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terça-feira, 14 de setembro de 2010

Confira a introdução do "Folha Explica Machado de Assis": por Alfredo Bosi

Machado de Assis é considerado o melhor romancista brasileiro. E, à medida que a sua obra for traduzida para as principais línguas cultas, crescerá a probabilidade de seu nome incluir-se entre os maiores narradores do século 19. A sua estatura ombreia-se com a de alguns contemporâneos que alcançaram renome internacional: Zola, Maupassant, Verga, Eça de Queirós, Thomas Hardy, Henry James, Tchekhov.

Entre nós, o reconhecimento do valor da ficção machadiana já se fez em vida do autor. Os principais críticos literários do seu tempo, Sílvio Romero e José Veríssimo, definiram --negativa e positivamente_- as linhas mestras da fortuna crítica. Um grande escritor, mas menos brasileiro do que seria de desejar: era a avaliação de Sílvio Romero1. Um escritor profundo, introspectivo, universal: era a consagração de Veríssimo, que fecharia a sua História da Literatura Brasileira (1916) com um longo capítulo sobre Machado. Assim, a mesma ênfase na excelência da sua escrita, qualidade que conquistaria o consenso de todos os leitores, dava margem a juízos diferenciados, conforme o critério fosse nacionalista ou estético.

A crítica posterior matizou e afinal corrigiu as avaliações restritivas de Sílvio, mostrando com fartos exemplos a presença do Brasil, sobretudo do Brasil fluminense, escravista e patriarcal, em toda a obra de Machado. Com o tempo, o que o patriotismo romântico achara escasso, o historicismo sociológico passou a considerar como a substância mesma das situações e das personagens construídas pelo romancista.

Convém repensar o problema. Os vários métodos de interpretação do texto ficcional já acumularam suficiente lastro teórico para não se regredir a visões estereotipadas de um dos criadores mais complexos da nossa literatura. A escrita de um grande narrador trava uma luta, às vezes em surdina, com certas vertentes ideológicas e estilísticas do seu meio e do seu tempo: daí ser preciso acompanhar de perto o seu ponto de vista, que não só representa como rearticula, exprime e julga a matéria da sua observação. A fortuna crítica de Machado nos ajuda a rever o mapeamento do seu universo (esfera da mimesis), mas também nos chama para compreender o pathos e o ethos peculiar que lhe deram uma voz inconfundível no coro dos nossos narradores.

Pouco depois da morte de Machado, em 1908, leitores atentos como Alcides Maia e Alfredo Pujol insistiram na presença do humor predominante na segunda fase da sua obra, que se abre nos anos de 1880 com as Memórias Póstumas de Brás Cubas e os contos de Papéis Avulsos. Influências inglesas foram igualmente apontadas por ambos, vindo sempre à baila os nomes de Swift (1667-1745) e Sterne (1713-68). Entretanto, menos do que a procedência européia, interessa notar a vinculação, que se constatou desde o início, do humor machadiano com a sua visão pessimista da História e da Natureza.

Uma leitura de cunho naturalista buscou na vida do autor as causas desse pessimismo: a timidez, a morbidez, certos traços esquizóides, a gagueira, distúrbios oculares, em suma "a doença e constituição de Machado de Assis", título da obra clínica de Peregrino Jr., datada de 1938. Mas, se hoje parece não ter restado nada, ou quase nada, dessas tentativas de etiologia do humor de Machado, ficou, sem dúvida, o reconhecimento da expressão artística de uma difusa melancolia que permeia os enredos e os comentários desenganados do narrador. O que caiu de moda, até segunda ordem, foi a identificação de uma gênese psicossomática desse tom fundamental.

Augusto Meyer e Barreto Filho

A melhor crítica dos decênios de 1930 a 1950 concentrou-se no significado imanente das formas do humor, do tédio e daquele nonsense joco-sério tão entranhado na linguagem da segunda fase de Machado. O que Augusto Meyer e Barreto Filho exploraram nos seus ensaios poderia ser descrito como tentativas de leitura fenomenológica, embora nenhum deles faça praça do método. A caracterização que Augusto Meyer faz do homem subterrâneo é, nesse sentido, exemplar2. Atrás da "pseudo-autobiografia" de Brás Cubas ou do conselheiro Aires, ambos forjadores de memórias, póstumas ou tardias, opera um espírito de dúvida ou negação que relativiza todas as certezas e deita por terra as mais caras ilusões do leitor daquele tempo e do nosso. É essa voz, ou, antes, são os "cochichos do nada", que o crítico-poeta soube escutar e nos transmitir.

Para tanto, forjou conceitos lapidares. Por exemplo, o "perspectivismo arbitrário" de Brás Cubas, matriz do capricho que alinhava bizarramente as confidências do defunto autor. Ou a "atenção divertida e frouxa" que o narrador de Esaú e Jacó dá aos sucessos políticos do fim do Império e do início da República, meros pretextos que bóiam à superfície do texto romanesco. Outros achados: "a necessidade da renovação pelo esquecimento", tema do Memorial de Aires, onde les morts vont vite (vão-se os mortos depressa) e com eles os velhos. Enfim, a ociosidade "como o verdadeiro clima da obra romanesca" nas páginas da maturidade --conceito rico que funde o social e o psicológico, mas que nos faz perguntar por que os pensamentos dos rentistas desocupados dos romances se parecem tanto com as reflexões céticas do próprio Machado de Assis cronista dos anos 1880 e 1890.

Com igual mestria, Augusto Meyer detém-se no trato analítico de personagens e situações, pondo em relevo o cinismo de Brás, "solteirão desabusado", a loucura progressiva de Rubião, a sensualidade coleante de Capitu, a perpétua hesitação de Flora. E, voltando como leitmotiv, aquela "nota monocórdia" do narrador, que intervém com digressões escarninhas ou apenas desconcertantes. Atento aos mínimos movimentos da escrita, Meyer desenhou o mapa interno da mina onde ainda hoje escavam os melhores leitores de Machado.

Em termos de interpretação, a leitura de Barreto Filho vale por ter-se fixado em um núcleo de significados: o espírito trágico que enformaria a obra inteira de Machado, guiando os destinos para a loucura, o absurdo e, no melhor dos casos, a velhice solitária3. A matéria-prima da análise existencial de Barreto Filho é o sentimento do tempo, que suscita indefectivelmente a pergunta sobre o sentido da vida e da morte. Assim, embora seja rica de informações históricas, a Introdução a Machado de Assis acaba situando o roteiro ficcional do autor em um plano metafísico. A mesma tendência já encontrara prenúncios em Afrânio Coutinho, autor de uma Filosofia de Machado de Assis (1940). Não foi essa, porém, a vertente predominante na segunda metade do século 20, quando se buscou dar solidez à figura de um Machado de Assis brasileiro, sensível às contradições de nossa história social.

A Construção De Um Machado Brasileiro

A íntima relação entre o escritor e a sociedade brasileira do seu tempo começou a ser desvendada, como era de esperar, mediante a exploração sistemática da sua biografia. A primeira, e até hoje a melhor de Machado de Assis, foi escrita em 1936, por uma romancista estimável, dotada de singular acuidade psicológica, Lúcia Miguel Pereira4. Embora o seu foco de interesse fosse, em primeiro lugar, o homem Machado com as suas peculiaridades de temperamento e caráter, a biógrafa teve o cuidado de marcar a situação de classe, que, no caso, se configurou como um fenômeno de passagem.

O menino Joaquim Maria nasceu em 1839, em uma quinta no morro do Livramento, de pai mulato (neto de escravos) e mãe vinda ainda criança dos Açores com a família que migrava. Era um casal de agregados que recebia trabalho e proteção de uma rica viúva, dona Maria José de Mendonça Barroso, cujo marido fora senador no Primeiro Reinado. Dona Maria José foi escolhida para madrinha de Joaquim Maria. Aos dez anos, o menino fica órfão de mãe e, aos 15, entra em sua vida a madrasta, Maria Inês, que era mulata como seu pai e que, segundo alguns biógrafos, teria sido uma verdadeira mãe. No entanto, e aqui começa a armar-se o esquema psicossocial de Lúcia Miguel Pereira, nem bem entrado na adolescência, Joaquim Maria sai da chácara e muda-se para a cidade, dando as costas definitivamente à família e ao subúrbio onde até então vivera como dependente.

O rapazinho iria superar, pelo talento e pelo mérito de um esforço ininterrupto, a barreira da classe social a que suas origens humildes poderiam tê-lo relegado. Mas não se cortam impunemente os laços com o passado: os seus primeiros romances modelariam personagens determinadas a subir na vida, como Guiomar, em A Mão e a Luva, e Iaiá Garcia, no romance de mesmo nome. A ambição, misturada com um tanto de ingratidão e dureza nas relações familiares, seria racionalizada e, a rigor, justificada pela voz do narrador como necessária à sobrevivência da personagem. Segundo a intérprete, as figuras femininas que lutam obstinadas para vencer naquele contexto patriarcal dos meados do século seriam travestimentos da alma do jovem Machado, que nelas projetaria o drama recalcado da sua própria ascensão social. Daí por diante, hipocrisia, ingratidão e, no limite, traição seriam motivos recorrentes nos seus romances. A dinâmica social se interioriza e se faz psicologia individual. O narrador tem aguda consciência das forças modeladoras do meio. Sem essa consciência, alerta e sofrida, não seria, aliás, possível a formação do humor machadiano, que morde e sopra, levanta a máscara e logo a afivela de novo para subtrair a evidência, mas deixando em pé a suspeita.

A interpretação de Lúcia Miguel Pereira tem o mérito, ainda hoje não excedido, de fundir classe social, posição do indivíduo e estrutura psicológica diferenciada sem inflar nenhum dos componentes dessa tríade, sinal de um equilíbrio de método que a crítica puramente sociológica e o psicologismo não conseguiriam alcançar.

A construção do Machado brasileiro teria uma carreira longa e afortunada. Para os que negavam a presença da natureza tropical no seu cenário fluminense, Roger Bastide, sociólogo dotado de fino tacto literário, compôs um ensaio notável (em 1940) realçando a força das descrições de paisagens em quase todas as suas narrativas. Para os que acusavam Machado de absenteísta ou alheio aos problemas nacionais, Astrojildo Pereira, pioneiro nos estudos marxistas brasileiros, escreveu uma série de textos que comprovam o permanente interesse de Machado pelos assuntos locais, além das suas sempre citáveis afirmações da "unidade nacional" e do "instinto de nacionalidade". O ensaio antológico "Romancista do Segundo Reinado", que é de 1939, acompanha de perto os nexos "entre o labor literário de Machado de Assis e o sentido da evolução política e social do Brasil".


(Folha online)

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

CEARÁ-MIRIM - Berço de Lúcia Helena Pereira (ex-Presidente Nacional e Regional da AJEB)

A MATRIZ DE CEARÁ-MIRIM


A MENINA LÚCIA HELENA E OS PAIS - ÁUREA E ABEL - PARADIGMAS DAS FILHAS!

Sempre que volto à minha Ceará-Mirim, sinto-me renovada, animada, revigorada, como se aquela paisagem verde pudesse me restituir à fonte luminosa da minha infância de felicidade.
Entrei no vale com as mãos cheias de flores. Eram poemas de saudades lembrando, revendo coisas que o tempo não consegue apagar e ensinam, que nos vislumbres do passado, anjos nos cercam e apontam os caminhos que devemos seguir.
Não visitei o vale de manhã cedo, mas, após às 14 horas, onde permaneci por apenas uma hora e quarenta minutos, tempo suficiente para reencontrar o meu mundo imerso na distância, na saudade da saudade, fazendo-me chorar.
Fiz a minha peregrinação de felicidade ao percorrer a cidadezinha que me viu nascer. A nossa casa já não está naquela linda rua da Estação Rodoviária, em seu lugar, o grande e suntuoso estádio esportivo.
Joguei um casto beijo àquele lugar santo e minhas lágrimas traziam o cheiro dos jasmins e dos ricos pés de bogarís do jardim da nossa casa.
Revi, com os olhos do que o tempo apurou no meu espírito, a casa- grande, com seus pesados janelões, e o lindo telhado, com aquelas as duas bocas de jacaré (as bicas), por onde a chuva escoava como fontes borbulhando puras águas.
Estava acompanhada de uma prima muito querida. Enquanto ela saltou do carro e foi tratar com alguém, eu desci e me dirigi àquele espaço sagrado, onde havia sido construída a casa-grande dos meus pais. Meu olhar se iluminou, foi como se eu pudesse ver, através de um cosmorama "mágico", a minha casa de infância, com suas duas salas de frente, o piano de cauda, os dois lustres de cristal, a ceia larga de prata, os móveis, trabalhados... Sugeriu-me aos ouvidos, os passos do meu pai chegando da fazenda e beijando as cinco filhas: Marilene, Gipse (minha irmã que está no céu), Suely e Iara Maria. E sempre que me beijava a fronte, expandia o seu afeto: "minha Lucas"!
Revi, como que por encanto, minha mãe sentada em sua cadeira de balanço, com as mãos ágeis bordando filigranas de amor, ou costurando na velha Singer, ou mesmo na cozinha preparando a saborosa massa para as raivinhas e sequilhos (feitos de goma de mandioca), e outras coisas gostosas (nas quais, jamais encontrei o menor talento). Cheguei a sentir o cheiro dessas guloseimas exalando do grande fogão de alvenaria, com aquele forno em arco, adaptado para aquele tipo de fogão.
Imaginei, por minutos, a figura de minha babá - Regina Dias - fumando cachimbo, às escondidas, e, ao menor ruído, correndo para escondê-lo num buraco do muro do quintal.
Senti, com invejável alegria, o sabor dos finos doces mexidos pela neguinha Cícera, com aqueles seus olhos acatitados e as bolinhas de suor no nariz achatado. Ao mesmo tempo, ecoando como canções de amor, as vozes de Quincas e Lebre, empregados da casa, resmungando ou com suas conversas simplórias, tão inocentes, alargando sorrisos diante da passagem imponente de "Buá" - o trem!
A presença dos meus pais em minha vida foi sempre marcada pelas lições imperecíveis, pelo legado inexpugnável que me deram: a fonte eterna do amor, do recato ao lar, do respeito à condição humana.
Encerro essas linhas que a saudade me fez escrever, desejando ouvir o dobre dos sinos da Matriz de N.Sra. da Conceição, ou a Banda de Música tocando os seus incomparáveis dobrados. Encerro está página de recordações amorosas, como a ouvir o silêncio religioso do meu vale, o meu esconderijo perfeito, onde guardo a eterna paisagem de minha infância iluminada, onde uma criança aparece, com a alma leve e pura,a alma de criança prestes a entrar no templo sagrado da evocação e da poesia, quando sente a proximidade de Deus!

Lúcia Helena Pereira

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A Crônica e os Cronistas - Zenaide Marçal

Vou tentar, num breve espaço de tempo, discorrer sobre estes dois assuntos, os quais são interligados. Iniciarei comentando alguns aspectos da crônica.
O conceito deste gênero literário é bastante variável. Em nota da Editora José Olympio, no livro - Elenco de Cronistas Modernos - encontramos o seguinte comentário: Se “conto é tudo que chamamos conto”, como dizia Mário de Andrade, tal definição se aplica ainda com mais propriedade à crônica moderna brasileira.
Na definição do jornalista Nilson Lage, “A crônica é um texto desenvolvido de forma livre e pessoal, a partir de um acontecimento da atualidade ou situações de permanente interesse humano. É gênero literário que busca ultrapassar, pelo tratamento artístico, o que é racionalmente deduzido dos fatos”.
Sabemos que a crônica apresenta as mesmas características do conto, porém este, tem começo, meio e fim, ao passo que à crônica o que interessa é um ponto central, culminante. Pode-se dizer que tem como qualidade principal ser um trecho curto, normalmente bem mais curto do que o conto, embora, dependa muito do autor a forma de classificá-los.
Assim, verificamos, em determinados autores, contos curtíssimos e, muitas vezes, crônicas um tanto mais longas. Não há, na verdade , um limite exato, que defina a sua classificação. Talvez haja uma sutil diferença na forma da narrativa mas, nem sempre é seguro nos atermos a isto para identificá-la. No normal das vezes ela tem entre duas a quatro páginas, mas isto, também, é plenamente variável. O que realmente importa numa crônica, é que ela, além de curta e leve, seja densa, sintetizando de forma compreensível os assuntos nela tratados.
Normalmente é narrada na primeira pessoa, e deixa clara, ou subentendida, a opinião do próprio cronista, e, se somos seus habituais leitores, chegamos até mesmo a conhecer pontos marcantes de sua personalidade.
Encontramos vários tipos de crônicas, muitas delas jornalísticas, e, por serem noticiosas, com o tempo, perdem mais facilmente o grau de interesse que despertam. Outras, originadas de fatos comuns do nosso dia-a-dia, mesmo que façam parte do trabalho diário, ou semanal, de um jornalista, são de caráter mais duradouro.
A maior parte das crônicas era editada apenas em jornais e revistas, publicações passageiras, e, por isto mesmo, consideradas um gênero efêmero. Atualmente, as crônicas, na sua maioria, têm caráter de permanência e são dignas de fazer parte do patrimônio literário do Brasil.
Seria bom se nós que gostamos de literatura, despertássemos para a riqueza de assuntos que temos para escrever. Quantos acontecimentos interessantes são, vez por outra, presenciados por nós; quantos pensamentos nos vêm de coisas simples que nos cercam, e os deixamos cair no esquecimento, perderem-se no fundo da memória!
Se observarmos os assuntos abordados pelos cronistas, veremos que eles não deixam fugir um fato interessante, por simples que seja, sem gravá-lo nos seus escritos. Senão, vejamos alguns títulos de crônicas: de Milton Dias – Assembléia de Cães, O fim do mundo, A mala; de Raquel de Queiroz – O telefone, Os Bondes, Andorinhas, etc. Assuntos corriqueiros que se tornam peças preciosas para leitura em horas de lazer.
Enquanto a poesia, para escrevê-la, precisamos ter inspiração poética, trazê-la na alma, a prosa, no caso a crônica, pede-nos apenas que a cultivemos através de leituras e de treinamento.
Notamos em algumas delas aflorar a alma poética do escritor, seja ele ou não, poeta declarado.
Na crônica o escritor sente-se à vontade para ir de um comentário a outro, dentro do assunto escolhido, podendo temperá-la com um pouco de humor ou de ironia, sem exageros, para que não fuja à leveza e à densidade por ela requeridas.
Quando lemos um romance, pode acontecer que, por um motivo ou outro, saltemos deliberadamente algumas passagens, de descrição, para chegar logo ao fim, e continuamos a leitura daquela narrativa sem que nos faça falta o trecho que deixamos de ler. Isto se deve ao caráter desse gênero de escrita, o romance, que se prolonga por um número bem maior de páginas. O mesmo não se pode fazer na crônica (nem no conto), porque cada palavra é importante no contexto, pois compensamos o espaço curto por uma forte intensidade de significação.
As crônicas, quando as escrevemos com o devido respeito às suas características, compensam o nosso esforço, sintetizam o nosso pensamento e se nos mostram pequenas, belas e de agradável leitura.
Na revista Ecrire Magazine, n°101 – 1° trimestre de 2008) um articulista diz que a divisa da crônica, como do conto, é a seguinte: Small is beautiful! (Petit c’est beau!); e, aí, compara um romance a um longo jantar, no qual podemos deixar algo no cantinho do prato e , a crônica seria como um sanduiche: não queremos perder uma migalha sequer. Concluindo, tudo o que nela está escrito importa para a compreensão e para a beleza do texto.
A Crônica, amigos, é tudo isto que falei e muito mais! Que o digam os cronistas.

Os cronistas – Antes de lhes falar sobre os cronistas, quero lembrar-lhes a quantidade imensa de escritores que se dedicam à crônica, a começar pelos jornalistas de modo geral. Citarei apenas alguns, na impossibilidade de nomear todos, sem que isto signifique desconhecê-los ou desprestigiá-los. Por falta de espaço, dei preferência aos escritores que têm real destaque no mundo da crônica, uns do cenário nacional e outros que fazem parte, também, da Literatura Cearense.
Entre os mais famosos escritores brasileiros muitos escreveram crônicas, embora tenham-se tornado célebres através dos seus romances, ou de outros gêneros literários. Entre estes estão: Machado de Assis, José de Alencar, Olavo Bilac, Manuel Bandeira e outros.

Alguns cronistas:

Luís Fernando Veríssimo –
Inácio de Loyola Brandão –
Paulo Mendes Campos –
Fernando Sabino – Mineiro, Jornalista, cronista dos mais competentes, suas crônicas são marcadas pelo senso de humor, muitas delas escritas em Londres, onde foi Adido Cultural na Embaixada do Brasil.
Eduardo Campos – Cearense - Jornalista , escritor, teatrólogo, membro da A.C.L. – Os Grandes Espantos; A volta do Inquilino do Passado, além de vários livros de contos.
João Jacques – Jornalista, ACL; ACI e Retórica
Ciro Colares – Cearense - Jornalista, trovador e cronista. – As Moças Não Fogem Mais Com o Circo (crônicas, poemas e trovas) é um dos seus m*livros mais interessantes.
Murilo Martins – Ex-presidente da ACL. Publicou vários livros de cunho científico e, outros, de crônicas: Medicina Meu Amor, e Navegando no Mar da Medicina.
Por falta de espaço de tempo para comentar um pouco mais a obra de cada um, escolhi somente quatro nomes, tarefa difícil no meio de tantos valores e, pelo mesmo motivo, darei apenas alguns traços biográficos de cada um deles.

Raquel de Queiroz- Grande escritora cearense, jornalista, romancista renomada, a primeira mulher a assumir uma cadeira na ABL. Pertenceu, também, à ACL. Publicou alguns livros de crônicas, as quais têm a característica de se confundirem com o conto, pela sua extensão. Nem é preciso dizer o quanto são bem escritas, porque escrever bem é a sua marca registrada. As crônicas de Raquel são, em grande parte, inspiradas em assuntos do sertão nordestino, contêm um forte apelo social, e alguma forma de humor. Sua obra, neste ano em que comemoramos o centenário do seu nascimento, tem sido alvo de muitos estudos e de conferências nas mais diversas instituições literárias. Raquel é um nome que honra a Terra Cearense e que nos envaidece.
Carlos Drumond de Andrade – Nasceu em Itabira, MG e morreu no Rio de Janeiro em 1987. Impossível dizer aqui toda a vida e a obra de Drumond. Ainda adolescente começou a colaborar em jornais e revistas de BH e do Rio. Trabalhou em vários jornais. Foi funcionário público em BH. Em 1934 transferiu-se para o Rio de Janeiro. Escritor laureado recebeu prêmios da Sociedade Felipe d’Oliveira, da U.B.de Escritores e do PEN Clube do Brasil. .
Sua obra é muito ampla e se caracteriza pela excelência da linguagem, elegante e correta. Celebrizou-se, tanto pelo seu trabalho em prosa como pela sua poesia, tendo vasta criação em cada um desses gêneros.
Há humor e ironia nas suas crônicas as quais têm apelação de cunho sócio-político. Drumond chegou mesmo a criar um personagem representativo do cidadão brasileiro comum, suas dificuldades e sua forma de “driblar” a vida, e a quem deu o nome de João Brandão. Um dos seus livros de crônicas se intitula – Os Caminhos de João Brandão. Publicou ainda em crônicas: Os Dias Lindos, A Bolsa e a Vida, Cadeira de Balanço, Poder Ultra Jovem, e outros.
Milton Dias – No seu livro “Entre a Boca da Noite e a Madrugada, ele mesmo se define: “Na verdade, não sou mais do que um cronista que surpreende o cotidiano e o traz para a folha de jornal, de duração tão rápida. Não sou mais do que um sertanejo carregado de lembranças, que amealhou as estórias que ouviu por onde passou e as divide uma vez por semana com o respeitável público: memórias de noites indormidas, luz de sete-estrelo, pancada de mar, caminhos e madrugadas, (...)
Sou enfim simplesmente um cronista, ou se quiserdes, um contador das estórias e vivências que aprendeu por aí”.
Na crônica – Eu, Milton Dias, diz: “Eu gosto: de gente, crepúsculos e madrugadas, mar e montanha, cidade antiga, vinho tinto, viagem, música. Gosto de ler, reler e escrever. Sou perdido por uma boa conversa. Gosto da minha casa, meus cantos, minha rua, minha praça, e tudo o que me cerca. Gosto da solidão, quando a solicito e a detesto se me é imposta.
De amigas e amigos que são muitos estou, felizmente, muito bem abastecido”.
Deste escritor que engrandece o Ceará, direi que foi porfessor de Literatura Francesa da Faculdade de Letras da UFC, foi também, Chefe do Gabinete do reitor Martins Filho. Membro da ACL e do grupo Clã. Colaborador permanente do Suplemento Literário do Jornal O Povo, durante 25 anos. Foi condecorado pelo Governo Francês com a Ordem das Palmas Acadêmicas. Não cabe neste espaço tudo o que poderia ser dito do seu imenso e prestigioso currículo.
Rubem Braga – Cachoeiro do Itapemerim -ES – 1913 – 1990. Ingressou no jornalismo ainda estudante. Cronista, comentarista político e repórter. Trabalhou em diversos jornais em várias capitais brasileiras. Acompanhou a Força Expedicionária Brasileira à Itália, na II Guerra Mundial. Como correspondente de diversos jornais brasileiros fez a cobertura de importantes acontecimentos em vários países. Foi Embaixador do Brasil em Marrocos, Chefe do Escritório Comercial do Brasil em Santiago do Chile. Morou na Europa durante o ano de 1950, sempre como jornalista. Inovou a crônica, elevando-a à categoria de gênero de permanência literária. Conseguiu firmar-se como grande escritor na Literatura brasileira, exclusivamente como cronista. Sua prosa tem admirável simplicidade , com elevado teor poético e muito senso de humor.
Sua obra é bastante rica. Publicou seu primeiro livro – O Conde e o Passarinho – em 1936, e os últimos em 1986 – Crônicas da Guerra na Itália e O verão e as Mulheres. Foram cinquenta anos de publicações, somente de crônicas. Manuel bandeira o incluiu na Antologia de poetas Bissextos Contemporâneos.

Para lhes dar uma visão geral, farei a leitura de pequenos trechos extraídos de crônicas de cada um desses quatro cronistas:

Raquel – Fala de passarinhos:
“De manhã, com escuro, é o trocado da graúna, bem debaixo da janela. Canta cristalino, dobrado e redobrado, como polca de piano, daquelas do tempo da Chiquinha Gonzaga. [...] Na hora da sesta aparece, mas não é todo dia, um sabiá cantador. Vem por ali, senta no cajueiro, solta o canto. Mas assim que a gente se aproxima, embelezada, ele sai para mais longe, nas algarobas; esse tem temperamento e não gosta de estranhos”.
Fala da velhice –“Sim; é o que nos torna velhos, esse passado acumulado. Mas, além do passado, tem a preguiça, aquelas pernas elásticas de 20 anos atrás que hoje protestam quando sobem uma rampa de ladeira. Ou será o fôlego mais curto?”
Fala de amigos – “Respeite os seus amigos. Isso é essencial. Não procure influir neles, governá-los ou corrigi-los. Aceite-os como são. O lindo da amizade é a gente saber que é querida a despeito de todos os nossos defeitos”.
Fala da Morte – “Morrer com dignidade, porque morrer livre das indignidades da última hora é reivindicação minha, já de muitos anos. Em escritos, em conversas, em pedidos à família, venho rogando: não deixem que os médicos atrapalhem a minha morte. Na hora em que ficar desenganada, parem tudo, pelo amor de Deus”.
(...) E depois o repouso na terra velha da fazenda Califórnia, onde os meus já me esperam. Amém.
Na crônica - Pó ao Pó – ela fala de cremação e no final diz: “Joguem as minhas cinzas pelo mundo, porque o mundo todo eu amei; e talvez algum punhadinho seja levado pelo vento até o Ceará”.
Drumond – Fala de animais : Perde o Gato – (de nome Inácio)
“Há tempos, contei de Inácio e de sua convivência. Inácio estava na graça do crescimento, e suas atitudes faziam descobrir um encanto novo no encanto imemorial dos gatos. Mas Inácio desapareceu - e sua falta é mais importante para mim, do que as reformas do ministério. (...) Depois que sumiu Inácio, esses pedaços de casa se desvalorizaram. Falta-lhes a nota grave e macia de Inácio. É extraordinário como o gato “funciona” em uma casa; em silêncio, indiferente, mas adesivo e cheio de personalidade. Se se agravar a mediocridade destas crônicas, os senhores estão avisados: é falta de Inácio”.
Fala de insetos: A barata. Por que este velho tema (chamemo-lo assim) volta sempre à máquina de escrever e daí passa ao jornal e entra na casa de todo mundo? Ha mesmo, até, quem cultive um sentimentozinho de ternura pela barata. Pobre que ela é, desamparada, furtiva, aguardando a noite, o sono dos moradores , para cuidar da vida”.
Fala de saudade: “viver de saudades, é que de jeito nenhum. Lembrança preservada, lá isso é outra coisa”.
Fala de cronista: “Não pretendo fazer aqui a apologia do cronista, em proveito próprio. Reivindico apenas o direito ao espaço descompromissado, onde o jogo não visa ao triunfo, à reputação, à medalha; o jogo esgota-se em si, para recomeçar no dia seguinte, sem obrigação de sequência.”
Fala da Morte –“ A morte não será procurada, nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã”.

Milton Dias – Fala de animais – na crônica Assembléia de Cães.
“Esta noite houve um congresso de cães cá na minha praça - E tudo indica que os participantes não estavam se entendendo muito bem, a tirar pelos latidos indisciplinados e constantes, como se todos quisessem opinar ao mesmo tempo, balburdiando deliberadamente a assembléia”.

( Um gato) “ E respeitador, obediente, tímido, só começava a vida noturna depois de certa hora; então se esgueirava, saía discreto corria ao encontro da bem-amada, uma certa gata preta da vizinhança, de quem falavam muito mal e por quem chegou a passar uma noite fora de casa, contra seus princípios. Foi só esta vez, mas entrou de manhã tão desconfiado, tão humilhado, roçando as paredes, que ninguém ousou fazer-lhe um gesto de repreensão. Ao contrário, todos acharam que o pobre não teve culpa, há de ter sido tudo tentação daquela gata que era de má vida - estava na cara”.
Ainda sobre o gato:
(...) “vendo que sua presença me impedia de tirar o ferrolho, tive uma reação inesperada de distração, como se me dirigisse a uma pessoa humana: pedi licença”.
Fala da Crônica – “A idéia da crônica como um subgênero, gênero espúrio, está totalmente superada, já foi aceita como gênero independente pelos críticos mais recalcitrantes. Não é só escrevendo versos ou contos ou romance, que se pode fazer literatura”.
Fala de estrela: “Abro um instante a janela, consulto o céu: não há uma estrela, fugiram todas, me deixaram no mais completo abandono. Nem posso imitar o poeta que conversou com elas toda a noite, tresloucado amigo”.
Fala de Fortaleza: “Este meu amor a Fortaleza, infinito, incansável, leal e permanente, contraído há tanto tempo, este amor que eu guardo, cultivo e canto muito e sempre, (...) e a que só faltam versos, porque, ai de mim, não sou poeta”.
Fala de tardes de domingo: sei lá quantas tardes de domingo tenho cá nos guardados da memória, quantas sofri, quantas colecionei, são todas tristes, ah são tristes todas, as tardes de domingo, em qualquer lugar do mundo”.
Fala da velhice – “Também não é no espelho do meu quarto que eu vejo a minha idade, naquele inimigo pendurado que eu respeito e evito. (...) na pele, ai, meu Deus, na pele, a marca mais inegável, as rugas fazendo estrada, começando aquela fabricação de papel pergaminho.”
Fala da Morte: “Eu espero viver a vidinha sem mágoa, em paz com Deus e o mundo. Depois descansar à sombra de um pé-de-jambo, que me aguarda no Parque da Paz”.
Rubem Braga – Fala de animais – Refere-se aqui a um cachorro ainda do tempo da casa de seus pais, em Cachoeiro, e que era muito valente: “ Zig – ora direis - não me parece nome de gente mas de cachorro. E direis muito bem, porque Zig era cachorro mesmo. (...) A verdade é que Zig era capaz de abanar o rabo perante qualquer paisano que lhe parecesse simpático (poucos, aliás lhe pareciam) mas a farda lhe despertava os piores instintos. (...) Tão arrebatado na vida pública, Zig era, entretanto, um anjo do lar. Ainda pequeno tomou-se de amizade por uma gata e era coisa de elevar o coração humano ver como aqueles dois bichos dormiam juntos, encostados um ao outro. Um dia, entretanto, a gata compareceu com cinco mimosos gatinhos, o que surpreendeu profundamente Zig.
Ficou muito aborrecido, mas não desprezou a velha amiga e continuou a dormir a seu lado. Os gatinhos então começaram a subir pelo corpo de Zig, a miar interminavelmente.
(...) Quanto à minha mãe, ela sempre teve o cuidado de mandar prender o cachorro domingo pela manhã, quando ia à missa. Algumas vezes, entretanto, o bicho escapava (...) e, em menos de quinze minutos estava entrando na igreja apinhada de gente. Atravessava aquele povo todo até chegar diante do altar-mor, onde oito ou dez velhinhas recebiam, ajoelhadas, a Santa Comunhão. Zig se atrapalhava um pouco - e ia cheirando uma por uma , aquelas velhinhas todas, até acertar com a sua dona. Mais de uma vez uma daquelas boas velhinhas trincou a hóstia, gritou ou saiu a correr assustada, como se o nosso bom cão que a fuçava com o seu enorme focinho úmido, fosse o próprio Cão de fauces a arder. Mas que alegria de Zig quando encontrava, afinal, a sua dona! Latia e abanava o rabo de puro contentamento não a deixava mais”.
Fala do que escreve – “Cuida o leitor que estou escrevendo bobagens, e é certo. Mas eu sei das bobagens minhas, elas têm enredo íntimo”.
Fala da vida – “Meus arquivos, na sua desordem, não revelam apenas a imaginação desordenada e o capricho estranho da minha secretária. Revelam a desarrumação mais profunda, que não é de meus papéis, é de minha vida”.
Fala da mulher – “A natureza da mulher é assim feita não só da estrita carne e da voz, (...) há a substância improvisada de algas, nuvens e brisas; e mais. Um leve murmúrio de estrelas”.
Fala da morte: “Vocês desculpem tocar nesse assunto, mas a verdade é que está morrendo muita gente. Outro dia peguei por acaso num antigo caderninho de endereços que estava no fundo de uma gaveta, comecei a folhear e esfriei: quanto telefone de gente que já morreu!” (...) “o pior é que esse “lado de lá” vai aumentando, e se a gente se demorar muito por aqui acaba falando só”.

Muito mais teria a dizer-lhes e gostaria de convidá-los a descobrir a beleza da crônica, através da leitura de bons cronistas.
Antes de terminar, quero deixar patente a grande admiração , o grande respeito que sinto pelos cronistas, esses escritores que sendo portadores de currículos invejáveis, e tendo o reconhecimento unânime da crítica literária, não perdem a simplicidade.
As suas crônicas têm em comum a forma humanitária com que vêem as pessoas e os animais, e o modo como descobrem o ângulo incomum das coisas comuns, revelando a ternura que abrigam no mais fundo de suas almas.

Zenaide Braga Marçal – AJEB – CE
(Palestra pronunciada na reunião da AJEB, em 17/08/2010)

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

DORME O POETA - Neide Azevedo Lopes


O gato esconde-se no sofá
E o jardim derrama-se em vermelho
A lesma vasculha o muro
E o jornal espalha notícias pela casa
O doce de cereja ferve em desespero
E a solitária xícara pede café
A poeira suja os pés da mesa
E a saudade passeia por cima das horas
Impaciente, a pena salta da gaveta
E o livro tomba em desalento.
O silêncio, junto a ti, também ressona
E a denúncia de uma longa espera
Cai sobre todas as coisas.
Tudo é tão quieto enquanto dormes,
Que ouço o escuro entrando pela porta...
(Teoria dos Afetos)

terça-feira, 10 de agosto de 2010

sábado, 7 de agosto de 2010

SER PAI - José Wagner de Paiva Queiroz Lima




Ser Pai traz em si toda uma Simbologia...

Imagem consciente e inconsciente que trazemos conosco...

Arquétipo que as gerações cuidam em transmitir,

Do amigo que inspira proteção e confiança,

Modelo de exemplo a ser, paradoxalmente,
seguido e questionado,

Amparo compreensivo, amoroso e forte
nos momentos precisos,

Símbolo varão do trabalho honesto e da integridade interior,

Da experiência, da sabedoria, da poesia da Vida,

Da dedicação e persistência, da fé e da esperança...

Dos sonhos acalentados e da luta cotidiana...

Das mãos calejadas e dos cabelos grisalhos...

Do olhar e da mão amiga, do abraço acolhedor...

A Homenagem dos Filhos que hoje também são Pais.

(Psicólogo/Jornalista/escritor)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

ANIVERSÁRIO DE GISELDA




Dia 14 de julho, a AJEB-CE reuniu um grupo de amigos e amigas e familiares de nossa Presidente de Honra, Giselda Medeiros, para comemorar o aniversário dela.
Coube a Ex-Presidente e, agora, 2ª Vice-Presidente Zenaide Marçal proferir a oração de júbilo pela data auspiciosa, a qual vai aqui transcrita.


Muito me honra haver sido uma das indicadas pela Presidente Maria Luisa Bomfim, para dirigir algumas palavras à nossa Presidente de Honra Giselda Medeiros, pelo seu aniversário, hoje, 14 de julho.

Giselda, disse Saramago que “nenhum dia é festivo por já ter nascido assim: seria igualzinho aos outros se não fôssemos nós a fazê-lo diferente”.

Nesse intuito é que estamos aqui reunidos, a fazer deste dia um dia diferente, festivo, pois, assim queremos que seja o dia em que aniversarias e comemoras o dom da Vida; desta vida na qual fazes tão bela e sábia caminhada, embora te digas aprendiz, quando, à pág. 25 do teu livro – Tempo das Esperas – assim te expressas: “ Sou aprendiz da vida / e na minha travessia / busco as estrelas / como guia”. Com essa afirmativa, nos fazes lembrar o saudoso poeta ajebiano José Costa Matos, segundo o qual “a vida não dará presentes. / A plenitude humana / é trabalho de mineração / com galerias cavadas no infinito”.

Assim, querida amiga, acredito que, tendo por guia as estrelas, deves ter feito um excelente trabalho dessa mineração de que nos fala o poeta, porque tens, acumulados, inestimáveis tesouros de conhecimentos e de sabedoria, através dos quais te entregas com devoção a tudo o que fazes e a todos aqueles que amas: a tua família, os que que fazem parte do teu círculo de amizades, e os que têm em comum contigo o gosto pela literatura.

Muitas vezes me pergunto de que forma encontras tempo suficiente para atenderes a tantas solicitações que te são feitas, como correções, prefácios, julgamento de concursos, etc. e para compareceres às reuniões e festas literárias. E, depois de tudo isso, ainda tens o espaço necessário para a criação de teus inspirados poemas e trabalhos em prosa, tudo irrepreensivelmente correto. Assim, nos dás mostras da sensibilidade que abrigas na tua alma e que partilhas conosco, pois, segundo o escritor Newton Gonçalves, no seu livro póstumo – Prosa Dispersa – “A literatura purifica a linguagem para revelar os estados íntimos do espírito, para fazer que os outros participem do que temos dentro de nós”.

Daí vem, por certo, a beleza que pões em tudo o que escreves. Por isso, louvando essa tua virtude de bem saber escrever, não deixo passar a oportunidade de citar Fernando Pessoa, que assim se expressa: “Dizer! Saber dizer! Saber existir pela voz escrita e a imagem intelectual. Tudo isto é quanto a vida vale”.

Que mais direi? Eu que, para falar-te neste momento, tive que recorrer ao que disseram vários escritores? – Decido pelo simples e deixo falar o coração...

Giselda querida, olha em volta de ti e vê, em cada um de nós, aqui presentes, o apreço, o respeito e a benquerença que te dedicamos.

Peço desculpas, mas, como já fiz, anteriomente, em uma das festas comemorativas do teu aniversário, refiro-me, novamente, à forma pela qual um de meus parentes antepassados, do alto da sua sabedoria, costumava abençoar-nos dizendo: Deus te cubra de fortuna! Fortuna, palavra variável e abrangente, cujo significado depende dos sonhos de cada um, valendo ventura, sucesso, boa-sorte, felicidade, sendo que esta última engloba todas as formas do Amor. São estes dons, Giselda, inerentes à fortuna, que , neste teu aniversário, em meu nome e em nome da AJEB, auguro para a tua vida, sob as bênçãos de Deus, nosso Pai.

Parabéns!

Zenaide Marçal
14 de julho de 2010

quinta-feira, 15 de julho de 2010

"O LADO OBSCURO DO AMOR" - ROMANCE DE PEREIRA DE ALBUQUERQUE

LANÇAMENTO

Dia 13 de julho, Pereira de Albuquerque lançou seu romance "O Lado Obscuro do Amor".


Januário Bezerra - o apresentador da obra




A fala do autor



O autor Pereira de Albuquerque ladeado por Haroldo Lyra e Vicente Alencar



Jorge Tufic


Pereira de Albuquerque





Evan Bessa

Zenaide Marçal

Rejane Costa Barros

Pereira de Albuquerque

Maria Luísa Bomfim

Giselda Medeiros




Maria Luísa Bomfim

Giselda Medeiros e Convidadas



Ilnah Soares

Vicente Alencar

Neide Freire

Pereira de Albuquerque

Rosa Firmo

Fco. Clementino Ferreira

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Declaração de Amor à Fortaleza - José Wagner de Paiva Queiroz Lima, 52, psicólogo/jornalista & escritor



Há três décadas que encantado estou
Por ti, Fortaleza bella, imensa e magistral...
Pelas tuas ensoladas e festeiras praias,
Tuas mulheres, musas esculturais e sedutoras,
De grandes profissionais, cientistas, poetas e artistas...
Cidade das Ciências e do Saber Acadêmico,
Metrópole que muitos ajudaram a projetar,
E torná-la marco da cultura nacional...
Gosto de teus shoppings... de teus cinemas...
De tuas praias... de tuas Universidades...
De tua música... e do feitiço das meninas...
Fortaleza, que cheiras a poesia e romances pitorescos,
Com teus luares iluminados e sóis aquecedores
És Paixão eterna a tantos que te conhecem e admiram...
Em ti me aportei.. em ti aterrizei
Como no colo quente e acolhedor da mulher amada...
E aqui fiquei, assim desejoso de ti,
Dos teus olhares... dos teus afagos...
Dos teus abraços...do teu eterno Amor

quarta-feira, 7 de julho de 2010

ACADEMIA PEDRALVA LETRAS E ARTES - Concurso de Crônicas e Trovas


CRÔNICA: TEMA – Raquel de Queiroz (Centenário de Nascimento)

NÍVEL – Nacional.

PRAZO – 15 de outubro de 2010, valendo a data da postagem.

Máximo – 2 trabalhos inéditos por autor.

Premiação: 10 Vencedores
FORMA DE ENVIO – Papel A-4, em duas vias, Times New Roman corpo 14, com pseudônimo.

Junto, pequeno envelope, tendo por fora, o título do trabalho, pseudônimo, e, por dentro, o nome do autor, endereço, e-mail (se tiver), assinatura.

Endereço: Concurso de Crônicas - Academia Pedralva Letras e Artes
A/C Sueli Petrucci
Rua Benedito Queiroz, nº 20 – Bairro Turf-Club
Campos dos Goytacazes – RJ
CEP: 28.024-040

USAR COMO REMETENTE:
Sueli Petrucci
Rua Benedito Queiroz, nº 20 – Bairro Turf-Club
Campos dos Goytacazes – RJ

OBS. 40 linhas no máximo.
Em caso de dúvidas enviem correios eletrônicos para academiapedralva@yahoo.com.br ou academiapedralva@gmail.com ou rpacruche@gmail.com.

II Concurso de Trovas Poeta Antônio Roberto Fernandes

ACADEMIA PEDRALVA LETRAS E ARTES
II Concurso de Trovas Poeta Antônio Roberto Fernandes
(trovas líricas e/ou filosóficas)

TEMA – NOEL ROSA. (centenário de nascimento)

NÍVEL – Nacional.

PRAZO – 30 de novembro de 2010, valendo a data da postagem.

Máximo – três trovas inéditas, por autor.

FORMA DE ENVIO – Sistema de envelopes.

Endereço: II Concurso de Trovas Poeta Antônio Roberto Fernandes
A/C Roberto Pinheiro Acruche
Caixa Postal 123.192
São Francisco de Itabapoana – RJ
CEP: 28.230-000

USAR COMO REMETENTE:
Luiz Otávio
Caixa Postal 123.192
São Francisco de Itabapoana – RJ
CEP: 28.230-000

OBS. É obrigado constar o nome do Tema.

Em caso de dúvidas enviem correios eletrônicos paraacademiapedralva@yahoo.com.br ou academiapedralva@gmail.com ou rpacruche@gmail.com.

O ENEM NO CEARÁ - Marcelo Gurgel


A UECE iniciou, em 27/06/10, o seu segundo vestibular do ano, com a oferta de 1.730 vagas, distribuídas nos “campi” de Fortaleza, Itapipoca, Crateús, Limoeiro do Norte, Iguatu e Quixadá, para as quais há uma concorrência de 6,0 candidatos por vaga.
Diferentemente da UFC e da UVA, que, no começo de 2010, decidiram adotar o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), conduzido pelo INEP/MEC, como a forma única de admissão nessas universidades, e para a qual disponibilizaram todas as suas vagas, extensivas a todo o país, abolindo o tradicional vestibular, por elas aplicados, a UECE resistiu ao assédio federal, mantendo o seu próprio vestibular.
O canto de sedução entoado por dirigentes do MEC, acompanhado de promissoras e tentadoras compensações, não foi suficiente para justificar a adesão ueceana ao ENEM, dobrando-se, assim, aos afagos brasilienses.
A decisão da UECE não foi condicionada a qualquer tipo de barganha ou intento de vender mais caro a sua aderência ao processo seletivo de abrangência nacional. Em que pese fulminar componentes da cultura regional e local, o ENEM ostenta algumas vantagens pedagógicas, do ponto de vista da avaliação, porquanto favorece mais a capacidade de raciocínio do candidato, minimizando os efeitos da memorização, e, com isso, privilegia a competência na interpretação e na solução de problemas reais, resultando em maior poder discriminatório dos testes.
A UECE, tal como a URCA, que também não aderiu ao ENEM, agiram, com absoluta prudência, ao rechaçar uma empreitada de elevado risco, cuja logística, de alta complexidade, pela extensão territorial do Brasil e suas particularidades, revela elos de extrema vulnerabilidade, bastando que um deles se rompa, para quebrar toda a corrente, em cadeia, como aconteceu, no ano pretérito, quando o sigilo da prova foi violado no centro de produção, causando um avultante prejuízo material, financeiro e, sobretudo, moral. Em suma: basta uma canoa, portando provas, virar em um igarapé da Amazônia, para toda a Armada naufragar.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva - Professor titular da UECE
* Publicado In: Jornal O Povo. Fortaleza, 01de julho de 2010. Caderno A (Opinião). p.8.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

SARAMAGO E SUA ESPOSA PILAR DEL RIO


SARAMAGO RECEBE PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA - 1998



SARAMAGO AO RECEBER O PRÊMIO CAMÕES


JOSÉ SARAMAGO, PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA, MORREU HOJE. E AGORA JOSÉ ?!

TRIBUTO DE HOMENAGEM A JOSÉ SARAMAGO

O escritor português José Saramago, Prémio Nobel de Literatura /1998, morreu, hoje, aos 87 anos, em sua casa da ilha espanhola de Lanzarote, nas Canárias, pela manhã, na companhia de sua esposa espanhola, jornalista e tradutora, Pilar Del Rio.
E AGORA JOSÉ ?!... orfãos da tuas tuas novas palavras ficaremos, mas não orfãos da tua imorredoira obra e posições humanistas, cívicas, combativas - qual bravo cavaleiro da Lezíria da Golegã - sempre justas mas cáusticas para os que, na sua "cegueira", não foram capazes de distinguir a mensagem das tuas palavras sábias, dos seus preconceitos (e dogmas) que lhes toldaram a razão de entender o Bem, o Belo e o Justo da vida humana.

José de Sousa Saramago nasceu na aldeia de Azinhaga (Golegã, Ribatejo) no dia 16 de Novembro de 1922. Além de jornalista e escritor, foi desenhador, funcionário da Saúde e da Previdência Social, editor e tradutor.

Publicou o seu primeiro livro, "Terra do Pecado", em 1947, mas a segunda obra só chegou em 1966. A partir de 1976, dedica-se exclusivamente à literatura. Lança, em 1980, "Levantados do Chão" e tem o seu primeiro maior sucesso com "O Memorial do Convento" (1982), que o consagra como um dos maiores autores portugueses, posição confirmada com o lançamento do inventivo "O ano da morte de Ricardo Reis", em que narra os dias finais do heterónimo de um dos pilares da literatura do país, Fernando Pessoa, numa criativa mescla de fatos reais e imaginados.

Saramago era um autor prolífico. Além de romances, publicou diários, contos, peças, crónicas e poemas. Ainda em 2009, lançou mais um livro, "Caim", obra que retoma um personagem bíblico, subvertendo a versão oficial da Igreja Católica, como já fizera em 1991, com o seu "Evangelho segundo Jesus Cristo", causando polémica.
Em 1983, Saramago foi agraciado com o Prémio Camões, o mais importante prémio da literatura de língua portuguesa.

Considerado um dos maiores nomes da literatura contemporânea, Saramago criou um dos universos literários mais pessoais e sólidos do século XX , unindo a actividade de escritor com a de crítico social, pronunciando-se sobre os grandes confrontos políticos da nossa época e denunciando injustiças sociais.

Saramago recebeu o Prémio Nobel de Literatura, em 1998.

Podemos considerar que José Saramago foi um escritor verdadeiramente LOCAL E CÍVICO, porque através das suas obras e posições públicas não só exprimia a problemática regional e nacional, como mergulhava nas grandes inquietações que o mundo do seu tempo atravessa, projectando na sua escrita e intervenções públicas, sempre uma posição cívica de Cidadania Universal, sem deixar de exprimir, por vezes, a sua caústica crítica, para defender uma visão humanista de um futuro que, idealizava, viesse salvar a humanidade. As suas parábolas, às vezes cruas, objectivas e amargas, deixavam, todavia, entrever a solidez dos seus valores e a crença de que é possível um mundo melhor.


Texto e pesquisa de internet
Carlos Morais dos Santos
Cônsul (Lisboa) M.I. Poetas Del Mundo
Escritor-ensaísta, poeta, fotógrafo

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Estaleiro versus Titanzinho - Francisco Pessoa


Fim de tarde melancólico no pontal do Mucuripe... lá em cima, o céu aos poucos se enluta; cá em baixo, maré seca, pequenas ondas tênues pouco encrespadas, teimam em beijar a praia do Titanzinho, como se fora o derradeiro afago.
Uma folha de jornal quase desfeita se abraça a um coral vigilante que veio tomar fôlego na superfície. Eis a chave do mistério para tanta tristeza.
A cada momento seguinte numa suave nuança, a abóbada celeste também lacrimeja piscando estrelas, ao ouvir atentamente os soluços do mar que, desesperado, roga aos deuses do Olimpo pela sobrevivência daquela praia, criatório de talentosos equilibristas de pranchas que hoje surfam na crista da onda em competições internacionais. E não é só disso de que se alimenta a Titanzinho, pois, viveiro de variadas espécimes de peixe, faz-se cardápio para os praianos que vivem em seu derredor.
Nem tudo são flores, no dizer do poeta, na praia do Titanzinho. A nossa sociedade míope enxerga-a como uma zona franca da prostituição, paraíso para os marinheiros sedentos e famintos que arriam âncora em nossos mares. Relegada ao esquecimento, ela tornou-se lembrada por jovens que se aventuram no trágico mundo do tráfico. Existem titãs, paradoxalmente, sem fôrças, que procuram maiusculizar a Titanzinho. São nativos de pele crestada que cheiram a maresia, cujos vagidos se confundem com o roçar do peito das ondas no dorso da praia, ou que nasceram no meio do mar e foram atraídos pelo canto das sereias com a missão de diminuir a dor daquele povo sofrido.
Quão bom é ver e sentir o lado bom da comunidade Serviluz, que busca servir a luz para nossos irmãos que portam óculos escuros em noites trevosas.
1

Sob o teto de um azul já escurecido e o gotear de lágrimas vindo de estrelas chorosas e refulgentes, pois que a lua ausente se fazia, pus-me a meditar naquela noite fria, fitando quase às cegas o lúgubre horizonte.
Eis que me envolve os pés, já desbotada, aquela folha de jornal liberta dos corais, indecisa no seu ir e vir por tantas vezes no alcançar da praia, sem saber que trazia a chave do mistério, do porquê de tanta tristeza naquela praia condenada a desaparecer.
- MORTE ÀS PRANCHAS! VIVA O ESTALEIRO!... Lia-se com dificuldade as letras garrafais embaralhadas na página molhada.
360, Tubo, Cabuloso, Casca grossa, Kaô, Maroleiro, são gritos de guerra que tendem a perder eco naquela praia pequena que se fez grande aos olhos da Transpetro, empresa gerenciada por um cearense que na sua juventude, desfrutou dos distintos sabores que aquele pedaço de chão e mar lhe ofertou.
“ É doce morrer no mar ”... Que esta idéia de estaleiro na Titanzinho pereça sob as ondas que carregam no dorso nossos surfistas campeões. E os paquetes domados por homens de pele crestada e braços fortes sorrirão onda após onda, num duelo saudável entre o jangadeiro e aquele mundão d’água que lhe garante a sobrevivência.
Por um momento submergiu a folha de jornal. Cá, na superfície, flutua a decisão dos nossos governantes: um sim, um não, conforme a maré...
Titanzinho, se morreres, morro contigo!


(Crônica classificada em 10° lugar no Concurso de Literatura UNIFOR 2010)

quarta-feira, 9 de junho de 2010

História de bem-te-vi - Cecília Meireles


Com estas florestas de arranha-céus que vão crescendo, muita gente pensa que passarinho é coisa só de jardim zoológico; e outras até acham que seja apenas antigüidade de museu. Certamente chegaremos lá; mas por enquanto ainda existem bairros afortunados onde haja uma casa, casa que tenha um quintal, quintal que tenha uma árvore. Bom será que essa árvore seja a mangueira. Pois nesse vasto palácio verde podem morar muitos passarinhos.
Os velhos cronistas desta terra encantaram-se com canindés e araras, tuins e sabiás, maracanãs e "querejuás todos azuis de cor finíssima...". Nós esquecemos tudo: quando um poeta fala num pássaro, o leitor pensa que é leitura...
Mas há um passarinho chamado bem-te-vi. Creio que ele está para acabar.
E é pena, pois com esse nome que tem — e que é a sua própria voz — devia estar em todas as repartições e outros lugares, numa elegante gaiola, para no momento oportuno anunciar a sua presença. Seria um sobressalto providencial e sob forma tão inocente e agradável que ninguém se aborreceria.
O que me leva a crer no desaparecimento do bem-te-vi são as mudanças que começo a observar na sua voz. O ano passado, aqui nas mangueiras dos meus simpáticos vizinhos, apareceu um bem-te-vi caprichoso, muito moderno, que se recusava a articular as três sílabas tradicionais do seu nome, limitando-se a gritar: "...te-vi! ...te-vi", com a maior irreverência gramatical. Como dizem que as últimas gerações andam muito rebeldes e novidadeiras achei natural que também os passarinhos estivessem contagiados pelo novo estilo humano.
Logo a seguir, o mesmo passarinho, ou seu filho ou seu irmão — como posso saber, com a folhagem cerrada da mangueira? — animou-se a uma audácia maior Não quis saber das duas sílabas, e começou a gritar apenas daqui, dali, invisível e brincalhão: "...vi! ...vi! ...vi! ..." o que me pareceu divertido, nesta era do twist.
O tempo passou, o bem-te-vi deve ter viajado, talvez seja cosmonauta, talvez tenha voado com o seu team de futebol — que se não há de pensar de bem-te-vis assim progressistas, que rompem com o canto da família e mudam os lemas dos seus brasões? Talvez tenha sido atacado por esses homens que agora saem do mato de repente e disparam sem razão nenhuma no primeiro indivíduo que encontram.
Mas hoje ouvi um bem-te-vi cantar E cantava assim: "Bem-bem-bem...te-vi!" Pensei: "É uma nova escola poética que se eleva da mangueira!..." Depois, o passarinho mudou. E fez: "Bem-te-te-te... vi!" Tornei a refletir: "Deve estar estudando a sua cartilha... Estará soletrando..." E o passarinho: "Bem-bem-bem...te-te-te...vi-vi-vi!"
Os ornitólogos devem saber se isso é caso comum ou raro. Eu jamais tinha ouvido uma coisa assim! Mas as crianças, que sabem mais do que eu, e vão diretas aos assuntos, ouviram, pensaram e disseram: "Que engraçado! Um bem-te-vi gago!"
(É: talvez não seja mesmo exotismo, mas apenas gagueira...)


Texto extraído do livro Escolha o seu sonho;Rio de Janeiro:Record, 2002, pág. 53.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

FAZENDA ALMAS - Argentina Andrade



Ávidos por emoções que nos entremeassem o espírito, flutuando nas asas da satisfação, numa manhã incendiada pelo sol, tomamos nosso carro rumo a Boa Viagem, com destino à fazenda, de nome “Almas”.
Sonhos azuis, plenos de beleza, povoavam nossa mente. As folhas murchas das lembranças tristes pareciam cair para que nós pudéssemos somente colher as flores dos momentos felizes por que iríamos passar.
Pelo percurso, a paisagem descortinava-se diante de nossos olhos. O verde das árvores e do capim tranqüilizava nossas mentes. A jornada, apesar do sol causticante, era amenizada pela aragem que penetrava pela janela do carro. Dentro do nosso ser, algo de estranho apoderava-se invencivelmente... Não sei se pelo nome da fazenda, “Almas”. Mas nós não queríamos nos privar de uns dias alegres, nem perder parte alguma de um desejo legítimo, de desfrutarmos um fim de semana no campo. E o que fizemos foi constatar que a força inquebrantável do saber querer, aliado ao prazer de saborear aquilo que é conseguido quando é legítimo desejo, mostra na mais cristalina forma o inenarrável sabor da vitória.
O sol sorria no horizonte e parecia que zombava de nossa expectativa.
As paisagens um pouco crestadas pelo sol ainda reverdeciam formando, aqui e acolá, tapete de relva por onde a fauna corria livremente, vibrando na faixa de júbilo da natureza. Tudo parecia sonho e encanto. O sol brilhava em êxtase de felicidade, distante das dores do nosso mundo.
O céu azul, os arbustos, as árvores, o campo, nenhuma nuance, nada escapava à visão detalhista, à sensibilidade, como se fôssemos jovens artistas.
Já se aproximava a nossa chegada. A estrada adornava-se de uma vegetação maravilhosa. Ultrapassamos o pórtico de entrada da fazenda. Uma alameda larga cortava a verdura da paisagem, ambas plantadas a espaços regulares; árvores frondosas ofereciam sombra amiga, à maneira de pouso delicioso, na claridade do sol confortador.
Avistamos o casarão imponente e, na fachada, inscrições datadas de 1636. Descemos do carro e, após nos abraçarmos com os anfitriões, breves minutos passaram para que penetrássemos, por vez, o recinto radioso. Flores perfumosas, ornamentando o ambiente, embalsamavam a ampla sala; vagavam no ar suaves melodias.
Após nos alojarmos no quarto e nos refrescarmos com um revigorante banho, deliciamo-nos com uma farta refeição.
Logo que tomamos o saboroso cafezinho, recolhemo-nos à sesta. Ao chegarmos ao quarto e abrir a janela, o perfume dos frutos do pomar e das flores invadiu o aposento. A brisa penetrou pela janela aberta e acariciou-me o rosto. Senti sonolência e logo adormeci em profunda paz.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

ROSAS DA MANHÃ - Giselda Medeiros



Quando vieres
vem de leve
assim como a primeira estrela
que paciente desponta
jogando sua luz
por entre as brumas
consciente da importância
de sua chegada.

Vem com dedos de carícias
silenciosas
com mãos de artista
leves
para que não me doa
o poema que fizeres.
Ou melhor
vem como quiseres.
Estarei aqui
em mim
dentre outras mulheres,
mas a única que te sabe
florir em versos.

Mas vem como a primavera,
sem pressa para voltar,
consciente da beleza das cores
que em mim deixarás
em aveludados olores.

Vem como a tarde
que espera a noite para adormecer.
Quero ver-nos florir
em rosas de alvorada
quando despertarmos manhã.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

FRANCISCO CARVALHO FALA, COM PROPRIEDADE, SOBRE LIVRO DE NEIDE AZEVEDO LOPES


TEORIA DOS AFETOS
Francisco Carvalho

Tenho a impressão de que todos os poetas, com raríssimas exceções, têm semelhanças estilísticas com outros escritores do universo da poesia. Principalmente os que lêem os grandes autores da poesia erudita, dificilmente escapam às influências dessas leituras. Sabido que elas podem ocorrer por mera casualidade, independentemente do conhecimento direto dos autores. No caso específico de Neide Azevedo Lopes, além da influência machadiana referida pelo prefaciador F.S. Nascimento, é lícito supor que ela se haja nutrido, também, de cancioneiros populares e eruditos, como, por exemplo, o do português Antônio Nobre, conhecido pelo seu gênio de autor de canções imortais.
Simples leitor de poesia, quero referir-me ao livro de Neide Azevedo Lopes (Teoria dos Afetos. Expressão Gráfica, 2010, 120p.), o qual vem a público sob os melhores auspícios.
Fiz uma coleta de textos onde a expressão poética se caracteriza pela intensidade. O final do poema da p. 13 é exemplo de boa poesia: “E na encantada escuridão / Do imenso mar do tempo / Dorme tua face plena de mistérios”.
Na página 15, a poesia volta com a mesma força: “E a saudade passeia por cima das horas / Impaciente, a pena salta da gaveta / E o livro tomba em desalento”.
Na página 18, estes versos chamam a atenção do leitor: “Tens nos olhos estrelas esquecidas / Da cor solar do fruto sazonado”.
O poema da página 52 repete, no final de cada estrofe, o verso: “Para escrever meu verso”. Essa repetição é uma forma bastante usada pelos cancioneiros populares para fortalecer uma idéia no contexto do poema.
Na página 53, a autora demonstra certo misticismo neste breve terceto: “Cobre-se tudo / De silêncio e paz / cantam os anjos”.
Na página 60, Neide Azevedo nos brinda com um grande verso, digno das melhores antologias: “Pesa-me o domingo sobre os ombros”. O leitor esteja à vontade para tirar as suas conclusões.
Na página 63, ela nos transmite esta mensagem: “Tua palavra acorda à tua messe / Ao teu som, ao teu sol / à tua prece”.
No poema da página 67, não se repete o verso, mas a rima em “ar”. Essas repetições caracterizam o estilo da autora. Na referida página, a vocação para o cancioneiro volta a surgir: “Marina tem cheiro de menta / Tem boca que inventa / Canções de ninar”.
Num excelente poema da página 75, ela nos comunica uma de suas preferências literárias. Isso acontece numa quadra da melhor invenção poética: “Estou farta de léxico / Ardil redundante / Prefiro a divina / Comédia de Dante”.
Na página 78, dois versos inesquecíveis: “Sou limo, raiz e hera / Porque sou poeta”. Com toda a certeza, limo, raiz e hera são três coisas indispensáveis a um poeta que se preza.
Os leitores de Neide Azevedo precisam ler e decorar o belo poema da página 89. Não vou citar nenhum verso para obrigá-los a ler esta oitava maravilhosa.
Vou encerrar com o poema A Noite (p.100), com a primeira estrofe: “Tenho medo da noite / Usando o pesado manto / Ela traz o vento de açoite / Não quer ouvir o meu pranto”.
Os versos por mim mencionados são os que me tocaram mais profundamente. Muitos outros poderiam ter vindo à cena, pois não lhes falta merecimento para tanto. Neide Azevedo nos oferece seu testemunho poético do que a vida e os fatos lhe têm proporcionado. Seus poemas são documentos fundamentais de uma existência que se enriquece pela palavra. A palavra que traduz o mistério poético. A palavra que se oferta ao leitor como um sinal de protesto ou de esperança. A palavra que se organiza para compreender o significado da interioridade, que aos poucos desmorona. A poesia pode não ser a salvação do homem pela palavra, mas pode ser a palavra que semeia a esperança num mundo melhor. Não esquecer que no terceiro poema do livro (p.15), estão escritos estes versos: “E a denúncia de uma longa espera / Cai sobre todas as coisas”.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

LEIAM E BEBAM A BELEZA DE TEXTO DO PROFESSOR E ACADÊMICO VIANNEY MESQUITA


TEORIA (E PRÁTICA) DOS AFETOS

Em pleno domingo quasímodo (11.04.2010), experimentei o encanto de ler um mimo do Criador, obsequiado à imensa poetisa Neide Azevedo Lopes, logo a mim por ela substabelecido.

A quadra pascal é espiritualmente propícia para se apreciar arte tão edificante, a fim de se teorizar e, jamais, praticar metros e afetos, como procede a autora de Teoria dos Afetos desde o uso da razão, quando sua vida passou a coincidir com uma rima rica.

Neide fez-me lembrar de Sônia Leal Freitas, no Cedro do Éden, monumental obra acerca da qual comentei nas guarnições há uns oito anos.

Na Teoria (e na prática) dos afetos, também quedo pasmado, como a reler o Metal Rosicler, de Cecília Meireles, menos por identidade estilística e mais pelo esplendor vocabular e elevação ideativa, fluência e estro desdobrados, centuplicados a cada elaboração. Nalgumas passagens, Neide, também, mostra similitude com Gabriela Mistral, Nobel de Literatura (1945), no seu Ternura, enquanto noutras estâncias aparece, ainda, com a elevação comovente da Marquesa de Alorna.

Pelo fato de bem o saber, ela emprega, com propriedade e exatidão, os expedientes figurais admissíveis na poesia, aformoseando redundantemente a estesia de suas composições. E assim, tomada por um enlevo anímico, veemência dos escolhidos, achega-se ao Ressuscitado, para o Qual também solicita o leitor a rezar, ao decodificar suas primorosas composições.

Tal como sucede com Sônia, sua originalidade e inspiração multíplice de elaborar representações, conformando-as extraordinariamente à dvlcisonam et canoram lingvam cano, parecem acercá-la de Florbela (de Alma da Conceição) Espanca (Juvenália; Livro das Mágoas).

Também os efeitos imprimidos nas expressões de musicalidade do seu metro fazem-me evocar os botticellis, rafaéis e michellangelos da Capela Sistina, bem assim a expressão da alma nacional galega de Rosalía de Castro, em O Cavaleiro das Botas Azuis.

Neide Azevedo Lopes é um verso de sete ictos do sonetilho a exornar a poética tematicamente múltipla, de formosura inimitável, beleza desigual, diretamente proporcional à magnificência de sua adorável pessoa.
Vianney Mesquita - da Academia Cearense da Língua Portuguesa

quarta-feira, 19 de maio de 2010

REUNIÃO MENSAL DA AJEB - MÊS DE MAIO/2010

A Palestrante Mary Ann Karam


Mary Ann Karam

Rejane Costa Barros

Maria Luísa Bomfim

Cybele Pontes

Giselda Medeiros

























Correspondeu a todas as expectativas a sessão deste mês de maio da AJEB-CE.


Sob a presidência de Maria Luísa Bomfim, a sessão transcorreu num ambiente de alegria, descontração e muita poesia, com a excepcional palestra de Mary Ann Karam, que discorreu, em interação com o auditório, sobre o poder e magia da palavra.









Mary Ann Karam e os filhos


terça-feira, 18 de maio de 2010

CANINDÉ - Vicente Alencar


Canindé,
aos pés de tua abençoada Basílica
repousam as esperanças
dos desafortunados
também filhos de Deus.
Dos esquecidos pelos Governantes,
das vitimas da seca inclemente,
dos que nasceram em hora errada,
dos que vivem sem saber por quê.
Aqueles não sabem
que os problemas seus
são também meus,
são também nossos.

Canindé,
aos pés de tua abençoada Basílica,
soam lamentos,
soam gemidos,
soam preces
dos não lembrados pela sorte.
A reza, a fé, o terço,
a mensagem,
os lábios secos em oração.
Os olhos já doentes
que pedem atenção,
o corpo, coitado, martirizado,
que pede perdão,
sem saber por quê.


Em toda a vastidão da fé,
em todo momento de oração,
São Francisco
faz o que pode e,
com suas bençãos e sua força,
pede a Deus por todos.

domingo, 16 de maio de 2010

Rachel de Queiroz e sua Consciência Político-Social - EVAN BESSA



Cumprimento a Mesa na pessoa do Sr. Presidente da ALMECE, Lima Freitas, e os demais presentes através da colega Francinete Azevedo, acadêmica abnegada e pró-ativa na dinâmica de atividades desta Academia. Quero expressar meus sinceros agradecimentos pelo convite formulado para conversar um pouco sobre a escritora Rachel de Queiroz, da qual teríamos muito a dizer, a respeito de sua extraordinária obra, se não houvesse limite de tempo.

Sabemos que a ALMECE, durante todo o ano de 2010, alusivo ao centenário de nascimento da autora, renderá homenagens nas reuniões ordinárias a essa cearense que tanto nos enche de orgulho. Assim sendo, escolhi apenas um aspecto relevante de sua vida para falar aos amigos almeceanos. O tema a ser discorrido é: Rachel de Queiroz e sua Consciência Político-Social.
Inicio com um pensamento da autora que diz: “Sou pela liberdade. Pelas concessões ideológicas. Eu acho que o voto do analfabeto foi um dos maiores erros políticos, um instrumento de demagogia, de rebaixamento político, o voto dos analfabetos”.

Rachel de Queiroz nasceu em Fortaleza em 17 de novembro de 1910. Pertencia ao ramo dos Alencar, outro orgulho dessa terra. A família tinha raízes fincadas em Quixadá e Beberibe, entrelaçadas com outras tantas famílias que fazem parte de sua árvore genealógica, tais como: Lopes, Queiroz, Bessa, dentre outras.

Desde a adolescência, apresentava-se rebelde e ousada para os padrões da época. Nesse sentido, escreveu uma carta ao jornal “O Ceará”, ironizando o concurso de Rainha do Estudante, utilizando o pseudônimo Rita Queluz. Seu poema “Telha de Vidro” foi publicado no mesmo jornal. O destino, porém, lhe prega uma peça. Por conta da carta, é convidada para ser colaboradora do citado periódico e passa a trabalhar no folhetim “História de um Nome”. Inicia-se assim na carreira de jornalista. Foi uma das fundadoras do jornal “O Povo” em janeiro de 1928, fazendo parte de um grupo seleto de colaboradores.

Nos anos 1928 e 1929, Rachel começa a se interessar pela política social do país. Tinha simpatia especial pelo Bloco Operário Camponês de Fortaleza. A partir daí, participa ativamente dos grupos esquerdistas que estavam se reunindo para formar o primeiro núcleo do Partido Comunista ficando como aliada até 1933.

Em 1930, com essa consciência político-social e, em face das leituras constantes a que se dedicava o que lhe proporcionou uma relativa bagagem cultural, escreve o primeiro livro: “O Quinze”, publicado no Ceará, financiado por seu pai, Daniel de Queiroz, com uma tiragem de 1000 exemplares. O livro foi muito bem aceito pela crítica literária da época, o qual atravessou fronteiras do nosso Estado, chegando às mãos dos escritores Augusto Frederico Schmidt e Mário de Andrade.

“O Quinze” faz parte da literatura do ciclo nordestino brasileiro em que se encontravam escritores como José Américo, José Lins do Rego, Jorge Amado, Graciliano Ramos, intelectuais que tinham perfis e visões semelhantes, transferindo para os livros a realidade que vivenciavam. Não escondiam as dificuldades e preocupações que seu povo vivia. Romance de fundo social, bastante realista que mostra o sofrimento da gente do interior, diante da luta secular da miséria, privação do homem e da fome. A grande seca de 1915 era fato real e concreto, que levou a retratar com maestria o drama dos personagens Vicente Conceição, e por outro lado, os retirantes da família de Chico Bento, na travessia para a busca de dias melhores. Rachel descreve o amor, o conflito social e todos os desdobramentos, costumes da época, tornando-se, assim, uma ficção autêntica do drama explicitado.

Segundo Adonias Filho, “com esse romance o ciclo nordestino alarga-se para interferir na ficção brasileira – amplia-se sobretudo na linguagem e estrutura para converter em ficção o homem, a terra, no drama regional.”

Gilberto Amado acrescenta: ”Uma produção tão perfeita e tão pura que continua sozinha, inigualada, tempo afora.”

Com os estímulos recebidos de autores ilustres continua sua atividade de escritora produzindo em 1932 o romance “João Miguel” e, em 1937 lança “Caminhos de Pedras”. Somente mais tarde escreveu “As Três Marias”. Todos eles de cunho social e político revelando injustiças sociais e a miséria social e política do seu povo.

Esta mulher de infindáveis talentos se destacou na crônica (Diário de Notícias, Revista O Cruzeiro – no Rio de Janeiro); no romance; no teatro, com a peça “Lampião” que foi montada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e no Teatro Leopoldo Fróes em São Paulo. Foi tradutora de vários idiomas: francês, inglês, italiano e espanhol. Traduziu cerca de 40 obras. Escreveu literatura infanto-juvenil: “O Menino Mágico”. Como se observa em Rachel, a sensibilidade exacerbada a fez múltipla na criação e nas artes, Seus livros foram lançados no Japão, Alemanha, Israel e França. Recebeu vários prêmios e títulos por sua produção literária. Foi a primeira mulher a adentrar na Academia Brasileira de Letras (ABL).

Rachel, sempre corajosa e brava, não negava o sangue de sertaneja da gema. A única contradição aparece no tocante à tradição nordestina das mulheres do seu tempo em termos de religiosidade. Ela não tinha religião. Dizia-se agnóstica. Em entrevista ao jornal “Folha de São Paulo”, em 1968, afirmou: “É muito ruim não ter crença, porque nas fases ruins você não tem a que se apegar. Tem que se encolher em si mesma e aguentar a pancadaria. Invejo profundamente quem tem boa fé. O Helder (D. Helder Câmara) ainda tem esperança de me converter, diz que quer morrer um dia depois de mim só para rezar a extrema-unção junto comigo.” Noutra ocasião, falou o seguinte: “na minha infância, todas as velhas só viviam na igreja (...) velha sem religião, quem inaugurou foi minha geração.” Tinha plena consciência da opção religiosa frente ao mundo. Não se sentia culpada, mas encarava a sociedade cristã com espírito forte e sem se penitenciar por essa atitude. Mesmo afastada da Igreja, tinha amigos padres, contando no seu círculo de amizades com D. Helder Câmara, seu conterrâneo, Padre Cícero, Irmãs Simas e Elisabeth (ambas do Colégio da Imaculada Conceição).

Mostrando sempre que estava à frente de seu tempo, foi a primeira jovem a frequentar os cafés da Praça do Ferreira onde se reuniam intelectuais da terra com destaque para Antônio Sales, seu padrinho literário.

Em entrevista concedida a Vitor Casimiro, em 18/8/2000 (exclusiva para o Educacional), fala o seguinte: “Eu sou professora. É o único curso que fiz no Colégio da Imaculada Conceição, de Fortaleza. No resto, eu sou franco-atiradora, fui aprendendo com a vida e comigo mesma.”

Ela não gostava de ser considerada famosa. Tinha verdadeira aversão à participação em eventos sociais. Mulher moderna, não se iludia com títulos ou outras bajulações que alguns lhe faziam. Sem vaidades, avaliava sua obra assim: “Nunca releio um livro meu. Tenho um pouco de vergonha de todos os meus livros, de “O Quinze” tenho uma antipatia mortal, esse livro me persegue há sessenta anos. Detesto todos eles.” É interessante ouvir com tamanha espontaneidade uma avaliação dessa natureza. Achava que era mais falada que famosa.

Muito cedo, a escritora Rachel de Queiroz, com senso de observação aguçado, começou a perceber as dificuldades de seu povo, as mazelas sociais e os ditames da política em seu país.

Sempre se rebelou diante das injustiças sociais. Nos seus romances retrata com fidedignidade a luta secular do povo contra a miséria e a seca, bem como a do operário que labuta para receber o pequeno salário.

Em 1931, conhece integrantes do Partido Comunista. E inicia seu entrosamento com ele. Por essa razão, é perseguida pelo regime ditatorial. Depois se desentendeu com o Partido em face de discordância sobre o enredo do romance “João Miguel.” Acharam que o enredo era preconceituoso frente à classe operária. Rachel, então, virou trotskista militante, tendo sido presa em Pernambuco como agitadora comunista.

Getúlio Vargas, quando ainda delineava o Estado Novo, já se preocupava com seus opositores. Rachel, considerada agitadora, logo vai presa, em 1937, em face das divergências de caráter político, no quartel do Comando Geral do Corpo de Bombeiros Militar do Ceará. Com a chegada do Estado Novo, seus livros foram queimados em Salvador-BA, com os de escritores perseguidos: Jorge Amado, Graciliano Ramos e outros, porque eram tidos como subversivos.

Em entrevista a O Jornal afirmou: “...eu fui presa várias vezes. A mais demorada, passei seis dias na cadeia; foi quando Getúlio Vargas estava preparando o golpe para se apossar do poder. Ele botou todos os jornalistas em cana e deu o golpe”. Mandou prender tudo quanto era de intelectual esquerdista, trotskista, stalinista, anarquista, todo mundo foi preso em 1937. Para Rachel, o Estado Novo foi pior que a ditadura de 1964, porque ele tinha processos fascistas já codificados. Tinha o modelo alemão, polaco, italiano e Getúlio Vargas se associou a esses governos criminosos, terríveis, monstruosos, esclarecia a escritora.

Falando do apoio que recebeu de seus familiares, em entrevista a O Jornal afirmou: “...o jornal católico de Fortaleza se escandalizou porque papai e mamãe foram me visitar na prisão. E quando me viram toda heróica, toda Joana D’Arc, eles começaram a rir”.

E prossegue, dizendo para o mesmo jornal: “...tive uma formação política comunista. Foi o único período em que estive na militância, depois eu fiquei somente como observadora, sem atuação direta. Mas eu sempre fui espírito de porco, sempre do contra. Sou da família daquele cara que disse: “Há governo, sou contra.”

Quando lembrava os dias em que esteve presa por motivos políticos, ela evitava o tom de mártir e recordava com bom humor que sempre foi bem tratada na cadeia e até fazia amizade com os carcereiros.

Por essas posições e compreensão do fato político, foi fundadora do movimento esquerdista do Ceará. O seu registro no Partido Comunista consta na Delegacia de Ordem Política e Social de Pernambuco, com o nº 883, considerada pelo regime “perigosa agitadora”.

Com inteligência e perspicácia, aproveitava-se de sua escritura para nas crônicas dizer o que pensava. Numa delas, da revista “O Cruzeiro” de 12 de setembro de 1959, Rachel externou sua opinião sobre o Estado Novo: “Com o Estado Novo, todo o mundo amordaçado, sem ninguém para estrilar, o hábito de regalia universalizou. Os homens públicos deixaram de separar o que era do Estado e o que era deles, ou antes, o uso e abuso dos bens públicos passaram a ser privilégio dos cargos”.

Ainda se referindo aos políticos, no seu livro “Um Alpendre, Uma Rede e Um Açude”, coloca mais uma vez sua visão crítica, acerca dos representantes do povo no Congresso Nacional: “... sou leitora contumaz do “Diário do Congresso” e escuto as irradiações das atividades parlamentares sempre que a censura governamental me permite esse entretenimento cívico – eu já me acostumei a conhecê-los todos: há os que sabem, há os que pensam que sabem, há os que entendem de qualquer coisa, mas é mister garimpar essa qualquer coisa sobre o cascalho das bobagens e dos lugares-comuns; há os sérios entendidos, há os sérios bobos, há os ocos e há os que têm recheio dentro, havendo ainda a enorme variedade na qualidade desse conteúdo. E há, naturalmente, o contingente dos que não têm nada em todos os sentidos, que não servem nem na hora de votar, porque sempre votam com o pior.”

Essa observação da escritora é tão pertinente que se poderia enumerar e até nomear as categorias declinadas no texto acima. Não é ficção, mas realidade palpável e concreta, nos dias de hoje, mesmo, em pleno século XXI.

O Partido Socialista Brasileiro lançou sua candidatura a Deputada Estadual, em Fortaleza, defronte à Coluna da Hora.

Em 1964, embora não mais comunista, mas apenas socialista, participa da conspiração para a derrubada de João Goulart e realiza reuniões, visando ao golpe do estadista. Segundo a escritora, aderiu ao golpe também porque era amiga de Castelo Branco, um dos generais conspiradores, que veio em pouco tempo a assumir a Presidência de nosso país.

Mais tarde é nomeada pelo Presidente Castelo Branco como delegada do Brasil na 21ª sessão da Assembléia Geral da ONU, agregada à Comissão de Direitos Humanos e, em 1967, integra o Conselho Federal de Cultura.

Jânio Quadros, quando Presidente da República, a convidou para o cargo de Ministra da Educação, o qual foi devidamente recusado, com a seguinte justificativa: “... sou apenas jornalista e gostaria de continuar sendo apenas jornalista”.

Criticava os colegas pela postura política. Dizia que eles liam apenas apostilas doutrinárias que tinham trechos dúbios. O único integrante do Partido que havia lido “O Capital” na íntegra era o crítico Mario Pedrosa, afirmava ela. Ela era contra a qualquer posição sectária. Para ela o sectarismo é um estigma. A questão de ideologias é para almas estreitas, dizia. Você pode manter comunicação permanente se tiver idéias abertas e aceitar todos os caminhos.

No livro “Tantos Anos” dedicou um capítulo ao Padre Cícero, que ela, ainda jovem, conheceu. No livro, coloca suas impressões sobre os intelectuais brasileiros: “Eles não refletem quando vão apoiar esta ou aquela corrente ideológica, guiando-se mais por amizades e panelinhas do que por convicções. Vigora na vida cultural o mesmo princípio coronelista da política partidária”.

No quartel do Comando Geral do Corpo de Bombeiros (local onde esteve presa) existe uma placa em sua homenagem, mandada afixar, após sua morte, por Lúcio Alcântara, que na época governava o Ceará. Ele participou do evento, juntamente com seus familiares. Registre-se, também, a iniciativa do gestor público mencionado: a assinatura do decreto, dando o nome de Rachel de Queiroz ao Colégio Militar do Corpo de Bombeiros. O político ressaltou na ocasião, a luta da escritora pela Democracia e a Liberdade de ideias e convicções, fato esse que permeou toda a sua vida.

Cônscia de sua responsabilidade, aproveitou a literatura para chamar atenção da seca do Nordeste e dos problemas sociais, políticos e econômicos do país. Nas suas crônicas aproveitava para denunciar, esclarecer e trazer os leitores informados do dia-a-dia que influenciavam de perto, a vida cotidiana do homem brasileiro.

Quando foi chamada para habitar no plano superior, os cearenses ficaram perplexos diante da notícia. Ela saiu de cena de forma silenciosa, sem alarde, demonstrando dignidade, como boa cearense, no dia 4 de novembro de 2003, na cidade do Rio de Janeiro.

O Ceará perdeu sua maior Estrela da Literatura e o Brasil ficou órfão da escritora, da intelectual ímpar, que todos conheciam e admiravam.


(Palestra proferida na ALMECE, dia 15/5/2010)