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domingo, 25 de novembro de 2012

ELIANE BRUM - 12/11/2012 - ÉPOCA


Memória é tanto lembrar quanto esquecer

ELIANE BRUM - 12/11/2012 - ÉPOCA

Em um belo filme sobre a condição humana, um velho descobre-se diante de um dilema que dirá quem ele é e como ama. A escolha que o desafia é também a que nos provoca a cada dia de nossa vida.

Na primeira vez em que assisti à E se vivêssemos todos juntos?, pensei, ao sair do cinema com os olhos mareados e a alma apertada no corpo como uma calça jeans dois números menor: queria tanto escrever sobre esse filme, mas o melhor que posso escrever é só um verbo, conjugado no imperativo, seguido de um ponto de exclamação: “Assistam!”. E escrevi exatamente isso no twitter. Em geral, é o melhor que podemos dizer sobre os filmes de que gostamos, assim como “leiam!” para os livros que nos tornaram outros depois da última página. Mas continuei desassossegada e vi o filme uma segunda vez. Percebi que precisava escrever um pouco mais.

E se vivêssemos todos juntos? (Stéphane Robelin – França/Alemanha) é um filme sobre os últimos anos de quem, graças ao aumento da expectativa de vida, passou dos 70 e poucos. Como disse Jeanne, a personagem de Jane Fonda, ao seguir a ambulância que carregava seu marido para o hospital depois de uma queda: “A gente planeja tudo, mas nunca pensa no que fazer nos últimos anos da vida”. É disso que se trata. O filme fala de algo que precisamos falar mais: sobre envelhecer neste mundo, nesta época. Precisamos falar mais porque a maioria de nós vai viver esse momento. Não é fácil vivê-lo – é uma sorte vivê-lo.

Começamos a nos preparar, como invoca Jeanne, quando nos arriscamos a pensar sobre aquilo que nos inquieta ou inquietará – ou inquieta ou inquietará aqueles que amamos. O cinema já descobriu essa necessidade e, só neste ano, chegaram ao Brasil pelo menos dois filmes que falam explicitamente sobre envelhecer: O exótico Hotel Marigold (John Madden, Reino Unido), que poderia ser bem melhor do que é, e “E se vivêssemos todos juntos?”.

Neste, um grupo de velhos decide viver na mesma casa para enfrentar aquilo que os inquieta – e seguidamente os ameaça. A iniciativa é de um deles, Jean (Guy Bedos), um homem que passou a vida engajado em causas coletivas contra as injustiças sofridas pelos mais fracos. Impedido de seguir para a próxima missão em algum país pobre e distante, porque o seguro se recusa a cobrir gente da sua idade, ele aos poucos descobre que tem uma causa bem perto dele pela qual lutar, que é também uma causa de desamparo.

E se vivêssemos todos juntos? não é um filme para velhos – mas para todos que se interessam pela condição humana. No roteiro, aliás, aqueles que aparecem no lugar de “filhos”, ora perplexos, às vezes distantes, em outras arrogantes na sua certeza sobre o que é melhor para os pais – perdidos sempre – parecem precisar muito assistir a um filme como este.


O filme, que já é muito, muito bonito mesmo, fica ainda melhor com a interpretação impecável de grandes atores, todos eles velhos e, portanto, mais experientes do que nunca. Todos menos um: o único jovem protagonista é o ótimo Daniel Brühl, por quem nos apaixonamos em “Adeus, Lenin”, e que tem no enredo um lugar muito particular. Ele é um estrangeiro não só por ser um alemão na França, mas por ser um jovem em território de velhos: estrangeiro porque só estranhando é possível enxergar. Vale a pena alertar ainda que, ao contrário do que anuncia a classificação, “E se vivêssemos todos juntos?” não é uma comédia. 

(Como já escrevi aqui, eu não chamo velhos de idosos nem velhice de terceira idade ou – argh – melhor idade. Assisti ao filme pela primeira vez na companhia de parte de um grupo de amigos com os quais tenho um pacto desde os 30 e poucos anos: ao envelhecer, moraremos todos juntos em um condomínio que um de nós já batizou, ironicamente, de “O Ocaso Feliz”. Já acertamos mais ou menos a arquitetura, na qual cada casa terá entradas independentes e fundos para um espaço coletivo, de maneira que, se quisermos ficar sozinhos, basta simplesmente passar a chave na porta dos fundos e botar uma placa de “não perturbe”. Mas não conseguimos nos acertar sobre qual cidade – pequena, perto de uma grande – escolheremos para nossos últimos anos. Ao deixar a sala de cinema, tomamos um espumante antes de nos separarmos. Na segunda vez, assisti ao filme com o homem que eu amo e em quem pretendo abotoar casacos de lã na velhice. Quero muito um velho companheiro com casacos de lã abotoados. E espero viver para isso. Quando o filme terminou, choramos abraçados.)

Feita essa antessala, preciso dizer o seguinte: se você não viu o filme e pretende vê-lo, pare por aqui. Embora o que quero dizer use o filme apenas como ponto de partida, não é possível escrever sem contar bastante sobre ele, mais do que qualquer comentário educado permitiria. Há quem não se importe. Pessoalmente, acho que é sempre (muito) melhor ir ao cinema no escuro. Se quiser, volte ao texto depois – e, como estímulo a uma visita à tela grande, coloco o trailer aqui.

Para quem continua comigo: entre as tantas possibilidades de reflexão propostas por esse filme, há uma que me comove mais. Ela fala de memória – e de algo muito importante: memória não é apenas lembrar, é também esquecer.

No filme, Albert (Pierre Richard) luta contra a perda da memória. Ele não sabe se já levou o cachorro para passear ou não. “Se eu não o tivesse levado, ele estaria reclamando, não?”, indaga-se. Para lembrar os acontecimentos recentes, que o cérebro já não registra, Albert usa a palavra escrita. Escreve um diário sentado na poltrona do apartamento que divide com a mulher, estrategicamente postado ao lado de uma janela que dá para os fundos de uma escola infantil. É com um olho no caderno e o outro na janela, na qual espera, com evidente alegria, as crianças saírem para brincar, que ele relata o sabor do vinho que tomou com os amigos, o cardápio do jantar e aquilo que precisa lembrar quando já tiver esquecido no dia seguinte. O diário, a narrativa da vida pela palavra escrita, é o fio que orienta Albert pelos labirintos de um cotidiano no qual o cérebro falha em lembrar do ontem e até mesmo de alguns minutos antes.

A velhice, para Albert, se manifesta primeiro por esses lapsos de memória. Mas logo ele terá de lidar com um dilema mais profundo: o que lembrar, o que esquecer. Sua mulher, Jeanne (Jane Fonda), de quem já falamos lá no início, teve câncer. No começo do filme, testemunhamos quando ela abre os exames na cozinha e descobre que a doença segue com ela e que não terá muito mais tempo de vida. Quanto tempo, nem ela nem ninguém pode saber.

Jeanne toma uma decisão ao rasgar os exames e enfiar os pedaços na lata de lixo. Escolhe, por amor, não contar a Albert da sua condição. Diz a ele que está curada. Quer viver seus últimos dias, semanas, meses sem que ele seja assombrado por sua morte. Sente-se assim menos assombrada por ela – e mais livre para planejar seu enterro, por exemplo, mais livre para escolher o pouco que pode escolher.

Mas, num dia em que Albert está sozinho em casa, o médico bate na porta à procura de Jeanne, que tinha se recusado a fazer a cirurgia proposta e sumido do consultório. Albert descobre naquele momento: 1) que a mulher vai morrer de câncer; 2) que ela decidiu não compartilhar essa informação com ele. É isso que ele registra em seu diário. E mais um pouco: “É um direito dela (viver sem lhe contar que em breve morrerá de câncer)”. No dia seguinte, enquanto espia ansioso pela janela se as crianças já estão vindo para o recreio, ele lê esse trecho no diário e tem um sobressalto.

Mais adiante, Albert e Jeanne já estão vivendo em comunidade quando ele abre – por engano? – o baú que pertence ao seu amigo Claude (Claude Rich). Já não há mais uma janela por onde espiar crianças brincando, mas há outras paisagens humanas e sentimentais. Albert sente-se desterrado, agora não apenas de sua memória, mas também de sua geografia física, na nova casa. Mas o que relembra todos os dias ao ler o diário faz com que compreenda que é preciso encontrar outros parceiros para encerrar a vida. Não os desconhecidos de um asilo de velhos, mas amigos de uma vida inteira. Gente capaz de reconhecer a geografia que é ele.

Claude é um fotógrafo solteirão e sedutor, o número ímpar da pequena comunidade. E Albert lê cartas destinadas a Claude, nas quais descobre que tanto Annie (Geraldine Chaplin) quanto Jeanne tiveram tórridos casos extraconjugais com o melhor amigo, 40 anos atrás. Albert registra sua descoberta na carta ininterrupta que escreve para si mesmo. E, ao reler o diário a cada manhã, relembra a traição que pode colocar em risco o delicado equilíbrio daquela comunidade construída sobre afeto, solidariedade e a necessidade de unir forças contra um mundo hostil à velhice.

Albert depara-se com uma questão muito mais profunda do que os esquecimentos involuntários causados pela velhice. Ele precisa agora enfrentar a memória como escolha. A cada manhã, ele sobressalta-se primeiro com a notícia de que a mulher tem um câncer que a levará à morte próxima. Em seguida, com a descoberta de que ela o traiu com o melhor amigo 40 anos atrás. O que fazer agora que a velhice lhe deu a possibilidade de escolher o que lembrar e o que esquecer?

A escolha de Albert é um ato completo de amor. Ele decide sofrer a cada dia – e dia após dia – o impacto da notícia de que Jeanne tem um câncer e que vai morrer em breve. Apesar de ser talvez a notícia mais brutal de uma existência inteira, é a forma que ele encontra de estar com ela, de não deixá-la sozinha nesse momento, de viver essa dor junto com a mulher que ama, mesmo que ela nunca saiba disso. Escolher lembrar quando podia simplesmente esquecer é a forma que Albert encontra de amar Jeanne mais e melhor – até o fim.

Se escolhe lembrar a doença e a morte de Jeanne, Albert escolhe esquecer a traição de Jeanne. Depois de dar muitas voltas na casa e em si mesmo, ele rasga a página do diário na qual relata a descoberta, a amassa e a guarda no bolso. Antes, porém, conta a Jean que ele também tinha sido traído pela própria mulher e pelo melhor amigo. Assim, Albert lega a Jean uma memória que o amigo pode superar, mas não esquecer. Albert pode ter feito isso tanto por sentimento de lealdade quanto pelo sentimento de vingança, na medida em que o temperamento explosivo de Jean é bem conhecido. Ou ainda por acreditar que Jean tem o direito de decidir por si mesmo como quer lidar com essa memória. Mas ele, Albert, escolhe esquecer. E este, ainda que de uma forma mais tortuosa, é um ato de amor tanto pela mulher quanto pelo amigo.

Viver, não apenas para os velhos, é uma constante escolha entre o que lembrar e o que esquecer. Ainda que para isso a maioria de nós tenha de travar um embate feroz com seus fantasmas antes de conseguir arrancar uma página espinhosa. Alguns envenenam a própria vida ao fixar-se numa lembrança mais letal que cianureto, condenando-se a um eterno presente congelado, o que é um tipo de morte. E outros perdem essa mesma vida ao transformá-la na fuga incessante de algo que só poderão esquecer se primeiro tiverem lembrado e enfrentado como lembrança.

Ainda que nossas escolhas em torno da memória sejam não mais difíceis do que a de Albert, mas seguramente mais demoradas, nossa existência é determinada por elas. Tanto na esfera pessoal quanto na pública. É uma escolha na esfera pública a decisão de o que fazer com a memória que está em jogo na Comissão Nacional da Verdade, por exemplo, ao apurar os crimes da ditadura. E nesta, em minha opinião, é preciso lembrar – com todas as consequências implicadas nesse gesto – para que o país possa seguir adiante.

Assim como é uma escolha na esfera pessoal o lugar e o tamanho que cada um dá a uma determinada experiência nos muitos mal entendidos entre pais e filhos. É por preferir seguir lembrando uma ausência, uma humilhação ou um equívoco, dia após dia como se fosse o primeiro, em vez de lidar, transformar em marca e então esquecer – ou pelo menos dar à experiência um lugar e um tamanho mais compatíveis com o movimento da vida – que muitos chegam ao amanhã apenas no calendário, mas morrem com as unhas cravadas no ontem.

Como nos mostra Albert, escolher o que lembrar e o que esquecer é também um ato de amor. E nunca é um ato fácil, como não é fácil o amor.

É também um ato de amor a magistral cena final desse filme. E esta eu não vou contar mesmo para quem já viu. Nela, Albert faz, mais uma vez, uma escolha profunda em torno da memória. E são os amigos que provam saber amar ao não apenas acolherem, mas embarcarem na sua escolha. Fazem isso porque compreendem que a vida contém proporções talvez equivalentes de realidade e de delírio, mesmo quando a gente finge não saber disso. E que amar é, às vezes, lembrar de esquecer.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

EVAN BESSA LANÇA LIVRO NA BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO

Dia 12 de novembro, no stand da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, A AJEB se fez presente, no espaço "NATÉRCIA CAMPOS", para prestigiar o lançamento do livro de Evan Bessa.
Giselda Medeiros fez a apresentação do livro "Estação Outonal". Tereza Porto, Zenaide Marçal, dentre outras ajebianas leram poemas do livro. Maria Luísa Bomfim leu a apreciação que havia feito sobre a poesia de Evan Bessa.
Foi um final de tarde muito prazeroso, regadp à amizade e à poesia.
A Família de Evan fez-se presente e, juntamente com os amigos, favoreceu um clima de descontração e de muita alegria.
Parabéns, Evan, por mais uma obra lançada. A AJEB orgulha-se de ter você como parte ativa, viva e trabalhadora em prol da "perenidade do pensamento pela palavra".

EIS ALGUNS REGISTROS DESSE MOMENTO

O LIVRO
A AUTORA ENTRE TEREZA PORTO E NIRVANDA MEDEIROS
A HORA DA APRESENTAÇÃO
AS AJEBIANAS: ZENAIDE MARÇAL, EVAN BESSA, GISELDA MEDEIROS E MARIA DO CARMO FONTENELLE

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Para seu deleite, uma TROVA de ZENAIDE MARÇAL


Apresentação do livro – ASAS AO VENTO - Do Escritor SILVIO DOS SANTOS


    
       Embora o nosso estimado Escritor Silvio dos Santos seja bastante conhecido pela maioria dos presentes, faço aqui a leitura do seu Currículo, resumido porque cresce a cada instante, à medida de sua participação ativa no nosso meio literário. Além do mais, trata-se de Artista Plástico laureado, inclusive, com Medalha de Ouro em Salão Nacional.
     Silvio dos Santos Filho é natural de Manaus-AM e está radicado no Ceará desde 1989. É Jornalista – formado pela Universidade Federal do Amazonas – e licenciado em Língua Portuguesa pela Univ. Estadual do Ceará. Membro da Almece – Academia  de Letras dos Municípios do Estado do Ceará; Sócio Colaborador da AJEB – Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil – Coord. do Ceará;  integrante do Movimento Cultural Terça-Feira em Prosa e Verso. Publicou: Pelos Caminhos da Memória – Crônicas; Pedaços de Vida – Romance; Limite Extremo – também romance; Chão e Pegadas – Crônicas; tem textos publicados em diversas coletâneas.  Premiado em vários concursos na categoria  - Prosa – a saber: 2° Lugar no Café Literário/ Terça Feira em Prosa e Verso – 2001 - e 1° Lugar em 2004; 1° Lugar no III° Concurso Literário Professora Edith Braga e 9° Lugar no Prêmio de Literatura Unifor – Crônica – em 2009.

     No prefácio do livro – Cadeira de Balanço – de Carlos Drummond de Andrade, a Professora e ensaísta Ângela Vaz Leão diz ser ele “ um tímido e que talvez por isto sinta a necessidade de dar explicação ao leitor na Introdução de cada obra de sua autoria”.
     Verifico que o nosso Escritor Silvio dos Santos também justifica cada título de seus livros quando são publicados e poderíamos dizer que ele também sente essa timidez. Mas , se isso é ser tímido, demos vivas à timidez!
     Assim, vejamos: Silvio dos Santos , no seu livro de estréia – Pelos Caminhos da Memória, 2004 – Em Nota Explicativa diz: “Nossa obra reflete o que temos dentro de nós. O produto do nosso trabalho, independentemente da linguagem e da natureza, é nosso retrato interno. (...)  É um passeio pela minha mente, pelo meu coração e pela minha imaginação”.
    Em - Pedaços de Vida – 2005 – Também em - Nota Explicativa - justifica o título e termina com estas palavras: “Pedaços de Vida é, portanto, o resultado do casamento das próprias experiências sociais desse observador, associadas a esses dramas individuais vividos por várias pessoas que circularam à sua volta, etc.”
     Em Limite Extremo – 2008 -  Diz na Introdução: “ Sou apenas um velho sonhador, com sua mania, quase doentia, de querer ver o que está “ por trás do muro”.  Aliás, este pensamento é confirmado nesta trova constante do livro hoje lançado:
                “ Muito cedo eu comecei
                   a pensar no meu futuro.
                  Foi assim que desvendei
                  o que estava atrás do muro”.
     Passemos agora ao seu 4° livro – Chão e Pegadas – 2010 – A título de introdução, usa  a expressão - Simples Curiosidade – Diz: “Pode acreditar: em busca da originalidade, os pés que produziram as marcas, ou pegadas, que aparecem na capa desta obra foram produzidas pelos meus próprios pés”.

    O escritor, professor e filósofo - Rubem Alves -  afirma que “ Só podem se entregar às delícias da contemplação aqueles que fizeram as pazes com a vida  e não se esqueceram dos seus próprios desejos”.
     Silvio dos santos é um ser contemplativo e deixa-nos ver, ao longo de seus escritos, que dedica muito do seu tempo a pensar e a repensar o presente e o futuro, transmitindo aos seus leitores as conclusões obtidas no seu meditar.  Além do mais, como é sabido, todo  pintor  tem um olhar diferenciado sobre as coisas que vê, e nelas sempre encontra algo a mais, fruto de sua aguçada percepção.
     Hoje temos a felicidade de ter em mãos este seu 5° livro - Asas ao Ventoque também traz uma Introdução.  Segundo o Autor,  Asas ao Vento é a expressão da liberdade que gosta de sentir no exercício literário, por ser meio avesso a modelos.  Desculpa-se por, segundo ele, “projetar estas maluquices que me vêm à mente de vez em quando. Os verdadeiros escritores que me desculpem pela ousadia”. Não se preocupe o nosso Escritor, pois Rubem Braga, reconhecidamente um dos maiores cronistas brasileiros, já no seu tempo, dizia: “Cuida o leitor que estou escrevendo bobagens, e é certo. Mas eu sei das bobagens minhas, elas têm enredo íntimo”. Continuando a falar sobre Asas ao Vento , Silvio dos Santos diz: “ Chegou-me qual um pássaro vadio circulando-me a cabeça”; diz ainda: “Este livro é só uma gostosa brincadeira”. Certo! Mas, o que podemos pensar de uma brincadeira que, conforme nos declara o próprio Autor, foi “concebida ao longo de dois anos”?
     Editado pela Gráfica Encaixe – este livro   é dividido em três partes: Crônicas, (onde constam também pequenos contos), Poemas e Trovas.  Nele encontramos o Autor filosofando, como sempre; refletindo sobre vida; a vida que é, aliás, um dos temas recorrentes no conteúdo deste livro. Nele vamos do rio ao mar, do Norte ao Nordeste, em prosa e em versos; em temas sérios ou humorísticos. A infância é outro tema que surge muitas vezes, como nesta trova:
               Eu Jamais vou esquecer
                o meu tempo de criança
                Quanto mais envelhecer,
                mais me apego a essa lembrança.
      A Amazônia, a bela região onde nasceu, é  presente nos temas: rios , nau, canoas , canoeiros, e até barquinhos de ilusão quando diz: “ E lá se vão e lá se vêm os nossos barquinhos de ilusão” -    E mais adiante: “Fica-nos a lição de que nada é para sempre: - nem a subida nem a descida se eternizam; e precisamos estar preparados para as duas”.
       Não posso deixar de comentar a crônica – Saudades Antecipadas– em que Silvio dos Santos revela toda a sua sensibilidade ao falar do Amor que dedica ao pequeno  cajueiro da Praça da Sé. Nessa crônica fica evidente  sua ternura pelas coisas da Natureza. -  Nem todas as pessoas conseguem ver a alma dos inanimados. Felizes aqueles que a vêem! - E, como se não bastasse a beleza  que aí vai expressa, o Autor nos dá uma visão geral dos fatos referentes às situações político-sociais, da parcela do nosso povo que se condensa naquele logradouro,  e que são presenciadas pelo Cajueiro,  tais como: As artimanhas do comércio alternativo na concorrência com o Mercado Central; protestos político-partidários; manifestações estudantís; contravenções noturnas e, até mesmo, pregações em altos brados de líderes religiosos ao microfone, etc.” Em tudo, como acontece em outras passagens do livro, as opiniões abalizadas do Autor.
     O Poeta Paul Valéry afirma: “é preciso ser leve como o pássaro e não como a pluma”. Silvio dos Santos , ao dar título ao seu livro, não pensa na pluma que é apenas levada, sem rumo , sem meta;  pensa em pássaros, em asas. Pensa em Asas ao Vento,  que têm uma direção, um destino definido  que, neste caso, é  espargir a Beleza!
     Por tudo o que foi aqui exposto, os leitores de – Asas ao Vento -  podem calcular quão proveitosos e  agradáveis serão os momentos que dedicarem à sua leitura.     Parabéns ao Autor e aos seus leitores!         Obrigada!
    
                                            Zenaide Braga Marçal – AJEB – CE.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

SILVIO DOS SANTOS LANÇA "ASAS AO VENTO"




PRONUNCIAMENTO DE SILVIO DOS SANTOS FILHO, NO AUDITÓRIO DA ENGEXATA, POR OCASIÃO DO LANÇAMENTO DE SEU LIVRO "ASAS AO VENTO", COM A PRESENÇA DE MUITOS AMIGOS E CONVIDADOS.

Senhoras, senhores, mais uma vez boa noite...!
Bom... Diante de tamanha gentileza, de tanto carinho e de tanta ajuda, minhas palavras não poderiam ser outras, senão de agradecimentos.
Cabe-me agradecer, portanto, mais uma vez...
- Ao irmão e amigo jornalista Vicente Alencar – dirigente de várias entidades culturais em Fortaleza - por ter acreditado em mim desde o começo... E por continuar me impulsionando na direção de um distante reconhecimento que só Deus sabe se virá! Mas o trabalho está sendo feito nessa direção. Cada evento literário que assisto, é como se num banco escolar esteja... Cada linha que escrevo é como se fosse para ganhar um concurso; e como se fosse a minha última ideia a ser grafada...!
- À amiga - professora, escritora, revisora, ex-presidente nacional da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil e acadêmica da nossa casa de expressão literária maior – a Academia Cearense de Letras - Giselda Medeiros... Pelo carinho com que tem burilado os meus escritos, proporcionando-me condições de melhorar cada vez mais... Ainda estou longe do ideal, reconheço, mas o cajado está muito bem apoiado... Sua participação na minha obra, para quem não sabe, vai muito além de uma simples revisão. Todos os meus livros levam a sua chancela...
- À amiga - escritora e ex-presidente da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil, secção do Ceará - Maria Luísa Bomfim que, gentilmente, disponibilizou-me seu conceituado nome, emitindo gentil parecer acerca da presente obra em uma das abas...
- À amiga – escritora, trovadora de ponta das letras alencarinas e, também, ex-presidente da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil – secção do Ceará - Zenaide Braga Marçal... Esta lady que nos honrou com a belíssima apresentação da obra, e que conhece, tanto quanto os demais nominados, tudo o que até hoje publiquei, motivo pelo qual sente-se tão à vontade para falar o que falou, há pouco...
- Ao irmão e amigo Raimundo Ferreira - proprietário da Gráfica Encaixe, responsável direto pela expressão estética deste volume que ornamentam as vossas mãos – pela liberdade nas suas instalações e pela boa vontade “financeira”, para que a obra fosse produzida.
A essas pessoas, neste momento, eu gostaria de manifestar os meus sinceros agradecimentos...!
Senhores... Tenho dito, àqueles que comigo convivem, que sou um sujeito dotado de muita sorte e que Deus tem sido muito bom para comigo. Claras oportunidades de crescimento num clã instalado numa comunidade tão carente, de onde vim... Percepção apurada para extrair ensinamentos e evoluir, ante as dificuldades que tenho enfrentado, desde os meus longínquos tempos de criança... Uma família maravilhosa - constituída por duas filhas, dois genros e dois netos - que tanto orgulho me dá... Acima dela, uma mulher linda e especial– minha esposa Olga Suely, aqui presente – que me apoia nesses saltos ousados que tento realizar e muitas outras coisas que nem haveria tempo para enumerar...
Se Ele não me agraciou com aquele berço de ouro no qual a esmagadora maioria de nós gostaria de ter nascido, reservou-me uma grandiosa riqueza a ser degustada ao longo dos meus anos de vida, aqui representada por tantas pessoas especiais.
Os que já tiveram a honra de saborear momentos como os de agora, sabem, muito bem, do que falo.
Mas Suas coisas são fantásticas...! Quando me falta dinheiro, para concretizar um sonho desses, sobram-me amigos e simpatizantes para compensar tal deficiência – cerca de um terço do embora pequeno, mas para mim, significativo capital investido, já foi compensado através de aquisições antecipadas e os nomes desses amigos aparecem na página de número 121 do livro (com algumas exceções, por motivos administrativos). Quando me falta mais competência, nessa minha predestinação de escrever coisas capazes de sensibilizar os corações daqueles que me leem, daqueles que anseiam por uma simples palavra que fale dos seus ais, das profundezas dos seus corações, borbulham, no meu caminho, pessoas como as anteriormente citadas, para me ajudarem nessa missão...
Dessa vez Ele me jogou à frente pessoas como muitos dos senhores que aqui estão... Os mantenedores desta tão conceituada construtora – a Engexata Engenharia - que, através do seu gerente de vendas – ilustríssimo sr José Rosemberg Feitosa Pires, aqui presente – mas, certamente, com a aquiescência da sua direção administrativa maior, na pessoa do Dr. Ananias Pinheiro Granja, sinalizou-me positiva e gentilmente, para que este evento fosse aqui realizado, sem nenhum centavo me cobrar. Provavelmente, coisas simples para os senhores, mas determinante para mim. Hoje – nesse momento - eu me sinto numa verdadeira reunião de amigos. Quantas vezes na vida, nós desfrutamos de tais privilégios em tais condições... Quantas pessoas, no dia a dia, tem a honra de desfrutar de momentos tão agradáveis...?
O que mais, um sujeito como eu poderia querer?
Nada...!
Como disse, cabe-me, apenas, agradecer a Ele e a todos os senhores - nominados e os ocasionalmente esquecidos – por tais gestos. E ratificar o meu compromisso de dar o meu melhor, cada vez mais.
Do fundo do meu coração, muito obrigado...! Espero não decepcioná-los, com o conteúdo da obra.
Fortaleza-CE, 08 de novembro de 2012
Silvio dos Santos

REJANE COSTA BARROS É DESTAQUE NA TROVA


quinta-feira, 8 de novembro de 2012


NIRVANDA MEDEIROS E SEU INESQUECÍVEL DR. MEDEIROS



PÔR – DO – SOL

O crepúsculo ao entardecer...
                                Quantas recordações nos surpreendem          
Alegria... Tristeza... Renascer...
Também, momentos de orações.

Ah! Que beleza estonteante...
Pôr – do – sol!  Seis da tarde, arrebol.
Fim de tarde, o sol ainda irradiante...
Brilhando sempre na constelação.

Que saudades! Lembranças e paz.
Amores à vista! E começando...
Que afeição, agora me traz

Os dias surpreendentes da vida.
Despertando grande admiração...
Rezando sempre, para estar contigo.

Maria  Nirvanda  Medeiros
15/08/2012

sábado, 20 de outubro de 2012

Blanchard Girão: Uma Canção Invisível


Mário Quintana nos apresenta em seu poema O Mapa os seguintes versos:
“  Quando eu for, um dia desses,
   Poeira ou folha levada
   No vento da madrugada,
   Serei um pouco do nada 
   Invisível, delicioso
   Que faz com que o teu ar
   Pareça mais um olhar,
   Suave mistério amoroso,
   Cidade de meu andar
   (Deste já tão longo andar!)
   E talvez de meu repouso...”

Hoje é um dia diferente, especialmente diferente dos demais, porque temos diante de nós a grande responsabilidade de reverenciar este que foi e continuará sendo a grande expressão do nosso jornalismo, a matéria viva a discorrer os fatos com leveza, a voz plácida e mansa revelando caminhos e abrindo fronteiras.
Blanchard Girão foi, sem dúvida, um homem marcante. Sua presença se fazia extremamente necessária em qualquer ambiente. Sempre foi um homem paciente e soube respeitar todas as opiniões que lhe cercavam.
Num primeiro momento, poderia parecer uma pessoa séria demais, mas a convivência com ele nos fazia perceber que era além de profundamente inteligente, um formador de opinião incondicional, sua arma maior, a comunicação, era seu escudo e a palavra sua espada, a conduzir as atitudes e a empreender a imagem de um homem plácido e positivo.
Em 1964 teve o seu mandato de Deputado Estadual cassado.
Diz-nos o Poeta Juarez Leitão: “E, como não tivesse um dispositivo legal para lhe enquadrar e lhe tomar a delegação do povo, a genuflexa e apavorada Assembleia Legislativa alegou que o nosso elegante e gentil Blanchard Girão era um praticante contumaz da falta de decoro parlamentar, talvez um desbocado, um arauto do baixo calão ou, quem sabe, um menestrel das obscenidades. Nessa mesma lista de acusados de praticar a inconveniência vocabular e moral figuraram outros ilustres deputados que a sociedade conhecia como verdadeiros “varões de Plutarco”. Seus nomes, faço questão de ressaltar nesta apresentação, estão entre os que enchem de dignidade e orgulho a história de nossa terra: Pontes Neto, Aníbal Bonavides, Raimundo Ivan Barroso, Amadeu Arrais, José Fiúza Gomes e Blanchard Girão.
Em dias do mês de junho, do ano de, 2001, a Assembleia Legislativa do Ceará, por iniciativa extremamente lúcida de seu Presidente, Deputado Wellington Landim, reparou esta grande injustiça, este inominável disparate histórico. Ali, de cabelos grisalhos, na seara da maturidade, três daqueles deputados (Blanchard, Amadeu e Fiúza) eram acolhidos para receber as desculpas da Casa do Povo pelo equívoco vergonhoso. Pontes Neto, Aníbal e Raimundo Ivan, infelizmente, só através do remorso das rezas podem ser alcançadas para o pedido de desculpas.”
O Senador Inácio Arruda lembra que Blanchard Girão foi testemunha dos principais acontecimentos da história recente do país, tendo sido protagonista de episódios marcantes na luta pela democratização. Por isso, é que vemos nesse grande escritor uma figura marcante e cheia de encantamento.
Era um homem honrado, que não atacava a honra alheia e mesmo quando os momentos eram acirrados ele se desviava dos infortúnios possíveis que isso pudesse lhe causar. Sua honestidade nunca foi posta em dúvida porque sempre teve a identidade de um ser humano respeitado e íntegro.
José Blanchard Girão Ribeiro, famoso nas lides jornalísticas cearenses, fez vir a lume um livro que intitulou “Dr.Waldemar, O Médico, O Político”, publicado em Fortaleza em abril de 1992, em que traça uma análise sobre a vida e a obra daquele importante homem público cearense, um dos fundadores da Faculdade de Medicina e um político de sucesso, que alcançou o Senado Federal e o Governo do Estado.
O nobre jornalista Blanchard militou na imprensa desde os 14 anos. Iniciou sua carreira na revisão da desaparecida “Gazeta de Notícias” e percorreu as principais redações de jornais cearenses, praticando também Publicidade e atividades no Rádio.
Dirigiu a Rádio Dragão do Mar, a partir da sua fundação, em 1958, até se eleger Deputado Estadual no ano de 1962. Blanchard era advogado, e quando perdeu seu mandato de Deputado passou a praticar a advocacia, muito embora nunca tenha se afastado do jornalismo, escrevendo sem assinar, quando a repressão lhe marcou cerradamente.
Ocupou várias funções junto ao jornalismo: foi revisor, repórter, redator e exerceu função de chefia de setores e o cargo de Editor-Chefe do Jornal O Povo. O imenso jornalista também era formado em Letras, e, com essa sua formação, exerceu por um período, curto diríamos, o magistério. Ocupou o cargo de Superintendente da Televisão Educativa (TVE) e foi Subsecretário de Cultura e Desporto.
Blanchard Girão produziu muitas obras, dentre elas uma muito importante, intitulada: Passageiros do Ontem e do Sempre, livro que nos permite conhecer muitos fatos importantes de resgate de uma história alimentada de recordações.
O poeta Juarez Leitão em noite de prefácio e apresentação da referida obra assim fala sobre Blanchard: “Esta noite estamos mais uma vez diante de BLANCHARD GIRÃO, um homem que tem o tempo como a matéria-prima de sua escritura. O tempo, que outro poeta, Augusto dos Anjos, chamou de ‘este operário da ruína’, nas mãos de Blanchard ganha fulgor e vida, ilumina-se de paixão, solfeja saudades e ardentes emoções, chora e ri, faz-se manhã e noite, canta pesaroso ou frenético com as coisas vivas movimentando-se nas estações da sorte.
... Por isso é imensamente compensador quando percorremos um livro como o que saudamos nesta noite, um livro de relembranças, e nele encontramos o tempo sem mágoas e sem rancores, cheio de luz intensa e altruísmo, das alegrias da infância, do calor da família, da paz serena e doce que as velhas cantigas murmuravam em franco enternecimento”.
A obra de Blanchard resgata cearenses ilustres que “não estão devidamente lembrados pelo povo”, segundo o autor. Esse homem que fala sobre saudade e nos leva a um passeio no céu, despe-nos de todas as vaidades, de todos os absurdos, nos eleva a planos sem limites de imaginação. Semeou benquerenças e se fez grande sem ser soberbo, descortinou-se em vários segmentos da realidade artística, foi muitos em um e percorreu outras estradas ao encontro do amor, achando a sua Cleide, que, como ele mesmo dizia: “Era sua companheira leal e solidária”. Tiveram quatro filhos: Luís Carlos, Ana Veruska, Marta Vanessa e Blanchard Filho, os frutos bem produzidos desse amor que foi seu sustentáculo.
Foi ao longo de sua vida recompondo seus pedaços e nos permitindo essa convivência saudável e amiga. Sua inteligência nos provocava admirações e agradáveis devaneios. Suas histórias nos permitiam viagens fantásticas. Só a mão encantada de um jornalista de seu porte poderia mesmo nos emprestar ao longo da vida, outras vidas para que nelas pudéssemos frutificar as nossas histórias, revisar nossa saudade, construir nossos edifícios e restaurar as pontes destruídas.
O Livro, Passageiros do Ontem e do Sempre é uma obra de arte criada por seu escultor que foi ao longo de um tempo guardando boa argamassa para o preparo dessa que seria sua grande construção.
Este livro é um documento vivo de fatos marcantes de nossa história, sobre essa cidade encantada que ele viu se transformar e conseguir cores novas, sobre essa Fortaleza mágica, Noiva do Sol, brava e de filhos valentes, essa cidade esplendidamente poetizada pela admiração do nosso Blanchard Girão.
Dividiu os capítulos deste livro com as lembranças e suas saudades. Relembrou amigos e episódios em destaque vivo em sua memória.

Muitas vezes deve ter regado seus relatos com as lágrimas que o acompanharam nesses saudosos golpes. O próprio autor explicando o livro em certa altura nos esclarece: “O livro é, pois, uma viagem através desse roteiro na companhia de fulgurantes personalidades, a quem procuro louvar e enaltecer, trazendo-as de volta à cena por meio de episódios de que fui testemunha e, em alguns casos, participante. Trabalho que debito às folhas da memória desgastada e à carência de um arquivo que pudesse ter preservado tudo o quanto, por mais de meio século, pude acompanhar mais ou menos de perto. Vale, contudo, como um projeto inicial, que fica no aguardo de conclusão de minha parte ou de alguém mais capacitado a registrar os fatos e os atores deste Século XX de tantas transformações e conquistas”.
Esta obra de Blanchard Girão poderia ter sido um escrito amargo, lacrimoso, de sofrimento moral, de remorsos. Por certo, não lhe faltariam razões, mas ele com sua inteligência peculiar resolveu fazer deste depoimento um ato de gratidão, e conosco repartir suas emoções, suas tristezas e suas alegrias. Tinha um ar melancólico, mas era um ser humano extremamente doce e cauteloso; traduzia sentimentos de alegria, paciência, uma pessoa dessas bem raras de se encontrar.
Li um fato interessante sobre ele, o relato de um acontecimento de 1964, na Faculdade de Direito, que bem reflete a bravura desse jornalista. “Por ocasião da formatura da turma de direito, o único que não poderia estar na solenidade era Blanchard, porque era procurado pela Polícia por causa de seus ideais de liberdade e se opor ao regime que se instalava. Todos os alunos saíram do evento e foram a casa da vizinha em que Blanchard estava escondido e exigiram que ele fosse a solenidade ou a Polícia teria de prender a todos. Blanchard acabou indo à solenidade”.
Dentre os muitos contos infantis que conheço há um que fala de um andarilho que tinha duas mochilas. Numa, ele guardava as pedras que tropeçava e na outra ele guardava as flores que lhe ofereciam perfume.
Quando lhe perguntavam por que as pedras, ele dizia que os tropeços aceleravam a caminhada. Quando lhe perguntavam por que as flores, ele dizia que o perfume atraía para os caminhos mais prazerosos.
No fim da estrada ele se livrou da mochila que pesava e continuou com aquela que tornava mais leve o seu caminhar. Imaginamos que o nosso grande jornalista também carregava suas duas mochilas e nesse seu trajeto, foi se livrando de muitas pedras e guardando muitas flores que lhe perfumaram a vida. Teve por perto aqueles que estavam presentes nas horas em que precisava de um sinal para dar mais um passo.
Lembro-me dele na festa de sessenta anos da Sociedade de Assistência aos Cegos, onde naquela noite lançava o livro “Ensinando a Ver o Mundo” e lembro-me principalmente, de como estava feliz por poder escrever a história daquela Casa. Passara meses pesquisando e nos apresentou àquela noite, um livro maravilhoso, em que minuciosamente relatou episódios marcantes. E com que satisfação desfilou por aqueles jardins exibindo sua cria e dividindo-a com todos os presentes.
Em uma carta de 11 de fevereiro de 1959, escreveu para, a então noiva, Cleide: “Talvez veja o mundo com que sonhei sempre. Mas, meus filhos ou meus netos, tenho certeza, jogarão rosas vermelhas sobre meu túmulo e dirão orgulhosos:     Ele sempre pensou num mundo bom para todos”.
Perdemos em 25 de março do ano de 2007 o talento imenso de Blanchard Girão, sua admirável convivência, sua inteligência plena de lucidez e de leveza. Sua partida entristeceu o mundo jornalístico e intelectual. A cidade ficou órfã e caiu sobre nós um vazio profundo, uma angústia que veio sem aviso. Aquela notícia triste parecia não fazer sentido: mas era a dura face da realidade irreparável. Numa hora ele estava ali, vivo, a sorrir e conversar, a fazer planos de vida e de futuro. Num outro momento, estava morto, tombado sem vida, desmanchado em total sossego e calma.
Ousadia é o que melhor define a atitude histórica do povo cearense. Somos uma gente destemida, uma raça de audazes, pois, como mostra a História, o Ceará não possui a reticência dos parvos, não contorna os desafios nem teme os confrontos.
Sempre achamos um caminho para a meta do horizonte desejado e, se o caminho não existe, nós o inventamos e pelo novo rumo pomos em marcha a nossa criatividade, o nosso talento e essa garra indômita de conquistadores. As fronteiras de nossa ousadia são, sem dúvida, infinitas.
Edmilson Caminha assim falou sobre Blanchard Girão: “Com a morte de Blanchard Girão, desaparecem não apenas o jornalista brilhante, o político sério, o escritor de talento, mas também o ser humano que, pela nobreza espiritual e pela generosidade dos sentimentos, fazia o mundo melhor e a vida mais bela. Homem de imprensa, honrou o jornalismo brasileiro, pela coragem pessoal e pela bravura cívica que o levaram a defender a liberdade e a justiça a que todos os povos têm direito. Mais do que uma simples lembrança, Blanchard nos deixou um legado e um exemplo. Legado de sabedoria, de lucidez e de retidão intelectual, exemplo de cordialidade humana, de solidariedade fraterna e de amor ao próximo. Morto, continuará, por isso, a viver na saudade dos amigos e na memória de seu povo”.
Blanchard Girão se foi. Nada, porém, conseguirá substituir essa grande ausência. A dor exerce sem pudor a sua soberania. Porque, quando um escritor morre, todos ficamos mais pobres. Pobres de vida, pobres de cor e som, pobres de símbolos, pobres de luz. Pobres de tudo.
Quem o conheceu sabe que era portador da sublimidade. Os amigos não se negam em proclamar suas altaneiras qualidades humanas. Há neste mundo os que lutam pelo sucesso pessoal e se esforçam para atingir um patamar de conforto e dignidade para si e para a sua família, o que é justo, compreensível e natural. E Blanchard era assim. A morte de um homem que fez tanto por nossa cultura deve ser lastimada pelo Ceará. Ele foi um exemplo incentivador para os jovens, para os que têm vocação e se doam por inteiro no ofício do aprendizado, do conhecimento.
Quando as novas gerações perguntarem quem foi esse homem, a História terá a oportunidade de responder: Blanchard Girão foi um grande jornalista, um excelente escritor, um imenso amigo, um benfeitor do povo!
A história de vida desse homem nos servirá sempre de exemplo, pois este mestre nos ensinou que ser bom e íntegro é essencial. Sua mansuetude e serenidade nos davam lições a cada dia e nos ensinava que saber esperar as transformações do tempo, melhora o ser humano em todos os aspectos.
Blanchard passou a vida semeando o bem. Talentoso e ativamente produtivo merecia ter se assentado numa cadeira da Academia Cearense de Letras. Mas agora, é Patrono da cadeira 40 na Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, ocupada pelo jornalista Marcos André Borges e por certo muito honra a Academia e aos acadêmicos, pois esse grande homem além de excelente profissional foi um ser humano altaneiro que pôs sua inteligência a serviço da honra, da dignidade e da cidadania.
                                                                 MUITO OBRIGADA!!!!!
                                                                                        Rejane Costa Barros
                                                                               16.10.2012

domingo, 14 de outubro de 2012

A TI, PROFESSOR!



Professor, você faz a história

Professor
Em cada projeto arquitetônico,
vejo o primeiro traço impresso no coração do arquiteto.
O arquiteto é obra sua, professor!

Em cada casa construída,
vejo o alicerce que está por trás do engenheiro.
O engenheiro é obra sua, professor!

Em cada correto julgamento,
vejo o senso de justiça implantado na consciência do juiz.
O juiz é obra sua, professor!

Em cada causa defendida
vejo a tramitação do processo
e todo caminho percorrido para tornar esse defensor
um verdadeiro advogado.
O advogado, é obra sua, professor!

Em cada paciente bem atendido,
vejo na face do médico,
a abnegação e a doação de vida a ele dedicado.
O médico é obra sua, professor !

Em cada animal que recebe cuidados especiais,
vejo nas mãos do veterinário
a marca do afeto recebido de você um dia.
O veterinário é obra sua, professor!

Em cada aula ministrada,
vejo, no semblante do mestre,
o reflexo da sua imagem
com toda bagagem e experiência doada.
O mestre é obra sua, professor !

Portanto hoje,
não se comemora apenas o dia de um profissional,
mas comemora-se a esperança, o desenvolvimento.
Porque se trata da célula que emana vida
e origina toda e qualquer profissão.

Parabéns, professor!
Você pode não ser reconhecido.
Mas por você,
passam todo o progresso e grandeza cultural do país.

OBRIGADA, PROFESSOR!!!
Elimary Matias Rodrigues

terça-feira, 2 de outubro de 2012

POEMA DE GISELDA MEDEIROS

Trago junto a mim
o doce lamento
do vento
nas palmas da minha infância.
E o som lúgubre
das cantigas silenciosas
das baladas
junto às rosas.
Trago um mafuá
de sonhos. Mais nada...
e nestes teu nome
a despertar-me em auroras.

domingo, 23 de setembro de 2012

SONETO ALEXANDRINO PARA ZINAH ALEXANDRINO (AUTORA DE SUTILEZAS)

Ó nobre poetisa de mil Sutilezas,
De versos delicados, versos cristalinos,
Que possuem a cor e o sabor das framboesas
Por serem gustativos em seus dons divinos...

Teu Livro nos encerra múltiplas riquezas.
Em cada poema, o amor nos leva a mil caminhos...
Desde o Ágape Amor aos de menor realeza;
Mas, em tudo há calor para embalar os ninhos...

Longo o percurso desse filho temporão,
Que te nasceu por força do Pai da Criação,
E, que hoje, brilha aos olhos de ávidos leitores...

E, para assim dizer sobre os teus dons divinos,
Quis tecer para ti versos alexandrinos,
Em prol desse teu Livro que fala de amores...

Autor: J. Udine – 23-09-2012.

domingo, 16 de setembro de 2012

VICENTE ALENCAR HOMENAGEIA A POETISA ZÊNITH FEITOSA


A MORTE DE SANTA RITA (AS ABELHAS)
Zênith Feitosa

Sussurro de asas. Réquiem toca o sino.
São anjos na capela do Convento...
Rita morre! Belíssimo destino
que se eterniza em Deus, nesse momento!

E as suas "amiguinhas"? - Ah, ferino
é o ferrão da saudade e desalento!
Abelhas , cujo dorso pequenino
não tem ferrão.. que irônico tormento!

Sofrem as abelinhas. Dói a falta
de Rita, amiga desde tenra infância,
e como que enlutadas ficam. Sim!

Brancas, tornam-se negras... Tanto exalta
seu dorso o luto que hão de, em fiel constância,
negras viver nos muros do jardim!



Zênith Feitosa nasceu na cidade de JARDIM, na região do Cariri, em 02 de novembro de 1932.
Se viva estivesse completaria dentro de poucos dias 80 anos.
Fez sua última viagem em 05 de março de 2001.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

CLEUDENE ARAGÃO ENCANTA PLATEIA AJEBIANA

Com sua simpatia, sempre com um sorriso nos lábios, a Escritora Cleudene Aragão deixou sua marca registrada no universo da AJEB, momento no qual, em palestra agradabilíssima, enriqueceu-nos, cantando e decantando "as terras contadas e encantadas de Mia Couto". Foi um passeio pelo mundo subjetivo da obra desse genial homem de letras.
Além do mais, a exposição, uma verdadeira aula de literatura, despertou, na plateia, principalmente, naqueles que ainda não conheciam a obra de Mia Couto, a vontade de lê-lo e peregrinar através das suas bem construídas metáforas, desvendando-lhe os mistérios e sorvendo páginas inteiras de real beleza.
Agradecemos, jubilosamente, à Cleudene Aragão, por esse momento tão rico, proporcionado pela competência, pelos conhecimentos, enfim, pela inteligência da professora, mestre, doutora, ensaísta e escritora e, para nosso gáudio, amiga, Cleudene Aragão.
A seguir, exibiremos o registro desse momento.













segunda-feira, 23 de julho de 2012

CURIOSIDADES LITERÁRIAS

O escritor Wolfgang Von Goethe escrevia em pé. Ele mantinha em sua casa uma escrivaninha alta.
O escritor Pedro Nava parafusava os móveis de sua casa a fim de que ninguém os tirasse do lugar.
Gilberto Freyre nunca manuseou aparelhos eletrônicos. Não sabia ligar sequer uma televisão. Todas as obras foram escritas a bico de pena, como o mais extenso de seus livros, Ordem e Progresso, de 703 páginas.
Euclides da Cunha, Superintendente de Obras Públicas de São Paulo, foi engenheiro responsável pela construção de uma ponte em São José do Rio Pardo (SP). A obra demorou três anos para ficar pronta e, alguns meses depois de inaugurada, a ponte simplesmente ruiu. Ele não se deu por vencido e a reconstruiu. Mas, por via das dúvidas, abandonou a carreira de engenheiro.
Machado de Assis, nosso grande escritor, ultrapassou tanto as barreiras sociais bem como físicas. Machado teve uma infância sofrida pela pobreza e ainda era míope, gago e sofria de epilepsia. Enquanto escrevia Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado foi acometido por uma de suas piores crises intestinais, com  complicações para sua frágil visão. Os médicos recomendaram três meses de descanso em Petrópolis. Sem poder ler nem redigir, ditou grande parte do romance para a esposa, Carolina.
Graciliano Ramos era ateu convicto, mas tinha uma Bíblia na cabeceira só para apreciar os ensinamentos e os elementos de retórica. Por insistência da sogra, casou na igreja com Maria Augusta, católica fervorosa, mas exigiu que a cerimônia ficasse restrita aos pais do casal. No segundo casamento, com Heloísa, evitou transtornos: casou logo no religioso.
 Aluísio de Azevedo tinha o hábito de, antes de escrever seus romances, desenhar e pintar, sobre papelão, as personagens principais mantendo-as em sua mesa de trabalho, enquanto escrevia.
José Lins do Rego era fanático por futebol. Foi diretor do Flamengo, do Rio, e chegou a chefiar a delegação brasileira no Campeonato Sul-Americano, em 1953.

Aos dezessete anos, Carlos Drummond de Andrade foi expulso do Colégio Anchieta, em Nova Friburgo (RJ), depois de um desentendimento com o professor de português. Imitava com perfeição a assinatura dos outros. Falsificou a do chefe durante anos para lhe poupar trabalho. Ninguém notou. Tinha a mania de picotar papel e tecidos. "Se não fizer isso, saio matando gente pela rua". Estraçalhou uma camisa nova em folha do neto. "Experimentei, ficou apertada, achei que tinha comprado o número errado. Mas não se impressione, amanhã lhe dou outra igualzinha."
Numa das viagens a Portugal, Cecília Meireles marcou um encontro com o poeta Fernando Pessoa no café A Brasileira, em Lisboa. Sentou-se ao meio-dia e esperou em vão até as duas horas da tarde. Decepcionada, voltou para o hotel, onde recebeu um livro autografado pelo autor lusitano. Junto com o exemplar, a explicação para o "furo": Fernando Pessoa tinha lido seu horóscopo pela manhã e concluído que não era um bom dia para o encontro.
Érico Veríssimo era quase tão taciturno quanto o filho Luís Fernando, também escritor. Numa viagem de trem a Cruz Alta, Érico fez uma pergunta que o filho respondeu quatro horas depois, quando chegavam à estação final.
Clarice Lispector era solitária e tinha crises de insônia. Ligava para os amigos e dizia coisas perturbadoras. Imprevisível, era comum ser convidada para jantar e ir embora antes de a comida ser servida.
Monteiro Lobato adorava café com farinha de milho, rapadura e içá torrado (a bolinha traseira da formiga tanajura), além de Biotônico Fontoura. "Para ele, era licor", diverte-se Joyce, a neta do escritor.
Também tinha mania de consertar tudo. "Mas para arrumar uma coisa, sempre quebrava outra."
Manuel Bandeira sempre se gabou de um encontro com Machado de Assis, aos dez anos, numa viagem de trem. Puxou conversa: "O senhor gosta de Camões?" Bandeira recitou uma oitava de Os Lusíadas que o mestre não lembrava. Na velhice, confessou: era mentira. Tinha inventado a história para impressionar os amigos. Foi escoteiro dos nove aos treze anos. Nadador do Minas Tênis Clube, ganhou o título de campeão mineiro em 1939, no estilo costas.
Guimarães Rosa, médico recém-formado, trabalhou em lugarejos que não constavam no mapa. Cavalgava a noite inteira para atender a pacientes que viviam em longínquas fazendas. As consultas eram pagas com bolo, pudim, galinha e ovos. Sentia-se culpado quando os pacientes morriam.
Acabou abandonando a profissão. "Não tinha vocação. Quase desmaiava ao ver sangue", conta Agnes, a filha mais nova.
 Mário de Andrade provocava ciúmes no antropólogo Lévi-Strauss porque era muito amigo da mulher dele, Dina. Só depois da morte de Mário, o francês descobriu que se preocupava em vão. O escritor era homossexual.
Vinicius de Moraes, casado com Lila Bosco, no início dos anos 50, morava num minúsculo apartamento em Copacabana. Não tinha geladeira.
Para agüentar o calor, chupava uma bala de hortelã e, em seguida, bebia um copo de água para ter sensação refrescante na boca.
José Lins do Rego foi o primeiro a quebrar as regras na ABL, em 1955.
Em vez de elogiar o antecessor, como de costume, disse que Ataulfo de Paiva não poderia ter ocupado a cadeira por faltar-lhe vocação.
Jorge Amado para autorizar a adaptação de Gabriela para a tevê, impôs que o papel principal fosse dado a Sônia Braga. "Por quê?", perguntavam os jornalistas, Jorge respondeu: "O motivo é simples: nós somos amantes." Ficou todo mundo de boca aberta. O clima ficou mais pesado quando Sônia apareceu. Mas ele se levantou e, muito formal disse: "Muito prazer, encantado." Era piada. Os dois nem se conheciam até então.
O poeta Pablo Neruda colecionava de quase tudo: conchas, navios em miniatura, garrafas e bebidas, máscaras, cachimbos, insetos, quase tudo que lhe dava na cabeça.
Vladimir Maiakóvski tinha o que atualmente chamamos de Transtorno Obsessivo-compulsivo (TOC). O poeta russo tinha mania de limpeza e costumava lavar as mãos diversas vezes ao dia, numa espécie de ritual repetitivo e obsessivo.
A preocupação excessiva com doenças fazia com que o escritor de origem tcheca Franz Kafka usasse roupas leves e só dormisse de janelas abertas – para que o ar circulasse -, mesmo no rigoroso inverno de Praga.
O escritor norte-americano Ernest Hemingway passou boa parte de sua vida tratando de problemas de depressão. Apesar da ajuda especializada, o escritor foi vencido pela tristeza e amargura crônicas. Hemingway deu fim à própria vida com um tiro na cabeça.