ATUAL DIRETORIA AJEB-CE - 2018/2020

PRESIDENTE DE HONRA: Giselda de Medeiros Albuquerque

PRESIDENTE: Elinalva Alves de Oliveira

1ª VICE-PRESIDENTE: Gizela Nunes da Costa

2ª VICE-PRESIDENTE: Maria Argentina Austregésilo de Andrade

1ª SECRETÁRIA: Rejane Costa Barros

2ª SECRETÁRIA: Nirvanda Medeiros

1ª DIRETORA DE FINANÇAS: Gilda Maria Oliveira Freitas

2ª DIRETORA DE FINANÇAS: Rita Guedes

DIRETORA DE EVENTOS: Maria Stella Frota Salles

DIRETORA DE PUBLICAÇÃO: Giselda de Medeiros Albuquerque

CERIMONIALISTA: Francinete de Azevedo Ferreira

CONSELHO

Evan Gomes Bessa

Maria Helena do Amaral Macedo

Zenaide Marçal

DIRETORIA AJEB-CE - 2018-2020

DIRETORIA AJEB-CE - 2018-2020
DIRETORIA ELEITA POR UNANIMIDADE

domingo, 16 de maio de 2010

Rachel de Queiroz e sua Consciência Político-Social - EVAN BESSA



Cumprimento a Mesa na pessoa do Sr. Presidente da ALMECE, Lima Freitas, e os demais presentes através da colega Francinete Azevedo, acadêmica abnegada e pró-ativa na dinâmica de atividades desta Academia. Quero expressar meus sinceros agradecimentos pelo convite formulado para conversar um pouco sobre a escritora Rachel de Queiroz, da qual teríamos muito a dizer, a respeito de sua extraordinária obra, se não houvesse limite de tempo.

Sabemos que a ALMECE, durante todo o ano de 2010, alusivo ao centenário de nascimento da autora, renderá homenagens nas reuniões ordinárias a essa cearense que tanto nos enche de orgulho. Assim sendo, escolhi apenas um aspecto relevante de sua vida para falar aos amigos almeceanos. O tema a ser discorrido é: Rachel de Queiroz e sua Consciência Político-Social.
Inicio com um pensamento da autora que diz: “Sou pela liberdade. Pelas concessões ideológicas. Eu acho que o voto do analfabeto foi um dos maiores erros políticos, um instrumento de demagogia, de rebaixamento político, o voto dos analfabetos”.

Rachel de Queiroz nasceu em Fortaleza em 17 de novembro de 1910. Pertencia ao ramo dos Alencar, outro orgulho dessa terra. A família tinha raízes fincadas em Quixadá e Beberibe, entrelaçadas com outras tantas famílias que fazem parte de sua árvore genealógica, tais como: Lopes, Queiroz, Bessa, dentre outras.

Desde a adolescência, apresentava-se rebelde e ousada para os padrões da época. Nesse sentido, escreveu uma carta ao jornal “O Ceará”, ironizando o concurso de Rainha do Estudante, utilizando o pseudônimo Rita Queluz. Seu poema “Telha de Vidro” foi publicado no mesmo jornal. O destino, porém, lhe prega uma peça. Por conta da carta, é convidada para ser colaboradora do citado periódico e passa a trabalhar no folhetim “História de um Nome”. Inicia-se assim na carreira de jornalista. Foi uma das fundadoras do jornal “O Povo” em janeiro de 1928, fazendo parte de um grupo seleto de colaboradores.

Nos anos 1928 e 1929, Rachel começa a se interessar pela política social do país. Tinha simpatia especial pelo Bloco Operário Camponês de Fortaleza. A partir daí, participa ativamente dos grupos esquerdistas que estavam se reunindo para formar o primeiro núcleo do Partido Comunista ficando como aliada até 1933.

Em 1930, com essa consciência político-social e, em face das leituras constantes a que se dedicava o que lhe proporcionou uma relativa bagagem cultural, escreve o primeiro livro: “O Quinze”, publicado no Ceará, financiado por seu pai, Daniel de Queiroz, com uma tiragem de 1000 exemplares. O livro foi muito bem aceito pela crítica literária da época, o qual atravessou fronteiras do nosso Estado, chegando às mãos dos escritores Augusto Frederico Schmidt e Mário de Andrade.

“O Quinze” faz parte da literatura do ciclo nordestino brasileiro em que se encontravam escritores como José Américo, José Lins do Rego, Jorge Amado, Graciliano Ramos, intelectuais que tinham perfis e visões semelhantes, transferindo para os livros a realidade que vivenciavam. Não escondiam as dificuldades e preocupações que seu povo vivia. Romance de fundo social, bastante realista que mostra o sofrimento da gente do interior, diante da luta secular da miséria, privação do homem e da fome. A grande seca de 1915 era fato real e concreto, que levou a retratar com maestria o drama dos personagens Vicente Conceição, e por outro lado, os retirantes da família de Chico Bento, na travessia para a busca de dias melhores. Rachel descreve o amor, o conflito social e todos os desdobramentos, costumes da época, tornando-se, assim, uma ficção autêntica do drama explicitado.

Segundo Adonias Filho, “com esse romance o ciclo nordestino alarga-se para interferir na ficção brasileira – amplia-se sobretudo na linguagem e estrutura para converter em ficção o homem, a terra, no drama regional.”

Gilberto Amado acrescenta: ”Uma produção tão perfeita e tão pura que continua sozinha, inigualada, tempo afora.”

Com os estímulos recebidos de autores ilustres continua sua atividade de escritora produzindo em 1932 o romance “João Miguel” e, em 1937 lança “Caminhos de Pedras”. Somente mais tarde escreveu “As Três Marias”. Todos eles de cunho social e político revelando injustiças sociais e a miséria social e política do seu povo.

Esta mulher de infindáveis talentos se destacou na crônica (Diário de Notícias, Revista O Cruzeiro – no Rio de Janeiro); no romance; no teatro, com a peça “Lampião” que foi montada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e no Teatro Leopoldo Fróes em São Paulo. Foi tradutora de vários idiomas: francês, inglês, italiano e espanhol. Traduziu cerca de 40 obras. Escreveu literatura infanto-juvenil: “O Menino Mágico”. Como se observa em Rachel, a sensibilidade exacerbada a fez múltipla na criação e nas artes, Seus livros foram lançados no Japão, Alemanha, Israel e França. Recebeu vários prêmios e títulos por sua produção literária. Foi a primeira mulher a adentrar na Academia Brasileira de Letras (ABL).

Rachel, sempre corajosa e brava, não negava o sangue de sertaneja da gema. A única contradição aparece no tocante à tradição nordestina das mulheres do seu tempo em termos de religiosidade. Ela não tinha religião. Dizia-se agnóstica. Em entrevista ao jornal “Folha de São Paulo”, em 1968, afirmou: “É muito ruim não ter crença, porque nas fases ruins você não tem a que se apegar. Tem que se encolher em si mesma e aguentar a pancadaria. Invejo profundamente quem tem boa fé. O Helder (D. Helder Câmara) ainda tem esperança de me converter, diz que quer morrer um dia depois de mim só para rezar a extrema-unção junto comigo.” Noutra ocasião, falou o seguinte: “na minha infância, todas as velhas só viviam na igreja (...) velha sem religião, quem inaugurou foi minha geração.” Tinha plena consciência da opção religiosa frente ao mundo. Não se sentia culpada, mas encarava a sociedade cristã com espírito forte e sem se penitenciar por essa atitude. Mesmo afastada da Igreja, tinha amigos padres, contando no seu círculo de amizades com D. Helder Câmara, seu conterrâneo, Padre Cícero, Irmãs Simas e Elisabeth (ambas do Colégio da Imaculada Conceição).

Mostrando sempre que estava à frente de seu tempo, foi a primeira jovem a frequentar os cafés da Praça do Ferreira onde se reuniam intelectuais da terra com destaque para Antônio Sales, seu padrinho literário.

Em entrevista concedida a Vitor Casimiro, em 18/8/2000 (exclusiva para o Educacional), fala o seguinte: “Eu sou professora. É o único curso que fiz no Colégio da Imaculada Conceição, de Fortaleza. No resto, eu sou franco-atiradora, fui aprendendo com a vida e comigo mesma.”

Ela não gostava de ser considerada famosa. Tinha verdadeira aversão à participação em eventos sociais. Mulher moderna, não se iludia com títulos ou outras bajulações que alguns lhe faziam. Sem vaidades, avaliava sua obra assim: “Nunca releio um livro meu. Tenho um pouco de vergonha de todos os meus livros, de “O Quinze” tenho uma antipatia mortal, esse livro me persegue há sessenta anos. Detesto todos eles.” É interessante ouvir com tamanha espontaneidade uma avaliação dessa natureza. Achava que era mais falada que famosa.

Muito cedo, a escritora Rachel de Queiroz, com senso de observação aguçado, começou a perceber as dificuldades de seu povo, as mazelas sociais e os ditames da política em seu país.

Sempre se rebelou diante das injustiças sociais. Nos seus romances retrata com fidedignidade a luta secular do povo contra a miséria e a seca, bem como a do operário que labuta para receber o pequeno salário.

Em 1931, conhece integrantes do Partido Comunista. E inicia seu entrosamento com ele. Por essa razão, é perseguida pelo regime ditatorial. Depois se desentendeu com o Partido em face de discordância sobre o enredo do romance “João Miguel.” Acharam que o enredo era preconceituoso frente à classe operária. Rachel, então, virou trotskista militante, tendo sido presa em Pernambuco como agitadora comunista.

Getúlio Vargas, quando ainda delineava o Estado Novo, já se preocupava com seus opositores. Rachel, considerada agitadora, logo vai presa, em 1937, em face das divergências de caráter político, no quartel do Comando Geral do Corpo de Bombeiros Militar do Ceará. Com a chegada do Estado Novo, seus livros foram queimados em Salvador-BA, com os de escritores perseguidos: Jorge Amado, Graciliano Ramos e outros, porque eram tidos como subversivos.

Em entrevista a O Jornal afirmou: “...eu fui presa várias vezes. A mais demorada, passei seis dias na cadeia; foi quando Getúlio Vargas estava preparando o golpe para se apossar do poder. Ele botou todos os jornalistas em cana e deu o golpe”. Mandou prender tudo quanto era de intelectual esquerdista, trotskista, stalinista, anarquista, todo mundo foi preso em 1937. Para Rachel, o Estado Novo foi pior que a ditadura de 1964, porque ele tinha processos fascistas já codificados. Tinha o modelo alemão, polaco, italiano e Getúlio Vargas se associou a esses governos criminosos, terríveis, monstruosos, esclarecia a escritora.

Falando do apoio que recebeu de seus familiares, em entrevista a O Jornal afirmou: “...o jornal católico de Fortaleza se escandalizou porque papai e mamãe foram me visitar na prisão. E quando me viram toda heróica, toda Joana D’Arc, eles começaram a rir”.

E prossegue, dizendo para o mesmo jornal: “...tive uma formação política comunista. Foi o único período em que estive na militância, depois eu fiquei somente como observadora, sem atuação direta. Mas eu sempre fui espírito de porco, sempre do contra. Sou da família daquele cara que disse: “Há governo, sou contra.”

Quando lembrava os dias em que esteve presa por motivos políticos, ela evitava o tom de mártir e recordava com bom humor que sempre foi bem tratada na cadeia e até fazia amizade com os carcereiros.

Por essas posições e compreensão do fato político, foi fundadora do movimento esquerdista do Ceará. O seu registro no Partido Comunista consta na Delegacia de Ordem Política e Social de Pernambuco, com o nº 883, considerada pelo regime “perigosa agitadora”.

Com inteligência e perspicácia, aproveitava-se de sua escritura para nas crônicas dizer o que pensava. Numa delas, da revista “O Cruzeiro” de 12 de setembro de 1959, Rachel externou sua opinião sobre o Estado Novo: “Com o Estado Novo, todo o mundo amordaçado, sem ninguém para estrilar, o hábito de regalia universalizou. Os homens públicos deixaram de separar o que era do Estado e o que era deles, ou antes, o uso e abuso dos bens públicos passaram a ser privilégio dos cargos”.

Ainda se referindo aos políticos, no seu livro “Um Alpendre, Uma Rede e Um Açude”, coloca mais uma vez sua visão crítica, acerca dos representantes do povo no Congresso Nacional: “... sou leitora contumaz do “Diário do Congresso” e escuto as irradiações das atividades parlamentares sempre que a censura governamental me permite esse entretenimento cívico – eu já me acostumei a conhecê-los todos: há os que sabem, há os que pensam que sabem, há os que entendem de qualquer coisa, mas é mister garimpar essa qualquer coisa sobre o cascalho das bobagens e dos lugares-comuns; há os sérios entendidos, há os sérios bobos, há os ocos e há os que têm recheio dentro, havendo ainda a enorme variedade na qualidade desse conteúdo. E há, naturalmente, o contingente dos que não têm nada em todos os sentidos, que não servem nem na hora de votar, porque sempre votam com o pior.”

Essa observação da escritora é tão pertinente que se poderia enumerar e até nomear as categorias declinadas no texto acima. Não é ficção, mas realidade palpável e concreta, nos dias de hoje, mesmo, em pleno século XXI.

O Partido Socialista Brasileiro lançou sua candidatura a Deputada Estadual, em Fortaleza, defronte à Coluna da Hora.

Em 1964, embora não mais comunista, mas apenas socialista, participa da conspiração para a derrubada de João Goulart e realiza reuniões, visando ao golpe do estadista. Segundo a escritora, aderiu ao golpe também porque era amiga de Castelo Branco, um dos generais conspiradores, que veio em pouco tempo a assumir a Presidência de nosso país.

Mais tarde é nomeada pelo Presidente Castelo Branco como delegada do Brasil na 21ª sessão da Assembléia Geral da ONU, agregada à Comissão de Direitos Humanos e, em 1967, integra o Conselho Federal de Cultura.

Jânio Quadros, quando Presidente da República, a convidou para o cargo de Ministra da Educação, o qual foi devidamente recusado, com a seguinte justificativa: “... sou apenas jornalista e gostaria de continuar sendo apenas jornalista”.

Criticava os colegas pela postura política. Dizia que eles liam apenas apostilas doutrinárias que tinham trechos dúbios. O único integrante do Partido que havia lido “O Capital” na íntegra era o crítico Mario Pedrosa, afirmava ela. Ela era contra a qualquer posição sectária. Para ela o sectarismo é um estigma. A questão de ideologias é para almas estreitas, dizia. Você pode manter comunicação permanente se tiver idéias abertas e aceitar todos os caminhos.

No livro “Tantos Anos” dedicou um capítulo ao Padre Cícero, que ela, ainda jovem, conheceu. No livro, coloca suas impressões sobre os intelectuais brasileiros: “Eles não refletem quando vão apoiar esta ou aquela corrente ideológica, guiando-se mais por amizades e panelinhas do que por convicções. Vigora na vida cultural o mesmo princípio coronelista da política partidária”.

No quartel do Comando Geral do Corpo de Bombeiros (local onde esteve presa) existe uma placa em sua homenagem, mandada afixar, após sua morte, por Lúcio Alcântara, que na época governava o Ceará. Ele participou do evento, juntamente com seus familiares. Registre-se, também, a iniciativa do gestor público mencionado: a assinatura do decreto, dando o nome de Rachel de Queiroz ao Colégio Militar do Corpo de Bombeiros. O político ressaltou na ocasião, a luta da escritora pela Democracia e a Liberdade de ideias e convicções, fato esse que permeou toda a sua vida.

Cônscia de sua responsabilidade, aproveitou a literatura para chamar atenção da seca do Nordeste e dos problemas sociais, políticos e econômicos do país. Nas suas crônicas aproveitava para denunciar, esclarecer e trazer os leitores informados do dia-a-dia que influenciavam de perto, a vida cotidiana do homem brasileiro.

Quando foi chamada para habitar no plano superior, os cearenses ficaram perplexos diante da notícia. Ela saiu de cena de forma silenciosa, sem alarde, demonstrando dignidade, como boa cearense, no dia 4 de novembro de 2003, na cidade do Rio de Janeiro.

O Ceará perdeu sua maior Estrela da Literatura e o Brasil ficou órfão da escritora, da intelectual ímpar, que todos conheciam e admiravam.


(Palestra proferida na ALMECE, dia 15/5/2010)

terça-feira, 11 de maio de 2010

CONVOCAÇÃO PARA A REUNIÃO DE MAIO



Fortaleza, 10 de maio de 2010

Prezada(o) Ajebiana(o)

Ao aproximar-se a data de nossa reunião, que acontecerá no dia 18 deste mês de Maio, às 9h30min, no auditório da Academia Cearense de Letras, estamos enviando-lhe esta carta-convite, por sabermos que sua presença nos é sempre muito cara.
Estamos dando início a mais uma etapa em nossa Associação, agora sob o comando da nova Diretoria eleita para o biênio, 2010-2012. Contamos com você para que nossas reuniões possam continuar sendo proveitosas e agradáveis como de costume.
Teremos a oportunidade de assistir, neste mês, à palestra da Professora Mary Ann Leitão Karam, que ministra cursos de Desinibição e Oratória em nossa capital, sendo também poetisa e contista. Ela falará sobre “O Poder da Palavra”.
Reafirmando que aguardamos o prestígio de sua presença, subscrevemo-nos,

atenciosamente,


Maria Luisa Bomfim
Presidente

sábado, 8 de maio de 2010

PARA A MINHA MÃE, IRENE - Nilze Costa e Silva



Tu não sabes das coisas que me roubaram de ti. Teus caldos, teus zelos, teus desvelos. Tua mão me compungindo a testa na suavidade da compressa morna, folha de corama com manteiga derretida, aliviando-me as dores de cabeça que infernizaram os meus tempos de menina.

Irene, muda para as revelações escandalosas, pudica, escondendo a menarca precoce à filha inocente, coisa feia, para quem mergulhada em preconceitos ancestrais.

O chinelo na mão, o mistério descoberto, a boca escancarada, imprecando, gritando, ralhando. O ciúme doentio, a fera a defender os filhotes do sol, da chuva, do mal...

(Irene me dá a chave do mundo, que eu sei caminhar sozinha. Enxuga a lágrima que brilha. Tu sempre tiveste vergonha de chorar... Me dá liberdade que eu quero voar!)

Irene chorando por eu sangrar, atropelada. Irene rezando, brigando, cansada, suada. No avental a marca dos dez dedos. Na palma da mão a impressão da testa fatigada.

Irene o longo quintal a varrer, as folhas se amontoando, o velho fogão de barro. O sono leve ao mais silencioso ressonar dos filhos. As narinas dilatadas farejando o perigo... Irene, a redoma. As barrigas anuais: paristes todos os filhos do mundo!

Exangue, a comadre aparando o menino, os ais dolentes espalhados na casa toda.

O beijo da primeira comunhão. O único, entre tantos que guardaste e não me deste por pejo.

Irene, o retrato jovem de luto da mãe. Aquele, na moldura em tripé, que não gostavas, mas que exibíamos às visitas por acharmos bonito o sorriso inefável de Mona Lisa órfã e triste. Que mistério fotografaram em teu rosto, Irene?

As cartas que me pilhaste lendo escondida. Como ousava eu descobrir aquelas frases apaixonadas, escritas por teu marido nos primeiros tempos de casamento? Coisa horrível, não é, Irene? A lágrima que correu no teu rosto no dia em que eu fui embora...

Até os versos, Irene, que eu iria escrever em tua homenagem, me foram roubados pelo poeta Manuel Bandeira:

"...Imagino Irene entrando no céu:

- Licença, meu branco?

E São Pedro bonachão:

- Entra, Irene! Você não precisa pedir licença!"

sexta-feira, 7 de maio de 2010

HOMENAGEM A TODAS AS MÃES


SER MÃE...

J. Udine

Ser Mãe é concentrar em si a essência do Amor!
É doar-se ao filho até a última conseqüência;
Ser Mãe é ser estrela de grande fulgor
Para brilhar no mundo em Luz e Providência!

Ser Mãe é ter a suavidade de uma flor!
É ser perfume do amor e da benquerença;´
É ser um sol de beneficente calor;
É ser Paz, é ser ternura, e é ser clemência!

Ser Mãe é ser eterna e sublime Poesia!
É trazer n'alma e face um traço de Maria,
A Mãe das mães, de divina maternidade...

Ser Mãe é ser em Deus um vulto extraordinário;
Mãe é ser missão: cruz que se leva ao Calvário,
A doar-se em amor, para sonhar a Eternidade!

sábado, 1 de maio de 2010

As Marcas do Discurso Poético de Neide Azevedo Lopes - F.S. Nascimento


Com sua reconhecida ascensão intelectual, quando em 2001 lançou seu livro de poemas“ O Resvalar do Sonho”, a escritora Neide Azevedo já demonstrava plena noção da regra do verso livre. Adotava o assimetrismo linear, usando no final de cada verso a vírgula, a exclamação, o ponto final, a reticência ou a pausa sonora.Passados nove anos, ao publicar sua atual “Teoria dos Afetos”, a acadêmica deixaria notoriamente expresso um avanço na composição dos seus poemas em versos livres.
Com essa vocação poética, ver-se-iam crescidos enlevos nesssa sua linguagem drummondiana,
firmando-se definitivamente como um marco nesse gênero, em que avultam tantos intelectuais
na terra alencarina.
Essa atual empreitada artística de Neide Azevedo se inicia pelo curtíssimo poema “Descaminhos”, em que a regra absoluta do verso livre fica demonstrada em apenas seis linhas expressivas, com pontos finais. Já no poema “Acendedor de ilusões”, nas três estrofes em quatro versos (Homem de mãos cuidadosas / Homem de mãos calejadas / Homem de mãos acendradas), as vírgulas e os pontos finais se mostram, obviamente, sequentes e conclusivos.
Em sua atraente produção, nos versos de “Seis da tarde”, Neide Azevedo avançaria com seus enlevos, narrando artisticamente “A valsa e o vestido”, “Perplexidade”, “Último canto” e “Teoria dos afetos” – este, assim expresso: “Sinto-te o repetido gesto / Tomo-te a mão que não vejo. / Teus olhos seguem-me os passos / Qual flecha, adelgada e nua...”
Predominando em sua linguagem poética a versificação linear, com os sinais externos já especificados, em algunso dos seus poemas ver-se-ia suceder a curvatura sonoramente contínua, mediante o emprego translinear do enjambement, somente na linha abaixo freando com a interrogação, a exclamação, a vírgula, a reticência ou o ponto final. Com essa propensão linguística, mencionaria como exemplos “O cheiro da infância perdida”, “A ceia”, “A morta”, “Tua palavra” e “Marina”.
Na fonologia poética, a tonância só assinalada no final de cada poema representa uma propensão da maior relevância.
Esse fino labor poético se verá maravilhosamente praticado pela intelectual Neide Azevedo, mencionando-se os poemas “Canção do ano que finda”, “Elegia alvissareira”, “Memória do dia” e “Ritual”.
Mas, já nos poemas “Marina”, “Ausências”, “As doze graças” e “Apelo”, as pausas tonais recebiam a vírgula ou o ponto final, prevalecendo, obviamente, os enlevos tonais e expressivos
da escritora. Com essa dupla propensão, sua linguagem poética se mostraria cada vez mais alicerçada, crescendo em nossa terra alencarina o número de seus admiradores. No poema “Sinos”, a notável Neide Azevedo Lopes se mostraria enlevada com as tendências naturais e encantatórias desse natural e simbólico instrumento universal, expondo doze de suas atribuições sonoras e relevantes. Quanto ao poema “Velas”, já nos seus primeiros quatro versos ficaria ressaltada a projeção natural de “Sete montanhas...” Lindas, lúcidas e fugidias, em seus três versos finais, assim defindos: “Múltiplos brilhos / Pontilhando em clarões / Nossos caminhos”. Transferindo esses enfoques para o “Mapa dos afetos”, em suas linhas expressivas ver-se-ia exposta mais uma expressividade poética da autora, somente o seu último verso ganhando o sinal gráfico da reticência. Já, no poema seguinte, “Menina Glória”, em seus quatro duplos contextos expressivos somente ver-se-ia um ponto final e uma conclusiva reticência. E, em mais este poema “Silêncios e atalhos”, em suas duas últimas estrofes é que eram impostas duas vírgulas internas, predominando o marcante olhar da criatividade.
Com a leitura dos demais poemas dessa “Teoria dos afetos”, ver-se-ia crescida a modernidade da poetisa Neide Azevedo. Sem nenhuma esnobação artística, com a editoração deste atual acervo, sua jornada acadêmica se mostrará plenificada. Historicamente, este será um grande marco da glorificação intelectual.


(Jornal Diário do Nordeste - 25/4/2010)

sexta-feira, 30 de abril de 2010

A LETRA POÉTICA DE SILVIO, BENDITO PELOS SANTOS


Quando criança, um parente presenteou-me com um livro. No livro, a história da persistência. Chamava-se MENSAGEM A GARCIA e o autor era Elbert Hubbard. A história fala que a um homem fora dada uma missão quase impossível. Teria que levar uma mensagem a uma pessoa que não conhecia, num lugar que não sabia onde era. Assim mesmo, aceita o desafio e a ele se dedica com afinco e perseverança. A aventura é fantástica porque são enormes os obstáculos que enfrenta. Ao término, a gente se comove com a coragem e o otimismo do personagem que nunca desiste de sua tarefa, mesmo caindo tantas vezes e tendo o mundo todo contra ele.
Lendo a mensagem a Garcia, ficamos cheios de entusiasmo, e acabamos dizendo a nós mesmos que nada nos impedirá de conquistar o mundo. Ao nos depararmos com mais uma obra de Silvio dos Santos Filho, temos a certeza de sua evolução literária e de sua construção na prosa poética, de sua persistência em levar sua mensagem aos leitores e a eles permitir ter esperança. A cada tijolo colocado, sua obra se engrandece e se descortina diante de nossos olhos num deslumbramento pulsante.
Há neste livro um sopro de energia que nos passeia à alma, nos envolve o semblante, nos traz alegrias, nos permite muitos momentos de emoções. Os textos produzidos em linguagem simples nos mostram um autor de espírito grande e a conduta sublime dos bons, auferindo das coisas e do tempo motivações e arrebatamentos, mostrados em sua obra, os quais se tornam para nós, retratos de um dia-a-dia de expressões cristalinas e o doce perigo da aventura a rondar nossas pegadas.
Silvio dos Santos Filho mostra-se maduro, aprimorado pela experiência, vivido em suas leituras, cujo exercício maior é a imaginação. Consciente de que muitos se perdem em outros lugares, ele trabalha com a paciência de um artesão, fazendo e refazendo as rendas de um bordado demorado, cuidadoso. Vai cortando arestas e plantando raízes que, sabe muito bem, darão planta boa, forte, fluente.
Pela frente, sabe que tem o horizonte perpétuo dos filhos de Orfeu e sabe, também, que traz nesta obra um recado: que viver é o mais importante e necessário. Mesmo passando por agruras, devemos pensar no amanhã, que será sempre melhor que o hoje. As perdas, as decepções, as lamúrias devem ser deixadas de lado, e o sorriso leve e morno de um amigo pode nos redimir de todo e qualquer mal.
Seu livro é rico em detalhes, em verbos conjugados, em veredas a serem desvendadas, e cada leitor que nele ponha as mãos vai se enxergar em algumas das histórias nele contidas. Há nesta publicação uma riqueza de temas, com os quais o autor constrói sua escritura e nos cristaliza as sensações.
Imaginamos vários lugares em um só, várias pessoas numa só, muitos momentos em nenhum especial. O comum dá lugar ao vertical, ao poético jeito do autor nos apresentar sua prosa. Essa verdade estética é experiência amorosa, é maneira simples de edificar o crescimento literário deste homem que desvenda sua alma e fala de amor e morte como se esses sentimentos fizessem parte de um só itinerário.
As palavras se ampliam e criam asas, voando entre figuras de linguagem e o esboçar de um distinto ato de doação: o amor.
Em seus passos de andarilho, vem açoitando as mulas mancas que teimam em estacionar em seu trajeto, tirando lições e criando alguns truques de como enganar o destino, riscando um traço a cada esquina e fazendo curvas em toda a extensão de seus afetos.
A literatura é sua senhora e dona, amada e amante de quase todas as horas. A terra de Iracema e Alencar o acolheu de braços abertos e não se arrepende de ter registrado em seu cartório maior, o coração, esse filho bondoso, vindo de longe para ser o mais fiel intérprete da alma nordestina, dando o tom certo às canções que vem compondo por esse caminhar poético.
Retire as pedras, sopre a poeira e acalente suas serenas lembranças de menino sonhador, de ilustre caminhador, de condutor maior do seu passeio em busca desta que é a única construção à qual o homem se permite, sem medos e sem moléstias, que é a busca para a felicidade e a certeza de todas as conquistas!
O que justifica viver é a busca da felicidade.
Este é um livro para ser delicadamente folheado e lido sem pressa!

Rejane Costa Barros
Da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil

quarta-feira, 28 de abril de 2010

A BIENAL COM O OLHAR VOLTADO ÀS NOVAS GERAÇÕES - Evan Bessa

Acompanho a Bienal Internacional do Livro desde o início de sua instalação em nossa capital. Tenho observado que a cada evento está havendo maior receptividade por parte do público. Adultos, jovens, adolescentes, crianças lotam os pavilhões do Centro de Convenções atentos, curiosos e sempre querendo se informar e participar da programação oferecida.

Este ano o tema é bem sugestivo: “O livro e a leitura dos sentimentos do mundo”. Uma homenagem está sendo feita à escritora Rachel de Queiroz, na passagem de seus 100 anos. A motivação torna-se ainda mais atraente, uma vez que além da autora ser cearense, sua obra é rica e múltipla, voltada sempre às raízes, ao seu povo e à sua gente.

O que reputo de uma importância fundamental nas bienais é que o fluxo de crianças e jovens das escolas vem aumentando significativamente. Há um incentivo por parte das autoridades e gestores escolares, no sentido de que cada aluno adquira livros a seu gosto para, de fato e de direito, tornarem-se verdadeiros cidadãos e leitores. Fomentar o hábito da leitura desde cedo é uma necessidade primordial; pais e professores devem propiciar essa aventura deliciosa aos filhos e alunos. E o que vemos a todo instante na Bienal são escolas com alunos de todos os níveis de ensino, visitando os stands e participando das atividades. Olhinhos buliçosos percorrem os vários painéis e balcões de livros coloridos espalhados ao longo da feira. A animação e a curiosidade dos pequenos leitores que estão despontando sugerem que as gerações futuras terão uma maior predisposição para fazer do livro o companheiro dileto - o amigo de todas as horas, o objeto de desejo.

O ato de ler com compreensão, sabendo interpretar um texto, é, ainda, uma das maiores dificuldades encontradas em sala de aula. A dificuldade na leitura compromete as demais habilidades e competências no ensino e na aprendizagem cotidiana.

Vejo com bastante entusiasmo e otimismo o caminhar desses novos leitores na busca da cidadania e do poder de informação. O livro como investimento para uma população, onde o acesso a esse material ainda se constitui objeto muito caro, não deve ser privilégio de alguns, mas estar disponível a todos. Poucas famílias podem proporcionar aos seus filhos uma pequena biblioteca em casa; a maioria dos alunos só conta com o acervo que existe nas escolas. Hoje, tenta-se modificar essa realidade.

Mesmo no mundo em que vivemos de grandes avanços e inovações tecnológicas, nada substituirá o prazer de ter um livro em mãos, viajar nas suas histórias, conhecer lugares, descobrir o desconhecido, enfim, fazer da leitura uma forma de lazer e, ao mesmo tempo, uma atividade prazerosa.

A IX Bienal Internacional do Livro no Ceará vem, mais uma vez, estimular leitores, ilustradores, escritores nas suas produções literárias, e o grande público em geral, a se tornarem fiéis e verdadeiros amantes da boa leitura.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Discurso de Posse – Maria Luísa Bomfim



Bom dia a todos

Ilustre escritora e poetisa Zenaide Marçal, presidente da AJEB no biênio 2008-2010 a minha saudação, meu apreço e reconhecimento por seu excelente trabalho à frente de nossa Entidade; em seu nome cumprimento os demais membros da Mesa.
Caríssima escritora Ione Arruda, em seu nome cumprimento as demais colegas ajebianas.
Caríssimo poeta e escritor Pereira de Albuquerque, em seu nome cumprimento os nossos sócios colaboradores.
Ilustre escritora e poetisa, acadêmica Regine Limaverde, minha querida prima-irmã, em seu nome cumprimento os demais convidados e convidadas.
Caríssima jornalista e escritora, acadêmica Lúcia Lustosa Martins, presidente do Clube de Leitura “As Traças”, em seu nome cumprimento as demais sócias que aqui se encontram.
Caríssima Profa. Rose Espíndola Benevides, fundadora dos Grupos Músicais, Terça Nobre e Encontro das Quartas, em seu nome cumprimento aos demais sócios que aqui se encontram.
Caríssimo Dr. Romeu Cysne Prado, presidente do Rotary Clube Centenário, em seu nome cumprimento os demais colegas Rotaryanos.
Minha querida filha Profa. Ana Paula Bomfim Soares em seu nome cumprimento os demais familiares.

Senhoras e Senhores:

Está escrito no Eclesiastes:
“Tudo tem seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu: há tempo para nascer e tempo para morrer; tempo para chorar e tempo para rir; tempo para abraçar e tempo para afastar-se, tempo para amar e tempo para aborrecer-se; tempo de guerra e tempo de paz.”

Por considerar-me uma novata entre as ilustres colegas Ajebianas, fiquei surpresa e profundamente grata ao receber o convite das escritoras Zenaide Marçal, presidente do biênio 2008-2010 e Giselda Medeiros, nossa presidente de honra, para compor a chapa Prof. Costa Matos, no cargo de Presidente do biênio 2010-2012 da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil – AJEB - coordenadoria-Ce. Conheço minhas limitações, mas a vontade de servir e ajudar foi maior que o medo de errar. Palmilhando a estrada de nossas vidas, nos deparamos muitas vezes com situações contraditórias, nas quais o coração diz “sim” e o cérebro diz “não”. Isto não significa loucura, pelo contrário, é a sabedoria da consciência de nossas obrigações e a pujança de nossos sonhos que nos impulsiona a correr riscos, em busca de vitórias. Assim vejo, agora, chegou o Meu Tempo. É a minha hora de empunhar a bandeira da AJEB em uma das fileiras de vanguarda, o que muito me honra e envaidece. E já que o destino aqui me colocou, procurarei fazer jus à confiança em mim depositada. Os obstáculos existem, as procelas também, o importante é mirar-se no exemplo de um hábil navegador e encontrar o caminho para alcançar o porto seguro.
O poeta é feito de sonhos e emoções. Ele encanta-se perdidamente e transporta-se em sentimentos. Sentimentos de alegria, dor, saudade, nostalgia, enfim, o poeta é um mago da linguagem e um apaixonado por tudo que é belo. É assim, com a alma de poeta, que recebo neste momento a missão que me foi designada. Bem sei que a responsabilidade de substituir a escritora Zenaide Marçal é muito grande, uma vez que durante todo o seu período na presidência, as manhãs das terceiras terças-feiras do mês, aqui na Academia Cearense de Letras, palco das reuniões da AJEB, foram plenas de cultura, alegria e bem querer. A competência de nossa querida Zenaide, sempre acompanhada de muito carinho e dedicação, foi uma constante entre nós. Os momentos prazerosos nos envolviam tal qual os raios do sol envolvem as flores nas manhãs de primavera. Tudo era trabalho, harmonia e muito calor humano. Nossas produções literárias pareciam estar sempre debaixo da “poeira das estrelas” e nossa imaginação voava célere em busca da perfeição. Mas, ao sofrer o acidente que nos impossibilitou de sua presença, a grande preocupação de Zenaide eram suas pupilas ajebianas. Foi nesse período, que sendo a segunda vice presidente, ocupei o cargo da presidência, uma vez que a escritora Neide Azevedo, primeira vice, estava impossibilitada de faze-lo. Ficar à frente da AJEB, naqueles três meses, foi um desafio prazeroso, no qual recebi total apoio, carinho e solidariedade da diretoria, nas pessoas das escritoras: Giselda Medeiros, presidente de honra, Rejane Costa Barros e Francinete Azevedo, primeira e segunda secretárias, Evan Bessa e Ilnah Soares, primeira e segunda tesoureiras. Com muito amor, dedicação e elegância essas amigas queridas auxiliaram-me em todos os momentos necessários. Quero em público dizer-lhes do meu sincero agradecimento nos meus tropeços de iniciante.
Porém todos nós, amantes da cultura e do saber, somos responsáveis pelo crescimento desta nossa valorosa Associação, que tem por lema “A perenidade do pensamento pela palavra”. A nossa AJEB que está completando 40 anos de existência traz para o mundo literário uma história rica de conquistas e realizações.
Meus amigos e amigas,
Giselda Medeiros, nossa Presidente de Honra, que por 10 anos comandou com maestria esta Entidade, aqui no Ceará, tendo sido também presidente nacional por 4 anos, nos relata com muito orgulho: “O mérito dessa fundação deve-se à escritora paranaense Hellê Vellozo, que em 8 de abril de 1970, desvinculava-a de sua filiação junto à AMMPE (Asociación de Mujeres Periodistas y Escritoras), no México, passando a ter autonomia, no Brasil, como AJEB (Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil), espalhando-se através de coordenadorias por muitos estados brasileiros”.
Pertencer à AJEB é nossa escolha, sem dúvida uma escolha inteligente, uma vez que nossa associação fomenta cultura, e cultura é coisa séria. Afinal é através dos padrões de comportamento e dos valores exercidos na sociedade que podemos sonhar com um mundo melhor e mais fraterno. Na AJEB, encontramos reuniões literárias enriquecedoras, publicações educativas, concursos literários e recentemente um “blog” formatado com muito esmero e tecnologia informática por nossa incansável Giselda Medeiros.
Sempre fui otimista, e agora no outono de minha existência, sou mais ainda. É assim que nesta manhã do dia 20 de Abril de 2010, com o coração feliz e a firme convicção de acertar, farei o melhor que puder, procurando dentro de minhas possibilidades continuar o trabalho edificante de minhas antecessoras, valorizando os ideais de cada ajebiana.
Meus amigos, neste dia tão especial para mim, quero fazer alguns agradecimentos:
Às diretorias anteriores pelo exemplo de competência administrativa: às companheiras que prontamente aceitaram meu convite para compor a chapa Prof. Costa Matos; ao escritor e poeta Vicente Alencar por ter me apresentado à AJEB; a todas as sócias e sócios colaboradores por estarem presentes; aos amigos e amigas que estão aqui comigo; à querida amiga, jornalista e escritora Arleni Portelada que gentilmente atendeu meu pedido para dirigir a cerimônia; à minha família e principalmente a Deus, que, com certeza, sempre caminha ao meu lado.
Com grande admiração e carinho, externo a mais pura gratidão a todos vocês.
Muito Obrigada.

Discurso de Transmissão do Cargo – AJEB/CE - Zenaide Marçal


Prezados componentes da Mesa Diretora, a quem saúdo na pessoa de Giselda Medeiros, nossa Presidente de Honra; Caras ajebianas componentes da Diretoria eleita, às quais saúdo na pessoa da Presidente Maria Luisa Bomfim; estimadas sócias efetivas, prezados sócios colaboradores, a quem saúdo na pessoa de Giselda Medeiros; senhoras e senhores convidados e demais presentes, a quem saúdo na pessoa de Aldanira Lyra.

Lemos no Eclesiastes que “para tudo há um tempo debaixo do céu”. Há dois anos fui empossada na presidência da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil – Coordenadoria do Ceará, bastante temerosa da responsabilidade que assumia, mas com muita vontade de fazer um bom trabalho e creio que consegui. Dizendo melhor, conseguimos, porque para isto contamos com a colaboração constante e decidida de cada membro da nossa Diretoria, assim como da nossa Presidente de Honra Giselda Medeiros.
Procuramos manter a AJEB no mesmo patamar que ocupava na administração anterior. Tivemos o cuidado de convidar palestrantes, dando prioridade aos nossos associados, o que não impediu que convidássemos, vez por outra, membros de outras associações, contanto que as nossas reuniões se tornassem tão interessantes quanto no tempo dos Clubes de Leitura.
Assumimos no mês de abril de 2008, tendo nessa mesma data o lançamento do livro Poemas e Lembranças, da nossa estimada Conselheira Neide Freire, com quem dividimos o prazer daquela reunião festiva.
- Em maio, a mesma colega Neide Freire nos brindou com uma palestra sobre Heloneida Studart, que muito nos empolgou.
- No mês de junho foi a vez de Argentina Andrade com o excelente trabalho intitulado – Rui Barbosa, o maior Brasileiro da História.
- Em julho, costumeiramente um mês de recesso, comemoramos com um almoço no Restaurante Côco Bambu o aniversário da nossa Presidente de Honra Giselda Medeiros, ao qual compareceram inúmeros sócios, familiares e amigos.
-Veio Agosto e tivemos a felicidade de ouvir a palestra de Ione Arruda sobre o grande escritor Humberto de Campos.
-Em setembro, Mário Quintana veio até nós, através da palavra fluente de Rita de Cássia Fernandes Araújo.
- Em outubro, Evan Bessa nos trouxe - “O Memorialista Pedro Nava”, tendo até mesmo a participação do Prof. Costa Matos que nos mostrou uma carta que o referido escritor lhe havia enviado anos antes.
- Em novembro Maria Luisa Bomfim deixou-nos enlevados ao falar de Regine Limaverde. Aliás, tivemos a grata satisfação de contar com a presença desta querida Acadêmica.
Ainda nesse novembro de 2008, quis a Vida que precisasse me ausentar, acidentada que fui, aliás a primeira vez que, espero, seja a única.
Assim, não tivemos em dezembro de 2008 a nossa festa natalina, resolução tomada pela Diretoria, cuja solidariedade muito me tocou.
No ano seguinte, 2009, tivemos o costumeiro recesso em janeiro e fevereiro.
Iniciando as atividades desse ano de 2009, substituída em março pela 2ª vice-presidente Maria Luisa Bomfim que, no impedimento da 1ª vice presidente Neide Azevedo, atendeu prontamente à nossa solicitação e desempenhou o cargo da forma mais eficiente possível, cheia de entusiasmo e boa vontade. Não posso deixar passar esta ocasião de, mais uma vez, agradecer-lhe, penhoradamente, diante de todos.
Nesse mesmo mês de março, houve a palestra que estava anteriormente programada, da escritora Thereza Leite, sobre Natércia Campos, de saudosa memória, figura das mais projetadas da nossa literatura. Março, abril, maio e junho foram meses em que a AJEB esteve sob o comando de Maria Luísa que manteve o alto nível das reuniões ajebianas.
Após o recesso de julho, reassumimos a Presidência e resolvemos fazer experiência de uma reunião mais participativa, dando oportunidade a vários associados, em cada mês, de mostrarem seus trabalhos literários, ora em prosa, ora em verso, o que foi feito nos meses de agosto, setembro e outubro.
Pensando sempre em melhorar, voltamos às palestras e tivemos em novembro o Prof. Tarcisio Cavalcante, da ACLP, que nos trouxe uma aula completa e mesmo divertida, sobre o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, trabalho este de grande valor e que agradou aos presentes muito além da expectativa.
Em dezembro fizemos uma grande festa de confraternização natalina que contou com a participação da maior parte dos nossos associados, além de alguns convidados. Homenageamos os funcionários desta Casa, os quais sempre nos ajudam na organização de nossas reuniões, oferecendo-lhes, em nome da AJEB, lembranças natalinas. Aliás, a AJEB tomou a si a responsabilidade de oferecer os presentes para o sorteio do qual participaram não somente ajebianas e ajebianos, mas também os visitantes, o fotógrafo e o violonista, convidados. Tivemos um “brunch” regado a vinho, “comme il faut”! Vibrantes de fraternidade, fechamos as atividades de 2009 como se costuma dizer: com “ chave de ouro”.
Depois do habitual recesso de janeiro e fevereiro, com a mesma “chave de ouro”, abrimos as nossas atividades literárias de 2010, pois tivemos a feliz oportunidade de receber Regine Limaverde que nos brindou com a palestra intitulada – Considerações sobre a Leitura. Em seguida fizemos a votação na qual foi eleita a nova Diretoria para o biênio 2010 – 2012, que logo mais tomará posse.
Não posso terminar estas palavras sem fazer o que é mais importante: Agradecer. Peço permissão a todos para fazer um agradecimento a alguém que não se encontra mais no meio de nós, cuja ausência nesta Mesa ainda hoje é sentida. Trata-se do grande e pranteado amigo, o Acadêmico Prof. Costa Matos, Sócio Honorário da AJEB, a quem devo gratidão pelo forte apoio dado à nossa Diretoria. Sempre presente às nossas reuniões, a nos encorajar. Quando de sua partida, fiz um poema que intitulei “Choverá Saudade” e que leio agora em sua homenagem:

Tu eras a Poesia
por que volatilizar-se?
Doravante
nascerão poemas nos Campos Elíseos;
novos salmos serão compostos
e encantarão Santos poetas;
para ver-te,
mil flores luminescentes
sutilmente brotarão
nas veredas do Infinito.

As borboletas,
não mais crisálidas,
já não escaparão de tuas mãos,
nem os teus sonhos...

E choverá saudade
nos corações que conquistaste!

Para ele, não peço 1 minuto de silêncio; peço palmas!

Continuando, quero fazer aqui um agradecimento a Santa Tereza D’Avila a quem confiei a trajetória deste mandato. Quero agradecer igualmente à nossa Presidente de Honra Giselda Medeiros a confiança e a presença valiosa e indispensável, ajudando-nos a abrir caminhos ainda desconhecidos.
Agradeço a cada uma das Diretoras e Vice-Presidentes da nossa Diretoria, sem cuja cooperação não me teria sido possível bem cumprir este mandato. O meu agradecimento, também, a cada uma das sócias efetivas e a cada um dos sócios colaboradores a frequência às reuniões, permitindo que sempre tivéssemos um bom número de participantes, tornando-as animadas e bastante proveitosas.
Agradeço, enfim, aos funcionários desta Casa, ao nosso sócio colaborador, Jorge Pontes Lima que, com sua voz e seu violão, deu um toque de leveza às nossas reuniões.
Alguns amigos, apesar de não serem ajebianos, marcaram presença, atendendo ao nosso convite. Entre eles, Humberto Oriá e Deusdedit Rocha. A eles a minha gratidão.


Senhoras e Senhores, a Presidente eleita Maria Luisa Bomfim dispensa adjetivos e, como tal, não nos deixa dúvidas de que dará o melhor de si para levar adiante a nossa querida AJEB. Isto é verdade e dou-lhe a minha Fé!
Como já foi dito, “para tudo há um tempo debaixo do céu” e, com grande satisfação, agora, transmito a Maria Luisa Bomfim o cargo de Presidente da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil – Coordenadoria do CE, encerrando, assim, o meu mandato.

Muito obrigada!

AJEB: 40 ANOS - Giselda Medeiros



Mozart Soriano Aderaldo, de imperecível memória, muito bem definiu o cearense, ao afirmar que os nossos “caracteres morais, à semelhança do tipo físico, são de uma fixidez surpreendente: sobriedade e resignação, mas muito espírito de resistência, energia e tenacidade”. O mesmo pensamento é o do também acadêmico Abelardo Montenegro, ao dizer: “Terra de gritante paradoxo entre a pobreza econômica e a riqueza intelectual é o Ceará”.
Com certeza, somos um povo firme e forte, persistente e denodado e de grande riqueza intelectual. Quando nos voltamos para algo o fazemos com o melhor de nós. Damo-nos completamente a esse fazer, a essa tomada de resolução. E daí em diante, o trabalho flui, ás vezes difícil, mas prazeroso e rentável.
Corroborando o que foi dito, reportemo-nos à história da AJEB-CE. Em 1976, após seis anos de sua fundação em caráter nacional, pela escritora paranaense Hellê Vellozo Fernandes, formava-se, no Ceará, uma coordenadoria da AJEB. Nenzinha Galeno, nome de invejável projeção literária nas letras cearenses, foi sua primeira presidente estadual e a terceira nacional. Devotou-se firme e forte, persistente e denodada, à causa da AJEB e consagrou-se como importante pilar na construção desta entidade. Vencendo os obstáculos que sempre se fazem presentes no caminho da cultura, de um modo particular no da literatura, promoveu a edição da primeira antologia nacional, “O Livro da Ajebiana”, reunindo autoras de todas as coordenadorias espalhadas pelo Brasil. Após sua morte, assumiram a presidência da AJEB-CE a escritora Rizette Cabral Fernandes, Alayde Sousa Lima, Marlete Leite, sucessivamente. Por essa época, as dificuldades eram muitas e se não fora o denodo de Ione Arruda, cujo amor pela AJEB era tamanho, esta nossa entidade teria perecido. Assumi-a em 1998, ao mesmo tempo em que assumia, também, um desafio maior: o de reerguê-la. E, com o pequeno contingente de que dispunha, pusemo-nos à frente e aqui estamos, comemorando 40 anos de profícua existência. Editamos uma antologia nacional – AJEB Letras – e cinco volumes da coletânea Policromias. Realizamos quatro concursos literários, sendo o primeiro em nível nacional e já chegamos, hoje, com o número 38 do nosso informativo “O Ajebiano”.
Quero, neste instante, louvar e aplaudir, calorosamente, a gestão de Zenaide Marçal, cujo proveitoso trabalho, exercido com a tenacidade do cearense, enriqueceu consideravelmente o currículo de nossa querida AJEB. Seu nome, portanto, de agora em diante, pelos seus relevantes serviços, passa a fazer parte, honrosamente, do quadro de Sócia Benemérita da AJEB.
E, agora, neste quadragésimo ano de fundação, é Maria Luísa Bomfim que se assenta na cadeira de Presidente. Com ela, todas as nossas esperanças e certezas. Para ela, todas as nossas vibrações positivas. E com ela, a certeza de que estaremos sempre juntas, somando esforços e atitudes nessa sua caminhada de sucesso, que auguramos.
Prezados amigos, se há um marcador para o sucesso da AJEB, ao longo desses 40 anos, diremos, sem dúvida alguma, que é o AMOR. É o amor pelo aroma do feminino que a envolve e nos domina, que a torna bela e nos contagia. E esse aroma do feminino embutido em nossas sócias efetivas casa-se perfeitamente com a essência do viril presente em nossos sócios colaboradores, e passa a constituir um perfeito e indissolúvel par.
Somos felizes por isso e, por isso, vivemos em união. Parabéns à AJEB. Parabéns a todos nós.
20/4/2010

NAUFRÁGIO - Vicente Alencar


Os dias passaram
após o naufrágio.
Não se tornaram
diferentes daqueles.
Mas, na vida,
muitas vezes,
não temos opções,
não temos escolha.
Vivo as sobras de um desastre
que se arrasta pelo tempo.

Não se pode apagar vivências
nem diluir saudades.
O passado é um cofre
de lembranças.
Não sei esquecer.

Não posso desligar
a chave do tempo
que continua,
que me enternece,
que me enconraja,
que me faz sofrer,
pois não sei esquecer.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

EM LINHO E SEDAS - Giselda Medeiros



Teu corpo – aquário de minhas ânsias –
envolto em linho e sedas de lembranças,
transita cálido em meus pensamentos
sob um feroz e líquido silêncio.

Somente escuto o som de tua flauta...
E esse rumor que dela vem me excita,
ária de sol, de sal, em minhas carnes,
latejos de emoção, laivos de êxtase.

No entanto, indiferente aos meus apelos,
dormes qual rio impresso na paisagem
que escorre de teus dedos feito harpas.

E o som que vem do linho e vem das sedas
sobe, cresce, esparrama-se alagando,
do pensamento, as foscas alamedas.

BOIADA - VITAL ARRUDA




Eu nunca vi tanto encanto
numa noite enluarada
ouvindo o meu próprio canto
tangendo minha boiada.

As estrelas ofuscando
com seu brilho encantador
e a natureza buscando
muita paz e muito amor.

Foi este misto de encanto
que eu vivi na madrugada;
sem mágoa, sem desencanto,
tangendo minha boiada.

terça-feira, 6 de abril de 2010

A VISITA - GISELDA MEDEIROS


Era de uma beleza estonteante a várzea por onde íamos sendo levados. O trepidar do carro sobre os pedregulhos da estrada dava-nos a sensação de galope. E galopávamos já de felicidade. As recordações do dia em que tomamos conhecimento da decisão de papai em levar-nos para um internato iam-se volatizando à proporção que desfrutávamos aquela alegre paisagem. As lágrimas derramadas no momento da separação evolavam-se, ao ritmo do vento, que batia forte sobre o carro e penetrava, furioso, despenteando-nos os cabelos. Hoje, penso como é fácil para a gurizada enfrentar certos problemas e refazer-se inteiramente. Ali, já não nos importava a privação das brincadeiras no imenso quintal de nossa casa nem a saudade das histórias de monstros e duendes que nos contava a preta Benedita, no assustado alpendre, ao clarão da lua cheia. Os banhos divertidos na lagoa. A fuga para a cachoeira encantada. As poucas brigas que, paradoxalmente, nos faziam mais irmãos. O medo nas noites de tempestade. As arapucas colocadas às escondidas. Os castigos severos de papai. Tudo ia ficando para trás, na distância da estrada da vida. Contudo, sentíamos que, dentro de nós, aquilo tudo estava marcado como tatuagens que a vida imprimiu em nós, mesmo sem lhe concedermos permissão.
Papai dirigia sério e taciturno. Aliás, fora sempre assim. Nem um de nós, nunca, ousou desafiá-lo. Quando se calava, era sinal de que queria obediência. Ah, já não existem mais pais como o senhor Raul Moreira de Andrade! Sentíamos orgulho dele. Íntegro. Disciplinador. Um patriarca autêntico.
O carro apalpava as pedras e trepidava dentro de nós. Olhávamos para todos os lados com a indomabilidade de olhos ávidos. Sorríamos. Cantávamos. E papai sério. Lembro-me bem de que o senti triste demais e vi deslizar, tímida, uma lágrima sua. Mal notou-me olhando-o, puxou o lenço, passou-o sobre a testa e, discretamente, enxugou a face.
- É bom fecharmos os vidros. Há muita poeira na estrada.
Mas, eu sabia que disfarçava. Não queria demonstrar o que para ele seria uma prova de fraqueza. Agora, compreendo aquela lágrima calada, que tudo dissera. Ela arde ainda dentro de mim, como se fora uma chama sagrada, alimentando-me o amor, este sentimento capaz de vivenciar o possível e o impossível na história da humanidade. Este amor que constrói, que multiplica, que transcendentaliza.
Dali em diante, não pude mais cantar. Juninho, Daniel e Flávio continuavam tagarelando, alheios à realidade que me apertava, que me oprimia, e para a qual eu não tinha explicação. Só por que pressentira aquela lágrima?! Hoje, sei bem que a vida não nos explica nada, porque a explicação está dentro de cada um de nós. Ela apenas nos prepara o terreno para a semeadura e, quando estamos prontos, é feito o plantio. E eu estava sendo amainada para a colheita da dor.
Enfim, chegamos. A Escola Santa Teresinha parecera-nos simpática. Um prédio amplo, com extensas áreas arborizadas. Um pátio enorme convidava-nos ao lazer. Já imaginávamos as brincadeiras, os jogos, as conversas com novos colegas à sombra daquelas árvores discretas, cujos troncos bordados com corações traspassados por flechas pareciam enormes deuses a proteger aquelas paragens.
Uma religiosa, de sorriso austero, veio receber-nos e nos encaminhou à sala da Madre Superiora. Esta, após perscrutar-nos, com seus olhos de análise, por cima de uns óculos dourados, mandou que sentássemos. Papai nos apresentou, um por um, caracterizando-nos detalhadamente. Enquanto falava, eu o olhava com uma ternura tal que cheguei às lágrimas. Ali, na imaturidade dos meus doze anos, pude experimentar um sentimento inusitado que, àquela época, não sabia como defini-lo - a saudade . E, fora, na antecipação desse ritual, que chorara. Não pude conter-me, quando papai despediu-se e pôs em minha face o mais saudoso de todos os beijos.
- Virei logo vê-los. Logo, logo. Comportem-se e cuidado com a saúde.
Acompanhei o talhe fino e esbelto de papai, até desaparecer no final de um corredor que dava para a saída. Vi-o seguir firme, sem voltar-se, resoluto, imprimindo naquele chão de passos solitários as pegadas de seu caráter, como a nos dizer: “Sigam-nas”.
Adaptamo-nos logo aos moldes disciplinares do colégio, embora carregássemos na alma uma aflição inexplicável. A educação recebida no lar fora a base sólida para aquela rápida acomodação. Éramos tido como exemplo de disciplina. Ah, papai, quanto orgulho de você!
No entanto, o fato mais importante desta nossa história, caro leitor, aconteceu logo na quarta semana subseqüente à nossa chegada ao colégio. Lembro-me bem. Eu estava semi-acordada. Acabara de ler o conto “O Milagre” que a professora nos dera como atividade e, sob o impacto do misticismo de seu desfecho, tentava, ainda que sonolenta, entender-lhe a mensagem. De repente, a porta do quarto ilumina-se e, do clarão, surge a figura impoluta de papai. Na face, a lágrima da estrada. Sem dizer palavra alguma, entrega-me seu relógio de algibeira. E, antes que pudesse abraçá-lo, desfaz-se em penumbra. Esfrego os olhos atordoada. Sou vencida pelo sono.
Na manhã seguinte, o relógio apertado em minha mão e a lembrança de uma lágrima calada, queimando-me.
Aquela foi a última vez que vi papai.

(SOB EROS E THANATOS)

quinta-feira, 25 de março de 2010

2 Crônicas de Waldir Rodrigues


SAMARITANA


Encontrei-a meditando à beira da fonte da Poesia, no momento lírico do crepúsculo, quando o dia e a noite já não são, mas são quase. Os raios matizantes do sol escondiam-se por trás dos seus cabelos claros, com reflexos de ouro e de púrpura. Seus pés andarilhos, vindos de um atroz irremediável, tencionavam em percorrer os caminhos do desconhecido. Seus olhos fixos no horizonte das ilusões, ao pressentirem minha presença, esconderam-se no chão, medrosos de mim.
– Quem é você? – perguntei.
E minha voz tinha a dolência dos que sofrem...
Seus olhos tristes elevaram-se da terra e iluminaram os meus. Falavam de sonhos, mas lembravam as distâncias.
– Por quem você espera? – insisti curioso.
Nada respondeu, porque havia transposto o tempo dolorosos das esperas. Adivinhei dúvidas em seu semblante, quando vi o silêncio estampado nos seus lábios.
O caos inevitável se aproximava no manto negro da noite que já vinha.
Apontei para a fonte do Parnaso, na ânsia de que o dia não se fosse. Seria preciso conservar o calor do deserto na areia movediça dos caminhos. A jornada é longa, e o tempo não espera.
– Dê-me de beber! Tenho sede de esperança! – implorei.
Uma lágrima desmaiou sobre sua face, e o sussurro de sua angústia entreabriu seu silêncio. Os braços emergiram, lentamente, do nada e depositaram em minhas mãos um cântaro vazio...



PESCARIA

Há mais de vinte anos, em pleno albor de nossa juventude, o poeta Durval Mendonça e eu inventamos uma pescaria. E saímos pela vida afora, armados de caniços e samburás. Sentamo-nos à beira de uma noite estrelada, querendo pescar estrelas. Lançamos os anzóis às profundezas dos céus e, nas pontas, para atraí-las, a isca dourada de um sonho vivo, ainda se bulindo.
As estrelas cintilavam no infinito, como dorsos de lambaris na superfície da treva em silêncio. O tempo corria em lugar do vento, e nós dormitamos sobre a esperança de uma estrela viva, em nosso aquário de fantasias... De repente, a linha da ilusão estremece!
Ficamos atentos.
Depois um arranco...
Um outro arranco...
E nos sentimos arrebatados para o infinito, acima, arrastados pelo supremo delírio de dois poetas...
E vocês sabem o que aconteceu?

UMA ESTRELA NOS PESCOU!

segunda-feira, 22 de março de 2010

O POVOAMENTO DA SOLIDÃO - José Costa Matos



Eu trago em mim
os povoadores da solidão.
E mando que se façam bandeirantes,
e quebrem pararelos
e quebrem meridianos,
na guerra contra todas as fronteiras.
E descubram ouro no sono das montanhas
e apresem os índios nas surpresas da inocência
e façam filhos nas negras
mães da solidão
e pisem a cabeça das serpentes
com a ilusão de esmagar todas as mágoas
que não podem ser destruídas
sob as sapatorras da marcha escapista.
E batam nos peitos brutos
e gritem para as quebradas das serras:
- nós somos os decifradores
dos mistérios do sofrimento!
E morram apertando as mãos
as esmeraldas que mentiram
na febre de Fernão Dias Pais Leme.
Eu sei fazer os povoadores da solidão.
Tive lições de milagres
aos pés de Deucalião e Pirra:
se eu lançar pedras sobre o meu ombro,
elas se transmudarão em homens e mulheres,
que amarão
e povoarão as galáxias
e cantarão hinos de exorcizar o medo
e plantarão sementes
e rezarão missas de agradecer colheitas
e crucificarão deuses
e criarão vacas
e terão a vontade viageira de turismar estrelas
e a vontade miúda de chorar
o amor difícil dos sonetos,
e só assim serão humanos.
eu sei descobrir os povoadores da solidão.
Eles podem não ter massa
nem carga elétrica
nem campo magnético,
como os neutrinos.
Mas eu vou buscá-los
em qualquer ponto do universo,
para os banquetes comemorativos
da glória do meu Rei.
A minha solidão está grávida de mim.
Sou o plenificador
dos espaços e tempos vazios,
porque sou o viveiro
de todas as Histórias dos homens
e de todas as profecias de Deus.

sexta-feira, 19 de março de 2010

“Sob Eros e Thanatos” - Maria do Carmo Fontenelle


Tem razão o ilustre intelectual Genuíno Sales quando, no prefácio do livro em pauta, declara: “Giselda é uma contista de primeira linha, sobretudo por incorporar na alma as grandes virtudes poéticas. Grande poeta não poderia deixar de ser grande contista”.
O pensador inglês Tom Peters costumava iterar: “Se a janela da oportunidade se abrir, não deve baixar a persiana”. Giselda mantém a persiana do triunfo bem aberta, deixando que lucipotentes auras de sabedoria iluminem sua mente. Quanta criatividade! Quanto talento demonstram as narrações arquitetadas pelo mundo ilusório da autora – “Princesa dos Poetas do Ceará”, sagrada por aclamação na augusta Casa de Juvenal Galeno, por iniciativa do memorável escritor Alberto Galeno.
Na seleção da obra para ser utilizada na presente explanação, fiz uma triagem entre 14 exemplares, todos deslumbrantes, em estilos diversos, a saber: “O Liceu e o Bonde” – Blanchard Girão, “Ana Terra”- Érico Veríssimo, “Jardim de Inverno”- Zélia Gattai, “Margarida La Rocque”- Dinah Silveira de Queiroz, “Na Esplanada da História”- Hilma Figueiredo Montenegro, “Eugenie Grandet”- Honoré de Balzac, “Os Escravos”- Castro Alves, “Mulheres Fascinantes”- Léon Tolstoi, “O Fio e a Meada”- Batista de Lima, “Portugal e Brasil – gentes e fatos”- Armando Duarte, “Til”-José de Alencar, “Confronto”- Cláudio Queiroz, “Crítica Reunida” e “Sob Eros e Thanatos”- Giselda Medeiros.
Confesso que não foi fácil. Após rigorosa avaliação, a preferência incidiu sobre o livro “Sob Eros e Thanatos”, de Giselda Medeiros, cujo estudo começará pelo que me atraiu, de imediato, além do conteúdo, o título.
Ao pesquisar sobre ambos os seres mitológicos, tomei conhecimento de que Eros, na mitologia grega, significa “desejo erótico”. Eros era filho de Nix (deusa da noite) e de Érebo, encarregado da harmonia cósmica. Mais tarde, atribuiu-se-lhe, como pai, Zeus, Ares ou Hermes; e como mãe, Afrodite, a Venus romana, deusa nascida da espuma do mar. É representado como um menino alado, munido de arco e flechas destinadas a despertar os ardores da paixão entre os humanos. Thanatos (em árabe quer dizer Antônio). O dicionário mitológico de Nádia Jullien e a Internet afirmam que “Thanatos era um herói hipocorístico, filho de Érebo e Nix (deusa da noite), portanto irmão de Eros e irmão gêmeo de Hípnos –(deus do sono). Thanatos era deus da morte, porém Hades era quem reinava sobre os mortos do submundo. Thanatos era representado como um jovem alado, portando uma tocha apagada, ou como uma nuvem prateada, ou ainda um homem de olhos e cabelos prateados, sendo este bastante utilizado na arte e na poesia”.
À guisa de ilustração, Sigmund Freud elaborou um trabalho sobre a discussão do inconsciente, relatando duas pulsões antagônicas; Eros, uma pulsão sexual, com tendência à preservação da vida, e Thanatos, a pulsão da morte.
Outrossim, o romancista, político e poeta mineiro Darcy Ribeiro, no ano de1998, publicou uma coletânea de poemas eróticos sob o título de “Poesia de Darcy Ribeiro – Eros e Thanatos”.
Quanto à obra ora apresentada tem muito a ver com o título, pois envolve natureza, romance, paixão e sensualidade, a noite e seus mistérios, a plenitude e a complexidade da vida, a melancolia e os desencantos da morte.
Além da originalidade do título extraído da mitologia grega, senti-me atraída pela singularidade dos 37 contos, os quais apresentam uma particularidade: as narrativas, de um modo geral, prescindem dos indesejáveis vícios de linguagem, tão comuns, hoje em dia, que tanto desfiguram o idioma, banalizando o texto.
No mais, devo acrescentar que “Sob Eros e Thanatos” não chega a ser uma obra monumental, “sui generis”, porém é um apanhado de temas de muito bom gosto, pontificados no suspense e no mistério, com pinceladas bem dosadas de romantismo e humor. Na verdade, o suspense e o mistério estigmatizam a obra em causa, revelando características que nos levam a momentos delirantes, plenos de suposições míticas e conflituosas. Há ocasiões em que o leitor vacila entre a espiritualidade milenar e a parapsicologia moderna; a ficção e os mistérios do além. Em suma, trata-se de um livro interessantíssimo! Nele fundem-se a densidade lírica do poeta, as maravilhas da natureza e o fascínio pelo quimérico, fatores esses que têm o dom de transportar-nos a vetustos casarões mal-assombrados... a estórias de Trancoso narradas no alpendre, em noites de luar, a costumes e hábitos campesinos vividos em épocas remotas.
Justo será mencionar que, na referida obra, percebe-se certo apuro com a norma culta do nosso idioma, requinte esse que a autora, sabiamente, intercala com jocosas frases de cunho popular, incluindo outros brasileirismos. Destaque para o significativo número de citações filosóficas e até bíblicas contidas na presente obra. Por exemplo: “O amor é a oportunidade única de sazonar, de adquirir forma, de nos tornarmos um universo para o ser amado”; “O homem é forte quando realiza Deus em si”; “A morte não é difícil. Difícil é a vida e o seu ofício”; “O que o homem gasta em anos para entender, aprende-o em questão de instantes de dor”; “O mar é mesmo um touro azul por sua própria sombra”;“O homem é nada comparado ao infinito e é tudo comparado ao nada”; “As estrelas nascerão. Nascerão e brilharão como os olhos das crianças”.
Numa linguagem experimental, a autora discorre sobre assuntos variados, deixando ao leitor a faculdade de deliciar-se ao derramar, suavemente, torrentes de indagações que tão bem caracterizam o suspense. Exemplifiquemos: O conto “A Pousada”- página 9, encerra algo fantasioso e, até certo ponto, aterrorizante. Dependendo do grau de sensibilidade do leitor, causará arrepios a aparição do enigmático camafeu...
Nas páginas 13,18,21,29,32,38 e 39 encontraremos: “A Casinha da Esquina”, “A Confidência”, “ A Fogueira”, “A Lagoa”,”A Pescaria”, “A Serpente” e “A Vingança”. Todos são provenientes de uma imaginação privilegiada; vale a pena lê-los. São contos atraentes e hilariantes, sobretudo “A Serpente”, o qual provoca um misto de comiseração e risos, se levarmos em conta a “santa” ingenuidade da “coitada” da D. Marocas... Enquanto os contos “A Visita” e “Passado Azul” sugerem algo a ver com a teoria da metempsicose. Vejamos: “Na manhã seguinte, o relógio apertado em minha mão e a lembrança de uma lágrima queimando-me”; “Aquela foi a última vez que vi papai”.
Ao lermos os contos “A Fogueira” e “A Lagoa”, deparamo-nos com o conhecido fenômeno do “déjà-vu”, que consiste no fato de ver-se, pela primeira vez, um determinado local e ter-se quase certeza de havê-lo visto anteriormente.
Vejamos o 9º parágrafo da página 61, em que a autora nos traz uma mensagem de carinho e solidariedade, uma verdadeira lição de vida, ao dissertar sobre determinada ajuda concedida a um frágil e indefeso rouxinol, quando a personagem reflete: “Que importância teria um rouxinol neste imenso vale de sofrimentos? Tem sim, é uma voz a menos para espalhar a beleza, a ternura e a poesia”.
Além dos contos mencionados, todos os demais merecem nossa atenção, em particular os das páginas 100 e 104. Asseguro-lhes que, em matéria de ficção, são realmente extraordinários. Enfim, todas as narrativas são muito bem elaboradas. Na maioria das vezes, a ficção se confunde com a realidade. E por aí vai o oceano exuberante de fatos pitorescos, emoções, mistérios e encantos que fazem de “Sob Eros e Thanatos” uma obra versátil, amena, cativante, aconselhável a quase todas as idades.

(Policromias 5º volume)

domingo, 14 de março de 2010

CORAÇÃO OBSCURO - Evan Bessa


A noite, o pavor me assalta
Fantasmas espremem minha dor
E mistérios reaparecem em flashs.
No escuro, trituro o dissabor.

Uma luz adentra o quarto da minh’alma
Mas não chega ao coração obscuro
Há em mim uma escuridão profunda
Que permeia meus tecidos duros.

Meus sonhos são mosaicos partidos
Trincados, em cacos, resistentes
Em minha volta só há melancolia
O sofrimento me deixa impertinente.

Ao raiar o dia estou angustiada
No íntimo não há luz, só sombra.
O sol aquece o corpo doído, inerte
E a dor insiste, resiste e assombra.

DIA NACIONAL DA POESIA - Homenagem a todos os Poetas!


A POESIA
Giselda Medeiros

Penso no poema,
e ela me vem,
a Poesia,
das profundezas de sua carne
macia e verde
com seu ruflar de asas de mel
e de arminho.
Esgueira-se buliçosa
no sótão de minha vida
qual furacão
de sons e de palavras,
metáforas azuis, a entreter as chamas
da agonia.
E ei-la aprisionada nos domínios
do poema
açoitada pelos ventos
que trouxeram de ti
a essência da paisagem
de tua alma.

(do livro Tempo das Esperas)

quarta-feira, 10 de março de 2010

FILGUEIRAS LIMA - O EDUCADOR E O POETA - Neide Freire


Antônio Filgueiras Lima, natural de Lavras da Mangabeira, histórica cidade do interior cearense, nasceu aos 21 de maio de 1909. Filho de Silvino Filgueiras Lima e Cecília Tavares Filgueiras: menino ainda descobriu seu destino de poeta: “Um dia olhei o céu, longe as estrelas / E eu tive uma vontade imensa de colhê-las / Estava desvendado o meu destino”.
Mas que vem a ser um poeta?
Poeta é aquele que, tendo a alma iluminada, é capaz de descobrir a beleza oculta nos velhos quadros da vida e transmiti-las num eflúvio de encantamento.
Talvez por um fio dourado desse encantamento, veio Filgueiras Lima a ser uma estrela, cuja cintilação de primeira grandeza, passados tantos anos de sua ausência, ainda ilumina o universo cultural do Ceará.
Mas, em seu fadário de poeta, estava uma outra destinação: o amor pedagógico que o comprometeu com a causa da educação no Ceará.
Em 1931, por concurso, efetivou-se no cargo de Inspetor Regional do Ensino, marco inicial da longa lista de suas atividades em favor da educação. Entre outros cargos de relevantes valores, foi Diretor de Instrução e Inspetor do Ensino Normal.
Concorrendo em disputadíssimo concurso, em 1933, classificou-se em primeiro lugar, conquistando a cadeira de Didática da Escola Normal Justiniano de Serpa, equiparada ao Colégio Padrão, Pedro II, no Rio de Janeiro, e, atualmente denominada Instituto de Educação. No ano anterior, isto é, em 1932, publicara seu livro de poesias “Festa de Ritmos”.
Orador, conferencista requisitado e aplaudido, indicado pelo Governador do Estado, representou o Ceará nas festas inaugurais do Edifício da Gazeta de São Paulo, pronunciando na ocasião eloqüente conferência sobre o célebre escritor cearense José de Alencar, considerado o pai do romance brasileiro.
Intelectuais paulistas pronunciaram-se em louvor à aludida conferência, sobressaindo-se o jornalista Plínio Cavalcante que assim se expressou: “Sobre a inteligência da terra mais brasileira do Brasil, nada direi, porquanto a palavra brilhante de Filgueiras Lima, ontem se revelou a São Paulo como fulguração de sua mocidade e harmoniosa beleza de sua poesia forte”.
O menino que, segundo o pai, “nascera para estudo”, projetou-se em seu tempo, pela dignidade de seus atributos cívicos e morais, evidenciado na urbanidade solidária de seu trato social, no fulgor de sua inteligência inteiramente voltada para seu misto de ideal de poeta e educador.
Vem à luz da publicidade, em 1944, seu livro intitulado “Ritmo Essencial”.
Diferente do clássico poeta cearense José Albano, que afirmou “Poeta fui e do áspero destino / Senti bem cedo a mão pesada e rude”/, Filgueiras Lima foi o poeta do ritmo e da alegria. Aprendeu bem cedo o “Ritmo Essencial” de seu jardim de “eternas rutilâncias” e promoveu a “Festa de Ritmos”, tirando da pauta musical da existência a fascinante beleza que envolve sua “Terra da Luz”.
“O sertão todo em flor esplende e cheira” assim legando aos pósteros o perfume lírico que ainda se exala de seu “Jardim Suspenso”.
Portador de inúmeros diplomas, bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito do Estado do Ceará, não lhe seduzia o brilho solferino do anel nem a sisudez da Toga, mas optou pelo magistério obedecendo aos ditames de sua vocação cuja autenticidade revelou em apenas cinco palavras: “Fiz-me professor, nasci poeta”.
Admirável simbiose que festejou em versos “o ritmo essencial das “cousas límpidas e raras” que borbulhavam em sua alma de esteta unindo-as em mesmo ideal.
Tal o Midas mitológico cujo toque tudo transformava em ouro, nosso poeta que adorava os “céus azuis e as águas claras”, por descobrir a beleza de seu jardim de “excelsas rutilâncias”, tudo transformou em poesia inspirada e bela como no soneto “Samaritano”, ao louvar o amor: “Inda lhe sinto os cálidos ressábios / Foi o vinho do amor que me serviste / No cântaro rosado de teus lábios”.
Em “Desespero”, focaliza em versos doridos a terra natal na ocorrência cícicla que a flagela: “O sol caustica a face morena do sertão / A gente olha a estrada lá longe, / Numa curva distante do caminho / A caravana de párias nômades aparece”.
Em “Peregrino”, o Poeta descreve a trajetória ansiosa do viandante na busca ilusória do “aroma das cousas que não passam” “da água viva das fontes que não secam nunca”.
E, nessa busca incansável do absoluto, o poeta adentra o mundo da escola e faz de sua cátedra um genuflexório e diz: “Ensino como quem reza”.
Dessa devoção acendrada, emerge o compromisso do poeta com a escola.
Chega ao Ceará, em 1922, o pedagogo brasileiro Manoel Bergstron Lourenço Filho, adepto das idéias inovadoras pregadas pelo pedagogo e filósofo americano John Dewey.
O educador cearense adere à nova pedagogia e torna-se um paladino apaixonado do movimento, que ficou conhecido como Escola Nova, o qual correspondia perfeitamente ao ideal de ensino, porquanto considerava a escola daqueles dias, inoperante, retrógrada, estática, incapaz de suprir o aluno com a formação necessária a torná-lo participante útil de uma sociedade em evolução.
Embora sua esmerada formação sociopedagógica, Filgueiras Lima que, bem poderia ser contado entre os mais conceituados pedagogos brasileiros, como Anísio Teixeira, Fernando Azevedo, Sul Menucci e outros, não foi um teórico da educação.
Associado ao jornalista, e depois deputado, Paulo Saraste, em 1938, abre as portas de seu recém-fundado Instituto Lourenço Filho, implantado sob os ditames filosóficos da nova pedagogia que ficou conhecida como Escola Nova ou Escola ativa, na qual, em torno do aluno e não do programa, giravam as atividades escolares.
O professor Filgueiras Lima realizou, então, no Ceará, a verdadeira Revolução Copernicana do ensino preconizada pelos mestres da moderna ciência pedagógica.
O Instituto Lourenço Filho, hoje Faculdade Lourenço Filho, é o atestado fidedigno do espírito empreendedor, desassombrado, do mestre, e do amor que dedicou à sua terra e à sua gente.
É a comprovação do sonho do poeta que fez da sala de aula o seu mais vibrante e eloqüente poema.
Recordá-lo, nesta data comemorativa do centenário de seu nascimento, rememorar o labor de sua vida dedicada à educação parece-nos ouvir, vindos de longe, no rolar do tempo, sussurros dos antigos sábios, mestres da filosofia que fez da Grécia “a mestra perdurável do pensamento humano” e levaram o poeta professor a exclamar de si mesmo: “Sou um grego de tempos esquecidos”.

(Trabalho apresentado na reunião da AJEB, dia 19 de maio e 2010, por Neide Freire, em comemoração do centenário de Filgueiras Lima).

domingo, 7 de março de 2010

A UMA CERTA MARIA - NILZE COSTA E SILVA


Quero falar de uma Maria
Ausente, escondida
feito coruja nos campos
rasga mortalhas das noites
distante do mundo
sem saber ler nem escrever seu nome

Em sua infância tão pobre
um amiguinho invisível ensinou-a a inventar brinquedos
amarelos, verdes, azuis...
Eram brinquedos tão lindos!
Ninguém, senão Maria, tinha aquele privilégio
de brincar com o menino Jesus

Mas um dia Ele partiu...
deixando-a envergonhada de ter crescido assim
com uma sina obstinada, tatuada, corpo e alma
para levar a mensagem ao povo de Juazeiro
Teve chagas pelo corpo
teve a boca alagada do sangue da hóstia consagrada
O sangue corria dos lábios, pela língua e pelas mãos
pelos paninhos brancos que o padre limpava o chão

Maria de Araújo!
Quem te fez assim tão forte
Sozinha na noite escura da cidadezinha pobre
desalentada, desacreditada pela Santa Inquisição?

Ah, essa Maria de tantas dores...
Insubmissa às leis humanas
deu comunhão a dois padres da primeira comissão
Insultada, perseguida pela Igreja arrogante
que não acreditava que Deus amava aquela mulher
pobre, negra e analfabeta.

O bispo não concebia que o divino condenava
a tripla discriminação
e escolheu a beata, chamada Maria de Araújo
pra transmitir ao seu povo sua mensagem de amor
como escolhera outrora
os tão pobres pescadores
homens analfabetos que se tornaram apóstolos
da fé que Jesus pregou

A beata do milagre afrontou a arrogância
da segunda comissão
E quando foi inquirida e lhe dada a hóstia na boca
falou com toda ousadia:
“Jesus Cristo tá dizendo, que a hóstia não sangrou
pois os padres da comissão não estão em estado de graça
pra me dar a comunhão”

Por isso foi torturada,
Presa na sozinha cela da Casa de Caridade
Ao voltar pra sua terra
Morreu triste e esquecida
Sem véu, sem nome, sem lar
Padre Cícero ordenou dar-lhe enterro merecido
Mas mesmo depois de enterrada
ainda foi injustiçada
Teve o túmulo violado
como quem nunca nasceu
Mas um dia Juazeiro vai lembrá-la com amor
e dar-lhe a paz merecida
sabendo que Jesus Cristo
amou aquela mulher ousada e destemida

Que assim seja!

terça-feira, 2 de março de 2010

O Pulo do Gato - Cláudio Queiroz


O velho resmunga sons ininteligíveis de desagravo quando a mosca lhe roça o bigode e nariz.
Aborrecido, muda bruscamente de posição. Agora, de bruços, volta a dormir suavemente, sob o afeto de uma ligeira brisa que sopra da janela, afagando-lhe os cabelos.
O ambiente era de tranqüilidade. Bastava-se observar a decoração bem típica dos aposentos de um homem já velho e solitário: um precário guarda-roupa de duas portas, uma cadeira de balanço apinhada de roupas já usadas e alguns livros. Na parede, fronteiriça à janela, à direita da porta de entrada, um quadro de moldura, já em adiantado estado de uso.
Dizia-se que fora o velho Ezequiel, tipógrafo, aposentado do Estado, ele próprio, o pintor do quadro, no qual podia-se observar um casal risonho, ele ajudando a sua jovem companheira a transpor um pequeno riacho que corria entre pedras.
Novamente, o velho Ezequiel volta a se agitar na cama. Com isso, o gato mourisco, que dormitava em cima do guarda-roupa, levanta a cabeça, atento, bigodes em posição de alerta.
Agora, o ex-tipógrafo dá mostras de impaciência. Dormira após penosa luta com o gato que, ultimamente, teimava em viver em sua companhia. Odiava aquele felino de olhos amarelos “tipo do sujeito bilioso e mau”, como murmurava.
Deitara-se, afinal, cansado da perseguição, ainda mais sob o efeito da lembrança de que, somente dali a dez dias, receberia seu minguado dinheiro.
Sonha, agora, que dois oficiais de justiça retiram da parede o seu valioso quadro. “Para pagar aos devedores”, diz um deles, rindo do desespero que o domina.
O pesadelo desperta-o bruscamente. Aos 68 anos e com sério problema de coluna, entende-se quão doloroso é um levantar rápido.
A mão ainda trêmula tateia em busca de seus óculos. Ergue-se e, às apalpadelas, dá com o pé no urinol provocando um ruído desagradável.
Resmunga zangado, aborrecimento que logo se transforma em ódio, quando, profusamente, vê o gato pular do guarda-roupa e cair-lhe em cima da cama.
Numa agilidade humilhante, o animal parece debochar dele, os olhos satanicamente piscando com ironia.
O ex-tipógrafo, ainda atordoado, procura, ansioso, ver o seu quadro. Adianta-se e, com sofreguidão, vai de encontro ao seu odiado inimigo que pulara diante dele. O velho solta uma imprecação de desespero, enquanto suas mãos agitam-se no ar, tentando, em vão, agarrar-se a algo. Não obtendo o equilíbrio e, ante a iminência da queda, volta a olhar a parede em busca, de ali, ver o quadro, para ele, de valor inestimável.
Mas, o tombo foi desastrado. O homem bateu feio com a testa na cadeira, indo rolar, gemendo, no piso da sala.
Choramingando baixinho, leva a mão ao rosto, pressentindo que estava ferido. E, com dedos trêmulos, apalpa dolorosamente os fragmentos estilhaçados dos óculos, que alçara à testa, minutos atrás.

segunda-feira, 1 de março de 2010

RASGANDO A FANTASIA - Heloísa Barros Leal


QUERIDA RAQUEL

smileys falando


Hoje, ao acordar após mais uma noite de insônia e da nossa conversa sobre as nossas vidas, as nossas escolhas, algo adormecido, lá no fundo, também despertou. Foi então que constatei, querida amiga, que tenho vivido todos esses longos anos num espetacular baile de carnaval, cercada de vultos fantasiados e mascarados, representando cada um deles os meus desejos ocultos e todas as minhas mais loucas fantasias. O pior foi a conscientização tardia de que eu mesma, na minha louca imaginação corroída pelo romantismo, patrocinei com fantasias este baile.
Aos poucos, ainda meio sonolenta, vejo através das máscaras as minhas fantasmagóricas ilusões circulando freneticamente ao meu redor, na forma de figuras carnavalescas, derramando sobre mim as mais variadas iguarias, enquanto ouço o tilintar de taças de vinho sobre a minha cabeça como numa festa de BACO, num último brinde à minha estupidez...
O que se pode fazer quando se chega ao patamar da vida e se depara com a certeza de que viveu mergulhada num mar de fantasia, mentindo para si mesma e se convencendo de alguma coisa que só existia na sua tresloucada cabeça? E que essa constatação começa a lhe corroer e a destruir tudo aquilo em que passou, a maior parte da vida, acreditando, regando e, acima de tudo, cultivando? O que faria você? O que faria?
Grito, aos quatro ventos, buscando ansiosa uma resposta que me conforte, que me dê forças para terminar minha jornada sem tanta amargura, mas não encontro resposta ao meu pedido de socorro.
Em principio, achei que as pessoas não sabiam ser solidárias e não estavam nem aí para se comoverem com a dor dos outros. Radical demais! Depois, outro pensamento me ocorreu. Não seria por que, como eu, elas se faziam a mesma pergunta? Passaram ou estariam passando pelos mesmos problemas que eu e, também, se perguntavam a mesma coisa e não tinham resposta? Quem sabe?!
Mas, hoje, depois de todas estas reflexões, resolvi num ato heróico terminar este baile, rasgando minha fantasia. Tenho certeza de que outros bailes virão, que vestirei outra fantasia, mergulharei em um outro sonho, pois não conseguiria viver sem sonhar, sem fantasiar, já que isso enche de colorido as nossas vidas. Não tenho certeza absoluta, já que é muito tênue a linha que separa o real do imaginário, mas procurarei, da próxima vez, ter mais cautela na organização do meu futuro baile, e me fantasiarei de EVA. Assim não há perigo de, mais uma vez, rasgar a fantasia.

Com carinho,

Maria Eduarda

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

CONVERSANDO COM NATÉRCIA CAMPOS - Maria Amélia Barros Leal



Você, amiga, nos transmitiu singulares emoções nos mistérios daquela Casa, plena de tramas e sutilezas, revelando no romance a sua inteligência iluminada. No caminho das águas, mergulhei com paixão, flutuando sob uma sensação de aventura, vivendo os segredos inspirados pelo Conde italiano Ermanno de Stradelli em você, a filha do contista Moreira Campos, que fisicamente parecia frágil, mas, na realidade, possuía o poder de captar o íntimo dos sentimentos humanos.
Se você, no fim da viagem, ficou "à mercê de dois mundos, o imaginário e o real, procurando equilibrar a vida e os sonhos", é porque herdou de seu pai o poder mágico das concepções literárias, e de seu avô Julio Alcides, não só um binóculo de alcance, mas uma visão aguda e penetrante da selva Amazônica.
Embevecida pela descrição das paisagens, acompanho os seus olhos deslumbrados, fixos no CRUZEIRO DO SUL, na lua madrinha, no Japu, pássaro de bico vermelho que do sol trouxe o fogo; no Uirapuru, ave canora a que CY, a mãe de todos, pede que não pare de cantar; no Aturiá, comunicação estreita entre rios que recebe dos viajantes uma peça de roupa para abrandar a cólera dos espíritos e, descendo as águas, o Matupã, uma touceira desenraizada das ribanceiras do rio, pequena ilha flutuante, pela qual viajam plantas, pássaros, galhos, flores e garranchos. E, quando um pequeno vapor – o navio gaiola – passa com as redes armadas, você confessa que a imaginação voou intensa e, então, eu relembro o Professor Moreira Campos, profundamente sutil em pressentir e descobrir emoções contidas.
Com sensibilidade, você nos apresenta os Matis, que são os curandeiros, mestres na aplicação do curare e a cerimônia do Marake, deveras impressionante, porque os meninos que penetrarão no mundo dos adultos, sentem, em silêncio, as ferroadas das tocandeiras, as formigas de fogo.
Juruparu, o deus e demônio das florestas, exclui as mulheres do ritual, não permitindo que ouçam o som da trombeta da paixiúba. E eu me interrogo: por que a proibição? Seria medo de que a sedução feminina pudesse arrefecer o ânimo dos adolescentes?
Profundo mistério, insondável premonição, envolvida na exaltação do espírito...
A chegada a Parintins em 3l de dezembro de 2000, numa atmosfera de beleza indescritível, e os expressivos versos de seu amigo e poeta Dr.Wellington Alves deram-me a certeza, de que a viagem fantástica foi real e, quando "a esperança de um feliz ano novo tornou-se a sua companhia, a referência aos amigos que são preciosos e imprescindíveis como o ar, a água, o sol e os sonhos" me emocionaram tão profundamente que me imaginei naquele navio, usufruindo as nuances e os segredos, sentindo o vigor da natureza, decifrando lendas como você o fez, filha de um homem predestinado e de uma mãe muito amada, encantando-se com a pujança da natureza, vendo de perto a sumameira, ouvindo os gritos longos do Curupira e "achando divino não haver por perto alguém para silenciá-lo com um pilão".
E os botos? Os golfinhos sedutores? O delfim, a taboca Arapari, o Mapinguari, que no folclore amazônico é um gigante semelhante ao homem, porém coberto de pêlos?
Os gritos da ave agoureira, Urutau, a mãe da lua que chora quando ela surge, o tincuã, o pássaro alma-penada, o Matintapereira e o Japim que arremeda os pássaros?
No Rio Negro, o cacto da lua "cuja flor só abre as pétalas uma vez, em noite de lua cheia, desprendendo um perfume de essência rara e quando o dia nasce, se fecha".
Em toda descrição do universo silvestre, você impregna nas nossas mentes uma mensagem sensível de DEUS na natureza, prodigiosa em lendas e em beleza.
Há um ano, em 3 de Junho de 2.004, você deixou com serenidade o aconchego da família, o grande amor maternal, a literatura, as viagens, os seus livros e fotos, a Academia de Letras e seus mais caros amigos.
Deixou D.Zezé numa mortal saudade, pois, conjugando a falta do José com a da filha amada e companheira, pensou triste, chorou o passado de carinho e o amor sofrido e não teve forças para sobreviver.
Sentindo-se sozinho, o coração, pelos grilhões da amargura infinda, rompeu a pulsação da vida.
Para nós, você continua nas "Iluminuras", nas histórias daquela casa cheia de amores, de frustrações e de desencontros, nos contos publicados, no relato da viagem a Portugal e Espanha, no discurso poético e perfeito da posse na Academia Cearense de Letras e, finalmente, no "Caminho das águas'', milionário do verde império da Amazônia e dos sentimentos dos amigos que partilharam as emoções da aventura de garra e poesia.
Sentindo a sua presença, e inspirada na luz da FÉ, eu diviso o pai, a filha e a mãe, juntos na Eternidade, testemunhando o pensamento do grande Mário Quintana: "O amor é quando a alma muda de casa".

(Policromias - 5º volume)

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A CRÔNICA DE RUBEM BRAGA - Zenaide Marçal


Muitas obras literárias, mesmo algumas obras-primas, passaram pela publicação em jornal antes de serem impressas em livro. Podemos citar, entre os autores brasileiros, Machado de Assis, com Memórias Póstumas de Brás Cubas; Graciliano Ramos, com Vidas Secas; Raul Pompéia, com O Ateneu, entre outros.
Assim é a obra de Rubem Braga. Considerado com justiça o maior cronista brasileiro da sua época, suas crônicas sempre tiveram lugar de destaque em grandes jornais e revistas do Brasil. Antes dele a crônica era um gênero pouco valorizado, pelo caráter efêmero da crônica jornalística, mas ele conseguiu dar-lhe o sentido de permanência literária com a sua prosa de admirável simplicidade e de considerável teor poético. A Poesia se faz presente a todo instante nas suas narrativas claras, envolventes, bem-humoradas, e informativas quando o assunto o exige. Assim, veio a ser o único escritor a conquistar um lugar definitivo na nossa literatura, unicamente como cronista.
Manuel Bandeira foi o primeiro a reconhecer, em Rubem Braga, o dom da prosa com originalidade e o incluiu na sua “Antologia dos Poetas Bissextos Contemporâneos”.
Nasceu Rubem Braga em Cachoeiro do Itapemirim no dia 12 de janeiro de 1913. Seu pai, Francisco Carvalho Braga, foi o primeiro prefeito da cidade. Formou-se em Direito em Belo Horizonte, mas nunca exerceu a advocacia. Ainda estudante, iniciou-se no jornalismo cuja profissão o absorveu e na qual obteve muito êxito. Foi cronista, repórter e comentarista político no Brasil e no exterior, como enviado de diversos jornais brasileiros.
Quando correspondente do Diário Carioca, acompanhou a Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial. Escreveu “in loco” crônicas cheias do realismo brutal da guerra e o fez com tal fidelidade que, lendo-as, somos transportados à Itália, ao meio dos combates; somos levados a partilhar não só a sua indignação com as atrocidades da guerra, mas também a sua piedade pelo sofrimento dos jovens e das suas famílias. Essas crônicas estão reunidas no seu livro intitulado Crônicas da Guerra na Itália.
Durante o ano de 1950, viveu em Paris; em 1955, chefiou o Escritório Comercial do Brasil em Santiago do Chile; de 1961 a 1963, foi Embaixador do Brasil no Marrocos, para citar apenas alguns dos importantes cargos que ocupou. No entanto, nada fez com que a escrita de Rubem Braga perdesse a leveza e a sensibilidade de sempre.
Na época em que escrevia para um dos jornais do Rio de Janeiro, conseguiu prender a atenção dos seus leitores escrevendo sobre uma borboleta amarela, que voava livremente em pleno movimento da cidade. Levou-os durante três semanas, através da sua crônica semanal, a acompanharem o vôo da borboleta, enriquecendo a narrativa com os mais variados e coerentes comentários relacionados aos lugares por onde ela passava, como vemos neste trecho: “A minha borboleta! Isso, que agora eu disse sem querer, era o que eu sentia naquele instante: a borboleta era minha, como se fosse o meu cão, minha amada de vestido amarelo que tivesse atravessado a rua na minha frente e eu devesse segui-la”.
Sobre um pé de milho, que nasceu por acaso no seu jardim e foi cuidado até pendoar, escreveu: “Há muitas flores belas no mundo, e a flor do milho não será a mais linda. Mas, aquele pendão firme, vertical, beijado pelo vento do mar, veio enriquecer nosso canteirinho vulgar com uma força e uma alegria que fazem bem. Meu pé de milho é um belo gesto da terra!” – e acrescentou com humor: “Eu não sou mais um medíocre homem que vive atrás de uma chata máquina de escrever, sou um rico lavrador da rua Júlio de Castilhos”.
Na verdade, repito, são preciosas as crônicas de Rubem Braga e, segundo Oto Lara Resende, é impossível qualquer análise de prosa em língua portuguesa, ou luso-brasileira, sem o conhecimento da sua obra.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

MEU AMOR IMORTAL - Lise Hortencia




Quero que venhas para mim, agora,
Trazendo-me a alegria do teu jeito.
As flores que plantaste – amor perfeito –
Em mim murcharam quando foste embora.

Quero que venhas para mim, agora,
fazer-me renascer junto a teu peito,
trazer a luz ao meu olhar desfeito,
comigo ver a vida em nova aurora.

A vida que ficou pesada e triste...
Simulando uma paz que não existe,
sorrindo apenas para não chorar,

eu sigo, tal palhaço em picadeiro,
tornando o pranto em riso o dia inteiro,
sem ter idéia aonde te encontrar!

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Machado de Assis e o Preconceito - Ana Maria Nascimento


Entre os vultos importantes
de nossa literatura,
está Machado de Assis,
o “bruxo do Cosme Velho”
como lhe denominou
Carlos Drummond de Andrade.

Esse célebre escritor,
Que, em pouco tempo, tornou-se
um exímio conhecedor
do mundo da ficção,
teve a existência voltada
para insensatas paixões.

E foi nessa trajetória
que conheceu Carolina,
uma jovem portuguesa
com quem pôde desfrutar
as benesses da vitória
de quem vive um pleno amor.

Mas, cedo, a mulher querida
foi para junto do Pai,
e a consternação tamanha
arrebatou-lhe o prazer;
assim, quatro anos mais tarde,
ele também feneceu.

A família portuguesa
de Carolina Novais,
num mesquinho preconceito,
não permitiu que Machado
dormisse seu sono eterno
junto da mulher amada.

Mas esse ato desditoso,
que separou os amantes,
chegou a ser reparado
quando foi feito o traslado
de Carolina e Machado
para a mesma sepultura.

Hoje, próximo da entrada
num espaço reservado
do mausoléu acadêmico,
Machado e sua Carolina,
eternos enamorados,
estão juntos para sempre.

E, na lápide de mármore,
onde seus corpos repousam,
junto ao poema “À Carolina”,
as duas mãos entrelaçadas
denotando o excelso amor
que venceu o preconceito.

Portanto, a literatura
do nosso fértil país,
uníssona, bate palmas
a este vulto da cultura,
consagrado romancista,
grande Machado de Assis!