos apenas, que possam traduzir as passagens mais tocantes, reveladoras de seu pensamento e de sua personalidade.
    Escolhi somente dois sonetos que deverão ser lidos na íntegra. No mais, são passagens pela sua poesia, em versos reveladores da singularidade deste poeta.   Eis o primeiro, intitulado  - A Estrangeira -  que será lido por__Pereira de Albuquerque.
                        
A ESTRANGEIRA
Ficaste aqui perto de mim, no entanto,
é como se estivesses longa, agora,
com serras, mares, muito tempo e pranto
crescendo entre nós dois, hora por hora.

Amor que acaba ou que prepara o encanto
das volúpias supremas, como outrora?
Tristeza em ti, em mim tristeza e espanto.
Por essas coisas é que a gente chora.

Esmaece um poente no teu rosto,
onde o sorriso, como um rei deposto,
se asila em tua mística bondade.

E a mim, que já te conheci feliz,
pareces estrangeira no país
da minha vida, capital Saudade...

Continuando:   O nosso poeta dizia ter o dom de conhecer as pessoas: “Quando as vozes da ciência em mim se calam / em derredor as coisas todas falam, / contando-me o seu íntimo segredo”.
     O amor à terra natal é tema constante na sua obra. O que pensar de versos como estes, do poema em verso livre, A Vida? – “Encher o rio da nossa aldeia / com as lágrimas das saudades da infância”;  “Como deve estar linda agora a minha terra, / se andou chovendo assim, qual leio nos jornais”; “Onde eu nasci, há córregos queixosos, / chorando, azuis, no verde das encostas,”.
      Sobre os poetas ele disse: “Os poetas sentem quando os poemas passam por perto: / ...rezam sob a bênção das Mãos / que acendem pirilampos nas várzeas”;  “Os poetas nada ensinam, / mas relembram: / Somos livros. / E basta saber ler o que já somos”.
     Sobre a palavra, no mini-poema Ambiguidade: 

     “ Há palavras que rosnam como cães
      e afugentam, indistintamente,
      os ladrões e os amigos”.

Sobre a saudade, no soneto – Quem chamou a Saudade?

“Quem chamou a saudade que é presença
   do teu olhar caído sobre mim?”
Também em sonetos:
O Homem e seus gritos – “gritos sem voz nos olhos da miséria”.
O Homem e seus medos – “medo das rugas – drenos de utopias”
  
Sabemos que o poeta permanece sempre vivo através de sua poesia.
Sobre a Morte, no soneto Senectude, ele escreveu, no 1° quarteto:

“A mim, que penso ser ainda um justo,
merecedor do céu, do eterno enleio,
a morte hedionda não me causa susto,
nem pode ser tão má, segundo creio.
  
E, sobre a Vida:

   “Não encontrei motivo, em toda vida,/ para amaldiçoar o meu caminho./ O bem que eu quero ter, sem muita lida,/ cedo ou tarde se integra em meu carinho.

Mais um soneto escolhido para a leitura o qual ele dedica à sua mãe adotiva:

           “As Crisálidas”

Eu era pequenino. Ela fumava.
Acendendo o cachimbo noite e dia,
se uma caixa de fósforo esvaziava,
ela me dava e, rápido, eu corria

à cerca do quintal. Lá revirava
trepadeiras floridas e prendia
lagartas em crisálida que achava.
Uma semana após, quanta alegria!

Ao invés de crisálidas, um bando
de borboletas! E eu as libertava,
brancas, azuis, de toda cor, enfim.

E sob a chuva policroma, quando
fechava as mãos, o bando se escapava,
como tudo o que sonho para mim!

  Pois bem, preciso terminar este comentário. Confesso, no entanto, que o que aqui foi apresentado é apenas uma ligeira passagem pela obra deste excepcional Poeta cujos versos contêm pérolas também nas entrelinhas.
   Antes, quero prestar-lhe minha homenagem, lendo o que  para ele escrevi, em 2009, quando de sua partida, um poema simples que me saiu do coração e que intitulei:

                                         Choverá Saudade.

Tu eras a Poesia.
Por que volatilizar-se?
Doravante
nascerão poemas
nos Campos Elíseos;
novos sermões serão compostos
e encantarão santos Poetas!
Para ver-te,
mil flores luminescentes
sutilmente brotarão
nas veredas do Infinito.
As borboletas,
não mais crisálidas,
em chuva policroma
já não escaparão das tuas mãos...
nem os teus sonhos!
E Choverá Saudade
nos corações que conquistaste!

     Estimados amigos, necessária se faz uma leitura sem pressa para que possamos aquilatar o valor de tudo o que pensou e escreveu, não somente o poeta, mas o filósofo e excelente amigo que permanece vivo em nossa lembrança: o ajebiano  José Costa Matos.

(Palestra proferida na reunião da AJEB-CE, de 19/6/2012)

sábado, 8 de outubro de 2011

ROSA FIRMO APRESENTA PALESTRA NA AJEB-CE


Dia 20 de setembro, no auditório da Academia Cearense de Letras, a ajebiana Rosa Firmo empolgou os presentes com uma interessante palestra, em que mostrou a intertextualidade entre sua obra poética e a natureza.


De parabéns a palestrante e a AJEB-CE, presidida por Maria Luísa Bomfim.





Maria Luísa, Rosa Firmo, Argentina Andrade e Giselda Medeiros





A palestrante Rosa Firmo com Giselda Medeiros

terça-feira, 19 de outubro de 2010

NO SERTÃO BROTOU PALAVRA: A PALAVRA DE RACHEL



Ajebianas, Sócios Colaboradores
Senhoras, Senhores,

A literatura é destino e encantamento definitivo. Desde os salmistas bíblicos aos agentes da vanguarda contemporânea, os que escrevem obedecem a uma convocação. Um chamado definitivo e de tal modo irrecusável que ninguém ousa desobedecer, sob pena de ser atirado às cadeias eternas da loucura. Muitos, dentro da própria loucura, ainda produziram arte, numa prova categórica de que a propulsão para escrever é maior do que qualquer tragédia.
Da dor ou da alegria, da ternura ou da brutalidade, da objetividade explícita ou da subjetividade submersa, a palavra é a Estrada de Damasco, a conversão absoluta do homem comum num ser criador e, como tal, um parceiro de Deus.
Só a mão sedutora de um literato poderia convencer os judeus a sair do Egito para atravessar o deserto rumo aos rudes e áridos territórios da palestina, a Terra prometida, com a incrível descrição de que os cumes desolados da Judéia eram a “terra onde corria o leite e o mel”.
Só a mão primorosa de Shakespeare poderia traduzir tão artisticamente a nossa espécie, em Hamlet: “Que obra de arte é o homem! Tão nobre no raciocínio, tão vasto na capacidade. Em forma e em movimento, é como um Deus. A beleza do mundo, o exemplo dos animais!”
Só a mão lírica de Artur Eduardo Benevides poderia definir Fortaleza como a “Grande flor atlântica/plantada mais em nós do que no chão”.
A arte de traduzir sentimentos, descrever ou recriar realidades distingue certa casta de pessoas. Alguns com maiores atributos, outros com menor porte inventivo, todos, porém, descobridores e fazedores de mundos, pequenos ou grandes, por afeição do destino ou maldição dos deuses.
A inspiração é uma gravidez que acomete homens e mulheres. Pode ser abortada, interrompida, mas sempre acontecerão reincidências. Outras gestações haverão de chegar. E, uma vez pejada, a melhor solução é o parto. Alguns simplesmente confessam: escrevo ou morro.
Nem sempre encontramos a forma ideal de transmitir a ideia. Muitas vezes as interpretações críticas surpreendem os autores. Não fora aquela a intenção inicial. Cada olhar sobre o texto pode produzir uma nova história, porque os leitores é que realmente completam o trabalho do escritor.
Literatura é coisa muito séria. Através dela semeamos as uvas da esperança e restauramos as pontes destruídas, acendemos archotes nas noites tenebrosas e até recriamos a vida no inflexível corredor da morte.
A seca, a negligência administrativa, o desemprego, as oscilações do clima e as inconstâncias todas da terra nordestina levou-nos à sublimação poética, à fantasia ficcional, ao delírio da invenção literária. Pelos versos, pelas crônicas e pelos romances enganamos a fome, o medo e a dor.
Que Deus não nos negue pelo menos a compensação dos disfarces.
Hoje, minha emoção se multiplica ao falar sobre a inesquecível Rachel de Queiroz, dama maior da literatura brasileira e filha querida da Terra do Sol, paixão da minha infância e adolescência e admiração madura e consciente de minha formação literária.
É minha patrona na cadeira 15 da Academia Feminina de Letras do Ceará – AFELCE, o que muito me honra e me envaidece. Sua obra de romancista, cronista e teatróloga está entre as mais expressivas das letras nacionais de todos os tempos. Seu nome esplende entre os maiores criadores literários do país e, ultrapassando as fronteiras nacionais, seus livros foram traduzidos em muitas línguas e editados em vários países.
Cabe-lhe muito bem patronear uma cadeira em qualquer Academia, ainda mais a Feminina de Letras do Ceará porque Rachel é, assumidamente, uma criadora de perfis femininos. Em entrevista no ano de 1989 afirma: “Quase todas as minhas personagens importantes são mulheres. Mulheres destemidas. Elas, naturalmente, não representam a mulher forte que eu não consigo ser, mas a mulher forte que eu gostaria de ser.”
A professora Cleudene Aragão nos fala assim sobre Rachel: “A Rachel brasileira desvendava os caminhos tortuosos pelos quais o nordestino teve que passar para tentar a vida em outra terra, mas narrava, também, o modo como outros brasileiros, com os quais convivia e que aprendeu a conhecer através de seu trabalho literário, relacionar-se com o mundo”.
A relação da escritora cearense com o audiovisual não se pautou apenas por adaptações dos seus livros para o Cinema e a Televisão. Com participações pontuais e discretas, Rachel de Queiroz experimentou o trabalho de produção e roteiro em dois filmes brasileiros, entre eles, o primeiro do país a conquistar premiação em Cannes, na França. Rachel é autora de destaque na ficção social nordestina.
Nascida em Fortaleza, em 17 de novembro de 1910. Embora sua família tenha raízes em Quixadá, município onde a escritora mantinha parte da antiga propriedade de seu clã, a Fazenda Não Me Deixes. Rachel descendia pelo lado materno da estirpe caririense dos Alencar, parente, portanto de José de Alencar. Pelo lado paterno dos Queiroz, família fundamentalmente alicerçada em Quixadá e Beberibe, era filha do juiz Daniel de Queiroz e de Dona Clotilde Franklin de Queiroz.
Tinha apenas cinco anos quando a terrível “Seca do 15” varreu o Ceará, atingindo sobremaneira a região central, o que levou a família a emigrar para o Rio de Janeiro. No Rio, a família Queiroz pouco se demorou, transferindo-se para Belém do Pará, onde permaneceria por dois anos. Retornam ao Ceará, inicialmente para Guaramiranga e depois Quixadá. Em 1919 voltava o Doutor Daniel para Fortaleza. Rachel, em 1921, passou a estudar no Colégio da Imaculada Conceição, dirigido pelas Irmãs de Caridade, onde fez o Curso Normal, diplomando-se aos 15 anos, em 1925.
Repetir palavras de adultos era uma das coisas de que Rachel mais gostava. Ela reparava muito no palavreado dos mais velhos. Dona Clotilde, por exemplo, quando via a bagunça feita pela meninada, costumava dizer:
− Esse quarto está um caos!
Rachel achava linda aquela palavra e não tardou a aplicá-la em seu cotidiano. Tratou de inventar algo que combinasse com a dramaticidade da palavra e soltou entre os adultos:
− Estou com uma dor que é um caos!
Todos riram da menina! Tão pequena e já possuía uma dor sem tamanho! Ela ficou cismada com as risadas e não falou mais nada sobre as suas concepções de caos.
Meados do ano 1920, novidades na casa. A Irmã caçula Maria Luíza nascera.
A adolescente de 16 anos Rachel de Queiroz dividiu-se entre agulhas de bordar as roupinhas de pagão da recém chegada e maquinações para ousar o primeiro voo e enviar ao O Ceará, sob o pseudônimo de Rita de Queluz, uma carta aberta sobre a eleição da primeira Rainha dos Estudantes do Ceará.
O nome da pequena era uma homenagem à avó materna, falecida e cuja perda abateu Clotilde Franklin de Queiroz. A mãe de Rachel era uma pessoa muito romântica, levava tudo muito a sério, então, ficou de cama quando a mãe morreu. Rachel, então, tomou para ela a responsabilidade de cuidar da irmã e não gostava que ninguém lhe desse presentes, tudo tinha que ser feito por ela. No livro Tantos Anos, de memórias, que as duas irmãs escreveram juntas, a escritora conta que disputou com a mãe e com Antônia o direito de banhar a menina, de vesti-la, de passear com ela. E mesmo depois de casada, jamais abdicou de sua parcela de maternidade em relação à Isinha, nome carinhoso com o qual tratava a irmã, Maria Luíza.
O Professor e Mestre em Literatura, Miguel Leocádio, analisa a infância como rito de passagem da escritora. O amor à inocência, a descoberta da amizade, o início das relações sociais são características da infância que povoam a literatura de Rachel de Queiroz.
As cenas dantescas do sofrimento do povo do Ceará, mesmo daqueles mais afortunados, como seus pais, ficariam indelevelmente marcadas na memória da garota, que aos 20 anos, escreveria seu romance de estreia, “O Quinze”, que alcançou ampla repercussão no Rio de Janeiro e em São Paulo. Agitando a bandeira de fundo social, profundamente realista na dramática exposição da luta secular de um povo contra a miséria e as agruras da seca, a escritora provinciana projeta-se na vida literária do país.
Lançado em Fortaleza, em 1930, numa edição de apenas mil exemplares, custeada pelo pai da escritora, logo que chegou às mãos dos grandes críticos despertou atenção incomum. Rachel teve seu romance premiado pela Fundação Graça Aranha, em 1931, o que a incentivou a dar continuidade à produção de um novo livro, “João Miguel”, em 1932. Daí em diante foi um luminoso caminho de sucesso e toda essa lavoura de livros que abismou a literatura nacional até os nossos dias.
Declarava-se uma operária das letras e trabalhava todos os dias, mesmo depois de ter sofrido um acidente vascular cerebral.
A participação de Rachel de Queiroz na vida cultural do país é pontilhada de referências importantes. Durante 22 anos foi membro do Conselho Federal de Cultura. Representou o Brasil na 21ª Assembleia Geral da ONU, em 1966.
Foi convidada, embora tenha recusado pelo presidente Jânio Quadros, para assumir o Ministério da Cultura. A escritora foi distinguida com importantes prêmios literários, destacando aqui, três deles: o Prêmio Machado de Assis, o Prêmio Camões (equivalente ao Nobel, na língua portuguesa) e o Prêmio Jabuti, todos pelo conjunto da obra. Recebeu em 06 de dezembro do ano de 2000, o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.
Foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras. Sua eleição, em 04 de novembro de 1977 para a cadeira 5 da ABL, causou certo frisson nas feministas de então. Mas a reação da escritora ao movimento foi bastante moderado. Numa entrevista, em meio ao grande frenesi que sua nomeação causou, declarou: “Eu não entrei para a Academia por ser mulher. Entrei, porque, independentemente disso, tenho uma obra. Tenho amigos queridos aqui dentro, quase todos os meus amigos são homens, eu não confio muito nas mulheres”. Foi um choque anafilático no movimento feminista. Rachel foi saudada por Adonias Filho, sendo a quinta pessoa a ocupar a cadeira 5 e tendo por Patrono, Bernardo Guimarães.
Depois da aprovação, da entrada de mulheres na Academia e da eleição de Rachel, surgiu uma questão que era preciso resolver o mais rápido possível: o fardão. Para os homens, o fardão é uma casaca, inspirada nas antigas fardas do corpo diplomático. Feito de tecido verde-escuro com bordados a ouro representando louros. A roupa completa custa cerca de R$ 30.000 e pela tradição, o fardão deve ser dado de presente ao novo acadêmico pelo Governo do Estado onde ele nasceu. Para as mulheres esse fardão certamente não ficaria bem. O que fazer? Foi a própria Rachel quem solucionou o problema. Ela imaginou um vestido longo, do mesmo tecido do fardão masculino, mas com apenas discretos bordados dourados, representando os louros tradicionais.
O traje para as acadêmicas foi desenhado pela estilista Silvia de Souza Dantas, a partir das ideias de Rachel. Ela acrescentou palmas douradas nas mangas
em forma de sino e no decote V e nesgas plissadas na altura do joelho. Em lugar de uma espada, acessório dos escritores eleitos para a ABL, as acadêmicas exibem um colar. Com a chegada da primeira mulher à Academia, seus colegas tiveram que cuidar de outro detalhe, antes desnecessário: a construção de um reservado feminino, de que a sede da ABL não dispunha.
No dia de sua posse, a Academia segue todo um ritual de recepção para o novo acadêmico. Nesse dia, todos têm que comparecer usando o fardão. A solenidade acontece no Salão Nobre ou Salão Azul. O novo acadêmico, antes da posse, fica recolhido por alguns minutos no Salão Francês, uma pequena sala na entrada da Academia, fazendo uma reflexão antes do momento solene. Três acadêmicos vão buscá-lo e o acompanham até o Salão de Posse. À mesa principal, ficam sentados o presidente da ABL, o presidente da República ou seu representante, os chefes de missões estrangeiras e ministros de Estado. Cabe ao novo acadêmico após a saudação, fazer o discurso falando dos antecessores de sua cadeira.
O que de fato emocionou Rachel foi ocupar a cadeira que foi de Raimundo Correia, um poeta que ela tanto lera quando menina. A partir da posse, Rachel passou a fazer parte da Academia e nunca aceitou nenhum cargo de chefia na Instituição e avisou que não o faria desde o princípio. O que ela sempre gostou mesma na ABL foi o convívio, as conversas em torno do chá acadêmico que acontece todas as quintas-feiras, antes das sessões, pontualmente às três da tarde. A escritora nunca escondeu quem era o seu maior amigo da Academia: Austregésilo de Athayde, presidente por 34 vezes. Ela já escreveu sobre ele dizendo que tinha sempre “uma fala de mel, uma mão de veludo”.
Transparente, coerente e sincera, com a sensibilidade nordestina à flor da pele, Rachel ofereceu-nos sempre uma permanente lição de fidelidade à sua vida de contadora de histórias. Poucos autores conseguiram, melhor do que ela, escrever com tanta desenvoltura e simplicidade. Sua prosa é sóbria, coloquial e escorreita. Trafega límpida, fagueira, impávida, pelos olhos do leitor, sem transbordamentos, sem excessos e sem retumbâncias, dentro de uma narrativa não raro dramática, com enfoque especial contra os estamentos preconceituosos da aristocrática sociedade de então.
A Sra. Rosita Ferreira, que cuidou de Rachel por muitos anos, relatou que a primeira vez que foi ao Rio de Janeiro foi no ano de 1977 para a posse da escritora na ABL. Disse que a posse dela foi a coisa mais importante que já presenciou. Até às cinco da manhã tinha gente fazendo discursos. Rachel tomou posse no dia quatro de novembro de 1977 e, por coincidência, morreu no dia 04 de novembro de 2003.
Dona Rosita ia todos os anos ao Rio para o aniversário da escritora. A última vez foi e permaneceu até sua morte. Relata ainda que Rachel sabia que estava chegando a hora de partir, porque no dia em que faleceu chamou-a e disse: “Rosita, eu hoje vou preparar um banquete para os meus pais, meus irmãos, minha filha e meus maridos, hoje vou para o Ceará. Mas, nesta viagem você não me acompanha, vou só”.
Isso foi numa segunda-feira, dia 03 de novembro de 2003. Ainda em citação de dona Rosita fala que Rachel disse: “Já conversei neste instante lá nos Altos, está tudo acertado, eu vou morrer e vou direto para o Céu”. E a amiga Rosita abaixou-se e disse-lhe baixinho, ao ouvido dela: “Quem já viu herege ir para o Céu”? Ela riu e disse que não se preocupasse que já estava tudo acertado. Disse-lhe certa vez que se morresse no Rio de Janeiro queria ser enterrada no túmulo do segundo marido, Oyama, não queria ser enterrada no Mausoléu da Academia. Se morresse no Ceará queria ser enterrada na Fazenda Califórnia, no túmulo de seu pai. Dona Rosita ainda revela que Rachel mesmo sempre se dizendo sem religião, todas as noites se benzia e rezava o Pai-Nosso e a Salve-Rainha.
Na manhã do dia 03, levantou-se, tomou o café como de costume, almoçou à mesa, pois a irmã Maria Luíza já chegara de viagem. Nesse mesmo dia teve duas isquemias, o lado direito ficou paralisado. Às 22 horas pediu para ir à sua rede. Ficou conversando e não parava um só instante. Às duas e meia da manhã, Dona Rosita diz que pediu para ela dormir, pois deveria estar cansada, mas a escritora disse que não podia dormir com a angústia que sentia. Ao passar a mão em sua cabeça, dona Rosita percebeu que estava ensopada de suor. A acompanhante foi chamada e trocaram-lhe a roupa.
Colocaram colônia que ela muito gostava e tentaram chamar o médico, mas a própria Rachel dizia que médico não resolvia aquilo.
Assim que Dona Rosita deitou-se a acompanhante a chamou e disse: “Dona Rachel não falou mais nada, está parada”. Surpresa, pois falara com ela até pouco tempo foi até lá passou a unha na planta do pé da escritora e nada, imóvel. Ali ela teve certeza da partida de Rachel. Faleceu dormindo em sua rede. Logo veio o médico, mas já não havia mais nada a fazer. Rachel estava serena, os olhos fechados. Partiu como um anjo.

Ela desenhou o fardão da Academia e com ele foi sepultada.

Deixou, aguardando publicação, o livro Visões: Maurício Albano e Rachel de Queiroz, uma fusão de imagens do Ceará fotografadas por Maurício com textos de Rachel.

Senhoras, Senhores,

Sua morte, nos enviuvou deixando-nos um imenso sentimento de solidão. Mas seu nome será sempre uma luz forte na Terra do Sol e em todos os rincões deste imenso país, onde quer que se abra uma página de sua criação mágica.
Hoje nesta manhã de minha alegria é provável que seu espírito esteja vigiando minha responsabilidade ao falar sobre ela. Agradeço-lhes a atenção e digo que me sinto cercada por suas personagens, que haverão de me acompanhar pela vida inteira.
Neste ano de centenário de seu nascimento é preciso todas as homenagens a esta grande dama da literatura.

Encerrando minha fala, dá-me a impressão que este Auditório foi transformado num grande alpendre sertanejo, no alpendre da Fazenda NÃO ME DEIXES e que vieram estar conosco as Três Marias, Dôra Doralina, a Beata Maria de Araújo, a Donzela e a Moura Torta e a valente e guerreira Maria Moura.
E, assim, na companhia benfazeja de meus amigos e das filhas da imaginação criadora de Rachel de Queiroz, entre as brisas do mar e o fogo do sertão, proclamo a felicidade, ao término dessa conversa.

Muito Obrigada!

Rejane Costa Barros

(Palestra proferida na sessão ordinária da AJEB-CE, dia 19 de outubro de 2010)

sábado, 25 de setembro de 2010

SOBRE A BIBLIA - Neide Freire



Há poucos meses tivemos o privilégio de ouvir a poetisa REGINE LIMAVERDE discorrer com elegância e segurança de conhecimentos, sobre autores e livros famosos, modernos, contemporâneos, cujas mensagens nos entretiveram, instruiram ou edificaram no cumprimento de sua missão de "mestres mudos", na expressão feliz do mais famoso orador sacro de lingua portuguesa:o missionario jesuíta Pe. Antonio Vieira.
Os homens escrevem desde tempos imemoriais. O acervo cultural da humanidade conservou fragmentos de algumas obras geniais que registraram notícias de antigas civilizações, tais como:
o Bello Gálico de Cesar ou guerras gaulezas, História Romana de Livio, sem contar as poemas de Homero, de Virgilio, que parece, fugiram ao destino efêmero que os aguardava.
Os livros, como nós, tambem envelhecem e caducam seus argumentos. Até foi dito que são eles "a alma do tempo que passou". No entanto, anterior a todos, como a contrariar tal afirmação, um livro existe, que sobressai ostentando o selo divino de sua perenidade.
A Bíblia Sagrada, no desfilar dos milênios, tem resistido a conflitos, perseguições e exacerbado ceticismo.
A palavra BIBLIA, deriva do grego e significa ``o livro por excelência``. O radical Biblion está presente em algumas palavras do léxico de nosso idioma: Bibliografia, Biblioteca.
Para nomear o conjunto de livros que compõem as Escrituras Sagradas, o uso consagrou a palavra Bíblia. É longa e fascinante a história desse livro singular.
Escrito durante 1.400, ou sejam 14 séculos, mais ou menos 40 gerações. Em seu numeroso elenco de 40 autores encontram-se pessoas dos mais diferentes oficios:
pescadores como Pedro
generais como Josué
reis como Davi e Salomão
estadistas como Daniel
lideres como Moisés, educado na côrte do Faraó e instruído nos invulgares conhecimentos da cultura egípcia.
Esse livro maravilhoso foi escrito em lugares de notória disparidade:
Moisés, escreveu no deserto
Jeremias na masmorra
Daniel no palácio real da Babilônia
Paulo, na prisão,

outros em inusitados circunstâncias, em tempos de guerra em tempos de paz, na alegira e em profundo desespero.
A Bíblia, originalmente, foi escrita em três idiomas:
Hebraico, também chamado de língua Judaica ou língua de Canaã.
Aramaica - ou língua franca, falada no Oriente próximo, até ao tempo de Alexandre, o Grande
Grego - a língua do Novo Testamento, considerada internacional até o tempo de Cristo.
Entre os anos 280 e 130 a.C. foi feita a primeira versão do Antigo Testamento do hebraico para o grego, realizada por setenta sábios hebreus, convocados à Alexandria, pelo Rei Ptolomeu Filadelfo - essa versão ficou conhecida como SEPTUAGINTA.
A versão grego para o latim, a segunda a ser considerada é da autoria de São Jerônimo, é a famosa ``VULGATA LATINA``. Contanto tenha sido realizada sob a patrocínio do Papa Damaso, somente muitos anos depois, já no século V d.C., veio a obter aceitação.
Há ainda um versão, dita, SIRÍACA, que talvez haja sido a primeira tradução do Novo Testamento.
Na Idade Média, a partir do ano 1495, a Rainha Da. Leonor, esposa do D. João II de Portugal, promoveu a divulgação das Sagradas Escrituras em seu país.
Diversas versões foram feitas, mas destacou-se a tradução do Padre João Ferreira de Almeida, ainda publicada em nossos dias em edições com linguagem corrigida ou atualizada. Vertida para a língua portuguesa diretamente da vulgata latina, há a tradução do Pe. Matos Soares.
A Bíblia é composta de 66 livros ditos canônicos, distribuídos sob dois títulos: Antigo e Novo Testamento. O Antigo Testamento consta de 39 livros, classificados em cinco grupos, assim denominados:
PENTATEUCO - ou livros de Moisés; este grupo inclui 5 livros: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, e Deuteronômio , ou segunda Lei.
12 livros Históricos
5 Livros Poéticos
5 Profetas Maiores
12 Profetas Menores.
O Novo Testamento também está agrupado em 5 divisões e se compõe de 27 livros:
4 Evangelhos, livros biográficos. Tratam da vida de Jesus desde seu nascimento até sua resurreição gloriosa
1 Histórico - o livro de Atos, testemunho da Igreja Primitiva ou néo-testamentária
13 Epístolas de Paulo
8 Epístolas Gerais
1 Livro Profético conhecido por Revelação ou Apocalipse e refere-se aos acontecimentos dos tempos finais.
O Antigo Testamento, o livro dos Começos ou Gênesis, nos fala dos dias da criação, do advento da humanidade. Entretanto, não há uma sequência cronológica que nos revele em número de anos a sucessão dos acontecimentos. O livro, porém, nos diz textualmente que Matusalém, o 7° depois de Adão viveu 969 anos e que ''no ano 600 da vida de Noé, neto de Matusalém, aos dezessete dias do segundo mês, romperam-se todas as fontes do grande abismo, e as comportas dos céus se abriram."
Era o dilúvio - narrativa Bíblica que nos remete a Hur dos Caldeus, cidade poderosa, rica na região da Mesopotâmia, a qual está ligada à história de Abrão, pai do povo hebreu, do qual foi dito ser sua existência uma das provas de que Deus existe.
A arqueologia através de suas pesquisas, após a decifração dos hieróglifos da pedra da Roseta da leitura da escrita cuneiforme, pelos sábios, Champolion e Henrique Rauler, respectivamente, tem comprovado a fidedignidade dos registros veterotestamentários.
Entre os livros poéticos, Provérbios nos ensina regras de pedagogia: "Não retires da criança a disciplina, pois se a fustigares com a vara não morrerá"; e continua: "Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele".
O livro Eclesiastes envereda pelos lineares caminhos da justiça e nos adverte"Visto como se não executa logo a sentença sobre a má obra, o coração dos filhos dos homens está inteiramente disposto a praticar o mal".
O livros dos Salmos - conjunto de 150 poesias, nas quais o homen se dirige a Deus com palavras de louvor, arrependimento e esperança. O livro dos Salmos é o cancioneiro dos povos cristãos.
O Novo Testamento é o resumo da história do Cristianismo. É a nova lei promulgada por Jesus Cristo quando disse "amai-vos uns aos outros como EU vos amei", e em outra ocasião "Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda Lei e os profetas".
Embora a evidência dessa sabedoria que transcende nosso limitado entendimento, as Sagradas Escrituras têm sido o alvo preferido de refutações, de ironias e desapreço.
Pensadores, cientistas, literatos, em inutil desafio, usam seus avantajados conhecimentos para desancar os ensinamentos que gerações têm seguido com fervor.
O famoso escritor francês Voltaire, ateu que era, anunciou a morte da Bíblia em fins do século 19. Karl Marx considerou a religião ópio do povo. Freud declarou ser a fé uma expressão de infantilidade. Darwin - buscou as raízes da origem humana na figuras ridícula de um suposto ancestral símia, desprezando frontalmente a declaração Bíblica "e disse Deus:façamos o homem à nossa imagem e semelhança". Nietzsche teve a ousadia de proclamar a morte de Deus. Mas, todos passaram. A Bíblia subsiste, diferente em sua essência de quantos livros têm vindo a público. Podemos chamá-la um livro "sui generis", porquanto tratando de muitos temas controversos, sua mensagem é única, harmoniosa e coerente.
Em sua numerosa viagem, através dos milênios, esse livro singular tem, de maneira inconteste, deixado sua marca nas expressões mais nobres de que é capaz a inteligência humana: na escultura, na literatura, na filosofia , na música.
Quem não se rende comovida ao ouvir a velha canção: "Noite Feliz" ou os acordes sublimes da "Ave Maria", de Gounod.
Embora se encontrem na Bíblia alusões a fatos científicos como no livro de Jó;"Quem move a terra de seu lugar; - Na profecia de Isaias "Ele é o que está assentado sobre a redondeza da terra ....Declaração anunciada dois mil e duzentos anos antes de Colombo descobrir a América.
Na primeira carta de São Paulo aos Coríntios está escrito "nem toda carne é a mesma; porém, uma é a carne dos homens, outra a dos animais, outra a das aves e outra a dos peixes E ainda, excursionando pelos obscuros caminhos da Astronomia, refere-se à magnitude do brilho estelar; "uma é a glória do Sol, outra a glória da Lua e outra a das Estrelas, porque entre estela e estrela há diferença de esplendor". Essa carta é datada de dois milênios atrás.
Todavia a Bíblia não é um tratado de Ciência. É um livro de fé. Impossível separar os acontecimentos históricos de sua conotação espiritual, mesmo porque cada ocorrência em nossas vidas se reporta a um antecedente Bíblico, prova da presença, quase sujbjacente de Deus na condução de seu universo, pois que, não obstante as maravilhosas conquistas alcançadas em todos os ramos da Ciência, ainda brilham na simpicidade de sua verdade, as palavras exordiais do Livro Santo:
"NO PRINCIPIO CRIOU DEUS OS CÉUS E A TERRA."


(Palestra proferida na reunião da AJEB-CE, dia 21/9/2010)

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A Crônica e os Cronistas - Zenaide Marçal

Vou tentar, num breve espaço de tempo, discorrer sobre estes dois assuntos, os quais são interligados. Iniciarei comentando alguns aspectos da crônica.
O conceito deste gênero literário é bastante variável. Em nota da Editora José Olympio, no livro - Elenco de Cronistas Modernos - encontramos o seguinte comentário: Se “conto é tudo que chamamos conto”, como dizia Mário de Andrade, tal definição se aplica ainda com mais propriedade à crônica moderna brasileira.
Na definição do jornalista Nilson Lage, “A crônica é um texto desenvolvido de forma livre e pessoal, a partir de um acontecimento da atualidade ou situações de permanente interesse humano. É gênero literário que busca ultrapassar, pelo tratamento artístico, o que é racionalmente deduzido dos fatos”.
Sabemos que a crônica apresenta as mesmas características do conto, porém este, tem começo, meio e fim, ao passo que à crônica o que interessa é um ponto central, culminante. Pode-se dizer que tem como qualidade principal ser um trecho curto, normalmente bem mais curto do que o conto, embora, dependa muito do autor a forma de classificá-los.
Assim, verificamos, em determinados autores, contos curtíssimos e, muitas vezes, crônicas um tanto mais longas. Não há, na verdade , um limite exato, que defina a sua classificação. Talvez haja uma sutil diferença na forma da narrativa mas, nem sempre é seguro nos atermos a isto para identificá-la. No normal das vezes ela tem entre duas a quatro páginas, mas isto, também, é plenamente variável. O que realmente importa numa crônica, é que ela, além de curta e leve, seja densa, sintetizando de forma compreensível os assuntos nela tratados.
Normalmente é narrada na primeira pessoa, e deixa clara, ou subentendida, a opinião do próprio cronista, e, se somos seus habituais leitores, chegamos até mesmo a conhecer pontos marcantes de sua personalidade.
Encontramos vários tipos de crônicas, muitas delas jornalísticas, e, por serem noticiosas, com o tempo, perdem mais facilmente o grau de interesse que despertam. Outras, originadas de fatos comuns do nosso dia-a-dia, mesmo que façam parte do trabalho diário, ou semanal, de um jornalista, são de caráter mais duradouro.
A maior parte das crônicas era editada apenas em jornais e revistas, publicações passageiras, e, por isto mesmo, consideradas um gênero efêmero. Atualmente, as crônicas, na sua maioria, têm caráter de permanência e são dignas de fazer parte do patrimônio literário do Brasil.
Seria bom se nós que gostamos de literatura, despertássemos para a riqueza de assuntos que temos para escrever. Quantos acontecimentos interessantes são, vez por outra, presenciados por nós; quantos pensamentos nos vêm de coisas simples que nos cercam, e os deixamos cair no esquecimento, perderem-se no fundo da memória!
Se observarmos os assuntos abordados pelos cronistas, veremos que eles não deixam fugir um fato interessante, por simples que seja, sem gravá-lo nos seus escritos. Senão, vejamos alguns títulos de crônicas: de Milton Dias – Assembléia de Cães, O fim do mundo, A mala; de Raquel de Queiroz – O telefone, Os Bondes, Andorinhas, etc. Assuntos corriqueiros que se tornam peças preciosas para leitura em horas de lazer.
Enquanto a poesia, para escrevê-la, precisamos ter inspiração poética, trazê-la na alma, a prosa, no caso a crônica, pede-nos apenas que a cultivemos através de leituras e de treinamento.
Notamos em algumas delas aflorar a alma poética do escritor, seja ele ou não, poeta declarado.
Na crônica o escritor sente-se à vontade para ir de um comentário a outro, dentro do assunto escolhido, podendo temperá-la com um pouco de humor ou de ironia, sem exageros, para que não fuja à leveza e à densidade por ela requeridas.
Quando lemos um romance, pode acontecer que, por um motivo ou outro, saltemos deliberadamente algumas passagens, de descrição, para chegar logo ao fim, e continuamos a leitura daquela narrativa sem que nos faça falta o trecho que deixamos de ler. Isto se deve ao caráter desse gênero de escrita, o romance, que se prolonga por um número bem maior de páginas. O mesmo não se pode fazer na crônica (nem no conto), porque cada palavra é importante no contexto, pois compensamos o espaço curto por uma forte intensidade de significação.
As crônicas, quando as escrevemos com o devido respeito às suas características, compensam o nosso esforço, sintetizam o nosso pensamento e se nos mostram pequenas, belas e de agradável leitura.
Na revista Ecrire Magazine, n°101 – 1° trimestre de 2008) um articulista diz que a divisa da crônica, como do conto, é a seguinte: Small is beautiful! (Petit c’est beau!); e, aí, compara um romance a um longo jantar, no qual podemos deixar algo no cantinho do prato e , a crônica seria como um sanduiche: não queremos perder uma migalha sequer. Concluindo, tudo o que nela está escrito importa para a compreensão e para a beleza do texto.
A Crônica, amigos, é tudo isto que falei e muito mais! Que o digam os cronistas.

Os cronistas – Antes de lhes falar sobre os cronistas, quero lembrar-lhes a quantidade imensa de escritores que se dedicam à crônica, a começar pelos jornalistas de modo geral. Citarei apenas alguns, na impossibilidade de nomear todos, sem que isto signifique desconhecê-los ou desprestigiá-los. Por falta de espaço, dei preferência aos escritores que têm real destaque no mundo da crônica, uns do cenário nacional e outros que fazem parte, também, da Literatura Cearense.
Entre os mais famosos escritores brasileiros muitos escreveram crônicas, embora tenham-se tornado célebres através dos seus romances, ou de outros gêneros literários. Entre estes estão: Machado de Assis, José de Alencar, Olavo Bilac, Manuel Bandeira e outros.

Alguns cronistas:

Luís Fernando Veríssimo –
Inácio de Loyola Brandão –
Paulo Mendes Campos –
Fernando Sabino – Mineiro, Jornalista, cronista dos mais competentes, suas crônicas são marcadas pelo senso de humor, muitas delas escritas em Londres, onde foi Adido Cultural na Embaixada do Brasil.
Eduardo Campos – Cearense - Jornalista , escritor, teatrólogo, membro da A.C.L. – Os Grandes Espantos; A volta do Inquilino do Passado, além de vários livros de contos.
João Jacques – Jornalista, ACL; ACI e Retórica
Ciro Colares – Cearense - Jornalista, trovador e cronista. – As Moças Não Fogem Mais Com o Circo (crônicas, poemas e trovas) é um dos seus m*livros mais interessantes.
Murilo Martins – Ex-presidente da ACL. Publicou vários livros de cunho científico e, outros, de crônicas: Medicina Meu Amor, e Navegando no Mar da Medicina.
Por falta de espaço de tempo para comentar um pouco mais a obra de cada um, escolhi somente quatro nomes, tarefa difícil no meio de tantos valores e, pelo mesmo motivo, darei apenas alguns traços biográficos de cada um deles.

Raquel de Queiroz- Grande escritora cearense, jornalista, romancista renomada, a primeira mulher a assumir uma cadeira na ABL. Pertenceu, também, à ACL. Publicou alguns livros de crônicas, as quais têm a característica de se confundirem com o conto, pela sua extensão. Nem é preciso dizer o quanto são bem escritas, porque escrever bem é a sua marca registrada. As crônicas de Raquel são, em grande parte, inspiradas em assuntos do sertão nordestino, contêm um forte apelo social, e alguma forma de humor. Sua obra, neste ano em que comemoramos o centenário do seu nascimento, tem sido alvo de muitos estudos e de conferências nas mais diversas instituições literárias. Raquel é um nome que honra a Terra Cearense e que nos envaidece.
Carlos Drumond de Andrade – Nasceu em Itabira, MG e morreu no Rio de Janeiro em 1987. Impossível dizer aqui toda a vida e a obra de Drumond. Ainda adolescente começou a colaborar em jornais e revistas de BH e do Rio. Trabalhou em vários jornais. Foi funcionário público em BH. Em 1934 transferiu-se para o Rio de Janeiro. Escritor laureado recebeu prêmios da Sociedade Felipe d’Oliveira, da U.B.de Escritores e do PEN Clube do Brasil. .
Sua obra é muito ampla e se caracteriza pela excelência da linguagem, elegante e correta. Celebrizou-se, tanto pelo seu trabalho em prosa como pela sua poesia, tendo vasta criação em cada um desses gêneros.
Há humor e ironia nas suas crônicas as quais têm apelação de cunho sócio-político. Drumond chegou mesmo a criar um personagem representativo do cidadão brasileiro comum, suas dificuldades e sua forma de “driblar” a vida, e a quem deu o nome de João Brandão. Um dos seus livros de crônicas se intitula – Os Caminhos de João Brandão. Publicou ainda em crônicas: Os Dias Lindos, A Bolsa e a Vida, Cadeira de Balanço, Poder Ultra Jovem, e outros.
Milton Dias – No seu livro “Entre a Boca da Noite e a Madrugada, ele mesmo se define: “Na verdade, não sou mais do que um cronista que surpreende o cotidiano e o traz para a folha de jornal, de duração tão rápida. Não sou mais do que um sertanejo carregado de lembranças, que amealhou as estórias que ouviu por onde passou e as divide uma vez por semana com o respeitável público: memórias de noites indormidas, luz de sete-estrelo, pancada de mar, caminhos e madrugadas, (...)
Sou enfim simplesmente um cronista, ou se quiserdes, um contador das estórias e vivências que aprendeu por aí”.
Na crônica – Eu, Milton Dias, diz: “Eu gosto: de gente, crepúsculos e madrugadas, mar e montanha, cidade antiga, vinho tinto, viagem, música. Gosto de ler, reler e escrever. Sou perdido por uma boa conversa. Gosto da minha casa, meus cantos, minha rua, minha praça, e tudo o que me cerca. Gosto da solidão, quando a solicito e a detesto se me é imposta.
De amigas e amigos que são muitos estou, felizmente, muito bem abastecido”.
Deste escritor que engrandece o Ceará, direi que foi porfessor de Literatura Francesa da Faculdade de Letras da UFC, foi também, Chefe do Gabinete do reitor Martins Filho. Membro da ACL e do grupo Clã. Colaborador permanente do Suplemento Literário do Jornal O Povo, durante 25 anos. Foi condecorado pelo Governo Francês com a Ordem das Palmas Acadêmicas. Não cabe neste espaço tudo o que poderia ser dito do seu imenso e prestigioso currículo.
Rubem Braga – Cachoeiro do Itapemerim -ES – 1913 – 1990. Ingressou no jornalismo ainda estudante. Cronista, comentarista político e repórter. Trabalhou em diversos jornais em várias capitais brasileiras. Acompanhou a Força Expedicionária Brasileira à Itália, na II Guerra Mundial. Como correspondente de diversos jornais brasileiros fez a cobertura de importantes acontecimentos em vários países. Foi Embaixador do Brasil em Marrocos, Chefe do Escritório Comercial do Brasil em Santiago do Chile. Morou na Europa durante o ano de 1950, sempre como jornalista. Inovou a crônica, elevando-a à categoria de gênero de permanência literária. Conseguiu firmar-se como grande escritor na Literatura brasileira, exclusivamente como cronista. Sua prosa tem admirável simplicidade , com elevado teor poético e muito senso de humor.
Sua obra é bastante rica. Publicou seu primeiro livro – O Conde e o Passarinho – em 1936, e os últimos em 1986 – Crônicas da Guerra na Itália e O verão e as Mulheres. Foram cinquenta anos de publicações, somente de crônicas. Manuel bandeira o incluiu na Antologia de poetas Bissextos Contemporâneos.

Para lhes dar uma visão geral, farei a leitura de pequenos trechos extraídos de crônicas de cada um desses quatro cronistas:

Raquel – Fala de passarinhos:
“De manhã, com escuro, é o trocado da graúna, bem debaixo da janela. Canta cristalino, dobrado e redobrado, como polca de piano, daquelas do tempo da Chiquinha Gonzaga. [...] Na hora da sesta aparece, mas não é todo dia, um sabiá cantador. Vem por ali, senta no cajueiro, solta o canto. Mas assim que a gente se aproxima, embelezada, ele sai para mais longe, nas algarobas; esse tem temperamento e não gosta de estranhos”.
Fala da velhice –“Sim; é o que nos torna velhos, esse passado acumulado. Mas, além do passado, tem a preguiça, aquelas pernas elásticas de 20 anos atrás que hoje protestam quando sobem uma rampa de ladeira. Ou será o fôlego mais curto?”
Fala de amigos – “Respeite os seus amigos. Isso é essencial. Não procure influir neles, governá-los ou corrigi-los. Aceite-os como são. O lindo da amizade é a gente saber que é querida a despeito de todos os nossos defeitos”.
Fala da Morte – “Morrer com dignidade, porque morrer livre das indignidades da última hora é reivindicação minha, já de muitos anos. Em escritos, em conversas, em pedidos à família, venho rogando: não deixem que os médicos atrapalhem a minha morte. Na hora em que ficar desenganada, parem tudo, pelo amor de Deus”.
(...) E depois o repouso na terra velha da fazenda Califórnia, onde os meus já me esperam. Amém.
Na crônica - Pó ao Pó – ela fala de cremação e no final diz: “Joguem as minhas cinzas pelo mundo, porque o mundo todo eu amei; e talvez algum punhadinho seja levado pelo vento até o Ceará”.
Drumond – Fala de animais : Perde o Gato – (de nome Inácio)
“Há tempos, contei de Inácio e de sua convivência. Inácio estava na graça do crescimento, e suas atitudes faziam descobrir um encanto novo no encanto imemorial dos gatos. Mas Inácio desapareceu - e sua falta é mais importante para mim, do que as reformas do ministério. (...) Depois que sumiu Inácio, esses pedaços de casa se desvalorizaram. Falta-lhes a nota grave e macia de Inácio. É extraordinário como o gato “funciona” em uma casa; em silêncio, indiferente, mas adesivo e cheio de personalidade. Se se agravar a mediocridade destas crônicas, os senhores estão avisados: é falta de Inácio”.
Fala de insetos: A barata. Por que este velho tema (chamemo-lo assim) volta sempre à máquina de escrever e daí passa ao jornal e entra na casa de todo mundo? Ha mesmo, até, quem cultive um sentimentozinho de ternura pela barata. Pobre que ela é, desamparada, furtiva, aguardando a noite, o sono dos moradores , para cuidar da vida”.
Fala de saudade: “viver de saudades, é que de jeito nenhum. Lembrança preservada, lá isso é outra coisa”.
Fala de cronista: “Não pretendo fazer aqui a apologia do cronista, em proveito próprio. Reivindico apenas o direito ao espaço descompromissado, onde o jogo não visa ao triunfo, à reputação, à medalha; o jogo esgota-se em si, para recomeçar no dia seguinte, sem obrigação de sequência.”
Fala da Morte –“ A morte não será procurada, nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã”.

Milton Dias – Fala de animais – na crônica Assembléia de Cães.
“Esta noite houve um congresso de cães cá na minha praça - E tudo indica que os participantes não estavam se entendendo muito bem, a tirar pelos latidos indisciplinados e constantes, como se todos quisessem opinar ao mesmo tempo, balburdiando deliberadamente a assembléia”.

( Um gato) “ E respeitador, obediente, tímido, só começava a vida noturna depois de certa hora; então se esgueirava, saía discreto corria ao encontro da bem-amada, uma certa gata preta da vizinhança, de quem falavam muito mal e por quem chegou a passar uma noite fora de casa, contra seus princípios. Foi só esta vez, mas entrou de manhã tão desconfiado, tão humilhado, roçando as paredes, que ninguém ousou fazer-lhe um gesto de repreensão. Ao contrário, todos acharam que o pobre não teve culpa, há de ter sido tudo tentação daquela gata que era de má vida - estava na cara”.
Ainda sobre o gato:
(...) “vendo que sua presença me impedia de tirar o ferrolho, tive uma reação inesperada de distração, como se me dirigisse a uma pessoa humana: pedi licença”.
Fala da Crônica – “A idéia da crônica como um subgênero, gênero espúrio, está totalmente superada, já foi aceita como gênero independente pelos críticos mais recalcitrantes. Não é só escrevendo versos ou contos ou romance, que se pode fazer literatura”.
Fala de estrela: “Abro um instante a janela, consulto o céu: não há uma estrela, fugiram todas, me deixaram no mais completo abandono. Nem posso imitar o poeta que conversou com elas toda a noite, tresloucado amigo”.
Fala de Fortaleza: “Este meu amor a Fortaleza, infinito, incansável, leal e permanente, contraído há tanto tempo, este amor que eu guardo, cultivo e canto muito e sempre, (...) e a que só faltam versos, porque, ai de mim, não sou poeta”.
Fala de tardes de domingo: sei lá quantas tardes de domingo tenho cá nos guardados da memória, quantas sofri, quantas colecionei, são todas tristes, ah são tristes todas, as tardes de domingo, em qualquer lugar do mundo”.
Fala da velhice – “Também não é no espelho do meu quarto que eu vejo a minha idade, naquele inimigo pendurado que eu respeito e evito. (...) na pele, ai, meu Deus, na pele, a marca mais inegável, as rugas fazendo estrada, começando aquela fabricação de papel pergaminho.”
Fala da Morte: “Eu espero viver a vidinha sem mágoa, em paz com Deus e o mundo. Depois descansar à sombra de um pé-de-jambo, que me aguarda no Parque da Paz”.
Rubem Braga – Fala de animais – Refere-se aqui a um cachorro ainda do tempo da casa de seus pais, em Cachoeiro, e que era muito valente: “ Zig – ora direis - não me parece nome de gente mas de cachorro. E direis muito bem, porque Zig era cachorro mesmo. (...) A verdade é que Zig era capaz de abanar o rabo perante qualquer paisano que lhe parecesse simpático (poucos, aliás lhe pareciam) mas a farda lhe despertava os piores instintos. (...) Tão arrebatado na vida pública, Zig era, entretanto, um anjo do lar. Ainda pequeno tomou-se de amizade por uma gata e era coisa de elevar o coração humano ver como aqueles dois bichos dormiam juntos, encostados um ao outro. Um dia, entretanto, a gata compareceu com cinco mimosos gatinhos, o que surpreendeu profundamente Zig.
Ficou muito aborrecido, mas não desprezou a velha amiga e continuou a dormir a seu lado. Os gatinhos então começaram a subir pelo corpo de Zig, a miar interminavelmente.
(...) Quanto à minha mãe, ela sempre teve o cuidado de mandar prender o cachorro domingo pela manhã, quando ia à missa. Algumas vezes, entretanto, o bicho escapava (...) e, em menos de quinze minutos estava entrando na igreja apinhada de gente. Atravessava aquele povo todo até chegar diante do altar-mor, onde oito ou dez velhinhas recebiam, ajoelhadas, a Santa Comunhão. Zig se atrapalhava um pouco - e ia cheirando uma por uma , aquelas velhinhas todas, até acertar com a sua dona. Mais de uma vez uma daquelas boas velhinhas trincou a hóstia, gritou ou saiu a correr assustada, como se o nosso bom cão que a fuçava com o seu enorme focinho úmido, fosse o próprio Cão de fauces a arder. Mas que alegria de Zig quando encontrava, afinal, a sua dona! Latia e abanava o rabo de puro contentamento não a deixava mais”.
Fala do que escreve – “Cuida o leitor que estou escrevendo bobagens, e é certo. Mas eu sei das bobagens minhas, elas têm enredo íntimo”.
Fala da vida – “Meus arquivos, na sua desordem, não revelam apenas a imaginação desordenada e o capricho estranho da minha secretária. Revelam a desarrumação mais profunda, que não é de meus papéis, é de minha vida”.
Fala da mulher – “A natureza da mulher é assim feita não só da estrita carne e da voz, (...) há a substância improvisada de algas, nuvens e brisas; e mais. Um leve murmúrio de estrelas”.
Fala da morte: “Vocês desculpem tocar nesse assunto, mas a verdade é que está morrendo muita gente. Outro dia peguei por acaso num antigo caderninho de endereços que estava no fundo de uma gaveta, comecei a folhear e esfriei: quanto telefone de gente que já morreu!” (...) “o pior é que esse “lado de lá” vai aumentando, e se a gente se demorar muito por aqui acaba falando só”.

Muito mais teria a dizer-lhes e gostaria de convidá-los a descobrir a beleza da crônica, através da leitura de bons cronistas.
Antes de terminar, quero deixar patente a grande admiração , o grande respeito que sinto pelos cronistas, esses escritores que sendo portadores de currículos invejáveis, e tendo o reconhecimento unânime da crítica literária, não perdem a simplicidade.
As suas crônicas têm em comum a forma humanitária com que vêem as pessoas e os animais, e o modo como descobrem o ângulo incomum das coisas comuns, revelando a ternura que abrigam no mais fundo de suas almas.

Zenaide Braga Marçal – AJEB – CE
(Palestra pronunciada na reunião da AJEB, em 17/08/2010)

domingo, 16 de maio de 2010

Rachel de Queiroz e sua Consciência Político-Social - EVAN BESSA



Cumprimento a Mesa na pessoa do Sr. Presidente da ALMECE, Lima Freitas, e os demais presentes através da colega Francinete Azevedo, acadêmica abnegada e pró-ativa na dinâmica de atividades desta Academia. Quero expressar meus sinceros agradecimentos pelo convite formulado para conversar um pouco sobre a escritora Rachel de Queiroz, da qual teríamos muito a dizer, a respeito de sua extraordinária obra, se não houvesse limite de tempo.

Sabemos que a ALMECE, durante todo o ano de 2010, alusivo ao centenário de nascimento da autora, renderá homenagens nas reuniões ordinárias a essa cearense que tanto nos enche de orgulho. Assim sendo, escolhi apenas um aspecto relevante de sua vida para falar aos amigos almeceanos. O tema a ser discorrido é: Rachel de Queiroz e sua Consciência Político-Social.
Inicio com um pensamento da autora que diz: “Sou pela liberdade. Pelas concessões ideológicas. Eu acho que o voto do analfabeto foi um dos maiores erros políticos, um instrumento de demagogia, de rebaixamento político, o voto dos analfabetos”.

Rachel de Queiroz nasceu em Fortaleza em 17 de novembro de 1910. Pertencia ao ramo dos Alencar, outro orgulho dessa terra. A família tinha raízes fincadas em Quixadá e Beberibe, entrelaçadas com outras tantas famílias que fazem parte de sua árvore genealógica, tais como: Lopes, Queiroz, Bessa, dentre outras.

Desde a adolescência, apresentava-se rebelde e ousada para os padrões da época. Nesse sentido, escreveu uma carta ao jornal “O Ceará”, ironizando o concurso de Rainha do Estudante, utilizando o pseudônimo Rita Queluz. Seu poema “Telha de Vidro” foi publicado no mesmo jornal. O destino, porém, lhe prega uma peça. Por conta da carta, é convidada para ser colaboradora do citado periódico e passa a trabalhar no folhetim “História de um Nome”. Inicia-se assim na carreira de jornalista. Foi uma das fundadoras do jornal “O Povo” em janeiro de 1928, fazendo parte de um grupo seleto de colaboradores.

Nos anos 1928 e 1929, Rachel começa a se interessar pela política social do país. Tinha simpatia especial pelo Bloco Operário Camponês de Fortaleza. A partir daí, participa ativamente dos grupos esquerdistas que estavam se reunindo para formar o primeiro núcleo do Partido Comunista ficando como aliada até 1933.

Em 1930, com essa consciência político-social e, em face das leituras constantes a que se dedicava o que lhe proporcionou uma relativa bagagem cultural, escreve o primeiro livro: “O Quinze”, publicado no Ceará, financiado por seu pai, Daniel de Queiroz, com uma tiragem de 1000 exemplares. O livro foi muito bem aceito pela crítica literária da época, o qual atravessou fronteiras do nosso Estado, chegando às mãos dos escritores Augusto Frederico Schmidt e Mário de Andrade.

“O Quinze” faz parte da literatura do ciclo nordestino brasileiro em que se encontravam escritores como José Américo, José Lins do Rego, Jorge Amado, Graciliano Ramos, intelectuais que tinham perfis e visões semelhantes, transferindo para os livros a realidade que vivenciavam. Não escondiam as dificuldades e preocupações que seu povo vivia. Romance de fundo social, bastante realista que mostra o sofrimento da gente do interior, diante da luta secular da miséria, privação do homem e da fome. A grande seca de 1915 era fato real e concreto, que levou a retratar com maestria o drama dos personagens Vicente Conceição, e por outro lado, os retirantes da família de Chico Bento, na travessia para a busca de dias melhores. Rachel descreve o amor, o conflito social e todos os desdobramentos, costumes da época, tornando-se, assim, uma ficção autêntica do drama explicitado.

Segundo Adonias Filho, “com esse romance o ciclo nordestino alarga-se para interferir na ficção brasileira – amplia-se sobretudo na linguagem e estrutura para converter em ficção o homem, a terra, no drama regional.”

Gilberto Amado acrescenta: ”Uma produção tão perfeita e tão pura que continua sozinha, inigualada, tempo afora.”

Com os estímulos recebidos de autores ilustres continua sua atividade de escritora produzindo em 1932 o romance “João Miguel” e, em 1937 lança “Caminhos de Pedras”. Somente mais tarde escreveu “As Três Marias”. Todos eles de cunho social e político revelando injustiças sociais e a miséria social e política do seu povo.

Esta mulher de infindáveis talentos se destacou na crônica (Diário de Notícias, Revista O Cruzeiro – no Rio de Janeiro); no romance; no teatro, com a peça “Lampião” que foi montada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e no Teatro Leopoldo Fróes em São Paulo. Foi tradutora de vários idiomas: francês, inglês, italiano e espanhol. Traduziu cerca de 40 obras. Escreveu literatura infanto-juvenil: “O Menino Mágico”. Como se observa em Rachel, a sensibilidade exacerbada a fez múltipla na criação e nas artes, Seus livros foram lançados no Japão, Alemanha, Israel e França. Recebeu vários prêmios e títulos por sua produção literária. Foi a primeira mulher a adentrar na Academia Brasileira de Letras (ABL).

Rachel, sempre corajosa e brava, não negava o sangue de sertaneja da gema. A única contradição aparece no tocante à tradição nordestina das mulheres do seu tempo em termos de religiosidade. Ela não tinha religião. Dizia-se agnóstica. Em entrevista ao jornal “Folha de São Paulo”, em 1968, afirmou: “É muito ruim não ter crença, porque nas fases ruins você não tem a que se apegar. Tem que se encolher em si mesma e aguentar a pancadaria. Invejo profundamente quem tem boa fé. O Helder (D. Helder Câmara) ainda tem esperança de me converter, diz que quer morrer um dia depois de mim só para rezar a extrema-unção junto comigo.” Noutra ocasião, falou o seguinte: “na minha infância, todas as velhas só viviam na igreja (...) velha sem religião, quem inaugurou foi minha geração.” Tinha plena consciência da opção religiosa frente ao mundo. Não se sentia culpada, mas encarava a sociedade cristã com espírito forte e sem se penitenciar por essa atitude. Mesmo afastada da Igreja, tinha amigos padres, contando no seu círculo de amizades com D. Helder Câmara, seu conterrâneo, Padre Cícero, Irmãs Simas e Elisabeth (ambas do Colégio da Imaculada Conceição).

Mostrando sempre que estava à frente de seu tempo, foi a primeira jovem a frequentar os cafés da Praça do Ferreira onde se reuniam intelectuais da terra com destaque para Antônio Sales, seu padrinho literário.

Em entrevista concedida a Vitor Casimiro, em 18/8/2000 (exclusiva para o Educacional), fala o seguinte: “Eu sou professora. É o único curso que fiz no Colégio da Imaculada Conceição, de Fortaleza. No resto, eu sou franco-atiradora, fui aprendendo com a vida e comigo mesma.”

Ela não gostava de ser considerada famosa. Tinha verdadeira aversão à participação em eventos sociais. Mulher moderna, não se iludia com títulos ou outras bajulações que alguns lhe faziam. Sem vaidades, avaliava sua obra assim: “Nunca releio um livro meu. Tenho um pouco de vergonha de todos os meus livros, de “O Quinze” tenho uma antipatia mortal, esse livro me persegue há sessenta anos. Detesto todos eles.” É interessante ouvir com tamanha espontaneidade uma avaliação dessa natureza. Achava que era mais falada que famosa.

Muito cedo, a escritora Rachel de Queiroz, com senso de observação aguçado, começou a perceber as dificuldades de seu povo, as mazelas sociais e os ditames da política em seu país.

Sempre se rebelou diante das injustiças sociais. Nos seus romances retrata com fidedignidade a luta secular do povo contra a miséria e a seca, bem como a do operário que labuta para receber o pequeno salário.

Em 1931, conhece integrantes do Partido Comunista. E inicia seu entrosamento com ele. Por essa razão, é perseguida pelo regime ditatorial. Depois se desentendeu com o Partido em face de discordância sobre o enredo do romance “João Miguel.” Acharam que o enredo era preconceituoso frente à classe operária. Rachel, então, virou trotskista militante, tendo sido presa em Pernambuco como agitadora comunista.

Getúlio Vargas, quando ainda delineava o Estado Novo, já se preocupava com seus opositores. Rachel, considerada agitadora, logo vai presa, em 1937, em face das divergências de caráter político, no quartel do Comando Geral do Corpo de Bombeiros Militar do Ceará. Com a chegada do Estado Novo, seus livros foram queimados em Salvador-BA, com os de escritores perseguidos: Jorge Amado, Graciliano Ramos e outros, porque eram tidos como subversivos.

Em entrevista a O Jornal afirmou: “...eu fui presa várias vezes. A mais demorada, passei seis dias na cadeia; foi quando Getúlio Vargas estava preparando o golpe para se apossar do poder. Ele botou todos os jornalistas em cana e deu o golpe”. Mandou prender tudo quanto era de intelectual esquerdista, trotskista, stalinista, anarquista, todo mundo foi preso em 1937. Para Rachel, o Estado Novo foi pior que a ditadura de 1964, porque ele tinha processos fascistas já codificados. Tinha o modelo alemão, polaco, italiano e Getúlio Vargas se associou a esses governos criminosos, terríveis, monstruosos, esclarecia a escritora.

Falando do apoio que recebeu de seus familiares, em entrevista a O Jornal afirmou: “...o jornal católico de Fortaleza se escandalizou porque papai e mamãe foram me visitar na prisão. E quando me viram toda heróica, toda Joana D’Arc, eles começaram a rir”.

E prossegue, dizendo para o mesmo jornal: “...tive uma formação política comunista. Foi o único período em que estive na militância, depois eu fiquei somente como observadora, sem atuação direta. Mas eu sempre fui espírito de porco, sempre do contra. Sou da família daquele cara que disse: “Há governo, sou contra.”

Quando lembrava os dias em que esteve presa por motivos políticos, ela evitava o tom de mártir e recordava com bom humor que sempre foi bem tratada na cadeia e até fazia amizade com os carcereiros.

Por essas posições e compreensão do fato político, foi fundadora do movimento esquerdista do Ceará. O seu registro no Partido Comunista consta na Delegacia de Ordem Política e Social de Pernambuco, com o nº 883, considerada pelo regime “perigosa agitadora”.

Com inteligência e perspicácia, aproveitava-se de sua escritura para nas crônicas dizer o que pensava. Numa delas, da revista “O Cruzeiro” de 12 de setembro de 1959, Rachel externou sua opinião sobre o Estado Novo: “Com o Estado Novo, todo o mundo amordaçado, sem ninguém para estrilar, o hábito de regalia universalizou. Os homens públicos deixaram de separar o que era do Estado e o que era deles, ou antes, o uso e abuso dos bens públicos passaram a ser privilégio dos cargos”.

Ainda se referindo aos políticos, no seu livro “Um Alpendre, Uma Rede e Um Açude”, coloca mais uma vez sua visão crítica, acerca dos representantes do povo no Congresso Nacional: “... sou leitora contumaz do “Diário do Congresso” e escuto as irradiações das atividades parlamentares sempre que a censura governamental me permite esse entretenimento cívico – eu já me acostumei a conhecê-los todos: há os que sabem, há os que pensam que sabem, há os que entendem de qualquer coisa, mas é mister garimpar essa qualquer coisa sobre o cascalho das bobagens e dos lugares-comuns; há os sérios entendidos, há os sérios bobos, há os ocos e há os que têm recheio dentro, havendo ainda a enorme variedade na qualidade desse conteúdo. E há, naturalmente, o contingente dos que não têm nada em todos os sentidos, que não servem nem na hora de votar, porque sempre votam com o pior.”

Essa observação da escritora é tão pertinente que se poderia enumerar e até nomear as categorias declinadas no texto acima. Não é ficção, mas realidade palpável e concreta, nos dias de hoje, mesmo, em pleno século XXI.

O Partido Socialista Brasileiro lançou sua candidatura a Deputada Estadual, em Fortaleza, defronte à Coluna da Hora.

Em 1964, embora não mais comunista, mas apenas socialista, participa da conspiração para a derrubada de João Goulart e realiza reuniões, visando ao golpe do estadista. Segundo a escritora, aderiu ao golpe também porque era amiga de Castelo Branco, um dos generais conspiradores, que veio em pouco tempo a assumir a Presidência de nosso país.

Mais tarde é nomeada pelo Presidente Castelo Branco como delegada do Brasil na 21ª sessão da Assembléia Geral da ONU, agregada à Comissão de Direitos Humanos e, em 1967, integra o Conselho Federal de Cultura.

Jânio Quadros, quando Presidente da República, a convidou para o cargo de Ministra da Educação, o qual foi devidamente recusado, com a seguinte justificativa: “... sou apenas jornalista e gostaria de continuar sendo apenas jornalista”.

Criticava os colegas pela postura política. Dizia que eles liam apenas apostilas doutrinárias que tinham trechos dúbios. O único integrante do Partido que havia lido “O Capital” na íntegra era o crítico Mario Pedrosa, afirmava ela. Ela era contra a qualquer posição sectária. Para ela o sectarismo é um estigma. A questão de ideologias é para almas estreitas, dizia. Você pode manter comunicação permanente se tiver idéias abertas e aceitar todos os caminhos.

No livro “Tantos Anos” dedicou um capítulo ao Padre Cícero, que ela, ainda jovem, conheceu. No livro, coloca suas impressões sobre os intelectuais brasileiros: “Eles não refletem quando vão apoiar esta ou aquela corrente ideológica, guiando-se mais por amizades e panelinhas do que por convicções. Vigora na vida cultural o mesmo princípio coronelista da política partidária”.

No quartel do Comando Geral do Corpo de Bombeiros (local onde esteve presa) existe uma placa em sua homenagem, mandada afixar, após sua morte, por Lúcio Alcântara, que na época governava o Ceará. Ele participou do evento, juntamente com seus familiares. Registre-se, também, a iniciativa do gestor público mencionado: a assinatura do decreto, dando o nome de Rachel de Queiroz ao Colégio Militar do Corpo de Bombeiros. O político ressaltou na ocasião, a luta da escritora pela Democracia e a Liberdade de ideias e convicções, fato esse que permeou toda a sua vida.

Cônscia de sua responsabilidade, aproveitou a literatura para chamar atenção da seca do Nordeste e dos problemas sociais, políticos e econômicos do país. Nas suas crônicas aproveitava para denunciar, esclarecer e trazer os leitores informados do dia-a-dia que influenciavam de perto, a vida cotidiana do homem brasileiro.

Quando foi chamada para habitar no plano superior, os cearenses ficaram perplexos diante da notícia. Ela saiu de cena de forma silenciosa, sem alarde, demonstrando dignidade, como boa cearense, no dia 4 de novembro de 2003, na cidade do Rio de Janeiro.

O Ceará perdeu sua maior Estrela da Literatura e o Brasil ficou órfão da escritora, da intelectual ímpar, que todos conheciam e admiravam.


(Palestra proferida na ALMECE, dia 15/5/2010)