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domingo, 19 de junho de 2011

ENSAIO SOBRE POESIA - AÍLA SAMPAIO



A poesia e seus percursos
A poesia, desde a antiguidade, percorre caminhos e veredas na reconfiguração do mundo, na transfiguração da realidade, em experiência estética. Neste ensaio, faz-se uma reflexão sobre esses percursos e fala-se sobre as últimas publicações de cinco escritores cearenses no gênero.


A poesia e seus percursos
Poesia é uma forma de expressão literária que surgiu na antiguidade simultaneamente com a Música, a Dança e o Teatro. A partir de então, muitas foram as tentativas de defini-la, entendê-la, escrevê-la. Para Platão, a poesia, como a arte em geral, era uma ameaça epistemológica e ética à sociedade, pois ele via o artista como um fabricante de fantasias que desviavam as pessoas das verdadeiras ideias (a arte era mimese, pura e simples imitação do real).

Além disso, a arte estimulava as paixões, os afetos e as emoções, que, descontroladas, podiam, conduzir à guerra e à catástrofe. Por conta desse risco, a arte só poderia ser praticada por crianças, loucos, mulheres e escravos, que não exerciam influência. A boa convivência em sociedade dependia de certa a-phatia (ausência de emoções), por isso, em A República, ele diz que os artistas devem ser expulsos da cidade para que ela seja justa e feliz. A arte era falseamento e, assim sendo, não poderia influenciar os cidadãos comprometidos com a verdade.

Já Aristóteles (384 a.C.), seu discípulo, no livro Poética, procurou mostrar que a arte é verdadeira, sim. Ele reinterpreta a mimese ao afirmar que a arte não é só reprodução, mas reinvenção do real. Afirma que a poesia (universal) é mais séria e filosófica do que a história (particular) e vê nela (como nas outras artes) a função catártica; atribui a ela um efeito purificador, benéfico. A harmonia da cidade não estava na a-phatia, mas na boa medida entre razão e afetividade. Além de um meio para transmissão do saber, a arte passou a ser vista como edificante e pedagógica.
Foi no séc. V a.C., que apareceu a designação do poeta como poietés. Até então, Homero e seus companheiros eram designados como cantadores, aedos (aoidoí), isto é, aqueles que cantam os altos feitos dos homens e dos deuses.

No decorrer do tempo, as experiências estéticas com a poesia foram muitas. No Trovadorismo, entre os séculos XII e XIV, a poesia era ligada à música e recebia a denominação de Cantiga (Cantiga de amor, a que tinha como eu-lírico o homem; Cantiga de amigo, a que tinha como eu-lírico a mulher; mais as Cantigas de escárnio e maldizer). No Humanismo, além de ressuscitarem-se as canções de gesta francesas para inspiração das novelas de cavalaria, praticou-se a poesia palaciana, feita para ser recitada nas festas, uma poesia de louvor. O Classicismo, no séc. XV, trouxe a magnitude de Camões com sua epopeia Os Lusíadas e os sonetos de amor moldados na fôrma clássica.

Até aí não se fala na poesia brasileira, porque nossa terra foi oficialmente encontrada apenas no século XVI. Foi no período da colonização que a poesia chegou ao Brasil, com finalidade pedagógica e de catequização. No Barroco, ela foi a expansão da verve ácida de Gregório de Matos, que se vingava de quem o atingia por meio dos seus versos. No Arcadismo, ela cantou a vida simples e, no Romantismo, idealizou a mulher e o amor, despida de compromissos estéticos, tão-somente comprometida com a inspiração do poeta para cantar o amor ou clamar pela libertação dos escravos.

Os parnasianos contestaram o uso da poesia para qualquer finalidade e passaram a cultuar apenas a forma; a arte não deveria ter função, deveria existir puramente, sem contaminar-se com os apelos da subjetividade humana. A ‘arte pela arte’ era o princípio da criação artística. Muitos simbolistas reagiram a essas ‘algemas’, no final do século XIX, e buscaram novas soluções formais, sobretudo na França, mas, no Brasil, tal experiência não ultrapassou o alcance de uma linguagem fluida, vaga, em busca de evasão pela espiritualidade.

No século XX, a poesia perdeu toda essa pompa… o verso livre dos modernistas e a inserção do cotidiano como tema poético abriram espaço para que o poeta se movimentasse em liberdade entre as palavras. E foram muitas as experiências com essa liberdade: os concretistas aboliram o verso, o poema-processo mostrou a desnecessidade da palavra, o neoconcretismo cobrou engajamento nas questões sociais, o Tropicalismo reacendeu o diálogo entre a poesia e a música, os poetas marginais expressaram sua irreverência,… e hoje? O que restou disso tudo? Que função a poesia tem?

A poesia permanece como uma forma de criar outro mundo “mais bonito ou mais intenso ou mais significativo ou mais ordenado – por cima da realidade imediata”, com diz Gullar. Ela é a possibilidade de expressar, através da palavra, esse mundo objetivo que nos cerca ou o mundo de subjetividades que nos enreda. É como a luz que falta para que enxerguemos. Quem faz poesia tem a capacidade de transfigurar o real, recriá-lo… Quem lê poesia fica mais leve para aguentar o peso da existência. Isso, porque ela é, naturalmente, algo que se diferencia do ordinário, do comum, do mediano. Ela reconfigura as mentes ao lançar sobre elas novos olhares, ao mostrar o que não se vê a ‘olho nu’, ao fixar sentimentos e pessoas que o tempo carrega.
Como fala Cohen, a poesia força a alma a sentir aquilo que geralmente ela se limita a pensar. Se lembrarmos de ‘O cão sem plumas’, de João Cabral, veremos como ele, por meio dessa metáfora, chama o leitor à reflexão sobre o fato de que o rio será aquilo que o homem fizer dele, como a ave que conquista o seu vôo, e sobre a sociedade, que transforma o rio num não-rio, o mar num não-mar, o mangue num não-mangue e o homem num não-homem:Como o rio / aqueles homens / são como cães sem plumas / (um cão sem plumas / é mais / que um cão saqueado; / é mais / que um cão assassinado. / Na paisagem do rio / difícil é saber / onde começa o rio; / onde a lama / começa do rio; / onde a terra / começa da lama; / onde o homem, / onde a pele / começa da lama; / onde começa o homem / naquele homem.

São esses olhares que nos dão conta de que o poeta tem o poder da reconfiguração. Eles veem o que subjaz, o que não emerge à flor dos olhos da maioria.
Distinta de sua teorização literária, a poesia pode ser apenas um alimento para a alma. Ela não precisa ser entendida em sua forma, dispensa conhecimentos prévios de métrica ou rima, de melodia ou de escansões. Ela precisa essencialmente ser sentida. É essa possibilidade de criação do que não existe, e da recriação do que existe mas falta, que faz do poeta um ser especial, como nos mostra Murilo Mendes, ao dizer que na poesia “Tenho constelações para me servirem / E gaivotas que levam minhas cartas / Mais depressa do que aviões / Nascem musas de minuto em minuto / Escovam o outro mundo para mim.

Não importa que os chamem de lunáticos, que os acusem de sonhadores… os poetas têm um universo muito particular. Realmente, nessa sociedade neoliberal e individualista em que se vive, os que amam e se dedicam à poesia têm que construir um universo à parte e preservar o sonho libertário da construção de um espaço anárquico… São os anjos gauches de Drummond. De que outro modo podemos não perder a delicadeza? Esse espaço anárquico de que falo está dentro de nós e é o que nos capacita à criação de um universo encantatório que nos salve do tédio. É a poesia esse antídoto. Sem ela, onde celebraremos nossos amores? Eles perecerão ou quedarão entristecidos como um violão com a corda quebrada, abandonado por quem quis, mas não aprendeu a tocar. Sem a poesia, o que faremos com a nossa saudade e com a nossa esperança de dias melhores? Com os nossos amores que não deram certo? Onde colocaremos nossas lágrimas e nossos risos? Poetas são, sim, lunáticos… bendita seja essa nave que os conduz a esse mundo onde ainda se pode celebrar a vida e seus sabores acres ou doces. Quem não se rende à poesia, quem não se deixa seduzir pelos seus olhares, sentirá o mundo e até a si mesmo dentro dos secos limites das objetividades. Não se comoverá diante de um pôr do sol e só enxergará pedra nas pedras, nunca será capaz de transformar lágrimas em oceanos ou dores em saudades gostosas de sentir. É Cecília Meireles quem diz: “a vida, a vida, a vida só é possível reinventada”… e sem a poesia, fica difícil reinventar o que quer que seja.

Cinco poetas cearenses, muitos caminhos

Nessa perquirição dos poetas de hoje, caíram-me as mãos, num só mês, quatro livros de poemas, todos de escritores cearenses; quatro deles publicados em 2010: No limiar dos invernos, de Linhares Filho, 70 poemas para orvalhar o outono, de Barros Pinho, Concerto nº1nico em mim maior para palavra e orquestra. Poema , do Poeta de Meia-Tigela e um já editado em 2011: O livro de Marta, de Rodrigo Marques. São cinco poetas, cinco caminhos, estilos distintos que se cruzam no gênero, na sensibilidade e no senso estético.
No limiar dos invernos

O livro No limiar dos invernos, de Linhares Filho, é um canto da maturidade “Saber maduro alerta-me profundo / sobre a velocidade da descida. / Busco incessantemente, só o jucundo / e sofro por qualquer coisa perdida (2. “No limiar dos invernos”, p.108.O próprio título sugere um marco e é sugestivo de um momento de transição, quando o poeta se assume homem maduro, senhor de suas emoções; e poeta afinado com seu instrumento: a palavra e sua expressividade.
No poema que abre o livro, “Legenda”, ele fala sobre os frutos colhidos na madureza e interroga sobre o inverno que o espera, metaforizando os anos vividos e declarando-se atento ao galope do tempo:

Frutos colhi de minha noite em trégua,
Produtos viscerais da madureza.
Irei também no inverno, a cada légua,
Colhê-los de alma pronta e sempre acesa?
Pautada a rota por divina régua,
Espero ver tais frutos sobre a mesa,
Depois que, ao dorso de um cavalo ou égua,
Minha alma galopar, a crinas presa. (p.33)

Do ponto de vista formal, o mestre transita entre o verso livre e o metrificado com a mesma naturalidade com que celebra o silêncio e os ventos. Para ele, a poesia é “Fruto da necessidade do belo e do sublime...a eterna busca do ser”. Os exercícios metapoéticos atestam sua consciência estética na criação literária, bem como a preocupação ontológica que perpassa também outras obras suas. Ser poeta, pra ele, é mais que ser homem: “Perquire muito além do que vês e do que ouves. / Flores não tocarás, sem ter pena, por couves. / Sonha, em vigília, bem mais do que quando dormes”. (“Contribuição à busca do poético” p. 38).

Nilto Maciel, em artigo sobre o novo livro do poeta de Lavras, fala dos múltiplos recursos formais utilizados: “do soneto ao verso livre e a poemas de variados feitios, em versos decassilábicos ou de cinco, seis, sete e oito sílabas. O apego à vestimenta da tradição o livrou da aventura pela chamada poesia de vanguarda, pelo antiverso, pelo poema visual e outras modalidades de efêmera duração. Isto é, consciente e conhecedor do fenômeno estético, tem pleno domínio da técnica do verso. Sem se apegar, com fanatismo, à métrica e à rima, faz uso também do verso branco, como em “Das coisas”. Quanto à rima, ele a pratica muito bem, em todas as suas modalidades ou tipos: consoante, aguda, esdrúxula, grave etc.”, o que mostra seus conhecimentos bem depurados quanto à teoria do verso.

O homem maduro não faz só um exercício estético de amor à poesia, celebra a fé, os amigos, a vida e a mulher amada. Constrói sua poética por meio de odes, propostas, convites, hino, homenagens, reflexões, cantos e orações. A religiosidade que parece mover sua vida desenha-se em preces e confissões de fé e atos de humildade diante do Senhor, a quem clama a virtude e o poético: “Dai-me a realização, Senhor, do santo anseio, não me tireis, porém, o espírito poético”. p. 37. Vertentes de sua existência, Deus e a poesia são seus escudos e seus broquéis. Só pela palavra, o poeta resgata o passado, frui o presente e vislumbra o futuro (p.35), integrando-se ao tempo e transcendendo-o.

Senhor de sua pena, Linhares não priva seu grito pelo planeta: “De Kioto a Copenhague / vive a clamar a mãe Geia / contra uivos de alcateia: / que o efeito estufa se apague”, p. 101), pelo Haiti: “Convoque-se o ímpeto cordial e amigo / do globo em torno de uma só ideia: recriar o Haiti e seu valor humano”, p. 102. Com a mesma leveza com que contempla o sono da amada, (“Dorme e observo o seu ressono. / Em seu mundo inconsciente / vai passeando tranquila e na penumbra / por alamedas ensombradas / ou entre os pomares e jardins do outono? p. 93), canta a irreverência do vento e a voz das aves.

Conhecimentos mitológicos e bíblicos subsidiam sua criação e mostram um poeta consciente do seu estar no mundo em todas as suas faces: a do homem, do professor, do cidadão, do avô amoroso, do amigo e do amante apaixonado. Nessa diversidade, celebra poetas e amigos; louva a língua pátria e até a matemática, que registra a multiplicidade do universo (p.60); canta cidades que marcaram seus percursos: Rio de Janeiro, Argentina, São Paulo e Brasília e, como num balanço de seu universo multifacetado, fecha o livro com dois sonetos que elucidam o título da obra. O primeiro deles marca a consciência da maturidade e o desejo de manter o equilíbrio até o fim da jornada; no segundo, como quem se despede, diz vencer a dor inevitável pelo amor, sua última glória.

É o fim do outono em mim. Chega-me o inverno.
Com as chuvas iniciais virá o frio.
Mas não quero sentir, no mundo interno,
Desolação, desânimo e vazio.

Sem inapetência ter, não me consterno
E à minha cara infância ainda sorrio.
Se para a flor e o ninho ainda suou terno,
Aflige-me o correr do tempo em rio.

Em apreensões o ser quase naufraga,
Tentando equilibrar-se sobre a vaga,
Para atingir triunfante o último porto.

Mas, como antes do inverno, que se instala,
Nada farei sem te escutar a fala,
Querida, ou sem o bem do teu conforto.

(“No limiar do inverno”, p. 107)


70 poemas para orvalhar o outono

O livro comemorativo dos 70 anos do poeta Barros Pinho traz 70 poemas selecionados de oito livros de sua autoria, e uma fortuna crítica respeitável acerca de sua produção literária: Linhares Filho e Ubiratan Aguiar apresentam a obra na qual estão, também, inseridos artigos assinados por Pedro Paulo Montenegro, Antonio Carlos Vilaça, José Alcides Pinto, Francisco Carvalho, Adriano Espínola, F. S. Nascimento, Pedro Lyra, Sânzio de Azevedo, Caio Porfírio Carneiro, Artur Eduardo Benevides, Antonio Girão Barroso, entre outros críticos que se debruçaram sobre a sua criação.

A beleza do volume se coaduna com a preciosa seleção de poemas, representativos, pois, de toda a sua poética, que tem como linhas condutoras duas figuras essenciais: o menino e o rio. Ainda que ele diga “setenta anos / muito tempo / para ser menino / não se agita mais / a água da infância / a vida só o papel / timbrado na sombra / onde se escreve o ontem / em páginas brancas / na face da espera” (p. 29), faz rediviva sua infância a cada verso, renascendo ‘no papel’, entre linhas e entrelinhas, pois que, homem feito de linguagem, não sabe ser senão reinventando-se pela palavra.

O menino perdido no tempo cronológico aparece cada vez mais vivo no tempo da memória:

a infância corre
na correnteza do rio

o sonho não sabe
o rumo dessas águas
seria o mar
ou o mar seria apenas
uma solução geográfica

sabe-se
que só nós meninos
o rio se encanta
até voar como pássaro

nasce em mim o desejo de escrever

o rio inteiro a correr
sobre o papel da palavra
sintaxe de sol
antes dos olhos
se abastecerem de fadiga (p.52).

A travessia do rio é a travessia da vida que se rende a soluções geográficas apenas, racionais, desprovida de sonhos. Na alma do poeta, entretanto, ‘se pode voar como pássaro’, na possibilidade de vencer a correnteza do tempo e recuperá-la, ainda que encantatoriamente, na poesia.

Esse rio que atravessa a escritura do poeta é um rio atávico, cuja localização espacial – a Parnaíba – funciona como eixo, tronco de sua árvore genealógica. O homem que por razões diversas deixa sua terra de origem vive em duplo exílio: o físico e o psicológico, pois que, longe de sua taba, não encontra seu verdadeiro rosto senão no olhar para trás e no permanente saudosismo que o afaga:

meu avô morreu
na chapada da distância

procurando a lua de olhos
vivos no rio o rio mais
longe de sua vontade

as mãos sem carne
os pés sem perfume
a rastejar fantasmas

na superfície das pedras
o engenho abrigo do tempo
moendo moendo seus ossos (p.64).

As reminiscências, cavadas pela saudade, pelo acúmulo e pela intensidade, tornaram-se mais constantes na estação do outono, com que o poeta metaforiza sua entrada nas 70 décadas de existência, mas a saudade ancestral (que o acomete) está nele desde sempre:

guardo há muito tempo
na gaveta da vida
uma solidão disfarçada
um triste acanhado
pelos cantos dos olhos no calendário (p.83).

Sua poética presentifica ausências. No outono, a palavra desgoverna-se para romper os silêncios e orvalhar-se em confissão: há saudade, há solidão, há ‘vontade de dizer / o que não se diz pela metade’ (p.83). E o poeta diz dos seus naufrágios, das celebrações, diz, sobretudo, do seu cansaço de tantas ausências:

carrego madrugada
no canto dos olhos

nos meus ombros
depositaram noites
que não querem ser dia

nos cabelos guardo
a ilusão ou o sonho
dos que sonharam

nas mãos trago
pedaços de sol
só para distribuir

n’alma a ausência
cansada de bater
nos dique da vida (p.127).

Mas não é de tristeza a poesia de Barros Pinho. Tampouco é meramente confessional. Não há lágrimas, mas celebração: “recordo / a adolescência / nas árvores / de minha cidade” (p. 160). Sua saudade da terra é a saudade de todo exilado (não apenas de corpo, mas de coração) e as dores de que ele fala são dores sem nacionalidade definida.

O rio foi o começo de tudo, foi o espasmo ante o icognoscível. Depois veio o amor com suas estradas impossíveis de não percorrer: “o rio encheu os olhos / do menino / só de espanto // a menina / encheu-lhe a vida / de paralelas” (p.130). Assim o menino se fez homem, sendo universal ao cantar sua aldeia (Tolstói) ou, qual Caeiro/Pessoa, cantando seu rio: “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia”. Tal qual diz o poeta em seu outono: “não conhecia / o mar / o rio de minha / cidade era meu oceano” (p.153).

Hoje, depois de tanta estrada e poesia, depois de tantas travessias de rios e mares, continua menino o homem que reconfigura o Natal; continua menino o poeta que orvalha seu outono com poesia...com certeza, continua a procurar São Jorge nas luas de suas e de tantas outras terras. Seus sonhos não se evaporaram, tampouco as folhas caídas que ele cata e recupera a cada verso que escreve.

Leiamos o poema que abre o livro:

setenta anos
muito tempo
para ser menino
não se agita mais
a água da infância
a vida só o papel
timbrado na sombra
onde se escreve o ontem
em páginas brancas
na face da espera
as mãos postas ao vento
na colheita do milho
em outras safras
no rosto as linhas
em réguas de rugas
no compasso rítmico
da marca desenhada
nos olhos a pele da fadiga
fragmentos de vida
na alga das palavras
/.../
A poesia harpa da manhã
Acende o orvalho a orvalhar
O lírio do pássaro
No lírico segredo do outono
(“Orvalho para orvalhar o outono”, p. 29-30)


A poesia em Concerto

O poeta Alves Aquino, encarnado no personagem Meia-Tigela, lançou, em 2010, o livro Concerto nº1nico em mim maior para palavra e orquestra. Poema, cujo subtítulo, “Combinação de realidades puramente imaginadas” traduz o movimento dialético que compõe sua criação, conjugando tradição e modernidade, realidade e imaginação. É, como a Bíblia, dividido em livros, mais precisamente, em 4, cada um com 4 subdivisões. Os números assumem importâncias e simbologias que, certamente, se explicarão ao final do seu projeto.

O nome do autor abre espaço para que o leitor se perceba num território estranho, mas a alcunha que se supõe pejorativa vai, aos poucos, ganhando outras significações. Está-se diante de algo diferente, não há dúvida quando se começa a folhear o volume. A respeito da previsível interpretação de poeta de meia-tigela como um poeta de pouco valor, ou de produção insuficiente, os editores da Revista Mamífero, oportunamente esclareceram “[...] o pseudônimo 'Poeta de Meia-Tigela' não é uma autodeterioração ou subvalorização do que [ele]escreve. Sua origem tem 'um cunho social' com o qual se identifica, visto que o termo representa 'a metade da ração oferecida ao serviçal, enquanto seu senhor ganhava a tigela inteira'. Outra razão do pseudônimo é criar um personagem que seja o próprio autor e personagem de si mesmo, como o João Grilo ou Cancão de Fogo. Enfim, o uso do epíteto não é um distintivo de humildade; ao contrário, traz o Poeta um projeto ambicioso de encarnar um múltiplo personagem, criando uma bandeira dupla, uma apresentação automática para a sua obra, expressando algo inusitado. Para ele, essa é a origem que interessa, já que implica numa adesão ideológica e emocional". ("Um Poeta de Meia-Tigela", Revista Para Mamíferos N. 01, Fortaleza, 2009 - editores: Glauco Sobreira, Jesus Irajacy, Nerilson Moreira, Pedro Salgueiro, Raymundo Netto e Tércia Montenegro).

Lembrei-me outra vez de Fernando Pessoa que, no poema “Tabacaria”, diz: “Quando quis tirar a máscara, estava pregada à cara”. Personagem e pessoa se fundem, amalgamados numa poética movimentada, a que ele mesmo chama de Concerto. A obra em apreço - Concerto nº1nico em mim maior para palavra e orquestra. Poema - é parte de uma composição quartenária. Quatro movimentos, pois, comporão a totalidade do projeto de composição do Concerto e a cada um deles é, previamente, “atribuído um elemento, bem como uma função psíquica, no intuito de estabelecer – dentro da totalidade, uma personalização e individuação dos seus momentos constitutivos”, como explica o próprio autor no final do livro.

Contemplamos, no volume citado, o 1º Movimento - Quarto Minguante (1/4), cujo elemento é terra, e cuja função psíquica é o pensamento. As outras 3 virão, posteriormente, quem sabe em formato idêntico, para compor o Concerto completo: 2º movimento, fogo e sensação; 3° movimento, ar e sentimento; 4º movimento, água e intuição.

Essa ordenação, esses liames tão arquitetados, demonstra um trabalho consciente, mais que isso, uma proposta de Obra Ampla. A miscelânea de formas, em versos livres ou metrificados, o que varia de acordo com o conteúdo, obriga o leitor a ativar-se e a interagir com os textos. A ordem é estabelecida, mas logo se foge dela. Assim, em ritmo sempre inusitado, os textos se sucedem, revisitando o clássico e as mais variadas vanguardas, sem, entretanto, moldar-se a qualquer delas. Do Concretismo, se absorve a palavra-coisa, o aproveitamento do branco da página; da poesia-práxis, o movimento, a ação imposta à palavra; do poema-processo, a desnecessidade da palavra, o poema-imagem... mas é inútil ao leitor a criação de expectativa em relação ao que virá depois.

A pluralidade de estilos conjuga-se ao diálogo perene entre as artes, de modo que a música que compõe todo o concerto está em consonância com as imagens, os poemas e a teatralização. O poeta narra, disserta, compõe versos, fazendo dialogarem Homero, Dante, Goethe, John Mílton, Dostoiévski, ora com sinceridade, ora com ironia, brincando com as palavras ou levando-as bem a sério, articulando um estilo pessoal, embora bebido de muitas fontes.

Concerto não é, pois, uma viagem, um lance intuitivo, mera aventura com a palavra e suas possibilidades. É um projeto de composição ambicioso, com trabalho de linguagem e articulação entre o clássico e o popular; a brincadeira e a verdade. Palavras e cálculos matemáticos, lirismo e antilirismo, construção e desconstrução fazem a caleidoscópica poética de Meia-Tigela, sem dúvida, sangue novo para tirar da inércia a fina veia da poesia brasileira contemporânea.

Dois poemas do Concerto:

Sim! Déspota deposto, adeus ao trono,
Adeus ao cetro, adeus poder benquisto!
Fui Outro e a contragosto virei isto,
Este, só, sem padrinho, sem patrono.

Pior: eu e Abadon neste abandono.
Ao redor o reinado carcomido
De antigo rei, também ele podrido.
Ato nenhum de amor em seu abono.

Nada tem quem de tudo já foi dono.
Se não cai, encanece meu cabelo.
No velho espelho — um velho — e horror é vê-lo.
Que de melhor me ocorre é sentir sono.

Parabéns para mim: completo um cron. O
próprio Tempo, ao ver-me, se estarrece:
“Que me ultrapassa em séculos, quem esse?”.
Nada-perene, sou não ser. Outono.

(Extraído do "CONCERTO Nº 1NICO EM MIM MAIOR PARA PALAVRA E ORQUESTRA", 1º Movimento, Livro 1, Seção 1)

Que dizer há muito,
Mas dizer sem boca.
A garganta é rouca
Para tal assunto.

Assunto, coitado,
Que fica onde está.
Nenhum verso dá
Conta do recado.

Recado sisudo
Que morre na toca.
A palavra é pouca,
Não toca o profundo.

(Extraído do "CONCERTO Nº 1NICO EM MIM MAIOR PARA PALAVRA E ORQUESTRA", 4º Movimento, Livro 1, Seção A)

O livro de Marta e seus bilhetes de amor

Quem é Marta? A mulher de maiô, ou a cinéfila que nunca perde uma sessão das 18:30, uma musa delirante ou apenas um pretexto para escrever alguns bilhetes. Sim, Marta não tem carne, é palavra, grito, vocativo.

Rodrigo Marques escreveu o Livro de Marta, subintitulou-o de Bilhetes de amor quebrado, e deixou o leitor na expectativa de algumas páginas confessionais. Mas não. Marta é um pretexto pra falar de tédio e de amor; de um trote ou de uma blitz; de uma sessão de cinema ou de uma ida à papelaria; são poemas de desejo, de semáforos, piercing e shoppings. O rigor formal existe, é, aliás, bem evidente, e é igual para tratar dos assuntos.

Entre versos livres e sonetos, o poeta constrói um estilo próprio, sem intenções de vangauardear, mas tão somente tirar a poesia do marasmo. Nada de mais; nada de menos. Ruy Vasconcelos fala de um traço arcaizante na obra. Sim, o poeta prefere bilhetes a e-mails e exercita o soneto. Visita Camões num intertexto surpreendente; lembra Mar portuguez, de Fernando Pessoa, em seu “Mar rústico”; provoca Marta, sonegando-lhes os versos que Pablo Neruda fez a Matilhe Urutia, sua amada: “Não és Matilde / Não és o mar / Nenhum dos cem sonetos de amor fez-se para ti / sequer uma barcarrola pousou no céu... ((p.23). Cita Dante Milano e Ribeiro Couto, mas não parece beber nas fontes deles.

Nenhuma tentativa de inovar, mas transfigurando naturalmente a linguagem; sem ironia com as formas fixas, também sem apologia a elas, Rodrigo tem a consciência exata de suas pretensões: “meu mar é muito pouco / para quem sabe nadar / no entanto é meu; comprei-o na loja ao lado da tabacaria, / completo: / sem cais e por rimar. (p.22). Não é poeta por acaso ou circunstância. É poeta de construção e consciência. Leiamos dois dos seus 'bilhetes':

À contra-mão de mim,
O ônibus passa,

E se atrás,
Viaja o corpo de Marta,

E se ainda, nesse corpo,
Viaja encarnado uma parte minha
Uma perna, um braço, uma mão,

Escuto,

Longe,

A cidade estacionar-se

(LINHA, p.38)

Para que fazer unhas no salão mais caro
Se arranhas em mim os pesares,
As tardes, as frases,
Se deixas em mim um cheiro falso de esmalte?

(FAZENDO UNHAS NO SALÃO MAIS CARO, p. 29)

A poesia está em efervescência, não sucumbiu ao descaso do mercado editorial. Distintas experiências estéticas, variadas propostas e os mesmos objetivos: partilhar olhares transfiguradores do mundo, mergulhos no visível e no invisível, catarse e confirmação da existência. Seja qual for a proposta de cada poeta, vê-se que se mantém a necessidade de criar em versos, de renovar os cenários, de apostar nas velhas fórmulas, revisitá-las, dizê-las e desdizê-las. Num momento plural, de eliminação de fronteiras entre popular e erudito, sobrepõe-se o ecletismo e a desnecessidade de rótulos.

PARA SABER MAIS

ARISTÓTELES. Poética. Disponível em http://www.culturabrasil.pro.br/poetica/artepoetica_aristoteles.htm. Acesso em 10/4/2011
COHEN, J. Estrutura da linguagem poética. São Paulo, Cultrix: EDUSP, 1974.
GULLAR, Ferreira. Disponível em: http://www.dignow.org/post/poesia-1544510-42516.html. Acesso em 10/4/2011
QUEIROZ, Raquel. Serenata. Fortaleza: Armazém da Cultura, 2010.
LINHARES FILHO, José. No limiar dos invernos. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2010.
MACIEL, Nilto. A Poética de Linhares Filho. Disponível em: http://literaturasemfronteiras.blogspot.com/2011/01/poetica-de-linhares-filho-nilto-maciel.html. Acesso em 11/4/2011
MARQUES, Rodrigo. O livro de Marta. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2011.
MEIA-TIGELA, Poeta de. Concerto nº1nico em mim maior para palavra e orquestra. Poema. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2010.
NETO, João Cabral de. Um cão sem plumas. In: Obra Completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1994
PINHO, Barros. 70 poemas para orvalhar o outono. Fortaleza: Premius, 2010.
PLATÃO. A República. Disponível em: http://pt.scribd.com/doc/6077389/Platao-A-Republica. Acesso em 11/4/2011
TUFIC, Jorge. As baladas do poeta Barros Pinho. Disponível em: http://palavradofingidor.blogspot.com/2011/02/as-baladas-do-poeta-barros-pinho.html. Acesso em 11/4/2011

domingo, 12 de junho de 2011

REUNIÃO DA AJEB - MÊS DE JUNHO DE 2011

Fortaleza, 6 de Junho de 2011

Estimada (o) Sócia (o)

Ao aproximar-se a data de nossa reunião que acontecerá no dia 21 do mês em curso na sede da Academia Cearense de Letras Rua do Rosário nº 01,
estamos enviando-lhe esta “carta-lembrete” por sabermos da importância de sua presença em nossos encontros.
A palestrante será a nossa estimada ajebiana, médica - escritora Celina Pinheiro, que nos brindará com um sugestivo tema: “A Arte de Contar Histórias”.
Ouviremos com prazer sugestões das sócias (os), para um maior enriquecimento de nossos encontros.
Compareça e traga seus convidados para conhecer nossa valorosa AJEB. Teremos imenso prazer em recebê-los e mostrar-lhes o trabalho de nossa Associação.
Participe de nossa reunião e não esqueça de trazer uma de suas produções literárias.

Atenciosamente,

Maria Luisa Bomfim
Presidente


segunda-feira, 6 de junho de 2011

A AJEB HOMENAGEIA A MEMÓRIA DE GUSTAVO VIEIRA

Guia, Senhor, pelas veredas da eternidade
Um filho teu, um homem solidário, honesto e bom.
Sustenta em tuas mãos o farnel de virtudes que ele leva consigo,
Tudo que lhe deste e que ele multiplicou com sua bondade.
Agora, ele está Contigo, contemplando os verdes
Vales olorosos de Fé e Paz. E uma alegria imensa brota de sua alma,
Oásis para os que ele amou aqui na terra.



Descansa em Paz, Gustavo!

terça-feira, 24 de maio de 2011

UMA PÉROLA DE CECÍLIA MEIRELES

Despedida

Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranqüilo:
quero solidão.

Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? - me perguntarão.
- Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.

Que procuras? Tudo. Que desejas? - Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.

A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra...)
Quero solidão
.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

REUNIÃO DA AJEB-CE





Ontem, dia 17 de maio, realizou-se, no Auditório da Academia Cearense de Letras, a sessão mensal da AJEB-CE, com um bom comparecimento de nossos associados e convidados especiais.


A Presidente Maria Luísa Bomfim, em sua fala principal, teceu um substancioso relato sobre a vida e a obra do grande poeta Pablo Neruda, que manteve toda a plateia atenta.


Após, a fala da Presidente, alguns sócios e sócias apresentaram poemas, contos e crônicas, consolidando a sessão como muito agradável e produtiva.


Houve sorteio de muitos livros, revistas, prendas para os aniversariantes do mês e lembrancinhas em comemoração ao Dia das Mães foram distribuídas com os presentes.


Ao término foi servido um apetitoso lanche.


A AJEB vem provando sua força e sua luta em prol da cultura.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

DICIONÁRIO DE MULHERES


A AUTORA E LÚCIA HELENA PEREIRA




O AUTÓGRAFO DE HILDA FLORES




ENTIDADES LÍTERO-CULTURAIS, PRESENTES E REPRESENTADAS, PRESTIGIARAM A NOITE DE LANÇAMENTO, EM NATAL (RN), DO DICIONÁRIO DE MULHERES, DA AJEBIANA GAÚCHA HILDA AGNES HÜBNER FLORES, DENTRE ELAS: AJEB/RN, IHG/RN, ACADEMIA MACAIBENSE DE LETRAS E UBE/RN, SOCIEDADE DOS POETAS VIVOS E AFINS, ACADEMIA FEMININA DE LETRAS DO RN, MEMORIAL DA MULHER, REBRA E TEATRO ALBERTO MARANHÃO. FOI REALMENTE UMA NOITE MEMORÁVEL.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

CEARENSE TEM MAIOR SITE LITERÁRIO- VITOR CASIMIRO


Já deve ter acontecido com você. Você vai a uma livraria à procura de um livro e não encontra. Vai à outra e nada. Acaba desistindo, sem entender como logo aquela obra-prima da literatura não se encontra nas prateleiras das lojas. Resiste à tentação de levar para casa um best-seller; afinal, se tiver sorte achará o que procura em um sebo, virando e revirando uma bagunçada montanha de livros. Bem, mas se for um livro de poesia, então, sua jornada está quase sempre fadada ao fracasso. Cansado de garimpar nas livrarias e sebos, o cearense Soares Feitosa, que mora em Salvador desde 1994, recorreu à Internet para ler as obras de seus autores favoritos.Não adiantou. Confiante de que, na rede mundial de computadores, não teria dificuldades para achá-las, tomou um susto quando soube da escassez de obras de poetas em língua brasileira. Mas isso já faz algum tempo e esse problema não mais existe. Hoje ele é o responsável pelo maior site (home-page) exclusivamente sobre literatura do mundo - o Jornal de Poesia . De acordo com Soares Feitosa, se levarmos em consideração o fato de que o site tem um único tema - a poesia em língua portuguesa -, o Jornal de Poesia é, sem dúvida, um dos maiores endereços eletrônicos do mundo - tarefa que levou pouco mais de oito meses para concretizar. ``Ele é como o Rio Amazonas, tudo que se falar sobre ele será pouco'', diz orgulhoso do filho pródigo. Não é nenhuma história de pescador, gabando-se do seu feito. São mais de 20 mil páginas de informação. Lá, autores desconhecidos, que enviam seus primeiro poemas via internet, recebem o mesmo destaque que Castro Alves, Fernando Pessoa, Gonçalves Dias, Luís de Camões, Augusto dos Anjos ou Gerardo Mello Mourão, poetas que têm suas obras completas em algum lugar desta imensa biblioteca virtual. São aproximadamente 1.200 poetas ao todo, entre brasileiros, portugueses, angolanos, de Moçambique, Guiné-Bissau e o longínquo Timor Leste. ``Fazemos a elegia ao desconhecido'', diz Feitosa, que se recusou a implantar um sofisticado programa de busca no jornal. ``O importante é procurar, aí você se sente convidado a conhecer os autores que jamais chegaria a ler se não fosse o jornal'', explica. Entre os ilustres desconhecidos, pode-se encontrar, inclusive diversos cordelistas nordestinos. E o armazém de poesia não pára de crescer. O Jornal de Poesia recebe de 20 a 40 mensagens por dia, dos quatro cantos do mundo, nas quais estão sobrando elogios. Poeta, escritor e crítico literário da importância de Jorge Amado,Ferreira Gullart, Wilson Martins,Millôr Fernandes e Roberto Pompeu de Toledo, já demonstraram admiração pelo o trabalho, que ocupa todo o tempo livre Soares Feitosa. Atualizado diariamente desde sua criação, em 13 de junho de 1996, o Jornal de Poesia é a soma de muito esforço com amor à arte. Soares Feitosa, nunca ganhou nenhum tostão pelo que faz. O canadense Mr. Richard (cujo sobrenome Feitosa diz desconhecer) é o dono do provedor de acesso à Internet e não lhe cobra absolutamente nada. ``Ele é um mecenas. O custo mensal de um provedor seria de 2 mil reais. ``Fico emocionado. Até em Teresina, com aquele sol de rachar, você pode ler o Navio Negreiro, de Castro Alves, novinho'', brinca. Além da publicação de poesia, há um grupo de discussão sobre o tema, a home-page da Academia Cearense de Letras, em fase de construção, e duas seções destinadas à poesia infantil, de autores até 12 anos, a primeira, e entre 12 e 17 anos, a outra. Na seção de autores até 12 anos, Feitosa destaca a poeta Maria Fernanda Mendonça Costa, de 8 anos. A garotinha, de Dois Córregos, São Paulo,chegou a ser comparada a Fernando Pessoa. Um dono de uma usina de cana-de-açúcar e também poeta, daquela cidade, criou a Usina dos Sonhos, contratou 70 professores e incentivou o ensino da poesia. ``É um projeto assombroso. Os poetas nascem da terra. Quem é que garante que esta menina não é o próximo Castro Alves'', diz, entusiasmado com as potencialidades da Internet e do computador para a produção literária das novas gerações: `Meu orgulho vai ser ouvir, daqui a 20 ou 30 anos, alguém me dizer: minha primeira poesia foi publicada no Jornal de Poesia`. Mas quanto ao futuro do livro, Feitosa é categórico: `O jornal não é para concorrer com o livro. O livro é um prazer, ninguém pode tirá-lo; o livro você pode tocar... O Jornal de Poesia só dá a primeira informação, o impacto, desperta o interesse. Se você não gostar da tela, imprima, risque, rabisque, mas leia. O objetivo do jornal é ressuscitar certos poetas que padecem em obras com edições domésticas, de pequena circulação, que ninguém mais encontra depois de algum tempo`. Taí outra vantagem: um edição por menor que seja não sai por menos de 4 mil reais, segundo Feitosa. ``E o que o autor ganha no lançamento, gasta no coquetel'',. De uns tempos pra cá, os escritores têm encotrado, em home-pages particulares, uma alternativa para fugir destas edições domésticas ou independentes e do mercado editorial precário no que diz repeito à poesia. É o caso da home-page Livro Livre , coordenada por Gustavo Arruda, que oferece livros de graça. Há a home-page do Grupo Cultural Pórtico , da Bahia, destinada à divulgação de novos autores; o Jornal de Contos, organizado por Hélio Pólvora, e o jornal Blocos , editado por Leila Míccolis, que recentemente chegou à Internet, após vários anos de publicações mimeografadas e xerocadas. Para alguns, a experiência tem dado muito certo. A home-page funciona como trampolim para edições impressas.`O que falta à poesia é divulgação, não leitores`, conclui Feitosa. (in Vida & Arte, Jornal O Povo, 25 de fevereiro)

sábado, 9 de abril de 2011

MEU INESQUECÍVEL ANJO AZUL – 1917-2011

(In memoriam de minha inesquecível mãe)

Assim como Jesus chorou a morte de Lázaro,
Também eu choro a morte do meu Anjo Azul;
Do meu anjo maternal, que fora o meu lábaro,
A bandeira do amor, da paz, da carícia blue...

Fica um vazio imenso no meu coração!
Lágrimas invisíveis jorram dos meus olhos,
Dos olhos de minh’alma em pranto e solidão.
São dores de saudade, dores dos abrolhos,

Dos espinhos agudos que perfuram a alma.
Mas, nesse abismo em luz, o meu Senhor me acalma,
E, em sua complacência, me conforta em Luz!

Sua Viva e eficaz Palavra vibra em mim:
Fortaleço-me na Fé, nessa hora de splim
Nos braços piedosos do meu bom Jesus!

Autor: J. Udine – 05-04-2011

A AJEB-CE LEVA SUAS CONDOLÊNCIAS À FAMÍLIA DO POETA J. UDINE EM RAZÃO DO FALECIMENTO DE SUA PRANTEADA MÂEZINHA

quinta-feira, 24 de março de 2011

"Mulher, Poesia Pura", homenagem de João Soares Neto à mulher e à poesia



Segunda, 14, data consagrada a Castro Alves e à Poesia, tive a ventura de juntar poetas. Alguns, em carne viva. Outros, em versos eternizados. De todos, recolhi poemas. Os daqui, eles mesmos os indicaram. Os do além, eu os escolhi. Poemas são mergulhos dos quais emergem respingos de sombras, amores, sonhos e dores. O tema: mulher. Vocês verão aqui, em rigorosa ordem alfabética, pequenos trechos de poema de cada poeta. Recorte e guarde, se desejar. Vou numerá-los, para que você, leitor, possa saber, com clareza, de quem são os poemas, sem aspas:

1.Antonio Girão Barroso: Maria, na doce paz deste poema sem lágrimas/minha mão quer te ofertar rosas e não versos;

2. Artur Eduardo Benevides: Porque ao fim da tarde já cheguei,/sentindo que meus dias vão findar,/jovem- só por te amar – ainda serei;

3.Carlyle Martins: E vendo-nos, ao luar de estranhos brilhos,/de mãos dadas, aos beijos, nossos filhos/dirão que enlouquecemos de paixão;

4. Carlos Augusto Viana: O teu corpo é um barro alucinado,/fruto de finas águas;e os tecidos/que o cobrem têm o âmbar cultivado/por dedos de farândolas tingidos;

5. Carlos Drummond de Andrade: Para amar uma mulher, mais que/tentar conquistá-la/ há de ser conquistado...todo tomado e, um pouco de sorte, também ser/amado;

6. Castro Alves: Eu fui a brisa, tu me foste a rosa,/fui mariposa,/-tu me foste a luz;

7.Cecília Meireles: Está vendo os salões que se acabaram/embala-te em valsas que não dançou/ levemente sorri para um homem/O homem que não existiu;

8. Cid Carvalho: Pois sigo na lágrima tua e quando encostas /o ouvido no meu peito, ouves o tropel nervoso/do meu cavalo louco nos caminhos do fim;

9.Dimas Macedo: quero-te o ventre/partilhado de lírios./E os círios acesos/de teus lábios;

10.Florbela Espanca: Amo-te tanto! E nunca de beijei.../E neste beijo, Amor, que eu te não dei/guardo os versos mais lindos que te fiz;

11.Francisco Carvalho: Assim nasceu o pecado,segundo/a escritura bíblica. Alguns sábios/acreditam/nessa ingênua metafísica;

12.Gerardo Melo Mourão:... eterna solidão da eterna noite/ e teu último poeta fere na pedra a boca//súbito lembrada do teu nome;

13. Giselda Medeiros: E sei mais:que por amor/tornas gostoso o amargo do jiló/e que fazes nascer um sol indefinido/na escuridão dos eclipses da vida

14. Horácio Dídimo: O pão nosso de cada dia nos dai hoje/pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta?Não há ternura/pelo fruto de suas entranhas;

15.João Dummar Filho: És a virgem exigente/e eu o pecador/és a verdade esplendorosa e eu, da existência a dor;

16.Batista de Lima:E Deus/ criou a mulher/para dar luz/ao homem;

17.Barros Pinho: Nos olhos da amada/o verbo edifica/os acentos da solidão;

18. José Telles: Não preciso, sequer,/ tocar tuas entranhas,/dá-me apenas a paisagem do teu corpo para ser aplaudida;

19.Juarez Leitão: Os pés de Donamaria contam histórias/de muitas lutas e poucas maravilhas!/Os calos são medalhas de suas glórias /conseguidas nos lombos dessas trilhas;

20.Leda Maria: Vez ou outra, acordamos mas/ lentamente, repetindo textos santos,/canções de marinheiros/e versos de partida;

21.Linhares Filho: Meu destino é a quietude que se esconde sobre tuas/algas e sob a tua salsugem;

22.Luciano Maia: Ó musa ignota, ser misterioso/caprichosa, lindíssima mulher/ e me fazer ousar: e ainda ouso/ o poema encontrar, onde ela quer;

23.Millôr Fernandes: Deus, a graça é imerecida,/mas dai ainda/ uns aninhos de vida;

24.Octavio Paz: Teu corpo se constela de signos verdes/renovos num corpo de árvore/ não te imposta tanta miúda e cicatriz luminosa:/olha o céu e a sua verde tatuagem de estrelas;

25.Olavo Bilac: Amo-te! Sou feliz! Porque, do Éden perdido,/ levo tudo, levando o teu corpo querido/pode em redor de ti, tudo se aniquilar/tudo renascerá cantando ao teu olhar;

26.Paul Verlaine: E os cuidados que vós podeis ter são apenas/andorinhas voando à tarde pelo céu/-Querida- num belo dia de setembro;

27.Pedro H.S. Leão: eterno é o que um só segundo/ é o que passou tão de repente/ sem dar tempo amanhecer;

28.Regine Limaverde: Sofro pelas mulheres que não tiveram/ os seios tocados/ os lábios procurados;/que se cansaram, em vão, ou jamais dormiram/ no leito de um Deus;

29.Roberto Pontes: Felizes são aqueles que amantes/dão-se de todo aos ritos do seu jogo/ e amparam suas mágoas e desejos/ na reciprocidade sacra dos seus ventres;

30.Soares Feitosa: Mantive a prisioneira sob algemas/que ninguém é louco de manter/tesoiro tão rico ao léu;

31.Vinícius de Moraes: E de te amar assim, muito a miúde/é que um dia em teu corpo de repente/ hei de morrer de amar mais que pude;

32. Virgílio Maia: Trago-te a mim, te entrego os corações/que flechados e azuis tragos nos braços. /Quero agora guiar-me por teus passos/ E no teu corpo haurir loucas lições;

33.Walt Whitman: Não se envergonhem, mulheres/é de vocês o privilégio de conterem/os outros e darem saída aos outros;

34. William Shakespeare: Assim é o meu amor e a ti o reporto/ por todas as culpas eu suporto.
(Compartilhado do blog almanacultura de Raimundo Neto)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

BELEZA ESPIRITUAL- Celina Côrte Pinheiro

A ação do tempo é inexorável. Ninguém escapa à sua capacidade de nos roubar o turgor juvenil. Apesar das rugas, surge uma beleza especial, um encanto, um charme, como se fora uma compensação ao desgaste físico. A isto denominamos maturidade e não se trata de um eufemismo bem colocado para substituir o termo velhice. O espelho revela uma figura orgulhosa de si, por conta do equilíbrio emocional e do conhecimento advindos da própria vida, que fazem de nós mais sábios. Até aquele fio de cabelo branco que se insinua entre os negros, já não tão negros, produz um reflexo charmoso e enigmático. Transformamo-nos em uma nova edição, revisada e acrescida de nuanças peculiares e gratificantes. Percebemos o envelhecimento com certo orgulho, face às aquisições pessoais e, ao mesmo tempo, com humildade, diante dos fatos que não podemos modificar.

Contudo, esta não é necessariamente a mesma impressão provocada naqueles que nos cercam, adormecidos para os valores do espírito. Eles observam somente o óbvio, nosso corpo emurchecido ou avolumado pelo tempo. São cegos no olhar e nos sentimentos. Não dedicam sequer um segundo em nos contemplar interiormente e muito menos em conter a própria expressão facial ou a palavra tosca que teima em lhes sair da boca. Eliminam seus dejetos mentais, dizem asneiras como se fossem imortais e detentores da eterna juventude. Portanto, a nossa sensação pessoal de juventude do espírito não é documento para quem se prende exclusivamente às aparências.

A vida passa e a fotografia fica. Uma das afirmações prediletas dos fotógrafos, na tentativa de nos incentivar à documentação obrigatória dos momentos vividos. Não lhes tiro a razão. Realmente, os fatos são vivamente lembrados através das fotografias. Em nossa mente, a energia, a sensualidade e a beleza física de sempre. Nas fotografias, a denúncia anônima da infidelidade do tempo a passar por nós de forma avassaladora. Elas mostram o que os outros vêem e nós não percebemos... São indiscretas! Revelam as mudanças acarretadas pelo tempo e a nossa cafonice na vestimenta ou naquela pose de manequim, mal copiada das mulheres maravilhosas estampadas nas revistas. Passado e presente documentados de forma inegável. Em meu diploma profissional, por exemplo, consta minha fotografia feita pelos idos dos anos 70. Cabelos castanhos, levemente anelados, olhar doce com o brilho da juventude, a pele macia, tudo registrado pela magia fotográfica. Sem modéstia, bonita. Um dia, alguém passou, viu o retrato, voltou-se para mim e, em seguida, para a foto. Vergastou o comentário: “Noooossa, como a gente muda...” Disse tudo! Sorte dela que jogar praga não é do meu feitio...

Meus netos crescem e se tornam, a cada dia, mais bonitos. Já, eu, ao lado deles, fico contrastante, com minha pele alterada pelos efeitos do tempo e do sol. Tenho, assim, que me curvar às evidências e concordar com o olhar dos jovens que não conseguem perceber nossa juventude preservada no espírito. Mas, sou capaz de jurar que ela é real...

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

SIMPLESMENTE POESIA


MOTE:

Eu passei a vida inteira
colecionando ilusões!...

GLOSA:

A desilusão primeira,
não me serviu de lição.
Vivi sempre, com emoção,
a tomar por verdadeira
uma promessa, uma jura...
E, assim, cheia de ternura,
eu passei a vida inteira.

Acreditei nas paixões,
numa amizade sincera,
e também no amor que impera
quando enlaça corações.
Sou mesmo assim... Que fazer?
Sei que vou envelhecer
colecionando ilusões!...

(Zenaide Marçal/CE)


(de MENSAGENS POÉTICAS - Ademar Macedo)

sábado, 18 de dezembro de 2010

TROFÉU IRACEMA

Dia 14 deste dezembro, o programa cultural Terça-Feira em Prosa e Verso, criado e apresentado pelo jornalista Vicente Alencar, completou onze anos de apresentação ininterrupta. Para marcar a efeméride, foi outorgado o Troféu Iracema a três personalidades da cultura cearense: Francisco Lima Freitas (presidente da ALMECE), Zenaide Marçal (Ex-Presidente da AJEB-CE) e Cristiano Câmara (pesquisador cultural).


A Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil - AJEB/CE - sente-se honrada na pessoa de sua Ex-Presidente Zenaide Marçal, ao mesmo tempo em que parabeniza Vicente Alencar pelos onze anos de sua Terça-Feira em Prosa e Verso.

Zenaide Marçal e a atual Presidente da AJEB, Maria Luísa Bomfim


Zenaide Marçal e o jornalista Sérgio Bomfim






O agradecimento da homenageada

sábado, 11 de dezembro de 2010

ANIVERSÁRIO DE REJANE COSTA BARROS

Rejane e as amigas Zinah Alexandrino e Zenaide Marçal


Ela com Vicente Luiz e Dayse


Rejane e Aninha


A aniversariante com o casal Hissa e Vânia


Rejane com Dr. Gurjão e Marlene


Dia 9 de dezembro, no Capim Santo, Rejane reuniu seus amigos mais íntimos, para, juntamente com ela, celebrar seu aniversário.
Foi uma noitada alegre, regada a muita alegria, música, discurso, aplausos, drinques e, acima de tudo, AMOR.
Todos saíram dali certos de que Rejane é uma pessoa especialíssima e que estar no rol de seus amigos é uma honra inexcedível.
Parabéns, Rejane! Você merece toda a felicidade com que Deus lhe premiou.


Zenaide Marçal e Evan Bessa


Juarez Leitão, Giselda Medeiros e Tereza Porto


Heloísa, Rejane e Maria Luísa Bomfim


Gustavo, Rejane e Regine Limaverde


Vicente Alencar, a aniversariante e Maria Luísa Bomfim


A aniversariante entre o Deputado Paulo Facó e Juarez Leitão


O sorriso feliz de Rejane Costa Barros

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

POLICROMIAS - um collorarium de peças literárias






Boa noite a todos, senhores e senhoras presentes, a quem saúdo na pessoa da presidente da AJEB, Maria Luísa Bonfim.

Foi com satisfação que recebi e aceitei o convite da poeta Giselda Medeiros, presidente de honra e diretora de publicação da Associação de Jornalistas e Escritoras Brasileiras – AJEB – para apresentar este 6º volume da Coletânea Policromias, uma edição comemorativa do 40º aniversário da Associação.

Não poderia haver nome mais adequado do que Policromias para traduzir a multiplicidade de textos que compõem o volume. São variadas nuanças, numa diversidade de gêneros e estilos, como a compor um quadro de tonalidades e matizes, não de cores, mas de palavras que analisam, perquirem, contam, recontam, bordam histórias, falam de glórias e tecem sentimentos, encantos e desencantos, segredos e esperas.

O cronista angolano Carmo Neto diz que criar é um exercício de liberdade. De fato, quando se juntam experiências diversas desse exercício, tem-se o texto como fruição, como projeto estético ou como apenas catarse. Pouco importam intenções ou rótulos, a necessidade de quem escreve é também a de quem lê.

Nesse mesmo raciocínio sobre a criação, Walter Benjamim, ao referir-se a textos narrativos, disse: “O narrador conta o que ele extrai da experiência – sua própria ou aquela contada por outros. E, de volta, ele a torna experiência daqueles que ouvem a sua história”. O filósofo parece ter proferido essas palavras pensando na crônica; ou, talvez, pensasse na epístola, gênero praticamente desaparecido, que, não despretenciosamente, abre essa miscelânea literária. Falo da Carta de Beatriz Alcântara, cuja emoção nos arrebata e faz seguirmos com a narradora o tempestuoso percurso para enterrar os ossos dos avôs. Com ela, enfrentamos a procela e respiramos gratificados quando a missão é cumprida e resta a trivial realidade de um computador deixado ligado na tomada. Heloísa Barros Leal também incursiona pelo mesmo gênero, como Haroldo Lyra, com outras proposições.

A crônica, o mais simples e sublime exercício de partilha de experiências e observações, possibilita rápidas viagens aos universos criados pelos dedos de Evan Bessa, Zenaide Marçal, Nirvanda Medeiros, Ione Arruda, Ilnah Soares, Germano Muniz, Margarida Alencar, Rosa Firmo, Stella Furtado, Zinah Alexandrino, João de Deus, Vicente Alencar e Rosa Virgínia Carneiro, muitas vezes se confundindo com prosa poética. Talvez seja essa a forma de composição mais praticada na atualidade, “porque nós temos consciência da extraordinária violência com que o tempo vai levando as coisas e as gentes, daí a necessidade de registrar, de alguma forma, o que se passou e passa no âmbito pessoal e intransferível”, como afirma Ivan Lessa. Vou além: a crônica satisfaz nossa ânsia de comunicação com o outro, não requer recursos estéticos, não enseja belicosos trabalhos de linguagem, constrói-se na simplicidade da nossa própria visão de mundo e nos dá a oportunidade de ser pessoais, sem sermos piegas, de celebrar o instante que passa, sem deixá-lo ir completamente.

O conto é outro exercício ficcional praticado pelos ajebianos e, nesta coletânea, vem representado pela criação de Regina Barros Leal, Evan Bessa, Ednilo Soárez e Celina Côrte Pinheiro. O ensaio também ocupa espaço nestas páginas; poetas e contistas saem da sua condição de criadores do texto literário para analisá-los ou discorrerem sobre a realidade circundante. Ebe Braga Frota fala sobre a educação como fator de progresso social; Giselda discorre sobre a trova; Maria Luisa Bonfim escreve sobre os poemas de Pablo Neruda; Francisco Carvalho analisa a poesia de Neide Azevedo; Maria Amélia Barros Leal investiga o universo ficcional de Moreira Campos e Claudio Queiroz percorre a ficção de Dostoiévski. O discurso, gênero essencialmente oratório, tem registro com peças de autoria de José Augusto Bezerra, João de Deus, Maria do Carmo Fontenelle e Eduardo Fontes.

Já a poesia, a composição escrita que mais se comunica com a alma, domina as páginas da coletânea, em versos de muitos contistas, cronistas e ensaístas já citados, bem como na inspiração de Rejane Costa Barros, Nilze Costa e Silva, Argentina Andrade, Lúcia Helena Pereira, Ana Paula de Medeiros, Manoel César, Regine Limaverde, Salete Passos Urano, Tereza Porto, Bernadete Sampaio, Clara Leda, Mary Ann Leitão Karan, Sabrina Melo, Viviane Fernandes, Maria Helena Macedo, Pereira de Albuquerque, Vital Arruda, J. Udine, Moacir Gadelha, Sérgio Macedo, Sílvio dos Santos Filho e Waldir Rodrigues. A eles se agregam os Poemas vencedores do IV Concurso Literário Professora Edith Braga, realizado pela AJEB-CE, em 2009, especialmente os três primeiros lugares conquistados por Sabrina Melo, Arleni Portelada e Francisco Bento Leitão Filho. Todos sabem, como Valtaire, que “O esplendor da relva só pode mesmo ser percebido pelo poeta. Os outros pisam nela”, ou seja, sabem da missão de descortinar o mundo que não se mostra a qualquer um, somente àqueles que trazem nos olhos a poesia que dorme nos seres e nas coisas.

Nesse corollarium de peças literárias, não há hierarquia nem juízo de valor. A moeda é a criação advinda da necessidade de confirmar a própria existência. Escrever sempre será um ato de liberdade e afinação com a vida; sempre será a projeção de um grito de dor ou prazer... ou apenas um grito que se quer ouvido. Parabéns à poeta Giselda pela organização da coletânea e a todos os participantes que, não tenho dúvida, entendem a vida pelo diálogo entre as palavras e os silêncios.

Obrigada!

Aíla Sampaio

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A AJEB-CE PARABENIZA REJANE COSTA BARROS POR SUA PREMIAÇÃO NO CONCURSO DE POESIA COSTA MATOS




EIS O POEMA CLASSIFICADO EM 1º LUGAR


ENIGMAS

Rejane Costa Barros

Saber-se assim, solta no vento,
é ter a sensação de que o pó da estrada
voou para longe.
Tenho chaves no peito que deságuam
minhas solidões
e vão abrindo os portões do meu celeiro.
O momento em que estou diante de ti
vem me destemperando a alma
e fazendo com que eu ouça o silêncio
aquele que amadurece as frutas
que vingam em meu corpo.
O mapa dos meus olhos
radiografa teus caminhos
e despe a cidade rasgando as pétalas do desejo.
Querer-te próximo
é roçar uma plantação de enigmas
ávidos caçadores de palavras
escrevendo poemas e soltando às estrelas
as desalinhadas promessas.
A noite se inscreve nessa história
como se o vinho temperasse a solidão
e abandonasse as escrituras,
jogasse ao chão as folhas mortas,
e rasgasse os absurdos, a falta de nexo, o desconsolo.
Minhas sombras estão impregnadas nas areias da memória
por ela vivo e dela me socorro.
Nas dúvidas do caminho interrompido e sem amarras
às vezes brotam em mim urtigas.
Na maioria das vezes, nascem em mim gerânios
que refletem imagens nas lâminas de vidro
pequenos depositários dos meus anseios.
Abrigo as estrelas e estendo as mãos
com melancólicos versos de cantigas do amor distante,
assim, aponto ao horizonte mirando os pássaros
do meu destino, em curvas delineadas pela fragilidade
com que o amor nos dilacera a alma, sangrando
os musgos da nossa existência!

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

SAUDADE - Vicente Alencar


Dores profundas
momentos dificeis
lágrimas que caem.

Nuvens carregadas
céu bonito de chuva,
uma ausência sentida.

Lembranças alargadas,
saudades marcantes,
o passado é presente.

Há quase um choro
pois o pranto ameaça
e meus olhos embaçam.

(SÓCIO BENEMÉRITO DA AJEB)

domingo, 31 de outubro de 2010

EVAN BESSA ANIVERSARIA E BRINDA CONVIDADOS COM UM EXEMPLAR DE SEU LIVRO "VIVÊNCIAS DO COTIDIANO"








Evan Bessa, 1ª Vice-Presidente da AJEB-CE, aniversariou dia 29 de outubro.
Com bela e aconchegante recepção no Dallas Gril, ela recebeu seus convidados, ofertando a cada um deles um exemplar de "Vivências do Cotidiano", livro que traz crônicas sobre variados assuntos. Sempre respeitando as características da crônica, ou seja, brevidade, subjetividade, ambiguidade, diálogo, estilo entre o coloquial e o literário e temática do cotidiano, Evan Bessa transita nesse gênero com desenvoltura, estilo próprio, certa dose de humor, enfim, com um conjunto de ingredientes que deixa sua escrita aberta ao gosto do leitor. Podemos dizer que Evan Bessa é uma ficcionista do cotidiano, com uma porção de realidade e fantasia.
Parabéns, Evan. Toda a AJEB se envaidece por tê-la em suas fileiras.

Giselda Medeiros

terça-feira, 19 de outubro de 2010

NO SERTÃO BROTOU PALAVRA: A PALAVRA DE RACHEL



Ajebianas, Sócios Colaboradores
Senhoras, Senhores,

A literatura é destino e encantamento definitivo. Desde os salmistas bíblicos aos agentes da vanguarda contemporânea, os que escrevem obedecem a uma convocação. Um chamado definitivo e de tal modo irrecusável que ninguém ousa desobedecer, sob pena de ser atirado às cadeias eternas da loucura. Muitos, dentro da própria loucura, ainda produziram arte, numa prova categórica de que a propulsão para escrever é maior do que qualquer tragédia.
Da dor ou da alegria, da ternura ou da brutalidade, da objetividade explícita ou da subjetividade submersa, a palavra é a Estrada de Damasco, a conversão absoluta do homem comum num ser criador e, como tal, um parceiro de Deus.
Só a mão sedutora de um literato poderia convencer os judeus a sair do Egito para atravessar o deserto rumo aos rudes e áridos territórios da palestina, a Terra prometida, com a incrível descrição de que os cumes desolados da Judéia eram a “terra onde corria o leite e o mel”.
Só a mão primorosa de Shakespeare poderia traduzir tão artisticamente a nossa espécie, em Hamlet: “Que obra de arte é o homem! Tão nobre no raciocínio, tão vasto na capacidade. Em forma e em movimento, é como um Deus. A beleza do mundo, o exemplo dos animais!”
Só a mão lírica de Artur Eduardo Benevides poderia definir Fortaleza como a “Grande flor atlântica/plantada mais em nós do que no chão”.
A arte de traduzir sentimentos, descrever ou recriar realidades distingue certa casta de pessoas. Alguns com maiores atributos, outros com menor porte inventivo, todos, porém, descobridores e fazedores de mundos, pequenos ou grandes, por afeição do destino ou maldição dos deuses.
A inspiração é uma gravidez que acomete homens e mulheres. Pode ser abortada, interrompida, mas sempre acontecerão reincidências. Outras gestações haverão de chegar. E, uma vez pejada, a melhor solução é o parto. Alguns simplesmente confessam: escrevo ou morro.
Nem sempre encontramos a forma ideal de transmitir a ideia. Muitas vezes as interpretações críticas surpreendem os autores. Não fora aquela a intenção inicial. Cada olhar sobre o texto pode produzir uma nova história, porque os leitores é que realmente completam o trabalho do escritor.
Literatura é coisa muito séria. Através dela semeamos as uvas da esperança e restauramos as pontes destruídas, acendemos archotes nas noites tenebrosas e até recriamos a vida no inflexível corredor da morte.
A seca, a negligência administrativa, o desemprego, as oscilações do clima e as inconstâncias todas da terra nordestina levou-nos à sublimação poética, à fantasia ficcional, ao delírio da invenção literária. Pelos versos, pelas crônicas e pelos romances enganamos a fome, o medo e a dor.
Que Deus não nos negue pelo menos a compensação dos disfarces.
Hoje, minha emoção se multiplica ao falar sobre a inesquecível Rachel de Queiroz, dama maior da literatura brasileira e filha querida da Terra do Sol, paixão da minha infância e adolescência e admiração madura e consciente de minha formação literária.
É minha patrona na cadeira 15 da Academia Feminina de Letras do Ceará – AFELCE, o que muito me honra e me envaidece. Sua obra de romancista, cronista e teatróloga está entre as mais expressivas das letras nacionais de todos os tempos. Seu nome esplende entre os maiores criadores literários do país e, ultrapassando as fronteiras nacionais, seus livros foram traduzidos em muitas línguas e editados em vários países.
Cabe-lhe muito bem patronear uma cadeira em qualquer Academia, ainda mais a Feminina de Letras do Ceará porque Rachel é, assumidamente, uma criadora de perfis femininos. Em entrevista no ano de 1989 afirma: “Quase todas as minhas personagens importantes são mulheres. Mulheres destemidas. Elas, naturalmente, não representam a mulher forte que eu não consigo ser, mas a mulher forte que eu gostaria de ser.”
A professora Cleudene Aragão nos fala assim sobre Rachel: “A Rachel brasileira desvendava os caminhos tortuosos pelos quais o nordestino teve que passar para tentar a vida em outra terra, mas narrava, também, o modo como outros brasileiros, com os quais convivia e que aprendeu a conhecer através de seu trabalho literário, relacionar-se com o mundo”.
A relação da escritora cearense com o audiovisual não se pautou apenas por adaptações dos seus livros para o Cinema e a Televisão. Com participações pontuais e discretas, Rachel de Queiroz experimentou o trabalho de produção e roteiro em dois filmes brasileiros, entre eles, o primeiro do país a conquistar premiação em Cannes, na França. Rachel é autora de destaque na ficção social nordestina.
Nascida em Fortaleza, em 17 de novembro de 1910. Embora sua família tenha raízes em Quixadá, município onde a escritora mantinha parte da antiga propriedade de seu clã, a Fazenda Não Me Deixes. Rachel descendia pelo lado materno da estirpe caririense dos Alencar, parente, portanto de José de Alencar. Pelo lado paterno dos Queiroz, família fundamentalmente alicerçada em Quixadá e Beberibe, era filha do juiz Daniel de Queiroz e de Dona Clotilde Franklin de Queiroz.
Tinha apenas cinco anos quando a terrível “Seca do 15” varreu o Ceará, atingindo sobremaneira a região central, o que levou a família a emigrar para o Rio de Janeiro. No Rio, a família Queiroz pouco se demorou, transferindo-se para Belém do Pará, onde permaneceria por dois anos. Retornam ao Ceará, inicialmente para Guaramiranga e depois Quixadá. Em 1919 voltava o Doutor Daniel para Fortaleza. Rachel, em 1921, passou a estudar no Colégio da Imaculada Conceição, dirigido pelas Irmãs de Caridade, onde fez o Curso Normal, diplomando-se aos 15 anos, em 1925.
Repetir palavras de adultos era uma das coisas de que Rachel mais gostava. Ela reparava muito no palavreado dos mais velhos. Dona Clotilde, por exemplo, quando via a bagunça feita pela meninada, costumava dizer:
− Esse quarto está um caos!
Rachel achava linda aquela palavra e não tardou a aplicá-la em seu cotidiano. Tratou de inventar algo que combinasse com a dramaticidade da palavra e soltou entre os adultos:
− Estou com uma dor que é um caos!
Todos riram da menina! Tão pequena e já possuía uma dor sem tamanho! Ela ficou cismada com as risadas e não falou mais nada sobre as suas concepções de caos.
Meados do ano 1920, novidades na casa. A Irmã caçula Maria Luíza nascera.
A adolescente de 16 anos Rachel de Queiroz dividiu-se entre agulhas de bordar as roupinhas de pagão da recém chegada e maquinações para ousar o primeiro voo e enviar ao O Ceará, sob o pseudônimo de Rita de Queluz, uma carta aberta sobre a eleição da primeira Rainha dos Estudantes do Ceará.
O nome da pequena era uma homenagem à avó materna, falecida e cuja perda abateu Clotilde Franklin de Queiroz. A mãe de Rachel era uma pessoa muito romântica, levava tudo muito a sério, então, ficou de cama quando a mãe morreu. Rachel, então, tomou para ela a responsabilidade de cuidar da irmã e não gostava que ninguém lhe desse presentes, tudo tinha que ser feito por ela. No livro Tantos Anos, de memórias, que as duas irmãs escreveram juntas, a escritora conta que disputou com a mãe e com Antônia o direito de banhar a menina, de vesti-la, de passear com ela. E mesmo depois de casada, jamais abdicou de sua parcela de maternidade em relação à Isinha, nome carinhoso com o qual tratava a irmã, Maria Luíza.
O Professor e Mestre em Literatura, Miguel Leocádio, analisa a infância como rito de passagem da escritora. O amor à inocência, a descoberta da amizade, o início das relações sociais são características da infância que povoam a literatura de Rachel de Queiroz.
As cenas dantescas do sofrimento do povo do Ceará, mesmo daqueles mais afortunados, como seus pais, ficariam indelevelmente marcadas na memória da garota, que aos 20 anos, escreveria seu romance de estreia, “O Quinze”, que alcançou ampla repercussão no Rio de Janeiro e em São Paulo. Agitando a bandeira de fundo social, profundamente realista na dramática exposição da luta secular de um povo contra a miséria e as agruras da seca, a escritora provinciana projeta-se na vida literária do país.
Lançado em Fortaleza, em 1930, numa edição de apenas mil exemplares, custeada pelo pai da escritora, logo que chegou às mãos dos grandes críticos despertou atenção incomum. Rachel teve seu romance premiado pela Fundação Graça Aranha, em 1931, o que a incentivou a dar continuidade à produção de um novo livro, “João Miguel”, em 1932. Daí em diante foi um luminoso caminho de sucesso e toda essa lavoura de livros que abismou a literatura nacional até os nossos dias.
Declarava-se uma operária das letras e trabalhava todos os dias, mesmo depois de ter sofrido um acidente vascular cerebral.
A participação de Rachel de Queiroz na vida cultural do país é pontilhada de referências importantes. Durante 22 anos foi membro do Conselho Federal de Cultura. Representou o Brasil na 21ª Assembleia Geral da ONU, em 1966.
Foi convidada, embora tenha recusado pelo presidente Jânio Quadros, para assumir o Ministério da Cultura. A escritora foi distinguida com importantes prêmios literários, destacando aqui, três deles: o Prêmio Machado de Assis, o Prêmio Camões (equivalente ao Nobel, na língua portuguesa) e o Prêmio Jabuti, todos pelo conjunto da obra. Recebeu em 06 de dezembro do ano de 2000, o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.
Foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras. Sua eleição, em 04 de novembro de 1977 para a cadeira 5 da ABL, causou certo frisson nas feministas de então. Mas a reação da escritora ao movimento foi bastante moderado. Numa entrevista, em meio ao grande frenesi que sua nomeação causou, declarou: “Eu não entrei para a Academia por ser mulher. Entrei, porque, independentemente disso, tenho uma obra. Tenho amigos queridos aqui dentro, quase todos os meus amigos são homens, eu não confio muito nas mulheres”. Foi um choque anafilático no movimento feminista. Rachel foi saudada por Adonias Filho, sendo a quinta pessoa a ocupar a cadeira 5 e tendo por Patrono, Bernardo Guimarães.
Depois da aprovação, da entrada de mulheres na Academia e da eleição de Rachel, surgiu uma questão que era preciso resolver o mais rápido possível: o fardão. Para os homens, o fardão é uma casaca, inspirada nas antigas fardas do corpo diplomático. Feito de tecido verde-escuro com bordados a ouro representando louros. A roupa completa custa cerca de R$ 30.000 e pela tradição, o fardão deve ser dado de presente ao novo acadêmico pelo Governo do Estado onde ele nasceu. Para as mulheres esse fardão certamente não ficaria bem. O que fazer? Foi a própria Rachel quem solucionou o problema. Ela imaginou um vestido longo, do mesmo tecido do fardão masculino, mas com apenas discretos bordados dourados, representando os louros tradicionais.
O traje para as acadêmicas foi desenhado pela estilista Silvia de Souza Dantas, a partir das ideias de Rachel. Ela acrescentou palmas douradas nas mangas
em forma de sino e no decote V e nesgas plissadas na altura do joelho. Em lugar de uma espada, acessório dos escritores eleitos para a ABL, as acadêmicas exibem um colar. Com a chegada da primeira mulher à Academia, seus colegas tiveram que cuidar de outro detalhe, antes desnecessário: a construção de um reservado feminino, de que a sede da ABL não dispunha.
No dia de sua posse, a Academia segue todo um ritual de recepção para o novo acadêmico. Nesse dia, todos têm que comparecer usando o fardão. A solenidade acontece no Salão Nobre ou Salão Azul. O novo acadêmico, antes da posse, fica recolhido por alguns minutos no Salão Francês, uma pequena sala na entrada da Academia, fazendo uma reflexão antes do momento solene. Três acadêmicos vão buscá-lo e o acompanham até o Salão de Posse. À mesa principal, ficam sentados o presidente da ABL, o presidente da República ou seu representante, os chefes de missões estrangeiras e ministros de Estado. Cabe ao novo acadêmico após a saudação, fazer o discurso falando dos antecessores de sua cadeira.
O que de fato emocionou Rachel foi ocupar a cadeira que foi de Raimundo Correia, um poeta que ela tanto lera quando menina. A partir da posse, Rachel passou a fazer parte da Academia e nunca aceitou nenhum cargo de chefia na Instituição e avisou que não o faria desde o princípio. O que ela sempre gostou mesma na ABL foi o convívio, as conversas em torno do chá acadêmico que acontece todas as quintas-feiras, antes das sessões, pontualmente às três da tarde. A escritora nunca escondeu quem era o seu maior amigo da Academia: Austregésilo de Athayde, presidente por 34 vezes. Ela já escreveu sobre ele dizendo que tinha sempre “uma fala de mel, uma mão de veludo”.
Transparente, coerente e sincera, com a sensibilidade nordestina à flor da pele, Rachel ofereceu-nos sempre uma permanente lição de fidelidade à sua vida de contadora de histórias. Poucos autores conseguiram, melhor do que ela, escrever com tanta desenvoltura e simplicidade. Sua prosa é sóbria, coloquial e escorreita. Trafega límpida, fagueira, impávida, pelos olhos do leitor, sem transbordamentos, sem excessos e sem retumbâncias, dentro de uma narrativa não raro dramática, com enfoque especial contra os estamentos preconceituosos da aristocrática sociedade de então.
A Sra. Rosita Ferreira, que cuidou de Rachel por muitos anos, relatou que a primeira vez que foi ao Rio de Janeiro foi no ano de 1977 para a posse da escritora na ABL. Disse que a posse dela foi a coisa mais importante que já presenciou. Até às cinco da manhã tinha gente fazendo discursos. Rachel tomou posse no dia quatro de novembro de 1977 e, por coincidência, morreu no dia 04 de novembro de 2003.
Dona Rosita ia todos os anos ao Rio para o aniversário da escritora. A última vez foi e permaneceu até sua morte. Relata ainda que Rachel sabia que estava chegando a hora de partir, porque no dia em que faleceu chamou-a e disse: “Rosita, eu hoje vou preparar um banquete para os meus pais, meus irmãos, minha filha e meus maridos, hoje vou para o Ceará. Mas, nesta viagem você não me acompanha, vou só”.
Isso foi numa segunda-feira, dia 03 de novembro de 2003. Ainda em citação de dona Rosita fala que Rachel disse: “Já conversei neste instante lá nos Altos, está tudo acertado, eu vou morrer e vou direto para o Céu”. E a amiga Rosita abaixou-se e disse-lhe baixinho, ao ouvido dela: “Quem já viu herege ir para o Céu”? Ela riu e disse que não se preocupasse que já estava tudo acertado. Disse-lhe certa vez que se morresse no Rio de Janeiro queria ser enterrada no túmulo do segundo marido, Oyama, não queria ser enterrada no Mausoléu da Academia. Se morresse no Ceará queria ser enterrada na Fazenda Califórnia, no túmulo de seu pai. Dona Rosita ainda revela que Rachel mesmo sempre se dizendo sem religião, todas as noites se benzia e rezava o Pai-Nosso e a Salve-Rainha.
Na manhã do dia 03, levantou-se, tomou o café como de costume, almoçou à mesa, pois a irmã Maria Luíza já chegara de viagem. Nesse mesmo dia teve duas isquemias, o lado direito ficou paralisado. Às 22 horas pediu para ir à sua rede. Ficou conversando e não parava um só instante. Às duas e meia da manhã, Dona Rosita diz que pediu para ela dormir, pois deveria estar cansada, mas a escritora disse que não podia dormir com a angústia que sentia. Ao passar a mão em sua cabeça, dona Rosita percebeu que estava ensopada de suor. A acompanhante foi chamada e trocaram-lhe a roupa.
Colocaram colônia que ela muito gostava e tentaram chamar o médico, mas a própria Rachel dizia que médico não resolvia aquilo.
Assim que Dona Rosita deitou-se a acompanhante a chamou e disse: “Dona Rachel não falou mais nada, está parada”. Surpresa, pois falara com ela até pouco tempo foi até lá passou a unha na planta do pé da escritora e nada, imóvel. Ali ela teve certeza da partida de Rachel. Faleceu dormindo em sua rede. Logo veio o médico, mas já não havia mais nada a fazer. Rachel estava serena, os olhos fechados. Partiu como um anjo.

Ela desenhou o fardão da Academia e com ele foi sepultada.

Deixou, aguardando publicação, o livro Visões: Maurício Albano e Rachel de Queiroz, uma fusão de imagens do Ceará fotografadas por Maurício com textos de Rachel.

Senhoras, Senhores,

Sua morte, nos enviuvou deixando-nos um imenso sentimento de solidão. Mas seu nome será sempre uma luz forte na Terra do Sol e em todos os rincões deste imenso país, onde quer que se abra uma página de sua criação mágica.
Hoje nesta manhã de minha alegria é provável que seu espírito esteja vigiando minha responsabilidade ao falar sobre ela. Agradeço-lhes a atenção e digo que me sinto cercada por suas personagens, que haverão de me acompanhar pela vida inteira.
Neste ano de centenário de seu nascimento é preciso todas as homenagens a esta grande dama da literatura.

Encerrando minha fala, dá-me a impressão que este Auditório foi transformado num grande alpendre sertanejo, no alpendre da Fazenda NÃO ME DEIXES e que vieram estar conosco as Três Marias, Dôra Doralina, a Beata Maria de Araújo, a Donzela e a Moura Torta e a valente e guerreira Maria Moura.
E, assim, na companhia benfazeja de meus amigos e das filhas da imaginação criadora de Rachel de Queiroz, entre as brisas do mar e o fogo do sertão, proclamo a felicidade, ao término dessa conversa.

Muito Obrigada!

Rejane Costa Barros

(Palestra proferida na sessão ordinária da AJEB-CE, dia 19 de outubro de 2010)

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

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Dia 26 de outubro, a partir de 19h, no Ideal Club (área da piscina)
Apresentação do poeta e acadêmico José Telles
Show de Renato Assunção