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terça-feira, 24 de setembro de 2013

UM TEXTO DE CELINA CÔRTE PINHEIRO



MAIS MÉDICOS SEM MÁSCARAS

O programa de governo "Mais Médicos", gerador de tantas polêmicas, fez-me voltar no tempo e recordar minha participação no Projeto Rondon, em 1972, quando já doutoranda. A meta daquele programa era inserir profissionais de diferentes áreas, sobretudo a médica, em cidades brasileiras desassistidas e de poucos recursos. Fui designada para Corguinho, no Mato Grosso. Prometeram-nos o deslocamento por avião. Exultei! Contudo, de Ribeirão Preto a São Paulo, conduziram-nos de trem, por horas a fio, em um percurso que seria feito confortavelmente, já àquela época, de ônibus, em apenas quatro horas. Não havia assentos disponíveis e viajei a noite toda sentada sobre minha mala. Apenas lá pelas cinco ou seis horas da manhã, consegui sentar-me em um dos bancos desocupados pelos passageiros.
De São Paulo a Corguinho, fomos de ônibus. No total, quase dois dias de viagem desconfortável e exaustiva. Porém, nosso sonho de ajudar e colocar em prática o que havíamos aprendido, falava mais alto.
Foram 45 dias de trabalho, quando pude perceber que, por trás do bem que fazíamos, havia, sobretudo, o desejo político de manutenção do poder. A população era carente de tudo e não possuía noções mínimas de educação sanitária. A cidade, por sua vez, destituída de saneamento básico. O experiente prefeito sugeria o acréscimo de complexo B ao nosso receituário onde predominavam os programas "Mais Médicos".
Nosso raciocínio se afunilava pela monotonia de diagnósticos. Tampouco havia condição de algo mais... Nossa presença se constituía uma bênção para a população extremamente carente e sem noção de que as medidas eram meramente paliativas. Satisfazia-se com pouco. Saímos dali enaltecidos pelos moradores e felizes com nosso exercício de solidariedade. Eles, por sua vez, continuariam a ingerir água contaminada e a ter diarreia...
No atual programa, diferenças gritantes no transporte e no receptivo. No mais, talvez a mesma farsa e o mesmo viés eleitoreiro. Comprove-se sua efetividade através da comparação honesta, sem mascarar a realidade, entre os indicadores atuais e após dois ou três anos do programa. Sonhamos com a real melhoria da qualidade de vida da população!

Celina Côrte Pinheiro

Médica  

sexta-feira, 12 de abril de 2013

CARTA À MINHA CIDADE, COMPLETANDO NESTE SÁBADO, DIA 13/4, 287 ANOS - NILZE COSTA E SILVA




 Fortaleza, minha cidade amada.
Não sei como nem porque este rio da minha vida veio desaguar por estas terras. Sei que tinha pouquíssimo tempo de vida e não sabia um tantinho assim do que fosse ser alguém no mundo. Meu espaço era tão pequenininho! Compunha-se de uma rua, que parecia enorme, uma casa grande de altas paredes e um quintal repleto de bananeiras e castanholeiras. Depois esse mundo foi crescendo, se expandindo, saía pelo quintal que ia dar na Rua José Avelino, subia até o Quartel General, passava pelo Passeio Público e Praça da Estação. Se subisse à esquerda, no 1º quarteirão, seguia pela ladeira que se encontrava com a Rua Monsenhor Tabosa e desembocava na Igreja da Prainha e Seminário Velho, onde se ordenaram ilustres párocos, como Padre Cícero e Monsenhor Tabosa.
 Se resolvesse ir pela ladeira seguinte, entrava na Biblioteca Pública, uma casa antiga situada em frente à Praça do Cristo Redentor, onde a minha adolescência ia percorrer os livros envelhecidos que eu olhava, folheava e lia com zelo e admiração.
 Fui crescendo e conhecendo essa Cidade Mulher, que um dia ouvi chamarem de “loura desposada do sol”.
Meu primeiro contato com Fortaleza foi com o seu lado mais antigo: Praia de Iracema, Alfândega e Arraial Moura Brasil - zona de meretrício, cujo nome nem se podia citar, na época. Foi por ali que se iniciou o comércio da cidade, indo ao Passeio Público, Praça da Estação e afastando-se cada vez mais do mar.
Sendo um ser de beira de praia, senti-me arrastada para outros lados da cidade, Bezerra de Meneses, Parque Araxá, Parquelândia, Barra do Ceará, Bairro Ellery, Dionísio Torres e Bairro Edson Queiroz, onde fico até hoje.
 Em criança, tinha que me deixar levar pela vontade dos adultos. A brusca mudança e o mundo daquela gente grande me assustaram. A cidade exaltava-se, alvoroçava-se, enchia-se de pessoas estranhas que já não faziam parte da minha infância rodeada de mar.
 Na adolescência, angustiei-me ao perceber que a cidade inchava daquela gente expulsa do sertão pela seca e desigualdades fundiárias. Viadutos, bairros periféricos e terrenos baldios eram invadidos.
A minha Fortaleza mudou-se comigo da Praia de Iracema para um outro cenário. Via-me estranha, como se numa outra cidade, maquiando-se, afastando-se, não mais se penteando na orla como uma “loura desposada do sol”.
Você crescia, Fortaleza, com sua dupla personalidade. De um lado ardente, ousada e bela. De outro, deslavada, desvalida, triste e pobre em sua periferia.
 - Do livro Fortaleza Encantada (Livraria Cultura)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

CELINA CÔRTE PINHEIRO E O 27 DE JANEIRO DE 2013





            Deveria ser um domingo, como tantos outros, em que jovens curtem a ressaca de uma noite festiva na balada, quando trocaram beijos, abraços e passos de dança ao som da banda da moda. Contudo, não foi assim! O dia 27 de janeiro de 2013 amanheceu enlutado no país inteiro por conta do ocorrido lá em Santa Maria-RS. O lá ficou próximo de todos nós face à fatalidade incluindo tantos jovens recém despertados para a vida. Simplesmente curtiam as alegrias próprias da juventude. E não tiveram o dia seguinte para relatar tudo o que de bom acontecera na boate. Restaram apenas seus familiares sentindo na mente e no coração a dor de uma partida, sem despedidas e sem retorno previsto. Não apenas o Brasil caiu em estado de estupefação. Todo o mundo comentou e se perguntou como é que ainda acontecem coisas assim, em pleno século XXI. Acontecem e continuarão a acontecer, enquanto não adquirirmos a cultura da prevenção de acidentes e continuarmos a acreditar que fatalidades advêm apenas aos outros. Embora a tristeza tome conta de todos nós, é obrigatória a reflexão sobre o ocorrido. As responsabilidades devem ser investigadas e, com certeza, não se restringem a um pequeno grupo de pessoas ligadas diretamente ao recinto onde acontecia a festa. Outros, caso tenham consciência, estarão agora arrependidos por não terem sido mais rigorosos na fiscalização de acordo com as exigências da lei. Deram um jeitinho, levaram na brincadeira suas responsabilidades, na certeza de que nada ocorreria. Quiçá hajam se vendido, não por trinta dinheiros, mas até mesmo por uma garrafa de uísque falsificado para considerarem tudo de acordo com as normas técnicas.
            Não temos a cultura da prevenção e subestimamos as possibilidades de agravos. Acreditamos que nada irá acontecer e dormimos tranquilos. Quantos de nós, ao entrarmos em locais públicos nos preocupamos em examinar o entorno à procura das saídas de emergência ou possibilidades de evasão? Quantos de nós sabemos operar um extintor de incêndio? Quantos de nós sabemos que há diferentes tipos de extintores para situações específicas? A utilização de um extintor inadequado pode agravar o problema. Hoje, tão comuns os condomínios. No nosso, há pessoas treinadas para agir corretamente no caso de um sinistro? As questões são inúmeras e convém refletirmos sobre elas.
            O infortúnio recente revela os riscos a que nos encontramos sujeitos. Não devemos apenas lamentar o ocorrido, mas sermos mais cautelosos, mesmo nas situações mais comezinhas, capazes de produzir sérios agravos à integridade física individual e coletiva.

 (publicado no JORNAL O POVO)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

ARENA DE IRACEMA - CELINA CÔRTE PINHEIRO



Arena de Iracema

A Praia de Iracema é mítica e se perenizou no imaginário daqueles que viveram seu auge nas décadas de cinquenta a setenta, com o Estoril e as lagoinhas formadas ao longo da praia, a depender da maré, motivo de diversão para pais e filhos.

Nas últimas décadas, entrou em franca decadência por várias vezes, após intervenções destinadas a revigorá-la.

Seu renascimento sempre se dá de forma atabalhoada, sem supervisão e sem o controle do poder público, no "laissez-faire" usual, e acaba destruída pela sanha da própria população que dela se utiliza.

Da era festiva dos barzinhos coloridos, que acabaram por espantar os moradores daquela área, despencou fragorosamente para o caos, invadida pela prostituição, drogas e congêneres... Mais uma vez agora, tenta se reerguer.

Recentemente, a área ganhou roupa nova. A população se reaproximou e, na visão do poder público, bastaria isso para o local estar revigorado. Com os pedestres que fazem a rotina saudável da beira-mar, chegaram, ao cair da tarde, também os patinadores, os esqueitistas, os ciclistas, os triciclos e quadriciclos ondulantes, feito cobras cada vez mais longas, e dirigidos, muitas vezes, por inábeis condutores.

Em uma mistura desorganizada, começa o jogo e o local, pouco a pouco, mais parece uma arena sem normas.

Os pedestres, segmento mais frágil dessa relação, encontram-se expostos a sérios acidentes.

As crianças e jovens, mesmo sobre seus patins, skates ou bicicletas, também!

O direito de ir-e-vir faz parte da democracia, contudo, respeitando-se um regramento saudável para a boa convivência.

Quem considerar que o local não oferece riscos deve estar auferindo algum tipo de vantagem ou não possui o mínimo de bom senso.

Qualquer cidadão, com sensibilidade, percebe que, ao entardecer, o calçadão se transforma pouco a pouco em um local desgovernado e perigoso, onde muitos acidentes ainda ocorrerão, sem contar aqueles não percebidos ou não revelados propositadamente com o intuito de não afastar os frequentadores.

E se faço tal advertência, é porque sei e já vi acontecer... Afinal, sou traumatologista!

Celina Côrte Pinheiro - Médica

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

BELEZA ESPIRITUAL- Celina Côrte Pinheiro

A ação do tempo é inexorável. Ninguém escapa à sua capacidade de nos roubar o turgor juvenil. Apesar das rugas, surge uma beleza especial, um encanto, um charme, como se fora uma compensação ao desgaste físico. A isto denominamos maturidade e não se trata de um eufemismo bem colocado para substituir o termo velhice. O espelho revela uma figura orgulhosa de si, por conta do equilíbrio emocional e do conhecimento advindos da própria vida, que fazem de nós mais sábios. Até aquele fio de cabelo branco que se insinua entre os negros, já não tão negros, produz um reflexo charmoso e enigmático. Transformamo-nos em uma nova edição, revisada e acrescida de nuanças peculiares e gratificantes. Percebemos o envelhecimento com certo orgulho, face às aquisições pessoais e, ao mesmo tempo, com humildade, diante dos fatos que não podemos modificar.

Contudo, esta não é necessariamente a mesma impressão provocada naqueles que nos cercam, adormecidos para os valores do espírito. Eles observam somente o óbvio, nosso corpo emurchecido ou avolumado pelo tempo. São cegos no olhar e nos sentimentos. Não dedicam sequer um segundo em nos contemplar interiormente e muito menos em conter a própria expressão facial ou a palavra tosca que teima em lhes sair da boca. Eliminam seus dejetos mentais, dizem asneiras como se fossem imortais e detentores da eterna juventude. Portanto, a nossa sensação pessoal de juventude do espírito não é documento para quem se prende exclusivamente às aparências.

A vida passa e a fotografia fica. Uma das afirmações prediletas dos fotógrafos, na tentativa de nos incentivar à documentação obrigatória dos momentos vividos. Não lhes tiro a razão. Realmente, os fatos são vivamente lembrados através das fotografias. Em nossa mente, a energia, a sensualidade e a beleza física de sempre. Nas fotografias, a denúncia anônima da infidelidade do tempo a passar por nós de forma avassaladora. Elas mostram o que os outros vêem e nós não percebemos... São indiscretas! Revelam as mudanças acarretadas pelo tempo e a nossa cafonice na vestimenta ou naquela pose de manequim, mal copiada das mulheres maravilhosas estampadas nas revistas. Passado e presente documentados de forma inegável. Em meu diploma profissional, por exemplo, consta minha fotografia feita pelos idos dos anos 70. Cabelos castanhos, levemente anelados, olhar doce com o brilho da juventude, a pele macia, tudo registrado pela magia fotográfica. Sem modéstia, bonita. Um dia, alguém passou, viu o retrato, voltou-se para mim e, em seguida, para a foto. Vergastou o comentário: “Noooossa, como a gente muda...” Disse tudo! Sorte dela que jogar praga não é do meu feitio...

Meus netos crescem e se tornam, a cada dia, mais bonitos. Já, eu, ao lado deles, fico contrastante, com minha pele alterada pelos efeitos do tempo e do sol. Tenho, assim, que me curvar às evidências e concordar com o olhar dos jovens que não conseguem perceber nossa juventude preservada no espírito. Mas, sou capaz de jurar que ela é real...

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Estaleiro versus Titanzinho - Francisco Pessoa


Fim de tarde melancólico no pontal do Mucuripe... lá em cima, o céu aos poucos se enluta; cá em baixo, maré seca, pequenas ondas tênues pouco encrespadas, teimam em beijar a praia do Titanzinho, como se fora o derradeiro afago.
Uma folha de jornal quase desfeita se abraça a um coral vigilante que veio tomar fôlego na superfície. Eis a chave do mistério para tanta tristeza.
A cada momento seguinte numa suave nuança, a abóbada celeste também lacrimeja piscando estrelas, ao ouvir atentamente os soluços do mar que, desesperado, roga aos deuses do Olimpo pela sobrevivência daquela praia, criatório de talentosos equilibristas de pranchas que hoje surfam na crista da onda em competições internacionais. E não é só disso de que se alimenta a Titanzinho, pois, viveiro de variadas espécimes de peixe, faz-se cardápio para os praianos que vivem em seu derredor.
Nem tudo são flores, no dizer do poeta, na praia do Titanzinho. A nossa sociedade míope enxerga-a como uma zona franca da prostituição, paraíso para os marinheiros sedentos e famintos que arriam âncora em nossos mares. Relegada ao esquecimento, ela tornou-se lembrada por jovens que se aventuram no trágico mundo do tráfico. Existem titãs, paradoxalmente, sem fôrças, que procuram maiusculizar a Titanzinho. São nativos de pele crestada que cheiram a maresia, cujos vagidos se confundem com o roçar do peito das ondas no dorso da praia, ou que nasceram no meio do mar e foram atraídos pelo canto das sereias com a missão de diminuir a dor daquele povo sofrido.
Quão bom é ver e sentir o lado bom da comunidade Serviluz, que busca servir a luz para nossos irmãos que portam óculos escuros em noites trevosas.
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Sob o teto de um azul já escurecido e o gotear de lágrimas vindo de estrelas chorosas e refulgentes, pois que a lua ausente se fazia, pus-me a meditar naquela noite fria, fitando quase às cegas o lúgubre horizonte.
Eis que me envolve os pés, já desbotada, aquela folha de jornal liberta dos corais, indecisa no seu ir e vir por tantas vezes no alcançar da praia, sem saber que trazia a chave do mistério, do porquê de tanta tristeza naquela praia condenada a desaparecer.
- MORTE ÀS PRANCHAS! VIVA O ESTALEIRO!... Lia-se com dificuldade as letras garrafais embaralhadas na página molhada.
360, Tubo, Cabuloso, Casca grossa, Kaô, Maroleiro, são gritos de guerra que tendem a perder eco naquela praia pequena que se fez grande aos olhos da Transpetro, empresa gerenciada por um cearense que na sua juventude, desfrutou dos distintos sabores que aquele pedaço de chão e mar lhe ofertou.
“ É doce morrer no mar ”... Que esta idéia de estaleiro na Titanzinho pereça sob as ondas que carregam no dorso nossos surfistas campeões. E os paquetes domados por homens de pele crestada e braços fortes sorrirão onda após onda, num duelo saudável entre o jangadeiro e aquele mundão d’água que lhe garante a sobrevivência.
Por um momento submergiu a folha de jornal. Cá, na superfície, flutua a decisão dos nossos governantes: um sim, um não, conforme a maré...
Titanzinho, se morreres, morro contigo!


(Crônica classificada em 10° lugar no Concurso de Literatura UNIFOR 2010)

quinta-feira, 3 de junho de 2010

FAZENDA ALMAS - Argentina Andrade



Ávidos por emoções que nos entremeassem o espírito, flutuando nas asas da satisfação, numa manhã incendiada pelo sol, tomamos nosso carro rumo a Boa Viagem, com destino à fazenda, de nome “Almas”.
Sonhos azuis, plenos de beleza, povoavam nossa mente. As folhas murchas das lembranças tristes pareciam cair para que nós pudéssemos somente colher as flores dos momentos felizes por que iríamos passar.
Pelo percurso, a paisagem descortinava-se diante de nossos olhos. O verde das árvores e do capim tranqüilizava nossas mentes. A jornada, apesar do sol causticante, era amenizada pela aragem que penetrava pela janela do carro. Dentro do nosso ser, algo de estranho apoderava-se invencivelmente... Não sei se pelo nome da fazenda, “Almas”. Mas nós não queríamos nos privar de uns dias alegres, nem perder parte alguma de um desejo legítimo, de desfrutarmos um fim de semana no campo. E o que fizemos foi constatar que a força inquebrantável do saber querer, aliado ao prazer de saborear aquilo que é conseguido quando é legítimo desejo, mostra na mais cristalina forma o inenarrável sabor da vitória.
O sol sorria no horizonte e parecia que zombava de nossa expectativa.
As paisagens um pouco crestadas pelo sol ainda reverdeciam formando, aqui e acolá, tapete de relva por onde a fauna corria livremente, vibrando na faixa de júbilo da natureza. Tudo parecia sonho e encanto. O sol brilhava em êxtase de felicidade, distante das dores do nosso mundo.
O céu azul, os arbustos, as árvores, o campo, nenhuma nuance, nada escapava à visão detalhista, à sensibilidade, como se fôssemos jovens artistas.
Já se aproximava a nossa chegada. A estrada adornava-se de uma vegetação maravilhosa. Ultrapassamos o pórtico de entrada da fazenda. Uma alameda larga cortava a verdura da paisagem, ambas plantadas a espaços regulares; árvores frondosas ofereciam sombra amiga, à maneira de pouso delicioso, na claridade do sol confortador.
Avistamos o casarão imponente e, na fachada, inscrições datadas de 1636. Descemos do carro e, após nos abraçarmos com os anfitriões, breves minutos passaram para que penetrássemos, por vez, o recinto radioso. Flores perfumosas, ornamentando o ambiente, embalsamavam a ampla sala; vagavam no ar suaves melodias.
Após nos alojarmos no quarto e nos refrescarmos com um revigorante banho, deliciamo-nos com uma farta refeição.
Logo que tomamos o saboroso cafezinho, recolhemo-nos à sesta. Ao chegarmos ao quarto e abrir a janela, o perfume dos frutos do pomar e das flores invadiu o aposento. A brisa penetrou pela janela aberta e acariciou-me o rosto. Senti sonolência e logo adormeci em profunda paz.

sábado, 8 de maio de 2010

PARA A MINHA MÃE, IRENE - Nilze Costa e Silva



Tu não sabes das coisas que me roubaram de ti. Teus caldos, teus zelos, teus desvelos. Tua mão me compungindo a testa na suavidade da compressa morna, folha de corama com manteiga derretida, aliviando-me as dores de cabeça que infernizaram os meus tempos de menina.

Irene, muda para as revelações escandalosas, pudica, escondendo a menarca precoce à filha inocente, coisa feia, para quem mergulhada em preconceitos ancestrais.

O chinelo na mão, o mistério descoberto, a boca escancarada, imprecando, gritando, ralhando. O ciúme doentio, a fera a defender os filhotes do sol, da chuva, do mal...

(Irene me dá a chave do mundo, que eu sei caminhar sozinha. Enxuga a lágrima que brilha. Tu sempre tiveste vergonha de chorar... Me dá liberdade que eu quero voar!)

Irene chorando por eu sangrar, atropelada. Irene rezando, brigando, cansada, suada. No avental a marca dos dez dedos. Na palma da mão a impressão da testa fatigada.

Irene o longo quintal a varrer, as folhas se amontoando, o velho fogão de barro. O sono leve ao mais silencioso ressonar dos filhos. As narinas dilatadas farejando o perigo... Irene, a redoma. As barrigas anuais: paristes todos os filhos do mundo!

Exangue, a comadre aparando o menino, os ais dolentes espalhados na casa toda.

O beijo da primeira comunhão. O único, entre tantos que guardaste e não me deste por pejo.

Irene, o retrato jovem de luto da mãe. Aquele, na moldura em tripé, que não gostavas, mas que exibíamos às visitas por acharmos bonito o sorriso inefável de Mona Lisa órfã e triste. Que mistério fotografaram em teu rosto, Irene?

As cartas que me pilhaste lendo escondida. Como ousava eu descobrir aquelas frases apaixonadas, escritas por teu marido nos primeiros tempos de casamento? Coisa horrível, não é, Irene? A lágrima que correu no teu rosto no dia em que eu fui embora...

Até os versos, Irene, que eu iria escrever em tua homenagem, me foram roubados pelo poeta Manuel Bandeira:

"...Imagino Irene entrando no céu:

- Licença, meu branco?

E São Pedro bonachão:

- Entra, Irene! Você não precisa pedir licença!"

terça-feira, 6 de abril de 2010

A VISITA - GISELDA MEDEIROS


Era de uma beleza estonteante a várzea por onde íamos sendo levados. O trepidar do carro sobre os pedregulhos da estrada dava-nos a sensação de galope. E galopávamos já de felicidade. As recordações do dia em que tomamos conhecimento da decisão de papai em levar-nos para um internato iam-se volatizando à proporção que desfrutávamos aquela alegre paisagem. As lágrimas derramadas no momento da separação evolavam-se, ao ritmo do vento, que batia forte sobre o carro e penetrava, furioso, despenteando-nos os cabelos. Hoje, penso como é fácil para a gurizada enfrentar certos problemas e refazer-se inteiramente. Ali, já não nos importava a privação das brincadeiras no imenso quintal de nossa casa nem a saudade das histórias de monstros e duendes que nos contava a preta Benedita, no assustado alpendre, ao clarão da lua cheia. Os banhos divertidos na lagoa. A fuga para a cachoeira encantada. As poucas brigas que, paradoxalmente, nos faziam mais irmãos. O medo nas noites de tempestade. As arapucas colocadas às escondidas. Os castigos severos de papai. Tudo ia ficando para trás, na distância da estrada da vida. Contudo, sentíamos que, dentro de nós, aquilo tudo estava marcado como tatuagens que a vida imprimiu em nós, mesmo sem lhe concedermos permissão.
Papai dirigia sério e taciturno. Aliás, fora sempre assim. Nem um de nós, nunca, ousou desafiá-lo. Quando se calava, era sinal de que queria obediência. Ah, já não existem mais pais como o senhor Raul Moreira de Andrade! Sentíamos orgulho dele. Íntegro. Disciplinador. Um patriarca autêntico.
O carro apalpava as pedras e trepidava dentro de nós. Olhávamos para todos os lados com a indomabilidade de olhos ávidos. Sorríamos. Cantávamos. E papai sério. Lembro-me bem de que o senti triste demais e vi deslizar, tímida, uma lágrima sua. Mal notou-me olhando-o, puxou o lenço, passou-o sobre a testa e, discretamente, enxugou a face.
- É bom fecharmos os vidros. Há muita poeira na estrada.
Mas, eu sabia que disfarçava. Não queria demonstrar o que para ele seria uma prova de fraqueza. Agora, compreendo aquela lágrima calada, que tudo dissera. Ela arde ainda dentro de mim, como se fora uma chama sagrada, alimentando-me o amor, este sentimento capaz de vivenciar o possível e o impossível na história da humanidade. Este amor que constrói, que multiplica, que transcendentaliza.
Dali em diante, não pude mais cantar. Juninho, Daniel e Flávio continuavam tagarelando, alheios à realidade que me apertava, que me oprimia, e para a qual eu não tinha explicação. Só por que pressentira aquela lágrima?! Hoje, sei bem que a vida não nos explica nada, porque a explicação está dentro de cada um de nós. Ela apenas nos prepara o terreno para a semeadura e, quando estamos prontos, é feito o plantio. E eu estava sendo amainada para a colheita da dor.
Enfim, chegamos. A Escola Santa Teresinha parecera-nos simpática. Um prédio amplo, com extensas áreas arborizadas. Um pátio enorme convidava-nos ao lazer. Já imaginávamos as brincadeiras, os jogos, as conversas com novos colegas à sombra daquelas árvores discretas, cujos troncos bordados com corações traspassados por flechas pareciam enormes deuses a proteger aquelas paragens.
Uma religiosa, de sorriso austero, veio receber-nos e nos encaminhou à sala da Madre Superiora. Esta, após perscrutar-nos, com seus olhos de análise, por cima de uns óculos dourados, mandou que sentássemos. Papai nos apresentou, um por um, caracterizando-nos detalhadamente. Enquanto falava, eu o olhava com uma ternura tal que cheguei às lágrimas. Ali, na imaturidade dos meus doze anos, pude experimentar um sentimento inusitado que, àquela época, não sabia como defini-lo - a saudade . E, fora, na antecipação desse ritual, que chorara. Não pude conter-me, quando papai despediu-se e pôs em minha face o mais saudoso de todos os beijos.
- Virei logo vê-los. Logo, logo. Comportem-se e cuidado com a saúde.
Acompanhei o talhe fino e esbelto de papai, até desaparecer no final de um corredor que dava para a saída. Vi-o seguir firme, sem voltar-se, resoluto, imprimindo naquele chão de passos solitários as pegadas de seu caráter, como a nos dizer: “Sigam-nas”.
Adaptamo-nos logo aos moldes disciplinares do colégio, embora carregássemos na alma uma aflição inexplicável. A educação recebida no lar fora a base sólida para aquela rápida acomodação. Éramos tido como exemplo de disciplina. Ah, papai, quanto orgulho de você!
No entanto, o fato mais importante desta nossa história, caro leitor, aconteceu logo na quarta semana subseqüente à nossa chegada ao colégio. Lembro-me bem. Eu estava semi-acordada. Acabara de ler o conto “O Milagre” que a professora nos dera como atividade e, sob o impacto do misticismo de seu desfecho, tentava, ainda que sonolenta, entender-lhe a mensagem. De repente, a porta do quarto ilumina-se e, do clarão, surge a figura impoluta de papai. Na face, a lágrima da estrada. Sem dizer palavra alguma, entrega-me seu relógio de algibeira. E, antes que pudesse abraçá-lo, desfaz-se em penumbra. Esfrego os olhos atordoada. Sou vencida pelo sono.
Na manhã seguinte, o relógio apertado em minha mão e a lembrança de uma lágrima calada, queimando-me.
Aquela foi a última vez que vi papai.

(SOB EROS E THANATOS)

quinta-feira, 25 de março de 2010

2 Crônicas de Waldir Rodrigues


SAMARITANA


Encontrei-a meditando à beira da fonte da Poesia, no momento lírico do crepúsculo, quando o dia e a noite já não são, mas são quase. Os raios matizantes do sol escondiam-se por trás dos seus cabelos claros, com reflexos de ouro e de púrpura. Seus pés andarilhos, vindos de um atroz irremediável, tencionavam em percorrer os caminhos do desconhecido. Seus olhos fixos no horizonte das ilusões, ao pressentirem minha presença, esconderam-se no chão, medrosos de mim.
– Quem é você? – perguntei.
E minha voz tinha a dolência dos que sofrem...
Seus olhos tristes elevaram-se da terra e iluminaram os meus. Falavam de sonhos, mas lembravam as distâncias.
– Por quem você espera? – insisti curioso.
Nada respondeu, porque havia transposto o tempo dolorosos das esperas. Adivinhei dúvidas em seu semblante, quando vi o silêncio estampado nos seus lábios.
O caos inevitável se aproximava no manto negro da noite que já vinha.
Apontei para a fonte do Parnaso, na ânsia de que o dia não se fosse. Seria preciso conservar o calor do deserto na areia movediça dos caminhos. A jornada é longa, e o tempo não espera.
– Dê-me de beber! Tenho sede de esperança! – implorei.
Uma lágrima desmaiou sobre sua face, e o sussurro de sua angústia entreabriu seu silêncio. Os braços emergiram, lentamente, do nada e depositaram em minhas mãos um cântaro vazio...



PESCARIA

Há mais de vinte anos, em pleno albor de nossa juventude, o poeta Durval Mendonça e eu inventamos uma pescaria. E saímos pela vida afora, armados de caniços e samburás. Sentamo-nos à beira de uma noite estrelada, querendo pescar estrelas. Lançamos os anzóis às profundezas dos céus e, nas pontas, para atraí-las, a isca dourada de um sonho vivo, ainda se bulindo.
As estrelas cintilavam no infinito, como dorsos de lambaris na superfície da treva em silêncio. O tempo corria em lugar do vento, e nós dormitamos sobre a esperança de uma estrela viva, em nosso aquário de fantasias... De repente, a linha da ilusão estremece!
Ficamos atentos.
Depois um arranco...
Um outro arranco...
E nos sentimos arrebatados para o infinito, acima, arrastados pelo supremo delírio de dois poetas...
E vocês sabem o que aconteceu?

UMA ESTRELA NOS PESCOU!

terça-feira, 2 de março de 2010

O Pulo do Gato - Cláudio Queiroz


O velho resmunga sons ininteligíveis de desagravo quando a mosca lhe roça o bigode e nariz.
Aborrecido, muda bruscamente de posição. Agora, de bruços, volta a dormir suavemente, sob o afeto de uma ligeira brisa que sopra da janela, afagando-lhe os cabelos.
O ambiente era de tranqüilidade. Bastava-se observar a decoração bem típica dos aposentos de um homem já velho e solitário: um precário guarda-roupa de duas portas, uma cadeira de balanço apinhada de roupas já usadas e alguns livros. Na parede, fronteiriça à janela, à direita da porta de entrada, um quadro de moldura, já em adiantado estado de uso.
Dizia-se que fora o velho Ezequiel, tipógrafo, aposentado do Estado, ele próprio, o pintor do quadro, no qual podia-se observar um casal risonho, ele ajudando a sua jovem companheira a transpor um pequeno riacho que corria entre pedras.
Novamente, o velho Ezequiel volta a se agitar na cama. Com isso, o gato mourisco, que dormitava em cima do guarda-roupa, levanta a cabeça, atento, bigodes em posição de alerta.
Agora, o ex-tipógrafo dá mostras de impaciência. Dormira após penosa luta com o gato que, ultimamente, teimava em viver em sua companhia. Odiava aquele felino de olhos amarelos “tipo do sujeito bilioso e mau”, como murmurava.
Deitara-se, afinal, cansado da perseguição, ainda mais sob o efeito da lembrança de que, somente dali a dez dias, receberia seu minguado dinheiro.
Sonha, agora, que dois oficiais de justiça retiram da parede o seu valioso quadro. “Para pagar aos devedores”, diz um deles, rindo do desespero que o domina.
O pesadelo desperta-o bruscamente. Aos 68 anos e com sério problema de coluna, entende-se quão doloroso é um levantar rápido.
A mão ainda trêmula tateia em busca de seus óculos. Ergue-se e, às apalpadelas, dá com o pé no urinol provocando um ruído desagradável.
Resmunga zangado, aborrecimento que logo se transforma em ódio, quando, profusamente, vê o gato pular do guarda-roupa e cair-lhe em cima da cama.
Numa agilidade humilhante, o animal parece debochar dele, os olhos satanicamente piscando com ironia.
O ex-tipógrafo, ainda atordoado, procura, ansioso, ver o seu quadro. Adianta-se e, com sofreguidão, vai de encontro ao seu odiado inimigo que pulara diante dele. O velho solta uma imprecação de desespero, enquanto suas mãos agitam-se no ar, tentando, em vão, agarrar-se a algo. Não obtendo o equilíbrio e, ante a iminência da queda, volta a olhar a parede em busca, de ali, ver o quadro, para ele, de valor inestimável.
Mas, o tombo foi desastrado. O homem bateu feio com a testa na cadeira, indo rolar, gemendo, no piso da sala.
Choramingando baixinho, leva a mão ao rosto, pressentindo que estava ferido. E, com dedos trêmulos, apalpa dolorosamente os fragmentos estilhaçados dos óculos, que alçara à testa, minutos atrás.

segunda-feira, 1 de março de 2010

RASGANDO A FANTASIA - Heloísa Barros Leal


QUERIDA RAQUEL

smileys falando


Hoje, ao acordar após mais uma noite de insônia e da nossa conversa sobre as nossas vidas, as nossas escolhas, algo adormecido, lá no fundo, também despertou. Foi então que constatei, querida amiga, que tenho vivido todos esses longos anos num espetacular baile de carnaval, cercada de vultos fantasiados e mascarados, representando cada um deles os meus desejos ocultos e todas as minhas mais loucas fantasias. O pior foi a conscientização tardia de que eu mesma, na minha louca imaginação corroída pelo romantismo, patrocinei com fantasias este baile.
Aos poucos, ainda meio sonolenta, vejo através das máscaras as minhas fantasmagóricas ilusões circulando freneticamente ao meu redor, na forma de figuras carnavalescas, derramando sobre mim as mais variadas iguarias, enquanto ouço o tilintar de taças de vinho sobre a minha cabeça como numa festa de BACO, num último brinde à minha estupidez...
O que se pode fazer quando se chega ao patamar da vida e se depara com a certeza de que viveu mergulhada num mar de fantasia, mentindo para si mesma e se convencendo de alguma coisa que só existia na sua tresloucada cabeça? E que essa constatação começa a lhe corroer e a destruir tudo aquilo em que passou, a maior parte da vida, acreditando, regando e, acima de tudo, cultivando? O que faria você? O que faria?
Grito, aos quatro ventos, buscando ansiosa uma resposta que me conforte, que me dê forças para terminar minha jornada sem tanta amargura, mas não encontro resposta ao meu pedido de socorro.
Em principio, achei que as pessoas não sabiam ser solidárias e não estavam nem aí para se comoverem com a dor dos outros. Radical demais! Depois, outro pensamento me ocorreu. Não seria por que, como eu, elas se faziam a mesma pergunta? Passaram ou estariam passando pelos mesmos problemas que eu e, também, se perguntavam a mesma coisa e não tinham resposta? Quem sabe?!
Mas, hoje, depois de todas estas reflexões, resolvi num ato heróico terminar este baile, rasgando minha fantasia. Tenho certeza de que outros bailes virão, que vestirei outra fantasia, mergulharei em um outro sonho, pois não conseguiria viver sem sonhar, sem fantasiar, já que isso enche de colorido as nossas vidas. Não tenho certeza absoluta, já que é muito tênue a linha que separa o real do imaginário, mas procurarei, da próxima vez, ter mais cautela na organização do meu futuro baile, e me fantasiarei de EVA. Assim não há perigo de, mais uma vez, rasgar a fantasia.

Com carinho,

Maria Eduarda

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

CONVERSANDO COM NATÉRCIA CAMPOS - Maria Amélia Barros Leal



Você, amiga, nos transmitiu singulares emoções nos mistérios daquela Casa, plena de tramas e sutilezas, revelando no romance a sua inteligência iluminada. No caminho das águas, mergulhei com paixão, flutuando sob uma sensação de aventura, vivendo os segredos inspirados pelo Conde italiano Ermanno de Stradelli em você, a filha do contista Moreira Campos, que fisicamente parecia frágil, mas, na realidade, possuía o poder de captar o íntimo dos sentimentos humanos.
Se você, no fim da viagem, ficou "à mercê de dois mundos, o imaginário e o real, procurando equilibrar a vida e os sonhos", é porque herdou de seu pai o poder mágico das concepções literárias, e de seu avô Julio Alcides, não só um binóculo de alcance, mas uma visão aguda e penetrante da selva Amazônica.
Embevecida pela descrição das paisagens, acompanho os seus olhos deslumbrados, fixos no CRUZEIRO DO SUL, na lua madrinha, no Japu, pássaro de bico vermelho que do sol trouxe o fogo; no Uirapuru, ave canora a que CY, a mãe de todos, pede que não pare de cantar; no Aturiá, comunicação estreita entre rios que recebe dos viajantes uma peça de roupa para abrandar a cólera dos espíritos e, descendo as águas, o Matupã, uma touceira desenraizada das ribanceiras do rio, pequena ilha flutuante, pela qual viajam plantas, pássaros, galhos, flores e garranchos. E, quando um pequeno vapor – o navio gaiola – passa com as redes armadas, você confessa que a imaginação voou intensa e, então, eu relembro o Professor Moreira Campos, profundamente sutil em pressentir e descobrir emoções contidas.
Com sensibilidade, você nos apresenta os Matis, que são os curandeiros, mestres na aplicação do curare e a cerimônia do Marake, deveras impressionante, porque os meninos que penetrarão no mundo dos adultos, sentem, em silêncio, as ferroadas das tocandeiras, as formigas de fogo.
Juruparu, o deus e demônio das florestas, exclui as mulheres do ritual, não permitindo que ouçam o som da trombeta da paixiúba. E eu me interrogo: por que a proibição? Seria medo de que a sedução feminina pudesse arrefecer o ânimo dos adolescentes?
Profundo mistério, insondável premonição, envolvida na exaltação do espírito...
A chegada a Parintins em 3l de dezembro de 2000, numa atmosfera de beleza indescritível, e os expressivos versos de seu amigo e poeta Dr.Wellington Alves deram-me a certeza, de que a viagem fantástica foi real e, quando "a esperança de um feliz ano novo tornou-se a sua companhia, a referência aos amigos que são preciosos e imprescindíveis como o ar, a água, o sol e os sonhos" me emocionaram tão profundamente que me imaginei naquele navio, usufruindo as nuances e os segredos, sentindo o vigor da natureza, decifrando lendas como você o fez, filha de um homem predestinado e de uma mãe muito amada, encantando-se com a pujança da natureza, vendo de perto a sumameira, ouvindo os gritos longos do Curupira e "achando divino não haver por perto alguém para silenciá-lo com um pilão".
E os botos? Os golfinhos sedutores? O delfim, a taboca Arapari, o Mapinguari, que no folclore amazônico é um gigante semelhante ao homem, porém coberto de pêlos?
Os gritos da ave agoureira, Urutau, a mãe da lua que chora quando ela surge, o tincuã, o pássaro alma-penada, o Matintapereira e o Japim que arremeda os pássaros?
No Rio Negro, o cacto da lua "cuja flor só abre as pétalas uma vez, em noite de lua cheia, desprendendo um perfume de essência rara e quando o dia nasce, se fecha".
Em toda descrição do universo silvestre, você impregna nas nossas mentes uma mensagem sensível de DEUS na natureza, prodigiosa em lendas e em beleza.
Há um ano, em 3 de Junho de 2.004, você deixou com serenidade o aconchego da família, o grande amor maternal, a literatura, as viagens, os seus livros e fotos, a Academia de Letras e seus mais caros amigos.
Deixou D.Zezé numa mortal saudade, pois, conjugando a falta do José com a da filha amada e companheira, pensou triste, chorou o passado de carinho e o amor sofrido e não teve forças para sobreviver.
Sentindo-se sozinho, o coração, pelos grilhões da amargura infinda, rompeu a pulsação da vida.
Para nós, você continua nas "Iluminuras", nas histórias daquela casa cheia de amores, de frustrações e de desencontros, nos contos publicados, no relato da viagem a Portugal e Espanha, no discurso poético e perfeito da posse na Academia Cearense de Letras e, finalmente, no "Caminho das águas'', milionário do verde império da Amazônia e dos sentimentos dos amigos que partilharam as emoções da aventura de garra e poesia.
Sentindo a sua presença, e inspirada na luz da FÉ, eu diviso o pai, a filha e a mãe, juntos na Eternidade, testemunhando o pensamento do grande Mário Quintana: "O amor é quando a alma muda de casa".

(Policromias - 5º volume)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

SAUDADES... MARIA HELENA MACÊDO


SAUDADES...

São como véus que se embalam no recôndito da memória alongando-se como se quisessem
assenhorear-se de todo o nosso ser, na ausência indelével de nossos entes amados.
São como os incensos queimando a alma, queimando nossos sonhos em sombras de visões fugidias, ninhos desfeitos no cume da montanha de nossas vidas, pelo fragor da ventania adversa.
O travo forte da dor da saudade é o nunca mais! E o pranto corre no desfolhar das
lágrimas semelhante ao orvalho que se condensa ao cair da noite e enregela nosso coração.
O labirinto crepuscular da saudade nos enleia numa teia da qual é muito penoso sair.
Ficamos acorrentados à dor que nos sufoca, nos arrebenta o peito, pois toda saudade é irremediavelmente dorida.
O destino com seu determinismo nos rouba da vida o sabor da convivência, do sorriso, do falar, do abraço, do carinho, do conforto do amor, tudo o que conquistamos, como a essência de ser feliz. Assim, Tristão de Ataide disse que "Nada supre a ausência nem conforta a solidão".
O marinheiro sente saudades de seu mar, do horizonte que divisava, do fragor das ondas,
ao conduzir o seu barco do qual foi o timoneiro.
Casimiro de Abreu já dizia em seus versos:
"Ai, que saudades que tenho
da aurora da minha vida,"
Tudo são saudades: da infância, da adolescência, do colégio, dos amigos ausentes, mas elas são figurativas em nossa visão distante... Também são ocasionais, fagueiras, muitas ocorrem com risos os até gargalhadas de momentos hilários.
Um nosso querido amigo, Cel Noé Rebello de Araújo, ensinou-me a sublimar a saudade com esta máxima: "Face à visão cristã do sentido da vida, o que completa e enriquece a saudade é a Fé, regida pela Esperança e alicerçada pela Caridade. Não basta querer que volte, mas permaneça".
Quando o destino, o acaso, a infelicidade, o imponderável nos subtai um ente querido, nada nos resta senão verter muitas lágrimas, lutar para superar muitas dores, lentas e irreparáveis, difíceis. E como são difíceis!!!
Imagino quão sofrido foi o sentimento dos lusitanos ante o afastamento da sua amada terra portuguesa, saudade que lhe fez nascer o fado, com o qual procuravam aliviar suas tristezas pela privacidade que lhes foi imposta, fazendo-os ausentar-se de seu torrão.
Como é lamentável que a beleza da palavra SAUDADE, a mais bela palavra de todas as línguas, adormeça tantos corações nas desilusões da vida!!!