ATUAL DIRETORIA AJEB-CE - 2018/2020

PRESIDENTE DE HONRA: Giselda de Medeiros Albuquerque

PRESIDENTE: Elinalva Alves de Oliveira

1ª VICE-PRESIDENTE: Gizela Nunes da Costa

2ª VICE-PRESIDENTE: Maria Argentina Austregésilo de Andrade

1ª SECRETÁRIA: Rejane Costa Barros

2ª SECRETÁRIA: Nirvanda Medeiros

1ª DIRETORA DE FINANÇAS: Gilda Maria Oliveira Freitas

2ª DIRETORA DE FINANÇAS: Rita Guedes

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DIRETORA DE PUBLICAÇÃO: Giselda de Medeiros Albuquerque

CERIMONIALISTA: Francinete de Azevedo Ferreira

CONSELHO

Evan Gomes Bessa

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Zenaide Marçal

DIRETORIA AJEB-CE - 2018-2020

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DIRETORIA ELEITA POR UNANIMIDADE

domingo, 14 de março de 2010

CORAÇÃO OBSCURO - Evan Bessa


A noite, o pavor me assalta
Fantasmas espremem minha dor
E mistérios reaparecem em flashs.
No escuro, trituro o dissabor.

Uma luz adentra o quarto da minh’alma
Mas não chega ao coração obscuro
Há em mim uma escuridão profunda
Que permeia meus tecidos duros.

Meus sonhos são mosaicos partidos
Trincados, em cacos, resistentes
Em minha volta só há melancolia
O sofrimento me deixa impertinente.

Ao raiar o dia estou angustiada
No íntimo não há luz, só sombra.
O sol aquece o corpo doído, inerte
E a dor insiste, resiste e assombra.

DIA NACIONAL DA POESIA - Homenagem a todos os Poetas!


A POESIA
Giselda Medeiros

Penso no poema,
e ela me vem,
a Poesia,
das profundezas de sua carne
macia e verde
com seu ruflar de asas de mel
e de arminho.
Esgueira-se buliçosa
no sótão de minha vida
qual furacão
de sons e de palavras,
metáforas azuis, a entreter as chamas
da agonia.
E ei-la aprisionada nos domínios
do poema
açoitada pelos ventos
que trouxeram de ti
a essência da paisagem
de tua alma.

(do livro Tempo das Esperas)

quarta-feira, 10 de março de 2010

FILGUEIRAS LIMA - O EDUCADOR E O POETA - Neide Freire


Antônio Filgueiras Lima, natural de Lavras da Mangabeira, histórica cidade do interior cearense, nasceu aos 21 de maio de 1909. Filho de Silvino Filgueiras Lima e Cecília Tavares Filgueiras: menino ainda descobriu seu destino de poeta: “Um dia olhei o céu, longe as estrelas / E eu tive uma vontade imensa de colhê-las / Estava desvendado o meu destino”.
Mas que vem a ser um poeta?
Poeta é aquele que, tendo a alma iluminada, é capaz de descobrir a beleza oculta nos velhos quadros da vida e transmiti-las num eflúvio de encantamento.
Talvez por um fio dourado desse encantamento, veio Filgueiras Lima a ser uma estrela, cuja cintilação de primeira grandeza, passados tantos anos de sua ausência, ainda ilumina o universo cultural do Ceará.
Mas, em seu fadário de poeta, estava uma outra destinação: o amor pedagógico que o comprometeu com a causa da educação no Ceará.
Em 1931, por concurso, efetivou-se no cargo de Inspetor Regional do Ensino, marco inicial da longa lista de suas atividades em favor da educação. Entre outros cargos de relevantes valores, foi Diretor de Instrução e Inspetor do Ensino Normal.
Concorrendo em disputadíssimo concurso, em 1933, classificou-se em primeiro lugar, conquistando a cadeira de Didática da Escola Normal Justiniano de Serpa, equiparada ao Colégio Padrão, Pedro II, no Rio de Janeiro, e, atualmente denominada Instituto de Educação. No ano anterior, isto é, em 1932, publicara seu livro de poesias “Festa de Ritmos”.
Orador, conferencista requisitado e aplaudido, indicado pelo Governador do Estado, representou o Ceará nas festas inaugurais do Edifício da Gazeta de São Paulo, pronunciando na ocasião eloqüente conferência sobre o célebre escritor cearense José de Alencar, considerado o pai do romance brasileiro.
Intelectuais paulistas pronunciaram-se em louvor à aludida conferência, sobressaindo-se o jornalista Plínio Cavalcante que assim se expressou: “Sobre a inteligência da terra mais brasileira do Brasil, nada direi, porquanto a palavra brilhante de Filgueiras Lima, ontem se revelou a São Paulo como fulguração de sua mocidade e harmoniosa beleza de sua poesia forte”.
O menino que, segundo o pai, “nascera para estudo”, projetou-se em seu tempo, pela dignidade de seus atributos cívicos e morais, evidenciado na urbanidade solidária de seu trato social, no fulgor de sua inteligência inteiramente voltada para seu misto de ideal de poeta e educador.
Vem à luz da publicidade, em 1944, seu livro intitulado “Ritmo Essencial”.
Diferente do clássico poeta cearense José Albano, que afirmou “Poeta fui e do áspero destino / Senti bem cedo a mão pesada e rude”/, Filgueiras Lima foi o poeta do ritmo e da alegria. Aprendeu bem cedo o “Ritmo Essencial” de seu jardim de “eternas rutilâncias” e promoveu a “Festa de Ritmos”, tirando da pauta musical da existência a fascinante beleza que envolve sua “Terra da Luz”.
“O sertão todo em flor esplende e cheira” assim legando aos pósteros o perfume lírico que ainda se exala de seu “Jardim Suspenso”.
Portador de inúmeros diplomas, bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito do Estado do Ceará, não lhe seduzia o brilho solferino do anel nem a sisudez da Toga, mas optou pelo magistério obedecendo aos ditames de sua vocação cuja autenticidade revelou em apenas cinco palavras: “Fiz-me professor, nasci poeta”.
Admirável simbiose que festejou em versos “o ritmo essencial das “cousas límpidas e raras” que borbulhavam em sua alma de esteta unindo-as em mesmo ideal.
Tal o Midas mitológico cujo toque tudo transformava em ouro, nosso poeta que adorava os “céus azuis e as águas claras”, por descobrir a beleza de seu jardim de “excelsas rutilâncias”, tudo transformou em poesia inspirada e bela como no soneto “Samaritano”, ao louvar o amor: “Inda lhe sinto os cálidos ressábios / Foi o vinho do amor que me serviste / No cântaro rosado de teus lábios”.
Em “Desespero”, focaliza em versos doridos a terra natal na ocorrência cícicla que a flagela: “O sol caustica a face morena do sertão / A gente olha a estrada lá longe, / Numa curva distante do caminho / A caravana de párias nômades aparece”.
Em “Peregrino”, o Poeta descreve a trajetória ansiosa do viandante na busca ilusória do “aroma das cousas que não passam” “da água viva das fontes que não secam nunca”.
E, nessa busca incansável do absoluto, o poeta adentra o mundo da escola e faz de sua cátedra um genuflexório e diz: “Ensino como quem reza”.
Dessa devoção acendrada, emerge o compromisso do poeta com a escola.
Chega ao Ceará, em 1922, o pedagogo brasileiro Manoel Bergstron Lourenço Filho, adepto das idéias inovadoras pregadas pelo pedagogo e filósofo americano John Dewey.
O educador cearense adere à nova pedagogia e torna-se um paladino apaixonado do movimento, que ficou conhecido como Escola Nova, o qual correspondia perfeitamente ao ideal de ensino, porquanto considerava a escola daqueles dias, inoperante, retrógrada, estática, incapaz de suprir o aluno com a formação necessária a torná-lo participante útil de uma sociedade em evolução.
Embora sua esmerada formação sociopedagógica, Filgueiras Lima que, bem poderia ser contado entre os mais conceituados pedagogos brasileiros, como Anísio Teixeira, Fernando Azevedo, Sul Menucci e outros, não foi um teórico da educação.
Associado ao jornalista, e depois deputado, Paulo Saraste, em 1938, abre as portas de seu recém-fundado Instituto Lourenço Filho, implantado sob os ditames filosóficos da nova pedagogia que ficou conhecida como Escola Nova ou Escola ativa, na qual, em torno do aluno e não do programa, giravam as atividades escolares.
O professor Filgueiras Lima realizou, então, no Ceará, a verdadeira Revolução Copernicana do ensino preconizada pelos mestres da moderna ciência pedagógica.
O Instituto Lourenço Filho, hoje Faculdade Lourenço Filho, é o atestado fidedigno do espírito empreendedor, desassombrado, do mestre, e do amor que dedicou à sua terra e à sua gente.
É a comprovação do sonho do poeta que fez da sala de aula o seu mais vibrante e eloqüente poema.
Recordá-lo, nesta data comemorativa do centenário de seu nascimento, rememorar o labor de sua vida dedicada à educação parece-nos ouvir, vindos de longe, no rolar do tempo, sussurros dos antigos sábios, mestres da filosofia que fez da Grécia “a mestra perdurável do pensamento humano” e levaram o poeta professor a exclamar de si mesmo: “Sou um grego de tempos esquecidos”.

(Trabalho apresentado na reunião da AJEB, dia 19 de maio e 2010, por Neide Freire, em comemoração do centenário de Filgueiras Lima).

domingo, 7 de março de 2010

A UMA CERTA MARIA - NILZE COSTA E SILVA


Quero falar de uma Maria
Ausente, escondida
feito coruja nos campos
rasga mortalhas das noites
distante do mundo
sem saber ler nem escrever seu nome

Em sua infância tão pobre
um amiguinho invisível ensinou-a a inventar brinquedos
amarelos, verdes, azuis...
Eram brinquedos tão lindos!
Ninguém, senão Maria, tinha aquele privilégio
de brincar com o menino Jesus

Mas um dia Ele partiu...
deixando-a envergonhada de ter crescido assim
com uma sina obstinada, tatuada, corpo e alma
para levar a mensagem ao povo de Juazeiro
Teve chagas pelo corpo
teve a boca alagada do sangue da hóstia consagrada
O sangue corria dos lábios, pela língua e pelas mãos
pelos paninhos brancos que o padre limpava o chão

Maria de Araújo!
Quem te fez assim tão forte
Sozinha na noite escura da cidadezinha pobre
desalentada, desacreditada pela Santa Inquisição?

Ah, essa Maria de tantas dores...
Insubmissa às leis humanas
deu comunhão a dois padres da primeira comissão
Insultada, perseguida pela Igreja arrogante
que não acreditava que Deus amava aquela mulher
pobre, negra e analfabeta.

O bispo não concebia que o divino condenava
a tripla discriminação
e escolheu a beata, chamada Maria de Araújo
pra transmitir ao seu povo sua mensagem de amor
como escolhera outrora
os tão pobres pescadores
homens analfabetos que se tornaram apóstolos
da fé que Jesus pregou

A beata do milagre afrontou a arrogância
da segunda comissão
E quando foi inquirida e lhe dada a hóstia na boca
falou com toda ousadia:
“Jesus Cristo tá dizendo, que a hóstia não sangrou
pois os padres da comissão não estão em estado de graça
pra me dar a comunhão”

Por isso foi torturada,
Presa na sozinha cela da Casa de Caridade
Ao voltar pra sua terra
Morreu triste e esquecida
Sem véu, sem nome, sem lar
Padre Cícero ordenou dar-lhe enterro merecido
Mas mesmo depois de enterrada
ainda foi injustiçada
Teve o túmulo violado
como quem nunca nasceu
Mas um dia Juazeiro vai lembrá-la com amor
e dar-lhe a paz merecida
sabendo que Jesus Cristo
amou aquela mulher ousada e destemida

Que assim seja!

terça-feira, 2 de março de 2010

O Pulo do Gato - Cláudio Queiroz


O velho resmunga sons ininteligíveis de desagravo quando a mosca lhe roça o bigode e nariz.
Aborrecido, muda bruscamente de posição. Agora, de bruços, volta a dormir suavemente, sob o afeto de uma ligeira brisa que sopra da janela, afagando-lhe os cabelos.
O ambiente era de tranqüilidade. Bastava-se observar a decoração bem típica dos aposentos de um homem já velho e solitário: um precário guarda-roupa de duas portas, uma cadeira de balanço apinhada de roupas já usadas e alguns livros. Na parede, fronteiriça à janela, à direita da porta de entrada, um quadro de moldura, já em adiantado estado de uso.
Dizia-se que fora o velho Ezequiel, tipógrafo, aposentado do Estado, ele próprio, o pintor do quadro, no qual podia-se observar um casal risonho, ele ajudando a sua jovem companheira a transpor um pequeno riacho que corria entre pedras.
Novamente, o velho Ezequiel volta a se agitar na cama. Com isso, o gato mourisco, que dormitava em cima do guarda-roupa, levanta a cabeça, atento, bigodes em posição de alerta.
Agora, o ex-tipógrafo dá mostras de impaciência. Dormira após penosa luta com o gato que, ultimamente, teimava em viver em sua companhia. Odiava aquele felino de olhos amarelos “tipo do sujeito bilioso e mau”, como murmurava.
Deitara-se, afinal, cansado da perseguição, ainda mais sob o efeito da lembrança de que, somente dali a dez dias, receberia seu minguado dinheiro.
Sonha, agora, que dois oficiais de justiça retiram da parede o seu valioso quadro. “Para pagar aos devedores”, diz um deles, rindo do desespero que o domina.
O pesadelo desperta-o bruscamente. Aos 68 anos e com sério problema de coluna, entende-se quão doloroso é um levantar rápido.
A mão ainda trêmula tateia em busca de seus óculos. Ergue-se e, às apalpadelas, dá com o pé no urinol provocando um ruído desagradável.
Resmunga zangado, aborrecimento que logo se transforma em ódio, quando, profusamente, vê o gato pular do guarda-roupa e cair-lhe em cima da cama.
Numa agilidade humilhante, o animal parece debochar dele, os olhos satanicamente piscando com ironia.
O ex-tipógrafo, ainda atordoado, procura, ansioso, ver o seu quadro. Adianta-se e, com sofreguidão, vai de encontro ao seu odiado inimigo que pulara diante dele. O velho solta uma imprecação de desespero, enquanto suas mãos agitam-se no ar, tentando, em vão, agarrar-se a algo. Não obtendo o equilíbrio e, ante a iminência da queda, volta a olhar a parede em busca, de ali, ver o quadro, para ele, de valor inestimável.
Mas, o tombo foi desastrado. O homem bateu feio com a testa na cadeira, indo rolar, gemendo, no piso da sala.
Choramingando baixinho, leva a mão ao rosto, pressentindo que estava ferido. E, com dedos trêmulos, apalpa dolorosamente os fragmentos estilhaçados dos óculos, que alçara à testa, minutos atrás.

segunda-feira, 1 de março de 2010

RASGANDO A FANTASIA - Heloísa Barros Leal


QUERIDA RAQUEL

smileys falando


Hoje, ao acordar após mais uma noite de insônia e da nossa conversa sobre as nossas vidas, as nossas escolhas, algo adormecido, lá no fundo, também despertou. Foi então que constatei, querida amiga, que tenho vivido todos esses longos anos num espetacular baile de carnaval, cercada de vultos fantasiados e mascarados, representando cada um deles os meus desejos ocultos e todas as minhas mais loucas fantasias. O pior foi a conscientização tardia de que eu mesma, na minha louca imaginação corroída pelo romantismo, patrocinei com fantasias este baile.
Aos poucos, ainda meio sonolenta, vejo através das máscaras as minhas fantasmagóricas ilusões circulando freneticamente ao meu redor, na forma de figuras carnavalescas, derramando sobre mim as mais variadas iguarias, enquanto ouço o tilintar de taças de vinho sobre a minha cabeça como numa festa de BACO, num último brinde à minha estupidez...
O que se pode fazer quando se chega ao patamar da vida e se depara com a certeza de que viveu mergulhada num mar de fantasia, mentindo para si mesma e se convencendo de alguma coisa que só existia na sua tresloucada cabeça? E que essa constatação começa a lhe corroer e a destruir tudo aquilo em que passou, a maior parte da vida, acreditando, regando e, acima de tudo, cultivando? O que faria você? O que faria?
Grito, aos quatro ventos, buscando ansiosa uma resposta que me conforte, que me dê forças para terminar minha jornada sem tanta amargura, mas não encontro resposta ao meu pedido de socorro.
Em principio, achei que as pessoas não sabiam ser solidárias e não estavam nem aí para se comoverem com a dor dos outros. Radical demais! Depois, outro pensamento me ocorreu. Não seria por que, como eu, elas se faziam a mesma pergunta? Passaram ou estariam passando pelos mesmos problemas que eu e, também, se perguntavam a mesma coisa e não tinham resposta? Quem sabe?!
Mas, hoje, depois de todas estas reflexões, resolvi num ato heróico terminar este baile, rasgando minha fantasia. Tenho certeza de que outros bailes virão, que vestirei outra fantasia, mergulharei em um outro sonho, pois não conseguiria viver sem sonhar, sem fantasiar, já que isso enche de colorido as nossas vidas. Não tenho certeza absoluta, já que é muito tênue a linha que separa o real do imaginário, mas procurarei, da próxima vez, ter mais cautela na organização do meu futuro baile, e me fantasiarei de EVA. Assim não há perigo de, mais uma vez, rasgar a fantasia.

Com carinho,

Maria Eduarda

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

CONVERSANDO COM NATÉRCIA CAMPOS - Maria Amélia Barros Leal



Você, amiga, nos transmitiu singulares emoções nos mistérios daquela Casa, plena de tramas e sutilezas, revelando no romance a sua inteligência iluminada. No caminho das águas, mergulhei com paixão, flutuando sob uma sensação de aventura, vivendo os segredos inspirados pelo Conde italiano Ermanno de Stradelli em você, a filha do contista Moreira Campos, que fisicamente parecia frágil, mas, na realidade, possuía o poder de captar o íntimo dos sentimentos humanos.
Se você, no fim da viagem, ficou "à mercê de dois mundos, o imaginário e o real, procurando equilibrar a vida e os sonhos", é porque herdou de seu pai o poder mágico das concepções literárias, e de seu avô Julio Alcides, não só um binóculo de alcance, mas uma visão aguda e penetrante da selva Amazônica.
Embevecida pela descrição das paisagens, acompanho os seus olhos deslumbrados, fixos no CRUZEIRO DO SUL, na lua madrinha, no Japu, pássaro de bico vermelho que do sol trouxe o fogo; no Uirapuru, ave canora a que CY, a mãe de todos, pede que não pare de cantar; no Aturiá, comunicação estreita entre rios que recebe dos viajantes uma peça de roupa para abrandar a cólera dos espíritos e, descendo as águas, o Matupã, uma touceira desenraizada das ribanceiras do rio, pequena ilha flutuante, pela qual viajam plantas, pássaros, galhos, flores e garranchos. E, quando um pequeno vapor – o navio gaiola – passa com as redes armadas, você confessa que a imaginação voou intensa e, então, eu relembro o Professor Moreira Campos, profundamente sutil em pressentir e descobrir emoções contidas.
Com sensibilidade, você nos apresenta os Matis, que são os curandeiros, mestres na aplicação do curare e a cerimônia do Marake, deveras impressionante, porque os meninos que penetrarão no mundo dos adultos, sentem, em silêncio, as ferroadas das tocandeiras, as formigas de fogo.
Juruparu, o deus e demônio das florestas, exclui as mulheres do ritual, não permitindo que ouçam o som da trombeta da paixiúba. E eu me interrogo: por que a proibição? Seria medo de que a sedução feminina pudesse arrefecer o ânimo dos adolescentes?
Profundo mistério, insondável premonição, envolvida na exaltação do espírito...
A chegada a Parintins em 3l de dezembro de 2000, numa atmosfera de beleza indescritível, e os expressivos versos de seu amigo e poeta Dr.Wellington Alves deram-me a certeza, de que a viagem fantástica foi real e, quando "a esperança de um feliz ano novo tornou-se a sua companhia, a referência aos amigos que são preciosos e imprescindíveis como o ar, a água, o sol e os sonhos" me emocionaram tão profundamente que me imaginei naquele navio, usufruindo as nuances e os segredos, sentindo o vigor da natureza, decifrando lendas como você o fez, filha de um homem predestinado e de uma mãe muito amada, encantando-se com a pujança da natureza, vendo de perto a sumameira, ouvindo os gritos longos do Curupira e "achando divino não haver por perto alguém para silenciá-lo com um pilão".
E os botos? Os golfinhos sedutores? O delfim, a taboca Arapari, o Mapinguari, que no folclore amazônico é um gigante semelhante ao homem, porém coberto de pêlos?
Os gritos da ave agoureira, Urutau, a mãe da lua que chora quando ela surge, o tincuã, o pássaro alma-penada, o Matintapereira e o Japim que arremeda os pássaros?
No Rio Negro, o cacto da lua "cuja flor só abre as pétalas uma vez, em noite de lua cheia, desprendendo um perfume de essência rara e quando o dia nasce, se fecha".
Em toda descrição do universo silvestre, você impregna nas nossas mentes uma mensagem sensível de DEUS na natureza, prodigiosa em lendas e em beleza.
Há um ano, em 3 de Junho de 2.004, você deixou com serenidade o aconchego da família, o grande amor maternal, a literatura, as viagens, os seus livros e fotos, a Academia de Letras e seus mais caros amigos.
Deixou D.Zezé numa mortal saudade, pois, conjugando a falta do José com a da filha amada e companheira, pensou triste, chorou o passado de carinho e o amor sofrido e não teve forças para sobreviver.
Sentindo-se sozinho, o coração, pelos grilhões da amargura infinda, rompeu a pulsação da vida.
Para nós, você continua nas "Iluminuras", nas histórias daquela casa cheia de amores, de frustrações e de desencontros, nos contos publicados, no relato da viagem a Portugal e Espanha, no discurso poético e perfeito da posse na Academia Cearense de Letras e, finalmente, no "Caminho das águas'', milionário do verde império da Amazônia e dos sentimentos dos amigos que partilharam as emoções da aventura de garra e poesia.
Sentindo a sua presença, e inspirada na luz da FÉ, eu diviso o pai, a filha e a mãe, juntos na Eternidade, testemunhando o pensamento do grande Mário Quintana: "O amor é quando a alma muda de casa".

(Policromias - 5º volume)

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A CRÔNICA DE RUBEM BRAGA - Zenaide Marçal


Muitas obras literárias, mesmo algumas obras-primas, passaram pela publicação em jornal antes de serem impressas em livro. Podemos citar, entre os autores brasileiros, Machado de Assis, com Memórias Póstumas de Brás Cubas; Graciliano Ramos, com Vidas Secas; Raul Pompéia, com O Ateneu, entre outros.
Assim é a obra de Rubem Braga. Considerado com justiça o maior cronista brasileiro da sua época, suas crônicas sempre tiveram lugar de destaque em grandes jornais e revistas do Brasil. Antes dele a crônica era um gênero pouco valorizado, pelo caráter efêmero da crônica jornalística, mas ele conseguiu dar-lhe o sentido de permanência literária com a sua prosa de admirável simplicidade e de considerável teor poético. A Poesia se faz presente a todo instante nas suas narrativas claras, envolventes, bem-humoradas, e informativas quando o assunto o exige. Assim, veio a ser o único escritor a conquistar um lugar definitivo na nossa literatura, unicamente como cronista.
Manuel Bandeira foi o primeiro a reconhecer, em Rubem Braga, o dom da prosa com originalidade e o incluiu na sua “Antologia dos Poetas Bissextos Contemporâneos”.
Nasceu Rubem Braga em Cachoeiro do Itapemirim no dia 12 de janeiro de 1913. Seu pai, Francisco Carvalho Braga, foi o primeiro prefeito da cidade. Formou-se em Direito em Belo Horizonte, mas nunca exerceu a advocacia. Ainda estudante, iniciou-se no jornalismo cuja profissão o absorveu e na qual obteve muito êxito. Foi cronista, repórter e comentarista político no Brasil e no exterior, como enviado de diversos jornais brasileiros.
Quando correspondente do Diário Carioca, acompanhou a Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial. Escreveu “in loco” crônicas cheias do realismo brutal da guerra e o fez com tal fidelidade que, lendo-as, somos transportados à Itália, ao meio dos combates; somos levados a partilhar não só a sua indignação com as atrocidades da guerra, mas também a sua piedade pelo sofrimento dos jovens e das suas famílias. Essas crônicas estão reunidas no seu livro intitulado Crônicas da Guerra na Itália.
Durante o ano de 1950, viveu em Paris; em 1955, chefiou o Escritório Comercial do Brasil em Santiago do Chile; de 1961 a 1963, foi Embaixador do Brasil no Marrocos, para citar apenas alguns dos importantes cargos que ocupou. No entanto, nada fez com que a escrita de Rubem Braga perdesse a leveza e a sensibilidade de sempre.
Na época em que escrevia para um dos jornais do Rio de Janeiro, conseguiu prender a atenção dos seus leitores escrevendo sobre uma borboleta amarela, que voava livremente em pleno movimento da cidade. Levou-os durante três semanas, através da sua crônica semanal, a acompanharem o vôo da borboleta, enriquecendo a narrativa com os mais variados e coerentes comentários relacionados aos lugares por onde ela passava, como vemos neste trecho: “A minha borboleta! Isso, que agora eu disse sem querer, era o que eu sentia naquele instante: a borboleta era minha, como se fosse o meu cão, minha amada de vestido amarelo que tivesse atravessado a rua na minha frente e eu devesse segui-la”.
Sobre um pé de milho, que nasceu por acaso no seu jardim e foi cuidado até pendoar, escreveu: “Há muitas flores belas no mundo, e a flor do milho não será a mais linda. Mas, aquele pendão firme, vertical, beijado pelo vento do mar, veio enriquecer nosso canteirinho vulgar com uma força e uma alegria que fazem bem. Meu pé de milho é um belo gesto da terra!” – e acrescentou com humor: “Eu não sou mais um medíocre homem que vive atrás de uma chata máquina de escrever, sou um rico lavrador da rua Júlio de Castilhos”.
Na verdade, repito, são preciosas as crônicas de Rubem Braga e, segundo Oto Lara Resende, é impossível qualquer análise de prosa em língua portuguesa, ou luso-brasileira, sem o conhecimento da sua obra.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

MEU AMOR IMORTAL - Lise Hortencia




Quero que venhas para mim, agora,
Trazendo-me a alegria do teu jeito.
As flores que plantaste – amor perfeito –
Em mim murcharam quando foste embora.

Quero que venhas para mim, agora,
fazer-me renascer junto a teu peito,
trazer a luz ao meu olhar desfeito,
comigo ver a vida em nova aurora.

A vida que ficou pesada e triste...
Simulando uma paz que não existe,
sorrindo apenas para não chorar,

eu sigo, tal palhaço em picadeiro,
tornando o pranto em riso o dia inteiro,
sem ter idéia aonde te encontrar!

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Machado de Assis e o Preconceito - Ana Maria Nascimento


Entre os vultos importantes
de nossa literatura,
está Machado de Assis,
o “bruxo do Cosme Velho”
como lhe denominou
Carlos Drummond de Andrade.

Esse célebre escritor,
Que, em pouco tempo, tornou-se
um exímio conhecedor
do mundo da ficção,
teve a existência voltada
para insensatas paixões.

E foi nessa trajetória
que conheceu Carolina,
uma jovem portuguesa
com quem pôde desfrutar
as benesses da vitória
de quem vive um pleno amor.

Mas, cedo, a mulher querida
foi para junto do Pai,
e a consternação tamanha
arrebatou-lhe o prazer;
assim, quatro anos mais tarde,
ele também feneceu.

A família portuguesa
de Carolina Novais,
num mesquinho preconceito,
não permitiu que Machado
dormisse seu sono eterno
junto da mulher amada.

Mas esse ato desditoso,
que separou os amantes,
chegou a ser reparado
quando foi feito o traslado
de Carolina e Machado
para a mesma sepultura.

Hoje, próximo da entrada
num espaço reservado
do mausoléu acadêmico,
Machado e sua Carolina,
eternos enamorados,
estão juntos para sempre.

E, na lápide de mármore,
onde seus corpos repousam,
junto ao poema “À Carolina”,
as duas mãos entrelaçadas
denotando o excelso amor
que venceu o preconceito.

Portanto, a literatura
do nosso fértil país,
uníssona, bate palmas
a este vulto da cultura,
consagrado romancista,
grande Machado de Assis!

UM ENCONTRO COM DEUS - Sérgio Macedo


Espero ainda poder, à moda antiga, abrir-lhe portas e estender tapetes.
Inventar flores raras ou silvestres,
Servir um bom merlot, de fina casta e longínqua escolha.
Espero andar com meus argumentos,
Decidir com meus pés em seus descaminhos pensados.

Espero um dia, e que não seja muito distante,
Levá-la a algum lugar que a possa fazer chorar de emoção
Por ali estar.
Espero poder caminhar com ela de mãos dadas e sorriso aberto
E dizer seu nome e a chamar de minha mulher
No lugar de namorada ou companheira de trabalho.
Espero um dia vê-la de lingerie negra, sob luz tênue,
E observar seu sorriso maroto de quem sabe o que faz.
Espero que o tempo pare, pois está muito curto para mim. Tenho planos para ele.
Quero tê-la, entretanto, antes que se acabe.
Quero tê-la, entretanto, antes que se vá em definitivo.
Não quero ferir pessoas, nem macular minhas veias e pele com o sofrimento de existir.
Quero ferir pessoas com marcas de diamantes e de raios de luz.
Quero ferir pessoas com palavras que façam enevescer o sofrimento
E renovar a volúpia da vida.
Quero a paz de poder ir e voltar,
A paz de estar e não estar,
A paz de dormir e saber que, sob o mesmo lençol,
Está a pessoa amada, querida, perdidamente existencial.
Quero, sou egoísta, portanto, alguém muito feliz por estar comigo.
Quero a agonia do prazer sem fim,
A imagem imaculada da felicidade,
O momento eterno de estar nas mãos de Deus.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

AMAR - João de Deus


A quem asas me deu ao pensamento
e luzes acendeu ao meu olhar,
um beijo carinhoso - forte alento -
à vida assaz feliz: o pleno amar!

Por estas e quaisquer outras paragens
onde possa adejar um colibri,
perpassa-me frescor de mil aragens,
olores que despertam teu sorrir!

Assim, perdido nos desvãos da serra
- que se me ergue ao pensamento - faço
uma prece a Deus, a qual encerra

a confissão d'amor adormecido
e despertado então neste mormaço
d'estio, que jamais tinha sentido!

(Policromias - 4º volume)

LASTRO DE PRIMORES - José Moacir Gadelha


Planta que vibras plena de elegância,
és realmente um lastro de primores...
Em cada ramo há multidões de flores
E, em cada flor, sorrisos e fragrância!

Tremula ao vento, em leve balançar,
espessa fronde, amiga e hospitaleira!
Louvada seja a fauna brasileira
Quanto nos agrada esta planta do pomar!...

Quão majestosos galhos verdejantes!
Em cada galho, há ninhos palpitantes.
E flui de cada ninho o VERBO AMAR!

Deslumbram, no teu peito, a cada dia,
acordes de sublimes melodias
das aves que não cessam de cantar!

Ausência - Neide Freire




Onde estavas?
Manhã radiante
Enfeitada de flores
Chilreio de pássaros
Pulsar de vida
Alegria!
Onde estavas?
Hora cálida do dia
Encolhem-se as sombras
Vagueia no ar uma canção
Recolhimento e paz!
Onde estavas?
Palmas acenam a brisa leve
Desabrocham boninas
Hora devota da prece
Brilha uma estrela
Anoitece!
Onde estavas?
No espaço vazio
Deixei-me ficar
Prisioneira de tua ausência
E dei por mim, sozinha,
A segurar perplexa
Fanado ramo de esperanças mortas
E uma vontade imensa de chorar!

CÓSMICA - Leda Costa Lima


Conto estrelas, me confundo
na reflexão divergente:
se há tanta gente no mundo,
haverá mundo sem gente?...

Se existir, como serão
os seus meios de transporte,
os deuses, a religião
e os vários tipos de esporte?

Existirão novas cores,
vários graus de inteligência?
Quantas raças, formas flores,
e um Deus com onisciência?

É uma certeza que eu tenho.
Com gente, é certo que há
e nessa busca eu me empenho:
Minha alma gêmea, onde está?

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

PREAMAR - WALDIR RODRIGUES



Tal qual a flor que a correnteza arrasta
Para lugar ou praia indefinida
Com o doce amargo que a ilusão contrasta
Deixando a existência dolorida;

Tal qual o sol do amor de luz escassa
A penumbrar os sonhos desta vida
Embora a vida passe, nunca passa
A amargura da senda percorrida;

Assim também passou minha ilusão
Levada na corrente da paixão
Para as praias de um mar que não tem fim...

Que se alteia na angústia em pleno fluxo
Espraiando-se em mágoas no refluxo
Da maré que deixou dentro de mim!...

NEBLINA - IONE ARRUDA


Esta neblina ao entardecer
Dá-me o desejo de rever alguém.
E esse alguém só pode ser você
Que há algum tempo anda muito além.

Nesse momento pode acontecer
Que o sonho venha e deslize a sonhar,
E que meu sonho possa se estender,
Entre a neblina e o vibrante mar.

Mas fico à espera do anoitecer
Quando as estrelas vão no céu brilhar,
E nessa espera pode acontecer
Que venhas nos meus braços mergulhar.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

VIDAS - Silvio dos Santos Filho


Há vidas que vêm,
Há vidas que vão...
Há vidas que nos chegam
Sem nenhuma previsão...
Há vidas que nos deixam
E nos partem o coração.

Há vidas afloradas
Que nem foram desejadas...
Há vidas que se apagam
Quando mais são festejadas.

Há vidas reluzentes,
Há vidas desbotadas...
Há vidas descobertas,
Mas nem foram desfrutadas...
Há vidas que se perdem
Pelas curvas dessa estrada.

Há vidas cujas vidas
Nunca foram desvendadas...
Há vidas que só vivem
Numa noite bem sonhada.

Há vidas passageiras,
Há vidas prolongadas.
Há vidas disfarçadas,
Mal vividas, lamentadas...
Há vidas esquecidas,
Sem memórias registradas.

Há vidas que abdicam
Do calor da nossa mão.
Há vidas naufragadas
Sem nenhuma explicação.

(Menção Honrosa/5º Lugar no IV Concurso Literário Professora Edith Braga, promovido pela Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil, Edição 2009)

QUERO... - THEREZA LEITE


Quero de volta passos de criança subindo escadas
O raio que me divisa o farol distante
O peso da bengala ferindo as calçadas
Pinturas vistas escorregando no trem que parte.


Constrange-me a pressa do momento que me toca
Passa veloz no espanto, quero retê-lo e não posso.
A multidão me apaga, os ruídos me emudecem...

sábado, 13 de fevereiro de 2010

VOAR - Evan Bessa



Sempre pensei em voar como pássaro,
nas fantasias e sonhos de criança,
para ter a sensação de estar contigo
Nos lugares imprevisíveis e distantes.

Nas brincadeiras inocentes do passado
onde estavas a me proteger, a me olhar...
Com a delicadeza do amor paternal
e a envolver-me numa aura diáfana.

Sentia-me, princesa no castelo
encantado pela ilusão e quimera.
Admirada pelo meu rei e súditos
que alimentavam minha alma pueril.

Hoje, ainda, me perco a recordar
e voo longe pensando em te encontrar,
no balanço do quintal da minha mente

E a criança que agora, volta no tempo
Plena de alegria revive os momentos
Que jamais sairão do pensamento.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O SILÊNCIO DA CASA - Yolanda Montenegro


A casa está silenciosa.
Todos dormem.
Somente o gemido do vento
açoita as coisas vivas,
envivece os corações
despertando pensamentos
de passadas alegrias;
Festas - amigos todos chegando,
presenças de prazer e emoção.
Os vestidos de renda, colares e anéis
e os olhares dos jovens moços
e a música daqueles tempos idos,
imprevisíveis aos que despertam seus acordes;
e a casa silenciosa dorme
deixando em mim a nostalgia,
mas também a certeza de ter vivido
um passado feliz e não estar morta
ou esquecida dos momentos que se foram...
Agora a casa dorme e espalha silêncios...

domingo, 7 de fevereiro de 2010

EUFÓRICO - PEREIRA DE ALBUQUERQUE


Estou feliz!... A luz morna do dia
Banha os canteiros do jardim em frente;
Além, onde a avenida principia,
As acácias balouçam docemente!

Estou feliz!... Adeus melancolia!
Não; não é ledo engano, estou contente:
Vai pelo ar uma doce melodia
que eche de festa o coração da gente!

Tendo um livro na mão, chego à janela
E, exsudando alegria e confiança,
Leio, sorrindo, uns versos de Varela...

Só tu, poesia, tens esse poder
De avivar em meus olhos a esperança
E, em minha alma, a vontade de viver!

(Policromias. Vol. 3)

MÃOS - REGINA BARROS LEAL


Mãos!
Desventuradas mãos que desprezam,
Severas, duras, frias.
Não acolhem o sofrimento de outrem.
Mãos causticantes, rígidas, rudes, sem amor.
Solitárias mãos entre tantas,
fugidias, soltas e amargamente desengonçadas.
Mãos que apontam, acusam.
Arrastam, machucam, denunciam.
Mãos feias entre tantas!
Mãos acolhedoras, quentes de afeto que acalmam, adoçam,
Que ninam, enobrecem um gesto de amor.
Mãos duras, calosas, rudes, grossas do trabalho da enxada,
Mas ternas no gesto que afaga o cabelo da criança faminta.
Mãos que batem, ferem, magoam, gélidas, enrijecidas entre tantas,
Mãos que amaciam, massageiam, acariciam o rosto enrugado da velha senhora.
Mãos plenas de vida, jovens, cinzentas, brancas, negras, novas,
Que amparam crianças, velhos e doentes.
Mãos... Como gosto de minhas mãos macias e acolhedoras!
(Policromias. Vol. 3)

AMOR EFÊMERO - ZINAH ALEXANDRINO



Bebi do teu mel,
Embeveida fui à vinha,
Não te encontrei.
Trouxe o meu fardo
Mas não te entreguei!

Ainda saciada,
Embriaguei-me e adormeci...
Acordei com a boca amarga de fel.

Tua vinha era ingrata.
O que me deste?
Um amor efêmero,
E... não me disseste.

(Policromias vol. 2)


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

SE EU PUDESSE... GISELDA MEDEIROS





Ah! se eu pudesse ir além das estrelas,
atravessar a nado o oceano inteiro,
sorver os néctares abundantemente
e me tornar a rosa mais viçosa...

Se eu pudesse entrar no teu enigma,
vasculhar teus horizontes submersos,
cantar tua canção e me inspirar nas rimas do teu coração,
se eu pudesse...

Ah! se eu pudesse arrancar e mim estes tédios longos,
beber as fantasias que dos teus olhos fluem...
Ah! Seria eu a eterna voz dos ventos,
o frescor deliciante das campinas verdes,
o brilho incomunal dos etéreos astros,
a mais romântica canção de amor.

Assim, então, eu poderia te alcançar um dia,
e tu saberias do porquê destes meus versos,
da minha ansiedade, das minhas inquietudes,
das minhas fruições, dos meus desejos reprimidos
e, em explosões de notas místicas, dir-te-ia meu coração:
Como eu te amo! Ah! Como eu te amo ainda!

(Alma Liberta)

DIVINO POEMA - ELIANE ARRUDA


Viver no mundo sem aplaudir a natureza,
Sem preservar a sua fauna e a sua flora,
É a negação de ser "humano", com certeza,
Nem sempre ao homem concedamos loas, glórias!

Amar a Deus é amar também a sua obra,
E a Natureza é um poema da criação,
Se para ela o cuidado nunca sobra,
Algum lugar verá a sua exaltação.

E haja chuvas, temporais, ondas gigantes...
Lavas dispersas pela fúria de um vulcão!
Na hora certa, bem que entoa graves cantos.

Dela o homem seja amigo, seja amante,
Revidar sabe quando sofre u'a agressão!
Não poluamos mares, rios, lagos... tanto!

SAUDADES... MARIA HELENA MACÊDO


SAUDADES...

São como véus que se embalam no recôndito da memória alongando-se como se quisessem
assenhorear-se de todo o nosso ser, na ausência indelével de nossos entes amados.
São como os incensos queimando a alma, queimando nossos sonhos em sombras de visões fugidias, ninhos desfeitos no cume da montanha de nossas vidas, pelo fragor da ventania adversa.
O travo forte da dor da saudade é o nunca mais! E o pranto corre no desfolhar das
lágrimas semelhante ao orvalho que se condensa ao cair da noite e enregela nosso coração.
O labirinto crepuscular da saudade nos enleia numa teia da qual é muito penoso sair.
Ficamos acorrentados à dor que nos sufoca, nos arrebenta o peito, pois toda saudade é irremediavelmente dorida.
O destino com seu determinismo nos rouba da vida o sabor da convivência, do sorriso, do falar, do abraço, do carinho, do conforto do amor, tudo o que conquistamos, como a essência de ser feliz. Assim, Tristão de Ataide disse que "Nada supre a ausência nem conforta a solidão".
O marinheiro sente saudades de seu mar, do horizonte que divisava, do fragor das ondas,
ao conduzir o seu barco do qual foi o timoneiro.
Casimiro de Abreu já dizia em seus versos:
"Ai, que saudades que tenho
da aurora da minha vida,"
Tudo são saudades: da infância, da adolescência, do colégio, dos amigos ausentes, mas elas são figurativas em nossa visão distante... Também são ocasionais, fagueiras, muitas ocorrem com risos os até gargalhadas de momentos hilários.
Um nosso querido amigo, Cel Noé Rebello de Araújo, ensinou-me a sublimar a saudade com esta máxima: "Face à visão cristã do sentido da vida, o que completa e enriquece a saudade é a Fé, regida pela Esperança e alicerçada pela Caridade. Não basta querer que volte, mas permaneça".
Quando o destino, o acaso, a infelicidade, o imponderável nos subtai um ente querido, nada nos resta senão verter muitas lágrimas, lutar para superar muitas dores, lentas e irreparáveis, difíceis. E como são difíceis!!!
Imagino quão sofrido foi o sentimento dos lusitanos ante o afastamento da sua amada terra portuguesa, saudade que lhe fez nascer o fado, com o qual procuravam aliviar suas tristezas pela privacidade que lhes foi imposta, fazendo-os ausentar-se de seu torrão.
Como é lamentável que a beleza da palavra SAUDADE, a mais bela palavra de todas as línguas, adormeça tantos corações nas desilusões da vida!!!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

DESABAFO EM LOUVOR - FRANCINETE AZEVEDO

Hosana aos peregrinos
Da redenção!
A ti, irmão, Francisco José do Nascimento,
O Dragão do Mar da liberdade,
Cantaremos glórias sem fim!
Livre, hoje, das senzalas e dos grilhões,
Porém encarcerado ao descaso
E à indiferença
De uma sociedade preconceituosa,
Pregoeira de uma falsa
igualdade de direitos
Para todos os filhos dessa terra,
A que ajudamos a construir.
Justiça! Conclamamos, apenas, por Justiça!

sábado, 30 de janeiro de 2010

VISITAÇÃO - ILNAH SOARES


E a tarde chegou em minha vida,
devagarinho.
Aproximou-se, doce e langue,
e se espreguiçou dolentemente,
trazendo sombras
mas também encantos.
E eu, sonolenta,
quis adormecer,
mas os olhos entreabri...
E vislumbrei
o mais belo crepúsculo
que já vi...

INTERAÇÃO - VIVIANE MONTEIRO

Eu faço parte da Mãe Natureza:
sou ar, sou fogo, sou terra e sou água.

Como folha que cai e se amolda no movimento,
sinto-me sempre bem, pois estou sempre em meu lugar.

Como águia em cativeiro,
Vaguei curva por certo tempo
- inúmeras as amarras...
Retomo, no infinito, meus limites...
Minhas fadinhas do Sonho e do Amor
sempre comigo...
Sinto o ambiente, e ele também fala
e sabe dizer exatamente o que preciso
e o que mais me agrada ouvir.

Sou meio bruxa, meio médium e devota.
Colho de todas as doutrinas
o que sinto ser mais certo:
alma em Rosa Mística, Samsara,
sou miscelânea de todos os credos...

E quando a mente esvazia,
o peito se enche de sentimentos,
e minha natureza inflama:
cerro e abro meus luzeiros,
descalça, renasço cigana,
e cultivo no vento, o meu maior timoneiro...

DIA INTERNACIONAL DA MULHER - SABRINA MELO

Mulher
Abrigas em teu teu corpo
A capacidade de gerar
Uma pétala de ti mesma
E para quem de seiva e calor
Irás para sempre alimentar
Mulher
A beleza será eterna companheira
Presente na ternura do sorriso
No olhar que tudo transmite
Na profundidade de tu'alma
Na doçura do teu ser

Mulher
Trarás na canção da vida
A melodia em teu coração
E na busca constante de teus dias
Encontrarás o néctar dos sonhos
Mesmo no despertar de outono

MORTE DAS PAIXÕES - SÉRGIO MACEDO

As nossas paixões morreram.
Adormeceram nossas crenças.
Os meus e os teus caminhos continuam abertos,
réus de si mesmos.
Procuramos as rosas negras no céu,
não as vemos, não as temos.
A tua imagem se desvanece à medida que o tempo passa.
Dissolve-se em mim, eu mesmo, lido como pessoa.
Não tenho, não temos mais procuras nem esperas.
As rosas negras no céu desapareceram,
dentro de garagens fétidas.

Não creio em tua crença nem tu no em que acredito.
Temo não vê-la mais,
escondida que estarás, sempre, atrás de barris de pólvora e outros pensamentos.
Temo não tê-la mais,
nas mãos de quem estás, na emoção sob a qual estás.
Mas isso é apenas um simplório sinal dos tempos.
Tenho por perdido o diamante louco e belo.
Temo sermos, nós dois, o diamante que perdemos.
Temo estar, sem saber, hibernando qual um urso, à espera do próximo
inevitável inverno da alma.
Temo não alcançá-la nem ver a ventania e a nevasca da manhã, tal qual
o velho e cansado e perecível urso, perdido
dentro da brancura perdida de seus tempos...

AS NOITES - VICENTE ALENCAR


As noites foram feitas de sonhos,
por isso são noites.
As noites foram feitas para o amor,
por isso são noites.
As noites foram feitas para falar a dois,
por isso são noites.
As noites foram feitas para os encontros,
por isso são noites.
As noites foram feitas para rir baixinho,
por isso são noites.
As noites foram feitas para cantar com a alma,
por isso são noites.
As noites foram feitas para quem tem coração,
por isso são noites.
As noites foram feitas para dedicar um ao outro,
por isso são noites.
As noites foram feitas para sentir o cheiro,
por isso são noites.
As noites foram feitas para sentir a pele,
por isso são noites.
As noites foram feitas para acarinhar,
por isso são noites.
As noites foram feitas para beijar amando,
por isso são noites.
As noites foram feitas para serem diferentes,
por isso são noites.

GRAFITES - NILZE COSTA E SILVA


O meu caderno de infância
tinha uma casinha feliz
um cacto mal desenhado
do lado esquerdo um sol
ao fundo uma bananeira
com um coração flechado
que eu nem sabia de quem

O caminho traçado a lápis
ia dar bem no jardim
de onde um gato espreitava
entre os cheiros de jasmins

Por trás da casinha feliz
subia um coqueiro alto
ia bater lá no céu
juntava-se às nuvens
que ameaçavam chover

Chovia quando eu queria
nos desenhos que eu fazia
sol e lua se encontravam
e tudo se harmonizava
num contorno de alegria

Do meu grafite saía
tanta coisinha bonita
que me dá saudade agora
meu pai, minha mãe eu fazia
todos de pernas finas
e eu ficava no meio
ao redor os meus irmãos
ninguém tinha ido embora

Meu caderno de infância...
dobrei todas as páginas
que é pra ninguém fugir
metade do eu ser no mundo
ficou naqueles grafites
de onde eu nunca saí...

OS AMANTES - MARIA LUÍSA BOMFIM

Corpos suados
beijos apaixonados,
marcas de batom
no papel.
Palavras sussurradas,
juras de amor,
na suíte do motel.
Encontros marcados,
minutos contados,
perfume de jasmim.
Música "blue",
abajour lilás,
saudade doída,
dúvida sem fim.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

SEIS DA TARDE - NEIDE AZEVEDO

As mãos uniram-se em prece
A lágrima furtou-se aflita
O verde se fez fadiga
O anjo cantou tristesse
a nuvem afastou o vento
O trigo se fez farinha
A mãe desfia uma história
O padre uma ladainha.
O pai pagou uma dívida
O filho foi à quermesse
O galo cantou seu canto
O dia quase amanhece
O sino bateu seis horas,
Anunciando; anoitece...
(2º lugar no Prêmio Costa Matos de Poesia)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

ROSAS DA MANHÃ - GISELDA MEDEIROS


Quando vieres
vem de leve
assim como a primeira estrela
que paciente desponta
jogando sua luz
por entre as brumas
consciente da importância
de sua chegada.

Vem com dedos de carícias
silenciosas
com mãos de artista
leves
para que não me doa
o poema que fizeres.
Ou melhor
vem como quiseres.
Estarei aqui
em mim
dentre outras mulheres,
mas a única que te sabe
florir em versos.

domingo, 24 de janeiro de 2010

VEM! - ZENAIDE MARÇAL


Vem!
Vem de mansinho
como a brisa cálida
que acaricia o verde da colina!
Faze meus olhos brilharem
como olhos de menina...

Vem!
Vem como o vento forte e insistente
que tange as folhas pelos campos
e, insensato e inconsequente,
atiça o fogo das queimadas...

Vem!
Mesmo que seja como o redemoinho
que gira feito louco e tudo envolve
num abraço passageiro...

Vem!
Não importa como chegues,
feito brisa ou vento alísio,
mas vem!

Vem,
sacode e desperta
meu dormente coração!

sábado, 23 de janeiro de 2010

POSSIBILIDADES - REJANE COSTA BARROS




Sou pedaço de carne
cravada na faca fria do nada porta entreaberta mirando as paisagens molhadas. Um porto esperando os navios que chegam e partem, sou metade da lenda que já está quase escrita, com letras vermelhas, pulsantes, vivo sangue que derrama desejos, cores, ardores. Sou a cantiga e a calmaria,
um bule cheirando a vida e esperança
e a alma a lavar-e em todos os segredos. O Auto de Suassuna e o som da sanfona do Rei migrando acordes; sou humor, gritaria, a sonoridade do canto do Uirapuru. O DNA que precisa de códigos sem regras, a luz que espera um brilho que te segue. Posso viver e te amar arrastando as correntes pela escada, subindo as árvores e sacudindo as folhas pelo vento, ser um quadro com pintura azul e cheirando a mar. Voar nas asas de um astro, do pássaro mais veloz, carregando as mágoas do mundo e dando a ti muitas cores, vários aromas, as malícias deste querer que não tem pressa. A espada cortando o fogo e o fel, a única certeza de se remediar o medo o espaço vago da plantação do sonho mais antigo. Agora é hora de debulhar o tempo e esperar a colheita campo limpo de todas as esferas, verdes promessas de todos amores, leitura acesa do meu tempo que se reflete em todos os espelhos.
(poema classificado no XII Prêmio Ideal Clube de Literatura)

Nossa homenagem póstuma ao poeta Costa Matos


Há de Brilhar um Sol Quando eu Passar

José Costa Matos


Quando estiver de volta o dono das searas
para os ritos finais da bênção das colheitas,
a lama em que eu pisei há de elevar-se em araonde oficiarão benditas mãos eleitas.

Frondes vastas, fulgindo à luz das manhãs claras,
contemplarão de perto as grandes mãos perfeitas
multiplicando o pão das multidões ignaras,
tornando em vinho louro as águas mais suspeitas.
E um sol de hóstia, sol de ouro, um grande sol de festa,
há de irromper, fundindo a pedra dos altares,
no incêndio deste ideal, o maior que me resta!

E os que me amaram sempre, os corações de escol,
hão de sentir-me ali, já livre de pesares,
e hão de buscar, chorando, a glória deste Sol!
(Estações de Sonetos)