domingo, 3 de fevereiro de 2013
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
DIRCURSO DE POSSE NA PRESIDÊNCIA DA Academia Cearense de Letras - 2013/2014
Digníssimos membros da mesa diretora dos trabalhos desta solenidade, os quais saúdo na figura do atual Presidente desta casa, imortal e amigo Pedro Henrique Saraiva Leão, que meritoriamente encerra a sua missão.
Na antiguidade, os membros das comunidades se reuniam nos portos para desejar boa sorte à tripulação e aos passageiros das naus que iniciavam importantes viagens. Era um instante sagrado em que se pedia aos Deuses que orientassem, principalmente, os que iam comandar por entre mares e perigos desconhecidos.
Contrariamente, quando os navios voltavam, era o momento da alegria. Agradecia-se às divindades que permitiram, e aos homens que souberam, vencer desafios e voltar ao porto seguro da sua gente.
Cremos que hoje devemos, primeiramente, agradecer à administração anterior, capitaneada pelo ilustre Acadêmico Pedro Henrique, por haver trazido, após longa viagem de quatro anos, por entre dificuldades de toda ordem, a nau Academia Cearense de Letras, ao nosso porto de origem, sem nenhuma avaria e pronta para nova viagem e nova aventura. Em seu nome, portanto, Pedro, reverenciamos todas as Diretorias passadas, que comandaram tão bem cada viagem desta gloriosa embarcação, a mais antiga do gênero no Brasil, pelos últimos cento e dezoito anos. Dentre estes comandantes anteriores ressalte-se que está aqui presente o nosso querido e admirado confrade Murilo Martins, o qual cuidará do memorial da entidade, por ele concebido e implantado, ao lado desse genial estudioso da literatura cearense, Sânzio de Azevedo. Pedimos ainda ao Pedro que estenda nosso reconhecimento a sua esposa Mana, pelo empenho e entusiasmo com que o apoiou durante esta sua jornada.
Prezados acadêmicos deste Silogeu, os quais deram à chapa Barros Pinho, aquele meu irmão espiritual, por nós encabeçada, trinta e quatro dos trinta e cinco votos possíveis. Recebemos esta demonstração de confiança, praticamente unânime, com humildade e como se fora um recado de que poderemos contar com todos na tarefa de, na medida do possível, decidirmos em conjunto, com transparência, unidos e tendo como objetivo irrecusável a evolução da Academia e da inteligência da nossa terra.
Estimados parceiros, públicos e privados, que de certa forma, ao nos dar suporte e apoio, também adentram neste barco e para esta viagem. Nomeamos, primeiramente, os empreendedores privados, esses poetas que escrevem no grande livro da vida, representados pela Fundação Edson Queiroz, pela Fundação Beto Studart, pelo Grupo Ivens Dias Branco e pela FIEC. Simbolizando também o espírito e a visão dos homens públicos, nos honram como companheiros nesta jornada, a nossa Câmara Municipal, a Prefeitura de Fortaleza e a Secretaria de Cultura do Estado Ceará.
Saudamos os demais presentes, que aqui representam a sociedade. A sociedade é a razão de ser de uma Academia e vocês emolduram glamorosamente esta solenidade, com as expressões dos seus rostos e a dignidade das suas figuras.
Reverencio os familiares e amigos na imagem de uma menina que conheci aos quinze anos de idade, numa festa de São João. Na realidade éramos dois meninos. Casamo-nos aos dezoito, e hoje, cinquenta anos após, ainda continuamos unidos, pela vida e pelos sonhos: a minha esposa Bernadete.
Senhoras e senhores, observe-se que, fisicamente, o ser humano quase não mudou desde a idade da pedra. É o único animal que evoluiu por dentro, na mente, invisivelmente, e, não por acaso, os países que mais cresceram foram e ainda são, os que mais têm investido em educação e cultura.
As Academias, por mais de dois mil anos, tem sido centros propagadores desta evolução interior, coerentes com o pensamento de Sócrates que pregava existir apenas um bem, o saber, e apenas um mal, a ignorância.
Na origem da primeira academia houve também o surgimento do alfabeto e com ele o grande debate. Insignes filósofos acreditavam que só a palavra oral, viva e contundente, continuaria a desenvolver plenamente a memória. Temiam que as facilidades da escrita e da leitura enfraquecessem o raciocínio, o diálogo e a capacidade de questionamento.
Os temores não se justificaram. As linguagens oral e escrita delimitaram suas áreas de atuação e se somaram numa verdadeira revolução intelectual. As Academias acompanharam o namoro do homem com a sabedoria, preconizado por Platão, e esse relacionamento com o conhecimento, ampliado pela invenção da imprensa, impulsionou a humanidade ao estágio atual.
O homem contemporâneo, acreditando, como imaginava Nietzsche, que não há fatos eternos, nem verdades absolutas, penetra em um novo e misterioso universo, por ele criado, o mundo virtual.
A geração pós-papel já nasceu, conforme podemos observar em nossos filhos e netos, os quais ainda crianças têm mais afinidades com o computador e suas sutilezas do que nós adultos. Os textos de papiros, de pergaminho ou de papel, transformaram-se em telas reluzentes que interagem diretamente com a nossa consciência, sem contato tátil. Grandes jornais do mundo transformaram-se em virtuais. Muitas cadeias de livrarias fecharam. A Amazon, líder nas vendas do varejo on-line, já vende mais livros eletrônicos que livros físicos nos mercados americano e europeu, e as importantes bibliotecas estão reestudando seus investimentos, seu formato e o seu futuro.
Essa transição para a era digital talvez seja a maior das revoluções humanas e precisamos descobrir também o novo papel das Academias dentro desse contexto.
Emerge novamente, após 2.500 anos da criação do alfabeto, o debate sobre qual será o impacto dessas novas e profundas mudanças na leitura, na escrita e, por decorrência, nos cérebros humanos. Alguns argumentam que os jovens estão limitando rapidamente o seu vocabulário e que há uma assustadora tendência a se ler apenas e-mails e blogs, desprezando-se as leituras em profundidade. Outros acreditam que a comunicação virtual, tal qual foi a escrita, é uma maravilhosa conquista e poderá ser a ponte para o Olimpo do conhecimento humano.
Mas não importa o que acontecerá. Deveremos estar atentos e adaptarmo-nos, pois, parodiando Fernando Pessoa, poder-se-ia dizer: É o tempo da travessia e, se não ousarmos fazê-la, ficaremos, para sempre, à margem de nós mesmos.
Para esta nossa travessia contamos com quarenta experientes membros na tripulação, denominados acadêmicos. O lema desta Academia é Forti Nihil Difficile, ou seja, para o forte nada é difícil.
É uma grande honra poder trabalhar com o grupo de confrades deste Sodalício, o qual representa a inteligência literária da nossa terra. A jornada não será fácil, mas pela votação que nos foi dada, estamos unidos. Unidos somos fortes e para o forte nada é difícil.
Registre-se nosso reconhecimento e gratidão ao dedicado trabalho do grupo de apoio logístico e administrativo, formado por nossos funcionários: Madalena Figueiredo, Bibliotecária; Cláudia Queiroz, Secretária; Nunes Veríssimo, Valter Soares e José Arteiro, nos serviços gerais, internos e externos, sob a liderança da Diretora-Administrativa desta Academia, há vinte anos, Regina Pamplona Fiuza.
Preliminarmente, declaramos que trataremos com carinho os seguintes temas: Organização das finanças da instituição; esforço para recuperação da Praça dos Leões, incluindo o coreto; Melhoramento da segurança no entorno da entidade. Restauração do Prédio e da biblioteca da ACL; Interiorização da nossa atividade, com visita da ACL a cidades do interior; Reforma do Estatuto; Exposições temáticas; Continuidade dos Ciclos de Conferências; Cursos específicos para estudiosos, em convênio com o estado e a Prefeitura; Empenho para edição de livros de autoria dos sócios e reedição de livros raros.
Trabalharemos com paciência, ouviremos a todos e tomaremos decisões baseadas nos interesses maiores da entidade. Nestes noventa dias iniciais, ainda estarei também como Presidente do Instituto do Ceará, concluindo a missão que me foi confiada por aquela veneranda e querida instituição.
Feitas tais considerações, concluo dizendo que temos consciência da nobre missão de ser Presidente da mais antiga Academia de letras do Brasil, bem como das dificuldades e desafios que isto representa.
Entendemos que cada administração é apenas o elo de uma grande corrente que se estende, infinitamente, no tempo e no espaço.
Machado de Assis no lançamento da primeira pedra da estátua de José de Alencar, inaugurada em 1º de maio de 1897, no RJ, lembrou que Alencar terminara o livro Iracema, dizendo que a jandaia ainda cantava no olho do coqueiro, mas já não repetia o mavioso nome de Iracema, pois, tudo passava sobre a terra. Machado de Assis, entrementes, concluiu dizendo que a posteridade é aquela jandaia que não deixa o coqueiro e que, ao contrário da que emudeceu, repete e repetirá sempre o nome da linda tabajara e do seu imortal autor, pois, nem tudo passa sobre a terra.
Os séculos tem-nos mostrado que assim são as Academias. Os confrades e as administrações passam, mas não as entidades. São elas aquelas jandaias que jamais deixam de cantar, porque estão comprometidas com a posteridade.
Assim, senhoras e senhoras, levantemos as âncoras e deixemos o barco fluir lentamente, iniciando esta viagem. Peçamos aos céus, como os antigos Gregos já o faziam à época da primeira Academia, que os ventos nos sejam favoráveis e que saibamos honrar os que nos antecederam durante os cento e dezoito anos anteriores.
Muito Grato,
José Augusto Bezerra – Jan. 2013
O RELÓGIO - VICENTE ALENCAR
O RELÓGIO
O relógio da minha vida
marcou grandes momentos,
horas e horas entre nós.
O relógio da minha vida
marcou felicidade,
muitos sorrisos e alegrias.
O relógio da minha vida
marcou inesquecíveis instantes
onde desfrutamos o amor.
O relógio da minha vida
marcou o brilho da noite
vindo da lua cheia.
O relógio da minha vida
marcou o perfume das flores
em românticos momentos
O relógio da minha vida
marcou o canto dos pássaros
em nossos corações.
Vicente Alencar
(da UBE-CE)
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
A LUA DE LUANDA
A Lua de Luanda, nos meus sonhos, anda.
... Quase sempre, ela dorme dentro do meu peito.
Quando a vejo no céu, linda, o meu ser desanda,
Porque, ao mesmo tempo, eu a vejo, no leito...
Como é bela a lua encantada de Luanda! Ela lembra a mulher do meu sonho perfeito, A me banhar com seu aroma de lavanda,
E que, entre nuvens, diz ser eu o seu eleito...
A Lua de Luanda, em mim, dança e vagueia...Às vezes ela é mar; outras vezes, sereia,
A me amar, entre o céu, terra, e o sereno mar...
A Lua de Luanda fala o Português...
Eu sempre a ouço dizer que me ama, sem talvez,
Com seu jeito lusófono e belo, de amar...
J. Udine – 23-01-2013
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
EXPRESSÕES CURIOSAS NA LÍNGUA PORTUGUESA
JURAR DE PÉS JUNTOS: Mãe, eu juro de pés juntos que não fui eu. A expressão surgiu através das torturas executadas pela Santa Inquisição, nas quais o acusado de heresias tinha as mãos e os pés amarrados (juntos) e era torturado pra dizer nada além da verdade. Até hoje o termo é usado pra expressar a veracidade de algo que uma pessoa diz. MOTORISTA BARBEIRO: Nossa, que cara mais barbeiro! No século XIX, os barbeiros faziam não somente os serviços de corte de cabelo e barba, mas também, tiravam dentes, cortavam calos, etc., e por não serem profissionais, seus serviços mal feitos geravam marcas. A partir daí, desde o século XV, todo serviço mal feito era atribuído ao barbeiro, pela expressão "coisa de barbeiro". Esse termo veio de Portugal, contudo a associação de "motorista barbeiro", ou seja, um mau motorista, é tipicamente brasileira.. TIRAR O CAVALO DA CHUVA: Pode ir tirando seu cavalinho da chuva porque não vou deixar você sair hoje! No século XIX, quando uma visita iria ser breve, ela deixava o cavalo ao relento em frente à casa do anfitrião e se fosse demorar, colocava o cavalo nos fundos da casa, em um lugar protegido da chuva e do sol. Contudo, o convidado só poderia pôr o animal protegido da chuva se o anfitrião percebesse que a visita estava boa e dissesse: "pode tirar o cavalo da chuva". Depois disso, a expressão passou a significar a desistência de alguma coisa. de maneira copiosa. A origem do dito é atribuída às qualidades de argumentador do jurista alagoano Gumercindo Bessa, advogado dos acreanos que não queriam que o Território do Acre fosse incorporado ao Estado do Amazonas. DAR COM OS BURROS N'ÁGUA: A expressão surgiu no período do Brasil colonial, onde tropeiros que escoavam a produção de ouro, cacau e café, precisavam ir da região Sul à Sudeste sobre burros e mulas. O fato era que muitas vezes esses burros, devido à falta de estradas adequadas, passavam por caminhos muito difíceis e regiões alagadas, onde os burros morriam afogados. Daí em diante o termo passou a ser usado pra se referir a alguém que faz um grande esforço pra conseguir algum feito e não consegue ter sucesso naquilo. GUARDAR A SETE CHAVES: No século XIII, os reis de Portugal adotavam um sistema de arquivamento de joias e documentos importantes da corte através de um baú que possuía quatro fechaduras, sendo que cada chave era distribuída a um alto funcionário do reino. Portanto eram apenas quatro chaves. O número sete passou a ser utilizado devido ao valor místico atribuído a ele, desde a época das religiões primitivas. A partir daí começou-se a utilizar o termo "guardar a sete chaves" pra designar algo muito bem guardado.. OK: A expressão inglesa "OK" (okay), que é mundialmente conhecida pra significar algo que está tudo bem, teve sua origem na Guerra da Secessão, no EUA. Durante a guerra, quando os soldados voltavam para as bases sem nenhuma morte entre a tropa, escreviam numa placa "0 killed" (nenhum morto), expressando sua grande satisfação, daí surgiu o termo "OK". ONDE JUDAS PERDEU AS BOTAS: Existe uma história não comprovada, de que após trair Jesus, Judas enforcou-se em uma árvore sem nada nos pés, já que havia posto o dinheiro que ganhou por entregar Jesus dentro de suas botas. Quando os soldados viram que Judas estava sem as botas, saíram em busca delas e do dinheiro da traição. Nunca ninguém ficou sabendo se acharam as botas de Judas. A partir daí surgiu à expressão, usada pra designar um lugar distante, desconhecido e inacessível. PENSANDO NA MORTE DA BEZERRA: A história mais aceitável para explicar a origem do termo é proveniente das tradições hebraicas, onde os bezerros eram sacrificados para Deus como forma de redenção de pecados. Um filho do rei Absalão tinha grande apego a uma bezerra que foi sacrificada. Assim, após o animal morrer, ele ficou se lamentando e pensando na morte da bezerra. Após alguns meses o garoto morreu. PARA INGLÊS VER: A expressão surgiu por volta de 1830, quando a Inglaterra exigiu que o Brasil aprovasse leis que impedissem o tráfico de escravos. No entanto, todos sabiam que essas leis não seriam cumpridas, assim, essas leis eram criadas apenas "pra inglês ver". Daí surgiu o termo. RASGAR SEDA: A expressão que é utilizada quando alguém elogia grandemente outra pessoa, surgiu através da peça de teatro do teatrólogo Luís Carlos Martins Pena. Na peça, um vendedor de tecidos usa o pretexto de sua profissão pra cortejar uma moça e começa a elogiar exageradamente sua beleza, até que a moça percebe a intenção do rapaz e diz: "Não rasgue a seda, que se esfiapa". O PIOR CEGO É O QUE NÃO QUER VER: Em 1647, em Nimes, na França, na universidade local, o doutor Vicent de Paul D`Argent fez o primeiro transplante de córnea em um aldeão de nome Angel. Foi um sucesso da medicina da época, menos pra Angel, que assim que passou a enxergar ficou horrorizado com o mundo que via. Disse que o mundo que ele imaginava era muito melhor. Pediu ao cirurgião que arrancasse seus olhos. O caso foi acabar no tribunal de Paris e no Vaticano. Angel ganhou a causa e entrou pra história como o cego que não quis ver. ANDA À TOA: Toa é a corda com que uma embarcação reboca a outra. Um navio que está à toa é o que não tem leme nem rumo, indo pra onde o navio que o reboca determinar.
QUEM NÃO TEM CÃO, CAÇA COM GATO:
Na verdade, a expressão, com o passar dos anos, se adulterou. Inicialmente se dizia quem não tem cão caça como gato, ou seja, se esgueirando, astutamente, traiçoeiramente, como fazem os gatos. DA PÁ VIRADA: A origem do ditado é em relação ao instrumento, a pá. Quando a pá está virada pra baixo, voltada pro solo, está inútil, abandonada decorrentemente pelo Homem vagabundo, irresponsável, parasita. NHENHENHÉM: Nheë, em tupi, quer dizer falar. Quando os portugueses chegaram ao Brasil, os indígenas não entendiam aquela falação estranha e diziam que os portugueses ficavam a dizer "nhen-nhen-nhen". VAI TOMAR BANHO: Em "Casa Grande & Senzala", Gilberto Freyre analisa os hábitos de higiene dos índios versus os do colonizador português. Depois das Cruzadas, como corolário dos contatos comerciais, o europeu se contagiou de sífilis e de outras doenças transmissíveis e desenvolveu medo ao banho e horror à nudez, o que muito agradou à Igreja. Ora, o índio não conhecia a sífilis e se lavava da cabeça aos pés nos banhos de rio, além de usar folhas de árvore pra limpar os bebês e lavar no rio as redes nas quais dormiam. Ora, o cheiro exalado pelo corpo dos portugueses, abafado em roupas que não eram trocadas com frequência e raramente lavadas, aliado à falta de banho, causava repugnância aos índios. Então os índios, quando estavam fartos de receber ordens dos portugueses, mandavam que fossem "tomar banho". ELES QUE SÃO BRANCOS QUE SE ENTENDAM: Esta foi das primeiras punições impostas aos racistas, ainda no século XVIII. Um mulato, capitão de regimento, teve uma discussão com um de seus comandados e queixou-se a seu superior, um oficial português... O capitão reivindicava a punição do soldado que o desrespeitara. Como resposta, ouviu do português a seguinte frase: "Vocês que são pardos, que se entendam". O oficial ficou indignado e recorreu à instância superior, na pessoa de dom Luís de Vasconcelos (1742-1807), 12° vice-rei do Brasil. Ao tomar conhecimento dos fatos, dom Luís mandou prender o oficial português que estranhou a atitude do vice-rei. Mas, dom Luís se explicou: Nós somos brancos, cá nos entendemos. A DAR COM O PAU : O substantivo "pau" figura em várias expressões brasileiras. Esta expressão teve origem nos navios negreiros. Os negros capturados preferiam morrer durante a travessia e, pra isso, deixavam de comer. Então, criou-se o "pau de comer" que era atravessado na boca dos escravos e os marinheiros jogavam sapa e angu pro estômago dos infelizes, a dar com o pau. O povo incorporou a expressão. ÁGUA MOLE EM PEDRA DURA, TANTO BATE ATÉ QUE FURA: Um de seus primeiros registros literários foi feito pelo escritor latino Ovídio ( 43 a .C.-18 d.C), autor de célebres livros como "A arte de amar "e Metamorfoses", que foi exilado sem que soubesse o motivo. Escreveu o poeta: "A água mole cava a pedra dura". É tradição das culturas dos países em que a escrita não é muito difundida formar rimas nesse tipo de frase pra que sua memorização seja facilitada. Foi o que fizeram com o provérbio, portugueses e brasileiros | ||
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
ARENA DE IRACEMA - CELINA CÔRTE PINHEIRO
Arena de Iracema
A Praia de
Iracema é mítica e se perenizou no imaginário daqueles que viveram seu auge nas
décadas de cinquenta a setenta, com o Estoril e as lagoinhas formadas ao longo
da praia, a depender da maré, motivo de diversão para pais e filhos.
Nas últimas
décadas, entrou em franca decadência por várias vezes, após intervenções
destinadas a revigorá-la.
Seu
renascimento sempre se dá de forma atabalhoada, sem supervisão e sem o controle
do poder público, no "laissez-faire" usual, e acaba destruída pela
sanha da própria população que dela se utiliza.
Da era
festiva dos barzinhos coloridos, que acabaram por espantar os moradores daquela
área, despencou fragorosamente para o caos, invadida pela prostituição, drogas
e congêneres... Mais uma vez agora, tenta se reerguer.
Recentemente,
a área ganhou roupa nova. A população se reaproximou e, na visão do poder
público, bastaria isso para o local estar revigorado. Com os pedestres que
fazem a rotina saudável da beira-mar, chegaram, ao cair da tarde, também os
patinadores, os esqueitistas, os ciclistas, os triciclos e quadriciclos
ondulantes, feito cobras cada vez mais longas, e dirigidos, muitas vezes, por
inábeis condutores.
Em uma
mistura desorganizada, começa o jogo e o local, pouco a pouco, mais parece uma
arena sem normas.
Os
pedestres, segmento mais frágil dessa relação, encontram-se expostos a sérios
acidentes.
As crianças
e jovens, mesmo sobre seus patins, skates ou bicicletas, também!
O direito de
ir-e-vir faz parte da democracia, contudo, respeitando-se um regramento
saudável para a boa convivência.
Quem
considerar que o local não oferece riscos deve estar auferindo algum tipo de
vantagem ou não possui o mínimo de bom senso.
Qualquer
cidadão, com sensibilidade, percebe que, ao entardecer, o calçadão se
transforma pouco a pouco em um local desgovernado e perigoso, onde muitos
acidentes ainda ocorrerão, sem contar aqueles não percebidos ou não revelados
propositadamente com o intuito de não afastar os frequentadores.
E se faço
tal advertência, é porque sei e já vi acontecer... Afinal, sou traumatologista!
Celina Côrte Pinheiro - Médica
sábado, 5 de janeiro de 2013
A CASA DE CADA UM - texto de Walcyr Carrasco
Nesta época, gosto de tratar
da vida.
Dou a roupa que não uso mais.
Livros que não pretendo reler. Envio caixas para bibliotecas.
Ou abandono um volume em um shopping ou café, com uma mensagem:
"Leia e passe para frente!".
Tento avaliar meus atos através de uma perspectiva maior.
Penso na história dos Três Porquinhos.
Cada um construiu sua casa. Duas, o Lobo derrubou facilmente.
Mas a terceira resistiu porque era sólida.
Em minha opinião, contos infantis possuem grande sabedoria, além da história propriamente dita...
Gosto desse especialmente.
Imagino que a vida de cada um seja semelhante a uma casa.
Frágil ou sólida, depende de como é construída.
Muita gente se aproxima de mim e diz: Eu tenho um sonho, quero torná-lo realidade! Estremeço.
Frequentemente, o sonho é bonito, tanto como uma casa bem pintada. Mas sem alicerces.
As paredes racham, a casa cai repentinamente, e a pessoa fica só com entulho. Lamenta-se.
Na minha área profissional, isso é muito comum.
Diariamente sou procurado por alguém que sonha em ser ator ou atriz sem nunca ter estudado ou feito teatro.
Como é possível jogar todas as fichas em uma profissão que nem se conhece?
Há quem largue tudo por uma paixão. Um amigo abandonou mulher e filho recém-nascido.
A nova paixão durou até a noite na qual, no apartamento do 10º andar, a moça afirmou que podia voar.
Deixa de brincadeira, ele respondeu.
Eu sei voar, sim! rebateu ela.
Abriu os braços, pronta para saltar da janela. Ele a segurou. Gritou por socorro. Quase despencaram.
Foi viver sozinho com um gato, lembrando-se dos bons tempos da vida doméstica, do filho, da harmonia perdida!
Algumas pessoas se preocupam só com os alicerces. Dedicam-se à vida material.
Quando venta, não têm paredes para se proteger.
Outras não colocam portas. Qualquer um entra na vida delas.
Tenho um amigo que não sabe dizer não (a palavra não é tão mágica quanto uma porta blindada).
Empresta seu dinheiro e nunca recebe. Namora mulheres problemáticas.
Vive cercado de pessoas que sugam suas energias como autênticos vampiros emocionais.
Outro dia lhe perguntei: Por que deixa tanta gente ruim se aproximar de você?
Garante que no próximo ano será diferente....
Nada mudará enquanto não consertar a casa de sua vida.
São comuns as pessoas que não pensam no telhado.
Vivem como se os dias de tempestade jamais chegassem.
Quando chove, a casa delas se alaga.
Ao contrário das que só cuidam dos alicerces, não se preocupam com o dia de amanhã.
Certa vez uma amiga conseguiu vender um terreno valioso recebido em herança.
Comentei:
Agora você pode comprar um apartamento para morar.
Preferiu alugar uma mansão. Mobiliou. Durante meses morou como uma rainha.
Quase um ano depois, já não tinha dinheiro para botar um bife na mesa!
Aproveito as festas de fim de ano para examinar a casa que construí.
Alguma parede rachou porque tomei uma atitude contra meus princípios?
Deixei alguma telha quebrada?
Há um assunto pendente me incomodando como uma goteira?
Minha porta tem uma chave para ser bem fechada quando preciso, mas também para ser aberta quando vierem as pessoas que amo?
É um bom momento para decidir o que consertar.
Para mudar alguma coisa e tornar a casa mais agradável.
Sou envolvido por um sentimento muito especial.
Ao longo dos anos, cada pessoa constrói sua casa.
O bom é que sempre se pode reformar, arrumar, decorar!
Conclui que:
É na eterna oportunidade de recomeçar que reside a grande beleza de ser o arquiteto da própria vida.
Livros que não pretendo reler. Envio caixas para bibliotecas.
Ou abandono um volume em um shopping ou café, com uma mensagem:
"Leia e passe para frente!".
Tento avaliar meus atos através de uma perspectiva maior.
Penso na história dos Três Porquinhos.
Cada um construiu sua casa. Duas, o Lobo derrubou facilmente.
Mas a terceira resistiu porque era sólida.
Em minha opinião, contos infantis possuem grande sabedoria, além da história propriamente dita...
Gosto desse especialmente.
Imagino que a vida de cada um seja semelhante a uma casa.
Frágil ou sólida, depende de como é construída.
Muita gente se aproxima de mim e diz: Eu tenho um sonho, quero torná-lo realidade! Estremeço.
Frequentemente, o sonho é bonito, tanto como uma casa bem pintada. Mas sem alicerces.
As paredes racham, a casa cai repentinamente, e a pessoa fica só com entulho. Lamenta-se.
Na minha área profissional, isso é muito comum.
Diariamente sou procurado por alguém que sonha em ser ator ou atriz sem nunca ter estudado ou feito teatro.
Como é possível jogar todas as fichas em uma profissão que nem se conhece?
Há quem largue tudo por uma paixão. Um amigo abandonou mulher e filho recém-nascido.
A nova paixão durou até a noite na qual, no apartamento do 10º andar, a moça afirmou que podia voar.
Deixa de brincadeira, ele respondeu.
Eu sei voar, sim! rebateu ela.
Abriu os braços, pronta para saltar da janela. Ele a segurou. Gritou por socorro. Quase despencaram.
Foi viver sozinho com um gato, lembrando-se dos bons tempos da vida doméstica, do filho, da harmonia perdida!
Algumas pessoas se preocupam só com os alicerces. Dedicam-se à vida material.
Quando venta, não têm paredes para se proteger.
Outras não colocam portas. Qualquer um entra na vida delas.
Tenho um amigo que não sabe dizer não (a palavra não é tão mágica quanto uma porta blindada).
Empresta seu dinheiro e nunca recebe. Namora mulheres problemáticas.
Vive cercado de pessoas que sugam suas energias como autênticos vampiros emocionais.
Outro dia lhe perguntei: Por que deixa tanta gente ruim se aproximar de você?
Garante que no próximo ano será diferente....
Nada mudará enquanto não consertar a casa de sua vida.
São comuns as pessoas que não pensam no telhado.
Vivem como se os dias de tempestade jamais chegassem.
Quando chove, a casa delas se alaga.
Ao contrário das que só cuidam dos alicerces, não se preocupam com o dia de amanhã.
Certa vez uma amiga conseguiu vender um terreno valioso recebido em herança.
Comentei:
Agora você pode comprar um apartamento para morar.
Preferiu alugar uma mansão. Mobiliou. Durante meses morou como uma rainha.
Quase um ano depois, já não tinha dinheiro para botar um bife na mesa!
Aproveito as festas de fim de ano para examinar a casa que construí.
Alguma parede rachou porque tomei uma atitude contra meus princípios?
Deixei alguma telha quebrada?
Há um assunto pendente me incomodando como uma goteira?
Minha porta tem uma chave para ser bem fechada quando preciso, mas também para ser aberta quando vierem as pessoas que amo?
É um bom momento para decidir o que consertar.
Para mudar alguma coisa e tornar a casa mais agradável.
Sou envolvido por um sentimento muito especial.
Ao longo dos anos, cada pessoa constrói sua casa.
O bom é que sempre se pode reformar, arrumar, decorar!
Conclui que:
É na eterna oportunidade de recomeçar que reside a grande beleza de ser o arquiteto da própria vida.
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
UM SONETO DE J. UDINE
DO NATAL AO FIM DO ANO VELHO E DO RENASCER DO ANO NOVO...
O clima do Natal ainda nos aromatiza.
No ar, ainda respiramos a divina Luz,
Que por nós passa como misteriosa brisa,
Por se tratar da Paz que emana de Jesus!
No entanto, o Ano Velho geme e agoniza!
Moribundo, está para depor sua cruz
Com seus sucessos e insucessos, (em pesquisa),
Que exibe, em retrospectivas, trevas e luz...
Mas irmãos, logo mais vai surgir o Ano Novo!
Que ele venha em paz, sob à luz do renovo,
E nos traga melhores ares de bonanças...
Natal, Ano Velho e Ano Novo sejam pontes
Que nos conduzam a divinos horizontes:
Se o Ano fenece, o Novo nos encha de esperanças...
O clima do Natal ainda nos aromatiza.
No ar, ainda respiramos a divina Luz,
Que por nós passa como misteriosa brisa,
Por se tratar da Paz que emana de Jesus!
No entanto, o Ano Velho geme e agoniza!
Moribundo, está para depor sua cruz
Com seus sucessos e insucessos, (em pesquisa),
Que exibe, em retrospectivas, trevas e luz...
Mas irmãos, logo mais vai surgir o Ano Novo!
Que ele venha em paz, sob à luz do renovo,
E nos traga melhores ares de bonanças...
Natal, Ano Velho e Ano Novo sejam pontes
Que nos conduzam a divinos horizontes:
Se o Ano fenece, o Novo nos encha de esperanças...
domingo, 30 de dezembro de 2012
Queridos ajebianos e leitores deste blog:
Um ano se vai, e outro já vem!
Procuremos nas gavetas deste ano que se vai o que ficou de bom, e deixemos que ele leve consigo todas as amarguras, doenças, tristezas, desarmonias, insatisfações. Essas não pesarão mais sobre nosso coração que deve estar leve para se encher, com o ano que chega, de paz, amor, fraternidade, união, sucesso e, sobretudo, de muita Poesia para deitar felicidade nos corações rancorosos e cheios de mágoa, de inveja, de falsidade. Sim, porque a Poesia é uma faísca que pode gerar uma enorme fogueira de felicidade nos corações empedernidos. Só, assim, poderemos salvar o mundo!
Feliz 2013 para todos!
Giselda Medeiros
Giselda Medeiros
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
AJEBIANA MARIA LUÍSA BOMFIM TOMA POSSE NA ACADEMIA CEARENSE DA LÍNGUA PORTUGUESA
DISCURSO DE POSSE - ACLP
“ A
literatura nos mostra o homem com uma veracidade que as ciências talvez não
têm. Ela é o documento espontâneo da vida em trânsito. É o depoimento vivo,
natural, autêntico.” ( Cecília
Meireles)
Ilustres Acadêmicos,
Senhoras e senhores, boa noite!
Gostaria de cumprimentar os integrantes da Mesa
na pessoa do Presidente, Acadêmico Vicente Alencar. Saúdo as demais autoridades
e os amigos presentes nesta cerimônia, na pessoa do Acadêmico Maurício Cabral
Benevides, presidente da Academia Cearense de Retórica.
O renomado
poeta e memorialista JOAQUIM NABUCO afirma: “ O ESPÍRITO ACADÊMICO É UMA
ESPÉCIE DE CONSERVAÇÃO OU UM CONVITE À FRATERNIDADE DAS INTELIGÊNCIAS, ATRAVÉS
DA ALEGRIA DO CONVÍVIO INTELECTUAL E COMPREENSÃO DOS ESPÍRITOS, FUNDINDO
CÉREBROS E CORAÇÕES PARA A COMUNHÃO DAS IDEIAS”. Evocando o pensamento de
Nabuco, chego a esta Casa com júbilo e alegria, mergulho neste mar de cultura e
saber, deixando-me flutuar tranquila e confiante nas águas cristalinas dessa
gloriosa Arcádia da terra de Alencar, a Academia Cearense da Língua Portuguesa.
Confesso que resisti temerosa ao sonho
acalentado de candidatar-me à vaga do saudoso mestre e amigo, Acadêmico
Professor Dr. Sinésio Lustosa Cabral Sobrinho, ocupante da cadeira de nº 3 que
tem como Patrono o filólogo e etimólogo carioca Antenor Nascentes. Dúvidas e
receios tomaram conta de meus pensamentos. Faltar-me-iam competência,
legitimidade, sabedoria para conviver com pessoas tão valorosas e cultas? Seria
eu merecedora de tamanho privilégio? Sem dúvida, ingressar em tão nobre
entidade literária representa uma vitória das mais significativas para qualquer um de
nós, amantes das Letras. É aqui nesta Casa que o idioma pátrio, herdado dos
bravos navegadores portugueses, tem como doutrina o amor à preservação da
Língua Portuguesa, reconhecida como a mais próxima dos padrões latinos.
Senhoras e Senhores,
Não
podemos ocultar os problemas existentes, relacionados à hegemonia de economias
poderosas e de sociedades mais desenvolvidas, mas é importante constatarmos que,
segundo estudiosos no assunto, fica
provado que o “Português” é a terceira língua mais utilizada no Ocidente,
dentro de um elenco das dez principais. Sendo a língua materna falada em
Portugal e no Brasil, é adotada como língua oficial em outros países espalhados
em três continentes, destacando-se em 5º lugar entre os idiomas mais
representativos.
Em 1908, Teófilo Braga, em texto publicado no
“Boulletin de la Societé des Etudes Portugaises”, afirma: “ A língua portuguesa
foi sempre uma emancipação orgânica do individualismo nacional ou da autonomia
de Portugal contra o esforço de absorção das monarquias, hispânica, leonesa e
castelhana. É a língua portuguesa, como vibração física que unifica milhões de
portugueses, sendo o documento sociológico de um povo que, além das grandes
descobertas, criou uma bela literatura, expressão do seu gênio estético, que
nos encanta e fascina.” Assim, a realidade de uma língua de cultura como a
nossa, portadora de uma longa história, continuará sendo um poderoso laço de
união entre as diversas civilizações hodiernas.
Quanto
a mim, senhoras e senhores, afigura-se bastante claro que a Providência Divina
esteve ao meu lado quando reservou-me a cadeira de nº 3, pertencente ao
inesquecível Acadêmico Sinésio Lustosa Cabral Sobrinho, um dos fundadores dessa
Arcádia, grande mestre e amigo. Ele que
foi um dos maiores incentivadores de minha carreira literária, apoiando-me e
orientando-me com extrema bondade e presteza. Gentilmente fez a revisão de meu
primeiro livro de poesia “Poeira de Estrelas”, esclarecendo minhas dúvidas,
corrigindo meus deslizes e escrevendo na
contracapa palavras das mais alentadoras para uma poetisa iniciante. Falar
sobre a rica trajetória profissional e literária desse ilustre Acadêmico seria impossível
fazê-lo em tão pouco tempo. Entretanto, tentarei sintetizar com absoluta
admiração alguns dados referentes a sua vitoriosa existência.
Sinésio Lustosa Cabral Sobrinho nasceu a 22 de maio de 1915, em Várzea Alegre-CE.
Era filho do magistrado Genésio Lustosa Cabral e da professora Líbia Lustosa
Cabral. Advogado e professor, exerceu os
cargos de Juiz Preparador e Eleitoral, Promotor de Justiça, Curador de
Registros Públicos e Procurador de Justiça, no interior e na capital do Ceará.
Foi professor de Linguagem Forense, em cursos de preparação para o Exame de Ordem
na O.A.B. – Ceará, e no curso, ministrado juntamente com o professor Acadêmico Myrson Lima, de Revisão Gramatical
na ESMEC, em 1998. Lecionou Língua Portuguesa em Itapipoca, Sobral e no Liceu
do Ceará, em Fortaleza. Pertenceu às Academias Brasileira e Cearense da Língua
Portuguesa, presidindo esta última no biênio 1984 - 1986. Era membro também da
Academia de Letras e Artes do Nordeste Brasileiro, Academia Petropolitana de
Poesia Raul de Leoni, em Petrópolis- R.J, Associação Cearense do Ministério
Público, que também presidiu, Instituto Cultural do Vale Caririense em Juazeiro
do Norte, e sócio efetivo da Associação Cearense de Imprensa.
Durante décadas editou o “Mensageiro da
Poesia”, uma publicação independente de projeção nacional em que divulgava poemas,
notícias literárias, informações sobre a língua portuguesa e mantinha uma
coluna dedicada aos Trovadores. Dentre os vários livros publicados, destacamos
“Sonetos e Poemas” e “Reflexos D’Alma”. Recebeu a comenda de Honra ao Mérito da
antiga Fundação Cultural de Fortaleza, o diploma cultural e título de Acadêmico
Honorário da Academia Cearense de Letras, e a medalha de Membro Padrão do
Ministério Público do Ceará, entre outras homenagens.
Era casado com D. Mª Diva Ximenes Cabral; pai,
avô e bisavô extremamente dedicado, compartilhando um grande amor a todos os
familiares. Sua partida aos noventa e seis anos deixa enorme lacuna no meio
intelectual, principalmente aqui na Academia Cearense da Língua Portuguesa, da
qual era sócio fundador e o mais idoso membro, sendo também uma das mais
queridas presenças no universo acadêmico do Ceará.
Senhoras e senhores,
É tempo de agradecimento. São inúmeras as pessoas que contribuíram para
a realização deste momento especial. Impossível citá-las todas, mas o registro
de algumas, fará justiça àquelas que estarão para sempre guardadas em meu
coração. Em primeiro lugar a Deus, criador do universo; também à minha dedicada
avó Maria Luisa Gomes Parente Silva, aos meus pais Aníbal e Carmen Câmara
Bomfim pela lição de vida e pelos princípios éticos que me legaram e que sempre
nortearam minha existência; a meus irmãos Sérgio, aqui presente, Anibal e
Alzira, residentes no Rio de Janeiro. A meus filhos Magno, Ana Paula e Émerson,
as minhas noras Virgínia e Regina e a meu genro Helvécio, nos quais sempre
encontro apoio, carinho e solidariedade. E a meus netos Kaylan, Caio e Luísa Aline, as mais doces presenças no outono de minha
vida. Às minhas tias Isa, Dolores e Aline Silva, valorosas professoras que
despertaram meu amor para o mundo mágico da literatura, e aos mestres dos
colégios que frequentei. Primeiramente Imaculada Conceição, depois, Escola
Normal Justiniano de Serpa, Liceu do Ceará, Lourenço Filho, onde comecei minha
vida profissional convidada pelo mestre e poeta Filgueiras Lima, até a
Universidade de Fortaleza, onde cursei Direito e Pedagogia.
Queridos mestres, quanto saber vocês me
passaram! Benditos todos, onde quer que estejam neste momento tão significativo
para mim! Impossível não citar os nomes de Regine Limaverde, minha prima-irmã, Vicente
Alencar, José Augusto Bezerra e Giselda Medeiros, ilustres acadêmicos a quem
devo gratidão e apreço. Parabenizo as acadêmicas Regine Limaverde e Ana Paula
Medeiros, que nesta cerimônia passaram a ocupar as cadeiras de nº 7 e de nº 12,
e ao ilustre Acadêmico Cid Carvalho por tão brilhante e acolhedora
apresentação.
Para encerrar, mais uma vez agradeço a confiança
e a generosidade dos Acadêmicos que
aprovaram meu ingresso nesta Casa,
afirmando-lhes que estarei sempre disponível, procurando dentro de minhas
possibilidades e invocando a ajuda de Deus, contribuir para o engrandecimento
desta valorosa Arcádia , a Academia Cearense da Língua Portuguesa.
Muito obrigada.
MARIA LUISA BOMFIM
Fortaleza, 22 de
novembro de 2012domingo, 25 de novembro de 2012
A TRAVESSIA DO HOMEM E DO POETA FERREIRA GULLAR
Ele mesmo criou seu pseudônimo: Ferreira Gullar, utilizando o sobrenome do pai (Ferreira) e da mãe (Goulart) para compor a “persona” de José Ribamar Ferreira. Desde cedo se envolveu com a leitura e escrita. Colaborou no jornal de sua São Luis e, mais tarde, no Rio de Janeiro, trabalhou como locutor de rádio. Escreveu seu primeiro livro com 19 anos. Dedicou-se inteiramente ao ofício, seja como poeta, dramaturgo, jornalista, artista plástico, ou tradutor. Assim, Ferreira Gullar, mostra-se multifacetado, singular e plural na arte da criação.
Em sua terra natal participou do movimento pós-modernista com outros escritores, através de uma revista que foi lançada. Contribuíram também na edição Lucy Teixeira, Sarney, dentre outros.
Poeta, cronista, crítico de arte, pintor, tradutor, ensaísta, memorialista e um dos fundadores do movimento neoconcretista brasileiro. Escreveu poemas em placas de madeira, gravando-as de forma a mostrar inovação. Junto com Lígia e Hélio Oiticica, desenvolveu tal movimento, valorizando a subjetividade em oposição ao concretismo ortodoxo. Depois deixa o grupo para se engajar com os Centros Populares de Cultura.
Seu primeiro livro escreveu em 1949, “Um pouco acima do chão”, que acabou retirando de sua
bibliografia por achar que era imaturo na época em que lançou. O seu poema intitulado “O Galo”, editado pelo Jornal de Letras em 1950, ganhou vários prêmios. Foi amigo do crítico de arte Mário Pedrosa, do escritor Oswald de Andrade e trabalhou como revisor na revista “O Cruzeiro”. Como jornalista, colaborou na revista “Manchete”, no ”Diário Carioca” e depois no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil. Hoje, escreve crônicas no jornal “Folha de São Paulo”.
Com o dinamismo que lhe é peculiar participou da I Exposição Nacional de Arte Concreta no MASP. Lançou seu livro de poemas e, em seguida, assumiu a direção da Fundação Cultural de Brasília, no governo de Jânio Quadros. Criou o Museu de Arte Popular.
Nos anos 60 passou a fazer parte do Centro Popular de Cultura da UNE e trabalhou na sucursal carioca de “O Estado de São Paulo”. Nesse mesmo período lança “João Boa Morte, Cabra Marcado para Morrer” e “Quem matou Aparecida” (cordéis).
Em 1963 filiou-se ao Partido Comunista e no ano seguinte criou o grupo “Opinião” com Oduvaldo Viana Filho, Paulo Ponte e outros. Mas em pouco tempo foi preso pela Ditadura Militar em companhia de Paulo Francis, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Em 68 publicou o ensaio “Vanguarda e Subdesenvolvimento”. No exílio dedicou-se a pintura quando esteve em Moscou, Santiago do Chile, Lima e Buenos Aires. Colaborou no “O Pasquim” sob o pseudônimo de Frederico Marques.
Foi na solidão que escreveu o livro mais importante de sua carreira de escritor: “Poema Sujo” em Buenos Aires, o qual impressionou tanto o poeta Vinicius de Morais, que este acabou trazendo para publicar no Brasil pela Civilização Brasileira.
Sua obra é vastíssima com uma produção de enorme qualidade estética e literária. Tanto no que concerne às artes plásticas, bem como na literatura propriamente dita. Publicou ensaios sobre a Cultura Brasileira. É considerado um dos maiores poetas nacionais. Sua obra apresenta diferentes fases de pesquisa estética, desde o experimentalismo e o lirismo, até a poesia de cordel e a dicção coloquial. Não nega ser nordestino, evocando a visão urbana e o compromisso social. Tem enorme interesse pela cultura popular, pela história nacional e pela participação política que se observa nas suas peças teatrais escritas ao longo de sua vida.
A gênese da obra do poeta está nas surpresas que a vida reserva. “A minha poesia costumo dizer nasce do espanto. Precisa de alguma coisa que me surpreenda que eu tenha descoberto ainda na vida”, afirma Gullar. Prima pela simplicidade na escrita do poema. Vejamos:
“Uma parte de
mim é todo o mundo/outra parte ninguém fundo sem fundo./ Uma parte de mim é multidão/
outra parte estranheza e solidão./Uma parte de mim pesa e pondera/ outra parte
delira. Uma parte de mim é permanente/ outra parte se sabe de repente/ (...) Traduzir
uma parte na outra parte/ que é uma questão de vida e morte/será arte”? (Traduzir-se) ou;
“Essa gente do Nordeste/ Não mata quem é doutor/ Não mata dono de
engenho/ Só mata cabra da peste,/ Só mata o trabalhador./O dono de engenho
engorda/ Vira logo senador”. (João Boa
Morte, cabra marcado para morrer)A atriz Elisa Lucinda diz: “Gullar é um poeta afinado com o seu tempo. O poeta é o tradutor dos sentimentos humanos, dá testemunho. Gullar é receitado e recitado”.
Recebeu o Prêmio Multicultural Estadão, pelo conjunto de sua obra. No teatro ganhou Molière, O Saci e, em 2002 foi indicado para o Nobel de Literatura. O livro de ficção “Resmungos” lhe deu o prêmio Jabuti. A Revista Época o colocou como um dos cem brasileiros mais influentes do ano de 2009. Em 2010 foi laureado com prêmio Camões, o mais cobiçado da literatura de língua portuguesa. No mesmo ano recebeu o título de Doutor Honoris Causa, concedido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 2011 ganhou o prêmio Jabuti com o livro de poesias “Em Alguma Parte Alguma”, o qual foi considerado o livro de ficção do ano.
Ao longo dos seus 80 anos redefiniu seus posicionamentos políticos. Hoje não é mais marxista, podia-se dizer: quase um democrata. Nas suas crônicas se mostra irônico com a política e emite sua opinião com rigor. A idade não lhe incomoda. Tem energia e força vital de um jovem, porque sabe admirar o Belo, o Amor, a Natureza. O humanismo anda “pari passu” na vida cotidiana. Conhece muito bem a alma humana e, ao reconhecê-la, sabe dialogar e explorar esse enigma que é o ser humano. Sempre atento às suas complexidades e aos seus mistérios. Seus textos são contextualizados com o momento social, político e cultural do país.
Poeta na acepção da palavra, sensível a tudo que o rodeia. Não gosta da poesia hermética, prefere a singeleza e a simplicidade. Acha que a pessoa tem que ler, entender e compreender o que está escrito. Ele fala numa entrevista: “Não quero saber do sofrimento, quero a felicidade. Não gosto de fazer lamúrias. (...) Não quero ter razão. Quero ser feliz! “
Para concluir, vou ler o poema “Me leve, me leve (Cantiga para não Morrer)”:
“Quando você for se embora,/ Moça branca como a neve,/ Me leve, me leve.
Se acaso você não possa/Me carregar pela mão/ menina branca de neve/ me leve no coração.
Se no coração não possa/por acaso me levar/ moça de sonho e de neve,/me leve no seu lembrar.
E se aí também não possa/ por tanta coisa que leve/ Já viva em seu pensamento,/ menina branca de neve/ me leve no esquecimento.”
Obrigada!
ELIANE BRUM - 12/11/2012 - ÉPOCA
ELIANE BRUM - 12/11/2012 - ÉPOCA
Em um belo filme sobre a condição humana, um velho
descobre-se diante de um dilema que dirá quem ele é e como ama. A escolha que o
desafia é também a que nos provoca a cada dia de nossa vida.
Na primeira vez em que assisti à E se vivêssemos todos juntos?,
pensei, ao sair do cinema com os olhos mareados e a alma apertada no corpo como
uma calça jeans dois números menor: queria tanto escrever sobre esse filme, mas
o melhor que posso escrever é só um verbo, conjugado no imperativo, seguido de
um ponto de exclamação: “Assistam!”. E escrevi exatamente isso no twitter. Em
geral, é o melhor que podemos dizer sobre os filmes de que gostamos, assim como
“leiam!” para os livros que nos tornaram outros depois da última página. Mas
continuei desassossegada e vi o filme uma segunda vez. Percebi que precisava
escrever um pouco mais.
E se vivêssemos todos juntos? (Stéphane Robelin –
França/Alemanha) é um filme sobre os últimos anos de quem, graças ao aumento da
expectativa de vida, passou dos 70 e poucos. Como disse Jeanne, a personagem de
Jane Fonda, ao seguir a ambulância que carregava seu marido para o hospital
depois de uma queda: “A gente planeja tudo, mas nunca pensa no que fazer nos
últimos anos da vida”. É disso que se trata. O filme fala de algo que precisamos
falar mais: sobre envelhecer neste mundo, nesta época. Precisamos falar mais
porque a maioria de nós vai viver esse momento. Não é fácil vivê-lo – é uma
sorte vivê-lo.
Começamos a nos preparar, como invoca Jeanne, quando nos
arriscamos a pensar sobre aquilo que nos inquieta ou inquietará – ou inquieta
ou inquietará aqueles que amamos. O cinema já descobriu essa necessidade e, só
neste ano, chegaram ao Brasil pelo menos dois filmes que falam explicitamente
sobre envelhecer: O exótico Hotel Marigold (John Madden, Reino Unido), que
poderia ser bem melhor do que é, e “E se vivêssemos todos juntos?”.
Neste, um grupo de velhos decide viver na mesma casa para
enfrentar aquilo que os inquieta – e seguidamente os ameaça. A iniciativa é de
um deles, Jean (Guy Bedos), um homem que passou a vida engajado em causas
coletivas contra as injustiças sofridas pelos mais fracos. Impedido de seguir
para a próxima missão em algum país pobre e distante, porque o seguro se recusa
a cobrir gente da sua idade, ele aos poucos descobre que tem uma causa bem
perto dele pela qual lutar, que é também uma causa de desamparo.
E se vivêssemos todos juntos? não é um filme para velhos –
mas para todos que se interessam pela condição humana. No roteiro, aliás,
aqueles que aparecem no lugar de “filhos”, ora perplexos, às vezes distantes,
em outras arrogantes na sua certeza sobre o que é melhor para os pais –
perdidos sempre – parecem precisar muito assistir a um filme como este.
O filme, que já é muito, muito bonito mesmo, fica ainda melhor
com a interpretação impecável de grandes atores, todos eles velhos e, portanto,
mais experientes do que nunca. Todos menos um: o único jovem protagonista é o
ótimo Daniel Brühl, por quem nos apaixonamos em “Adeus, Lenin”, e que tem no
enredo um lugar muito particular. Ele é um estrangeiro não só por ser um alemão
na França, mas por ser um jovem em território de velhos: estrangeiro porque só
estranhando é possível enxergar. Vale a pena alertar ainda que, ao contrário do
que anuncia a classificação, “E se vivêssemos todos juntos?” não é uma
comédia.
(Como já escrevi aqui, eu não chamo velhos de idosos nem
velhice de terceira idade ou – argh – melhor idade. Assisti ao filme pela
primeira vez na companhia de parte de um grupo de amigos com os quais tenho um
pacto desde os 30 e poucos anos: ao envelhecer, moraremos todos juntos em um
condomínio que um de nós já batizou, ironicamente, de “O Ocaso Feliz”. Já
acertamos mais ou menos a arquitetura, na qual cada casa terá entradas
independentes e fundos para um espaço coletivo, de maneira que, se quisermos
ficar sozinhos, basta simplesmente passar a chave na porta dos fundos e botar
uma placa de “não perturbe”. Mas não conseguimos nos acertar sobre qual cidade
– pequena, perto de uma grande – escolheremos para nossos últimos anos. Ao
deixar a sala de cinema, tomamos um espumante antes de nos separarmos. Na
segunda vez, assisti ao filme com o homem que eu amo e em quem pretendo abotoar
casacos de lã na velhice. Quero muito um velho companheiro com casacos de lã abotoados.
E espero viver para isso. Quando o filme terminou, choramos abraçados.)
Feita essa antessala, preciso dizer o seguinte: se você não
viu o filme e pretende vê-lo, pare por aqui. Embora o que quero dizer use o
filme apenas como ponto de partida, não é possível escrever sem contar bastante
sobre ele, mais do que qualquer comentário educado permitiria. Há quem não se
importe. Pessoalmente, acho que é sempre (muito) melhor ir ao cinema no escuro.
Se quiser, volte ao texto depois – e, como estímulo a uma visita à tela grande,
coloco o trailer aqui.
Para quem continua comigo: entre as tantas possibilidades de
reflexão propostas por esse filme, há uma que me comove mais. Ela fala de
memória – e de algo muito importante: memória não é apenas lembrar, é também
esquecer.
No filme, Albert (Pierre Richard) luta contra a perda da
memória. Ele não sabe se já levou o cachorro para passear ou não. “Se eu não o
tivesse levado, ele estaria reclamando, não?”, indaga-se. Para lembrar os
acontecimentos recentes, que o cérebro já não registra, Albert usa a palavra
escrita. Escreve um diário sentado na poltrona do apartamento que divide com a
mulher, estrategicamente postado ao lado de uma janela que dá para os fundos de
uma escola infantil. É com um olho no caderno e o outro na janela, na qual
espera, com evidente alegria, as crianças saírem para brincar, que ele relata o
sabor do vinho que tomou com os amigos, o cardápio do jantar e aquilo que
precisa lembrar quando já tiver esquecido no dia seguinte. O diário, a
narrativa da vida pela palavra escrita, é o fio que orienta Albert pelos
labirintos de um cotidiano no qual o cérebro falha em lembrar do ontem e até
mesmo de alguns minutos antes.
A velhice, para Albert, se manifesta primeiro por esses
lapsos de memória. Mas logo ele terá de lidar com um dilema mais profundo: o
que lembrar, o que esquecer. Sua mulher, Jeanne (Jane Fonda), de quem já
falamos lá no início, teve câncer. No começo do filme, testemunhamos quando ela
abre os exames na cozinha e descobre que a doença segue com ela e que não terá
muito mais tempo de vida. Quanto tempo, nem ela nem ninguém pode saber.
Jeanne toma uma decisão ao rasgar os exames e enfiar os
pedaços na lata de lixo. Escolhe, por amor, não contar a Albert da sua
condição. Diz a ele que está curada. Quer viver seus últimos dias, semanas,
meses sem que ele seja assombrado por sua morte. Sente-se assim menos
assombrada por ela – e mais livre para planejar seu enterro, por exemplo, mais
livre para escolher o pouco que pode escolher.
Mas, num dia em que Albert está sozinho em casa, o médico
bate na porta à procura de Jeanne, que tinha se recusado a fazer a cirurgia
proposta e sumido do consultório. Albert descobre naquele momento: 1) que a
mulher vai morrer de câncer; 2) que ela decidiu não compartilhar essa
informação com ele. É isso que ele registra em seu diário. E mais um pouco: “É
um direito dela (viver sem lhe contar que em breve morrerá de câncer)”. No dia
seguinte, enquanto espia ansioso pela janela se as crianças já estão vindo para
o recreio, ele lê esse trecho no diário e tem um sobressalto.
Mais adiante, Albert e Jeanne já estão vivendo em comunidade
quando ele abre – por engano? – o baú que pertence ao seu amigo Claude (Claude
Rich). Já não há mais uma janela por onde espiar crianças brincando, mas há
outras paisagens humanas e sentimentais. Albert sente-se desterrado, agora não
apenas de sua memória, mas também de sua geografia física, na nova casa. Mas o
que relembra todos os dias ao ler o diário faz com que compreenda que é preciso
encontrar outros parceiros para encerrar a vida. Não os desconhecidos de um asilo
de velhos, mas amigos de uma vida inteira. Gente capaz de reconhecer a
geografia que é ele.
Claude é um fotógrafo solteirão e sedutor, o número ímpar da
pequena comunidade. E Albert lê cartas destinadas a Claude, nas quais descobre
que tanto Annie (Geraldine Chaplin) quanto Jeanne tiveram tórridos casos
extraconjugais com o melhor amigo, 40 anos atrás. Albert registra sua
descoberta na carta ininterrupta que escreve para si mesmo. E, ao reler o
diário a cada manhã, relembra a traição que pode colocar em risco o delicado
equilíbrio daquela comunidade construída sobre afeto, solidariedade e a
necessidade de unir forças contra um mundo hostil à velhice.
Albert depara-se com uma questão muito mais profunda do que
os esquecimentos involuntários causados pela velhice. Ele precisa agora
enfrentar a memória como escolha. A cada manhã, ele sobressalta-se primeiro com
a notícia de que a mulher tem um câncer que a levará à morte próxima. Em
seguida, com a descoberta de que ela o traiu com o melhor amigo 40 anos atrás.
O que fazer agora que a velhice lhe deu a possibilidade de escolher o que
lembrar e o que esquecer?
A escolha de Albert é um ato completo de amor. Ele decide
sofrer a cada dia – e dia após dia – o impacto da notícia de que Jeanne tem um
câncer e que vai morrer em breve. Apesar de ser talvez a notícia mais brutal de
uma existência inteira, é a forma que ele encontra de estar com ela, de não
deixá-la sozinha nesse momento, de viver essa dor junto com a mulher que ama,
mesmo que ela nunca saiba disso. Escolher lembrar quando podia simplesmente
esquecer é a forma que Albert encontra de amar Jeanne mais e melhor – até o
fim.
Se escolhe lembrar a doença e a morte de Jeanne, Albert
escolhe esquecer a traição de Jeanne. Depois de dar muitas voltas na casa e em
si mesmo, ele rasga a página do diário na qual relata a descoberta, a amassa e
a guarda no bolso. Antes, porém, conta a Jean que ele também tinha sido traído
pela própria mulher e pelo melhor amigo. Assim, Albert lega a Jean uma memória
que o amigo pode superar, mas não esquecer. Albert pode ter feito isso tanto
por sentimento de lealdade quanto pelo sentimento de vingança, na medida em que
o temperamento explosivo de Jean é bem conhecido. Ou ainda por acreditar que
Jean tem o direito de decidir por si mesmo como quer lidar com essa memória.
Mas ele, Albert, escolhe esquecer. E este, ainda que de uma forma mais
tortuosa, é um ato de amor tanto pela mulher quanto pelo amigo.
Viver, não apenas para os velhos, é uma constante escolha
entre o que lembrar e o que esquecer. Ainda que para isso a maioria de nós
tenha de travar um embate feroz com seus fantasmas antes de conseguir arrancar
uma página espinhosa. Alguns envenenam a própria vida ao fixar-se numa
lembrança mais letal que cianureto, condenando-se a um eterno presente
congelado, o que é um tipo de morte. E outros perdem essa mesma vida ao
transformá-la na fuga incessante de algo que só poderão esquecer se primeiro
tiverem lembrado e enfrentado como lembrança.
Ainda que nossas escolhas em torno da memória sejam não mais
difíceis do que a de Albert, mas seguramente mais demoradas, nossa existência é
determinada por elas. Tanto na esfera pessoal quanto na pública. É uma escolha
na esfera pública a decisão de o que fazer com a memória que está em jogo na
Comissão Nacional da Verdade, por exemplo, ao apurar os crimes da ditadura. E
nesta, em minha opinião, é preciso lembrar – com todas as consequências
implicadas nesse gesto – para que o país possa seguir adiante.
Assim como é uma escolha na esfera pessoal o lugar e o
tamanho que cada um dá a uma determinada experiência nos muitos mal entendidos
entre pais e filhos. É por preferir seguir lembrando uma ausência, uma
humilhação ou um equívoco, dia após dia como se fosse o primeiro, em vez de
lidar, transformar em marca e então esquecer – ou pelo menos dar à experiência
um lugar e um tamanho mais compatíveis com o movimento da vida – que muitos
chegam ao amanhã apenas no calendário, mas morrem com as unhas cravadas no
ontem.
Como nos mostra Albert, escolher o que lembrar e o que
esquecer é também um ato de amor. E nunca é um ato fácil, como não é fácil o
amor.
É também um ato de amor a magistral cena final desse filme.
E esta eu não vou contar mesmo para quem já viu. Nela, Albert faz, mais uma
vez, uma escolha profunda em torno da memória. E são os amigos que provam saber
amar ao não apenas acolherem, mas embarcarem na sua escolha. Fazem isso porque
compreendem que a vida contém proporções talvez equivalentes de realidade e de
delírio, mesmo quando a gente finge não saber disso. E que amar é, às vezes,
lembrar de esquecer.
Assinar:
Postagens (Atom)

















