DIRETORIA AJEB-CE - 2016-2018

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quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

SAMUEL RAWET SOB A ÓTICA DE VLÁDIA MOURÃO



Palestra proferida pela professora Vládia Mourão na Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil - AJEB-CE

O TEMPO NA LITERATURA DE SAMUEL RAWET

Considerado como um renovador na nossa literatura, “uma espécie de pioneiro, de visionário das novas conquistas e pesquisas do conto brasileiro de hoje”, Samuel Rawet, chegou “a desorientar a crítica em relação aos seus valores estéticos”. O fato é que os estudiosos, os críticos mais tradicionais, “alicerçados em valores tidos por consagrados, não encontravam em sua obra as costumeiras indicações da elaboração do gênero entre nós”.(1)
Samuel Rawet apresenta, em sua escritura, características bem marcantes, como a discussão dos problemas literários pela própria literatura, numa espécie de metatexto, revelando pelo menos duas funções de extrema e aguda consciência de seu papel de escritor: a arte literária por excelência e o exercício da crítica literária.
Movido por esse intuito, sua linguagem deixa de ser apenas um veículo para a formalização de enredos e condução de ideias e passa a ser parte integrante do processo de criação, ou seja, os “seus recursos linguísticos não estavam somente a serviço de um estilo, de um certo modo de escrever bem, e sim, em função do mundo a ser criado como expressão”.(2)
Samuel Rawet possui aquilo que Ernesto Sábato vai qualificar de “a condição mais preciosa do criador, o fanatismo”. E ressalta que é preciso ter uma obsessão fanática pela criação e que nada deve antepor-se a ela. O escritor deve sacrificar qualquer coisa em função da criação, pois sem esse fanatismo nada de relevante poderá ser realizado.
Aliás, há duas atitudes que dão origem aos tipos fundamentais de elaboração ficcional: ou o escritor escreve de forma lúdica, para entretenimento seu e dos leitores, para distração, para buscar momentos agradáveis; ou ele escreve para investigar e tentar compreender a condição humana. O texto lúdico é prazeroso. O texto problemático é inquietante, produz um desassossego. Por isso, concordamos com o pensamento de Maurice Nadeau, ao afirmar que inútil é o livro que deixa o leitor e o escritor da mesma forma que eles eram antes. E cita como exemplo O processo, de Kafka, texto que causa impacto no leitor seja qual for seu tempo e sua circunstância.   
Assim, dentre as múltiplas feições que assume, além de possibilitar a articulação das palavras, a linguagem é fonte de tensão, prazer e medo; a linguagem é potencializadora dos sentimentos humanos. A linguagem articulada pelo homem, através da palavra proferida, é monopólio do próprio homem, e Samuel Rawet trabalha a palavra com maestria e destreza inigualável.
Mesmo sendo um artífice da palavra, dentro de uma perspectiva histórica, os estudos da literatura registram que na época de sua estreia, Samuel Rawet não conseguiu chamar a atenção do grande público para seu livro Contos do imigrante, coletânea que deixava o restrito círculo de leitores perplexos, totalmente desprovidos de apoio para realizar sua apreciação, juízo ou julgamento, pois o escritor reunia ali contos herméticos, subjetivos, muitas vezes mergulhados em densa atmosfera de angústia.
Além do que, seus textos estavam, muitas vezes, a questionar os problemas ficcionais, num entrecruzar de quase ficção e quase realidade. Como analisa um de seus personagens, observando, com certa vigilância, que “seus primeiros contos tinham um ranço didático, narravam com precisão uma história e um ambiente, até que um dia descobriu que esse ranço era a própria negação do ato de criar” e que, por isso mesmo, “a precisão era uma pretensa hipertrofia de um olho pouco exigente”.(39)
Em inúmeros contos de Samuel Rawet encontramos a predominância da discussão em torno de diversas propostas literárias. Realmente, ele tematiza, via de regra, sobre fatos de extrema singularidade e pouca significação como enredo. Muitas vezes, seus textos constituem-se de narrativas que não são contáveis como história, pois para o escritor não importa o que se conta, mas como se conta.  Nesse sentido, podemos afirmar que a sequência lógica da narrativa é totalmente desconsiderada em prol do modo de narrar. Assim, texto enquanto texto. Literatura, necessariamente, abordando aspectos doutrinários, mas sem aspas e citações didáticas. Um conto que teoriza o conto. O texto justificando e interpretando o próprio texto.
Essa tendência foi evidenciada pelo crítico Wilson Martins, duas décadas depois, numa série de artigos publicados pelo Jornal do Brasil, conforme se comprova:

Forma narrativa como valor autônomo na equação romanesca: a maneira de narrar ganhou importância maior que a história narrada e o caráter dos personagens; autor e leitor têm a consciência permanente desse elemento retórico, quero dizer, a natureza deliberadamente artificial da coisa literária. O autor chama a atenção para sua maneira de escrever e de contar, da mesma forma porque o leitor não recebe autorização para esquecer o que está lendo.(40)

Sobre a questão do tempo, propriamente dito, em Samuel Rawet, com relação à sua produção literária, notadamente o conto, que é o gênero que está em nosso foco de análise, encontramos o autor entrecruzando, a um só tempo, no aparato linguístico, diversas dimensões temporais.
O tempo objetivo registrado por meios convencionais, que marcam o transcorrer inexorável do tempo – está presente na obra de Samuel Rawet em inúmeros contos, na maioria das vezes, entrelaçado com outras referências temporais. Porém, precisamente, em seu livro O terreno de uma polegada quadrada, considerado por Hélio Pólvora como o mais “espontâneo dos seus livros”, Samuel Rawet constrói, na maior parte dos contos, textos lógicos e bem delimitados no que concerne à marcação do tempo.
Já o tempo subjetivo alcançando, na curta narrativa, a intensidade e amplitude de uma onda diretamente proporcional à experiência vital acumulada, se insere, de modo efetivo, em vários contos de Samuel Rawet.
Na perspectiva temporal subjetiva, em que atuam “fatores como idade, cultura, intensidade de fatos vividos”, como adverte Raul H. Castagnino, “as crianças têm pouco diversificadas as perspectivas de tempo; os adolescentes vivem a dimensão futura; o homem maduro sente o domínio do presente; a velhice agiganta o passado”.(44)
Se no plano humanístico cabem tais circunstâncias temporais, conforme leciona o teórico, o que se pensar das variações temporais no plano literário, quando o ficcionista, a partir de infinitas possibilidades, se encontra às voltas com personagens, fatos e experiências vivenciadas no passado ou projetadas para um futuro incerto.
Diante destas considerações, ressaltamos que no conto “O Jogo de Damas” (Diálogos, 1963) há, em toda a sua extensão, a predominância do tempo subjetivo. A história é protagonizada por dois personagens, enquanto jogam uma partida de damas. E toda a narrativa se resume ao tempo dessa partida, que não se sabe ao certo quanto tempo durou, no plano objetivo, mas que durante esse tempo indefinido, os personagens vagaram, através do pensamento, pelo passado, através de flash back.
Em se tratando de tempo psicológico, podemos afirmar que ele se relaciona, predominantemente, com os valores afetivos, quando o personagem nos envolve com seus problemas emocionais, nos levando para dentro da narrativa, nos convidando a penetrar numa zona de conflitos e situações de seu universo ficcional.
O tempo psicológico é, na realidade, um tempo que se processa sem padrão de medida, representando um eterno presente, intuído pelo “eu” de cada um, independentemente de convenções.
Não há um antes nem um depois, assim declara o Narrador de A hora da estrela, livro de Clarice Lispector: "Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer?” Quando o Narrador afirma que "vivemos exclusivamente no presente" pressupõe a repetição indefinida do que ocorre no relato. Uma referência ao que vem depois – "esta história será o resultado de uma visão gradual" - afasta no mito o que poderia suceder num futuro real.
Nesta linha de raciocínio seguida por Clarice Lispector, não conseguimos cronometrar o tempo que sugere o conto “A Porta” (Diálogo, 1963).
O texto inicia quando um anônimo personagem, diante de uma placa de madeira, mergulha numa série de conjecturas e hesitações, passando a fazer um levantamento de sua existência, sem nenhum critério objetivo, realizando uma espécie de inventário de seus problemas existenciais, através de monólogo interior, próprio de uma consciência em disparos:

A mesma frase, as mesmas palavras, mas com outra inflexão, bastaria para arrancá-lo do torpor que o dominara... E nunca se destrói o ódio? Nunca se esterca o sarcasmo na frase feita com intenções mal acobertadas? Sempre a carga demolidora no gesto visual, o desprezo no ato comum?

Quanto ao tempo misto, possivelmente o de maior realce na obra de Samuel Rawet, se caracteriza pela simultaneidade de presente e passado, pelo entrecruzar de acontecimentos atuais com os já ocorridos ou imaginados, numa fixação psicológica, através de flash back aplicado a narrativas que, apresentam pouca significação e coerência como histórias contadas ou vivenciadas.
Como imigrante, embora tenha chegado ao Brasil ainda criança, Samuel Rawet carrega uma profunda memória histórica, como componente de um povo que se reconhece como povo. E nessa memória busca estabelecer o significado das suas origens e sua identidade, justamente com o intuito de resgatar o passado no presente. Essa sensação de estranhamento é justificável pela própria origem e raça do escritor.
Ao avançarmos na análise dos textos, podemos observar, por exemplo, que no conto “Uma Tarde de Abril”, pouca coisa acontece digna de nota; os fatos, na verdade, parecem insignificantes. Uma reunião, uma festinha de classe média, um homem entre os convidados, a entrecruzar seu destino. Abstraído totalmente daquela estranha geografia de copos, garrafas, pratos de salgados, cinzeiros, “envolvendo excessos de pontas sobre o tempo”, fixa-lhe uma passagem, “um esforço para se desvincular do presente”. Em dado momento pergunta a si mesmo: “até que ponto um homem é capaz de construir o seu passado, construí-lo em detalhes”.
Este posicionamento do personagem, sem qualquer apresentação, surgido de súbito, sem qualquer indicação, alude, de imediato, para a característica básica da estrutura do conto, ou seja, a contenção dos meios narrativos e, em consequência, a economia de espaço e de tempo, ou até sua ausência completa, como se observa no seguinte trecho:

Um homem sem passado, sem nome, a cruzar por todos os destinos igualmente anônimos, porém seguro nos seus passos e, sobretudo dotado de forças suficientes para chegar ao extremo do itinerário percorrido.

Quanto à postura de Samuel Rawet como escritor, vamos encontrá-lo em diversos momentos em pleno exercício de humildade, tanto em relação ao seu fazer literário, que deu concretude a monumental obra de engenharia literária, como em relação às atitudes puramente humanas, quando, em depoimento carregado de emoção, narra o encontro que teve, pela primeira vem, na época da construção de Brasília, com Oscar Niemeyer, elogiando sua grandeza e erudição. Certo dia, contou Samuel Rawet que teve um “troço” por dentro, quando encontrou Oscar Niemeyer, Joaquim Cardozo e Lúcio Costa, seus mestres de engenharia.
Em relação à narrativa, em termos de história, encontramos ao longo de sua obra uma variedade de temas e de situações vivenciadas por personagens vários. Às vezes são pessoas discriminadas pela sociedade como o imigrante e o vagabundo, encarnações modernas que relembram o drama do judeu errante à procura de sua identidade; outras vezes, são pessoas cheias de conflitos, dramas próprios de seres normais e problemáticos que povoam nosso cotidiano.
Ao penetrarmos no universo literário de Samuel Rawet, fica muito fácil nos identificarmos com seus personagens. Comum é percebermos que habitamos ali naquele mundo recriado pela imaginação do escritor. Corriqueiro é nos determos diante de um dos seus personagens e termos a nítida impressão de que estamos diante nós, como num espelho a refletir a nossa imagem, sem a menor possibilidade de distinguirmos o que é espaço e tempo dentro de nossa consciência.
Mas quem é Samuel Rawet? Na realidade, ele encarna bem a expressão “um conhecido desconhecido”. Quem o conhece por seus textos, só tem duas reações: ou ama ou rejeita. Não há meio termo. A reação é extremada.
Samuel Rawet, que nasceu precisamente em 23 de julho de 1929, na pequena aldeia de Klimotow, cidade composta na sua maioria por judeus poloneses. Seus pais eram pequenos comerciantes, de origem muito humilde. Samuel Rawet começou a estudar muito cedo numa escola que funcionava ao lado da sinagoga, em sua terra de origem. É o próprio Rawet quem nos dá conta de alguns referenciais cronológicos de sua infância:

O primeiro alfabeto que aprendi foi o ídiche – não aprendi o hebraico propriamente. Aprendi as rezas, alguém me traduzia a frase toda, a prece, o versículo. Tenho lembranças da vida na aldeia, lembranças do inverno, da vida religiosa, da convivência com parentes, lembranças inclusive de um mundo que não existe mais...

O modo de vida na Europa Oriental no início do século XX era muito em torno da sinagoga e da casa de estudos (escola), sempre situada em zonas rurais e organizada em comunidades. Esse fato posteriormente veio influenciar o trabalho de Samuel Rawet, principalmente no seu conto “O Profeta”, que nos dá a dimensão da intensidade das lembranças da infância, marcada pelos hábitos antigos de seus antepassados.  
Samuel Rawet chegou ao Brasil com sete anos de idade, mesmo assim conseguiu guardar lembranças da primeira infância vivida em sua terra, a tal ponto que essas reminiscências perduraram em sua obra e em seu percurso existencial. O sentimento de errância, de solidão vai permanecer na vida de Samuel Rawet até o fim, por via de consequência, seus dramas e frustrações serão incutidos ao longo de sua literatura.
Em nossas pesquisas, descobrimos que Samuel Rawet se mantém religioso até os quinze anos de idade. Mas na fase final da segunda guerra, com o extermínio nos campos de concentração, muitos judeus se perguntavam e até hoje se perguntam, “onde Deus estava enquanto os alemães matavam seis milhões de pessoas”. É quando o surge o questionamento presente na obra de Samuel Rawet e no meio da comunidade judaica: “Depois de Auschwitz é possível continuar religioso?”. Esse tema vai ser discutido pelo escritor em sua obra, através de alguns personagens como o “O Profeta”, que terá sua mudez provocada por ser um sobrevivente, carregando para o resto da vida a impossibilidade de comunicar a experiência traumática nos campos de morte.
Os conflitos do escritor não cessam nunca, desta feita são de ordem literária. Sua postura humilde acarretou-lhe graves problemas de autoestima. Quem nos conta é o próprio Samuel Rawet, ao confessar que um

...tipo de leitura que me apaixonou e me empolgou – e que depois me criou problemas tremendos – foi que se denominava de literatura brasileira de época, o que eu chamo de “gigantes nordestinos”, Raquel de Queiroz, Zé Lins, Jorge Amado. Este grupo me arrasou, andei deixando de escrever por causa deles. Achava que não tinha nada a dizer diante deles. Aliás, só mais tarde é que fui descobrir os autores que, estes sim, me estimularam e me ajudaram, autores como Lima Barreto, Cornélio Penna e outros.

Já sua incursão pelo teatro foi frustrante. Depois de algumas experiências mal sucedidas, Samuel Rawet destrói quase tudo que escreve. Somente numa fase mais madura, quando já trabalhava como engenheiro na construção de Brasília, é que começou a se interessar por um tipo de teatro mais poético, escrevendo as seguintes peças: O papa do gueto; A noite que volta e O lance de dados.
Numa fase anterior de sua vida Samuel Rawet fez crítica de teatro, ainda no tempo em que fazia escola de engenharia. Depois abandonou a atividade, conforme confessa:  “me desinteressei”, não obstante seu convívio com o ambiente teatral e sua admiração pelo teatro expressionista de Ziembinski, que muito influenciou em suas narrativas.
A partir dos anos 50, Samuel Rawet concentra toda sua atividade intelectual no conto, gênero que vai se adequar aos seus objetivos e para o qual dará valiosa contribuição. Com a publicação de Contos do imigrante, Samuel Rawet conta-nos que teve uma grande surpresa:

Em 1951, 52, 53, eu ia publicando meus contos em suplementos. Naqueles tempos todo jornal tinha um suplemento. A grande emoção era sábado à noite ficar tomando chope com os amigos até de madrugada, pra esperar o jornal de domingo às quatro da manhã a fim de ver se o conto havia saído ou não. Era uma farra. Publiquei meus contos no suplemento do “Diário Carioca”. Mandei o primeiro, eles aceitaram. Quando fui levar o segundo, Prudente de Moraes Neto, diretor do suplemento, me perguntou se eu não tinha mais coisas, disse que sim. Ele então me pediu que juntasse os contos e levasse pra ele...; quando fui procurá-lo mais uma vez, ele me levou até a Ed. José Olympio, me apresentou lá e dois anos depois o livro era publicado.

A repercussão que teve o livro não foi ampla, sequer conseguiu chamar a atenção dos leitores, mas para o autor este fato não teve importância. Afinal, ele não esperava nem mesmo sua publicação. Além do que, em toda sua carreira este foi um momento extraordinário, único, que não mais se repetirá.
Seu segundo livro Diálogo é publicado em 1963. Observamos que houve um intervalo relativamente longo entre um livro e outro. Possivelmente uma indisposição de Samuel Rawet para escrever, uma fase em que ele priorizou outras atividades, como a engenharia e o trabalho de engenheiro calculista durante a construção de Brasília.

Entre os anos de 1968 e 1969, Samuel Rawet larga o emprego, vende seu apartamento e volta para o Rio de Janeiro, para, com o dinheiro, financiar a edição de seus novos livros: O terreno de uma polegada quadrada, que ficou encalhado num depósito, devido a um desentendimento com o editor e cinco volumes de ensaios. Em 1967 consegue uma co-edição com o INL para publicar Os sete sonhos, livro que recebeu o Prêmio Guimarães Rosa.
Samuel Rawet ainda publica com recursos próprios, em 1970, A viagem de Ahasverus à terra alheia em busca de um passado que não existe porque é futuro e de um futuro que já passou porque sonhado, uma novela curta, mas com o mesmo estilo e tema adotado em seus contos. Seu único livro esgotado até hoje foi Contos do imigrante, os outros continuam esquecidos nas prateleiras ou depósitos de livrarias e distribuidoras.
Quando um escritor toma a atitude extremada de financiar a publicação de seus livros é porque as dificuldades de participar do mercado editorial já naquele tempo, ou sempre foi e será sempre difícil. Conseguir sobreviver de literatura neste país, ser um escritor profissional é privilégio para poucos.
Como escreve Ernesto Sábato em seu livro O escritor e seus fantasmas, “para o bem ou para o mal, o verdadeiro escritor escreve sobre a realidade que sofreu e de que se alimentou, isto é, sobre a pátria, embora, às vezes, pareça fazê-lo sobre histórias distantes no tempo e no espaço”. E acrescenta que parece difícil escrever algo profundo que não seja ligado de forma aberta ou emaranhada à infância.
Justamente é o que ocorre com Samuel Rawet em seu livro publicado em 1978, intitulado Angústia e conhecimento – ética e valor, onde descreve seus conflitos com a família, desde a fase da adolescência até a adulta, quando menciona que “a convivência familiar estava abaixo de qualquer padrão mínimo de equilíbrio e decência”, ao mesmo tempo em que relata os detalhes do rompimento com os irmãos por questões de herança.
Na verdade, Samuel Rawet foi, em toda sua vida, um solitário. Um homem imerso na sua angústia, na condição dramática de exilado, na marginalização, que o fazia se identificar com o escritor Cruz e Sousa quando afirma que

Judeu é isso, é aquilo, qualquer coisa parecida com o que enfrentara pessoalmente em sua condição de mulato, e mulato é negro... Nenhuma violência, nenhum obstáculo, concreto, um estado de espírito, apenas, criar barreiras, um incômodo feito de miudezas que moem, trituram, dilaceram e exacerbam pequenos impulsos, sonhos.

A herança que Samuel Rawet nos deixa é valiosíssima, sua contribuição no âmbito da ficção, do ensaio, do teatro e da filosofia nos traz, ao mesmo tempo, uma espécie de despertar da consciência para a condição do homem no mundo, misturada ao encantamento provocado por suas reflexões filosóficas e existenciais.
Conto e ensaio foram os dois gêneros que mais frequentaram o universo literário do escritor e de forma simultânea, num entrecruzar de indagações éticas e estéticas, conforme afirma:


Hoje a palavra mudou para mim. É pura ambiguidade em relação ao real, e os dois extremos experimentados me convencem ainda mais: delírio e ironia. 

E como o tempo passa depressa e para não cansar essa distinta plateia, encerro minha fala citando Antônio Carlos Villaça, quando diz que no “princípio era o nada; depois, apareceu Machado de Assis; depois, foi o nada, outra vez”. E depois veio Samuel Rawet. 

Professora Vládia Mourão
22 de novembro de 2016










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